'Danos
fatais': médico descobre clones de IA usando seu rosto para enganar idosos e
vai à polícia
O
médico otorrinolaringologista Hélio Brasileiro teve sua imagem e identidade
clonadas por inteligência artificial.
Ao
menos cinco canais no YouTube usaram sua imagem, sem sua autorização, para
divulgar conteúdos sobre saúde em tom alarmista, com o objetivo de engajar a
audiência, especialmente entre os idosos.
A
prática pode ser enquadrada, segundo a polícia e especialistas ouvidos pela
reportagem, nos crimes de falsidade ideológica, falsa identidade e exercício
ilegal da medicina, além de delitos cibernéticos e contra a honra.
A BBC
News Brasil identificou que esses vídeos integram uma rede de canais na
plataforma, que também copiam a imagem de outros médicos de verdade, com o
objetivo de monetizar com visualizações no YouTube.
Os
canais que clonaram a identidade de Brasileiro associam, por exemplo, banhos
quentes a problemas cardíacos ("o perigo oculto do banho quente no inverno
que sobrecarrega o seu coração") e recomendam tratamentos
"naturais" que substituiriam remédios indicados por profissionais da
saúde.
Juntas,
essas páginas possuem centenas de milhares de seguidores.
A BBC
News Brasil identificou evidências de que os canais podem estar sendo operados
por uma mesma pessoa ou grupo. As páginas foram criadas no mesmo período e
compartilham títulos e até roteiros idênticos.
A
página Dr. Hélio - Informações Médicas compartilhou, por exemplo, em 22 de
maio, um vídeo sobre "quatro queijos que podem destruir sua saúde após os
60 anos".
No dia
seguinte, um outro canal, Dr. André Tavares, publicou o mesmo conteúdo.
Dois
dias depois, outro canal, Dr. Helio Consejos de Salud, segue com o mesmo
título. O fluxo se repete pelo menos até o dia 8 de junho, com vídeos do mesmo
teor nos canais da Dra. Aline Vitta e Dr. Hélio Saúde em Foco.
Esse
reaproveitamento de conteúdo é constante e aparece em outros temas, espalhados
em pelo menos 20 canais diferentes mapeados pela reportagem.
Uma
pesquisa da organização sem fins lucrativos CTRL+Z mapeou que canais desse
tipo, que usam IA para falar sobre saúde, somam mais de 70 milhões de
visualizações.
Uma
reportagem da BBC News Brasil mostrou como operam esses canais, e o Google
removeu parte dessas páginas depois da publicação.
Os
clones de Hélio Brasileiro, no entanto, que integram o levantamento, seguiram
no ar mesmo depois do alerta à empresa.
<><>
'Denunciei vários vídeos de um canal. Depois vi que tem inúmeros outros'
Além de
médico, Hélio Brasileiro é também youtuber. Seu canal possui 270 mil inscritos
e quase 700 vídeos.
As
primeiras publicações, de 14 anos atrás, tinham como objetivo, diz ele,
divulgar a outros médicos informações sobre a medicina do sono.
Depois,
durante a pandemia, ele decidiu reativar o canal para desfazer mentiras sobre
vacinas e cuidados com a saúde. "Veja que ironia do destino: eu reativei o
canal com um slogan: informação médica sem fake."
Ele se
surpreendeu ao ver sua imagem em uma reportagem da BBC News Brasil sobre os
falsos médicos gerados por IA. "Denunciei vários vídeos de um canal só.
Depois vi, em uma conversa com você [repórter da BBC News Brasil], que tem
inúmeros outros."
Depois
da matéria da BBC, ele conta que fez nova denúncia ao YouTube e que também
registrou um boletim de ocorrência online, na Polícia Civil de São Paulo.
O caso
foi encaminhado ao 3º DP de Sorocaba, onde é investigado por falsidade
ideológica, falsa identidade, falso alarme e tentativa de difamação.
A
delegada responsável, Alessandra Silveira, afirmou em seu despacho que "o
esquema fraudulento ganhou repercussão internacional", gerando danos à
reputação de brasileiro e "risco de envenenamento ou automedicação à
população".
"A
gravidade da difusão de desinformação médica por meio de simulação biométrica
exige a imediata atuação da Polícia Judiciária", afirmou a delegada.
Em nota
à BBC, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou que estão sendo
realizadas diligências para identificar os autores dos crimes e
responsabilizá-los.
O
médico diz que recebeu orientação do YouTube para que cadastre sua imagem na
plataforma, o que facilitaria a denúncia e remoção de conteúdos que usam sua
identidade de forma indevida.
O
YouTube afirmou, em nota à BBC News Brasil, que todo o conteúdo da plataforma,
inclusive aquele gerado com ferramentas de IA, deve seguir diretrizes da
comunidade.
"Isso
abrange nossas políticas sobre desinformação médica, que proíbem informações
incorretas a respeito de prevenção e tratamentos capazes de causar,
comprovadamente, danos graves no mundo real."
A
empresa disse que adicionou rótulos a conteúdos gerados por IA para garantir
que os espectadores estejam informados sobre o que estão assistindo.
"Ao
identificarmos material violativo no YouTube, aplicamos as medidas cabíveis em
conformidade com nossos Termos de Serviço, as regras do Programa de Parcerias
do YouTube e nossas Diretrizes da Comunidade."
A
empresa não respondeu aos questionamentos da BBC News Brasil sobre o uso
indevido da imagem do médico Hélio Brasileiro.
<><>
'Quem cria isso não tem empatia'
Brasileiro
disse que sua maior preocupação é o dano que os vídeos podem causar a quem os
assiste: eles desencorajam o acompanhamento médico e sugerem receitas
milagrosas ineficazes, ao mesmo tempo em que usam sua autoridade de médico para
passar credibilidade.
"É
assustador. A gente observa que a maioria dos vídeos é voltada para o pessoal
da terceira idade, e a maioria traz desinformação. É preocupante — e foi por
isso que tomei todas as atitudes jurídicas possíveis", diz.
"Imagine
que você seja hipertenso e faça uso, há muito tempo, de um medicamento. Aparece
um vídeo com a minha imagem dizendo: 'se você, idoso, é hipertenso e toma tal
remédio, não sabe o mal que está fazendo aos seus rins — é muito mais saudável
tomar o suco de maracujá'", exemplifica.
"E
depois você vê comentários de pessoas idosas dizendo: 'Meu Deus, eu tomo esse
remédio há muito tempo, por que o doutor não me informou? Vou deixar de tomar o
remédio e começar a tomar o suco de maracujá'."
Seu
maior desejo, diz, é que os canais sejam derrubados e que esse tipo de fraude
se torne de conhecimento público, "para não causar danos aos
usuários".
"Não
sou investigador de polícia, não tenho a menor intenção de punir — isso é para
o Poder Judiciário, para a polícia. Minha função, enquanto médico, é informar e
deixar claro que essas desinformações são perigosas. Que esses canais caiam e
não surjam novos, para não prejudicar a saúde da população."
Ele
também faz um apelo para que esse tipo de vídeo pare de ser produzido:
"Quem cria isso não tem empatia. Quem busca ganhar dinheiro dessa forma
pode estar causando danos fatais a idosos e a outras pessoas que sigam essas
informações. E poderia ser o pai, a mãe ou até o filho de quem criou o
canal."
<><
Prática pode ser considerada crime, dizem especialistas
Especialistas
entrevistados pela BBC News Brasil alertam que esse tipo de conteúdo pode
representar um risco à saúde ao desencorajar tratamentos comprovados ou
estimular condutas sem base científica.
"A
saúde das pessoas é algo individualizado. Uma medicação ou orientação pode ser
benéfica a uma pessoa e maléfica a outra, a depender das comorbidades, da
interação com outros medicamentos. Vemos isso como um grande risco",
afirma o vice-presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), Jeancarlo
Cavalcante.
Segundo
ele, o perigo é ainda maior para idosos, que podem deixar de procurar
atendimento médico adequado, como mostram relatos publicados por pessoas dessa
faixa etária nos comentários dos vídeos analisados pela reportagem.
Cavalcante
acrescenta que o Conselho pode encaminhar denúncias sobre esse tipo de conteúdo
ao Ministério Público e às autoridades policiais.
Na
avaliação de Thiago Bottino, professor da FGV Direito Rio, a simples publicação
desse tipo de vídeo não configura crime. A situação muda, porém, quando o falso
médico passa a exercer funções privativas da profissão.
"O
problema é quando alguém que não é médico, seja pessoa real ou inteligência
artificial, atua como médico, prescrevendo medicação, dizendo qual seria o
tratamento adequado. É um caso de exercício irregular da medicina, que é crime
previsto no Código Penal."
Bottino
afirma ainda que os responsáveis pelos vídeos podem responder pelo crime de
falsa identidade ao se apresentarem como médicos sem informar que se trata de
personagens gerados por inteligência artificial.
Filipe
Medon, professor da FGV Direito Rio e coordenador adjunto do AI Hub, afirma que
o problema não está em produzir conteúdo sobre medicina com base em pesquisas
científicas, mas em criar personagens de inteligência artificial que se passam
por médicos e induzem o público ao erro.
Segundo
ele, além dos criadores, as plataformas também podem ser responsabilizadas
civilmente caso não removam esse tipo de conteúdo após serem notificadas e, em
casos de impulsionamento pago, a obrigação de retirada pode existir mesmo sem
notificação prévia.
Fonte:
BBC News Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário