Quando
o mérito adoece: os custos invisíveis do trabalho docente
O
capitalismo sofreu muitas transformações no sentido de um modelo neoliberal
financeirizado, processo inédito na história, cuja lógica subordinou todas as
esferas da sociedade. Eleva-se o mercado e as “coisas” à condição de sujeitos
soberanos, desprezando os direitos humanos e a cidadania. Ademais,
caracteriza-se pela defesa de uma visão privatista em contraposição a tudo que
é público, com a negação dos direitos sociais e do trabalho. Constata-se o
reforço do individualismo em contraposição à ação coletiva; estimula-se a
concorrência de todos contra todos no lugar da colaboração e da solidariedade.
A
Universidade pública é um lugar de encontro, de convergências e divergências,
de aprendizagem, de troca, de produção científica e do conhecimento. É na
universidade pública que a educação atinge o nível mais elevado de sua
perspectiva emancipatória, com o papel central na construção das sociedades
democráticas, sendo um dos principais espaços de resistência. Por essa
natureza, que constitui a sua essência, confronta o modelo hegemônico do
capitalismo atual.
O
neoliberalismo, enquanto um projeto de classe, atinge o Estado de direito
adotando um ajuste fiscal permanente – instrumento de destruição das políticas
públicas e privatização das finanças. No contexto de aplicação das políticas
neoliberais o trabalho é submetido a uma rede de índices de desempenho que
desrealiza a atividade concreta, comprometendo a qualidade, gerando um processo
de subjetivação permeado pelo sofrimento psíquico e desilusão.
Na
visão de Dardot e Laval o neoliberalismo não apenas destrói instituições e
direitos mas se torna uma forma de viver no mundo, atinge as relações sociais
em geral porque cria uma nova forma de comportamento, configurando uma
subjetividade neoliberal, onde a noção de sucesso está precedida pela ideia de
uma concorrência permanente até a exaustão pelo sobretrabalho e pela geração de
produtos e resultados definidos por critérios conflitantes com o bem viver e
com a emancipação dos seres humanos.
O
atravessamento do neoliberalismo e a crise nas universidades
Marilena
Chaui em seu livro Escritos sobre a Universidade) que apresenta um
questionamento relacionado à autonomia da universidade, escreveu: “A
heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nú: o aumento insano de
horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela
quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões
e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se
encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age” (p. 7).
A
essência da Universidade Pública faz com que ela represente o espaço primordial
e de longa duração, atuando no fortalecimento dos valores e princípios
civilizatórios de solidariedade e respeito à condição humana, através da
pesquisa, ensino e extensão voltados para a produção de conhecimento relevante
e útil ao desenvolvimento do país, sendo o lócus do pensamento crítico e
criativo. O conjunto das Universidades Federais, públicas, gratuitas, laicas,
de qualidade e socialmente referenciadas nas necessidades da maioria da
população possuem um papel fundamental na reconstrução da cidadania, da
subjetividade e de uma vida digna.
João
Carlos Salles, a título de conclusão do seu texto “Educação e cidadania”,
escreve: “A tarefa da educação que é especialmente a da Universidade pública é
afinal prover cada sujeito das condições de exercício pleno da sua
subjetividade e garantir a precedência da palavra, do símbolo, do gesto
significativo, sobre todas as formas de poder, de modo que nossa comunicação,
sendo desimpedida, expresse uma sociedade na qual sejamos economicamente iguais
e nos encontremos de forma democrática”.
As
estratégias neoliberais gerencialistas e o sistema acadêmico: repercussões para
o trabalho docente e para a vida estudantil.
Hanique
e Gaulejac argumentam que o gerencialismo, pelas contradições abrigadas pela
sua natureza, impõe em si uma injunção paradoxante que provoca uma tensão
psíquica permanente, ao submeter os trabalhadores a exigências conflitantes,
como por exemplo, a máxima que “as pessoas podem fazer mais e melhor com
menos”. E que para conseguir a realização desse princípio é necessário o
estabelecimento de metas e indicadores progressivamente exigentes, capazes de
aumentar a competitividade e a “valorização” do processo avaliativo.
O
desfinanciamento da universidade simbolicamente nos mostra essa realidade. A
despeito da degradação de laboratórios, salas de aula, equipamentos,
professores, estudantes e técnicos continuam desenvolvendo suas tarefas com a
mesma qualidade, ou mesmo com algum prejuízo dela, a um custo psicológico
importante.
Há uma
passagem do social ao psíquico, as pessoas são transformadas de agentes sociais
em operadores de performance, perdem a sua condição de sujeito. O pensamento
binário e o princípio da não contradição da gestão transforma o mundo em um
jogo surreal; altamente competitivo onde tudo é produto inclusive o trabalhador
em si.
O
atravessamento do capitalismo na academia é configurado nas diversas práticas
que reproduzem o ideário do mercado e da empresa ao construir indicadores de
precarização do trabalho docente, identificando como dimensão central o
produtivismo. Esse fenômeno é expresso na quantidade de artigos a serem
publicados e qualificados, número de citações e captação de recursos
financeiros, gerando a intensificação do trabalho, prioridade para a pesquisa e
baixo investimento na docência. Além desses indicadores, e até como
consequência deles, uma competição acirrada se instala entre os docentes pelos
recursos destinados pelas agências de fomento para realização de projetos de
pesquisa, convênios e contratos, mas também pelos recursos administrativos
disponibilizados pela universidade como espaço físico e equipamentos.
A
própria dinâmica do conhecimento pode se tornar um processo desqualificador da
criação pela ascensão da insignificância no excesso de informação e do curto
prazo, o que gera uma necessidade de aceleração da vida, com possibilidade de
corrosão do vínculo e do caráter. É a efemeridade, a reorganização permanente
gerando instabilidade e sensação de crise permanente, o que leva a exaustão e a
medicalização da vida para sustentar a ruptura com um equilíbrio entre ritmo,
sentido, coerência interna e o mundo externo.
O
paradoxo também se apresenta no exercício do papel docente, quando o professor
expressa o prazer em dar aula e ver “os olhos brilharem” dos estudantes, se
regozija por ter seu projeto de pesquisa aceito por uma agência de fomento, ou
é aprovado para receber bolsistas de iniciação científica. Esse docente
enfrenta a complexidade de uma relação professor-aluno permeada de conflitos e
algumas vezes de processos que envolvem violências pelas questões de gênero,
raça, deficiências, neurodivergência, sem ter sido preparado para lidar com
essas situações.
Ademais,
o papel docente tem se ampliado e diversificado ao longo do tempo, se
configurando no exercício de várias profissões em uma só, a de professor, a de
pesquisador, escritor, agente social em projetos de extensão comunitária,
gestor e captador de recursos. São diferentes atividades que exigem habilidades
específicas para o seu exercício com a qualidade requerida. Os programas de
mestrado e doutorado formam, fundamentalmente para um deles, o de pesquisador,
ficando os demais por conta das habilidades existentes ou não no repertorio do
docente. No caso do papel de professor, de ministrar aulas, atividade cada vez
mais alvo de contestação pelos estudantes, o docente não recebe treinamento
pedagógico e termina à mercê da própria sorte.
Fenômenos
contemporâneos, como a hiperconectividade, o culto à performance ou a
dissolução das figuras de autoridade tradicionais, tendem a promover formas de
sobreimplicação, onde o sujeito se sente constantemente convocado e
responsabilizado, sem um espaço de respiro subjetivo. São os profissionais que
se identificam excessivamente com a instituição ou causa, sem a devida análise
crítica desse engajamento, o que pode levar a alienação e ao adoecimento. A
sobreimplicação, portanto, é vista como um fenômeno onde o sujeito está tão
imerso nas dinâmicas institucionais que perde a capacidade de distanciamento e
análise, tornando-se instrumento de reprodução das normas e valores
institucionais sem questionamento. É o processo de burocratização do papel
profissional, com consequente engessamento da criatividade e transformação da
instituição.
A
sobreimplicação garantiria, de alguma maneira,a permanência do professor, ao
mesmo tempo, em que o transformaria num trabalhador “full-time”, com mais de 8
horas de trabalho diário e 7 dias na semana, avançando sobre o período de
lazer, mesmo que espacialmente fora dele. O encanto que paira sobre a vida
universitária poderia, então, sob este prisma de análise, estar se voltando
contra o próprio professor.
A
preocupação com a performance, com a pontuação e a visibilidade na comunidade
acadêmica termina gerando uma vivência de culpa, ansiedade e fracasso, que
quando ocorre de forma exarcebada tem levado ao esgotamento emocional e ao
afastamento do trabalho, resultado oposto ao inicialmente pretendido.
Os
estudantes seguem esse mesmo caminho na busca por um score excelente, a vida se
transforma em dedicação exclusiva a universidade dentro dos seus muros e fora
deles, com pouco espaço para lazer e sociabilidade, tão importantes na
juventude e nas demais faixas etárias. A medicalização tem sido adotada como
uma saída para suportar a sobrecarga das tarefas acadêmicas e a violência
social do cotidiano.
No
plano da resistência a esse processo, torna-se importante registrar que a
maioria dos questionamentos e das lutas, todas elas muito importantes, que vem
sendo desenvolvidas ao longo do tempo nas universidades federais se centram em
fatores externos como a questão das formas de financiamento e da autonomia
universitária ou em questões internas ligadas aos servidores como os reajustes
salariais e as carreiras profissionais. Entretanto, o sistema acadêmico, tem
sido, com pouca frequência, objeto de análise, debate e principalmente de luta
na direção de um repensar da concepção de mérito, de excelência, e dos próprios
mecanismos avaliativos e classificatórios das agências de fomento. Como o
principal motor da vida acadêmica, termina drenando energia, tempo e trabalho
na busca do reconhecimento por instituições externas à própria universidade,
reforçando a prioridade para as carreiras individuais em detrimento do
desenvolvimento institucional.
A
ideologia do mérito e a prática do “ sarrafo progressivo”.
Dentre
todas as dimensões que contribuem para a crise histórica vivenciada pela
universidade, a que se encontra pouco explorada é a ideologia do mérito que
sustenta o modo de vida da academia e a sua missão de busca pela excelência,
termo definidor das universidades federais.
A
ciência foi tomada por um conjunto de padrões de indicadores avaliativos do
mérito que sobe continuamente em exigências sem explicações, sem consenso e sem
limites claros, em geral legitimados, ou pouco questionados. Mas, outra
natureza de indicadores aponta que chegamos a um patamar que pode colocar em
risco a ética científica e a própria ciência. Em outras palavras tudo indica
que “a régua quebrou”, porque o seu limite está sendo a fraude em uma
competição cada vez mais desenfreada de empoderamento de currículos e obtenção
de recursos financeiros.
São
várias as dimensões que apontam para um esgotamento da lógica produtivista e
quantitativa do sistema acadêmico atual. A revista Pesquisa Fapesp publicou em
um artigo intitulado “Expulsos do clube”: “Duas dezenas de revistas científicas
– três a mais do que no ano passado – foram excluídas da edição 2025 do Journal
Citation Reports (JCR), plataforma da empresa Clarivate Analytics que determina
o fator de impacto (FI) de 22.249 periódicos de 111 países e é usada como uma
referência de prestígio das publicações. O FI é uma métrica que computa o
número de citações recebidas pelo conjunto de artigos de uma revista em
determinado período e dá uma medida de sua influência na comunidade
científica”.
“Dezesseis
revistas foram excluídas por abuso em autocitações. Seus papers citaram de
forma exagerada outros trabalhos publicados por ela mesma, o que é considerado
um truque para inflar o FI”
Artigos
de alto impacto tornaram-se essenciais para obter avaliações satisfatórias das
agências de fomento e financiamentos. As editoras acadêmicas responderam
criando revistas científicas e todos os incentivos são para que as editoras
publiquem cada vez mais, promovendo uma competição entre as revistas por uma
boa classificação e por recursos. Amplia-se, assim, a cultura de todos competem
com todos, em vários níveis, ao mesmo tempo, estudantes, professores,
departamentos, programas de pós-graduação, universidades e áreas geográficas.
Carl
Zimmer publicou no jornal The New York Times que uma equipe de pesquisadores
encontrou evidências de que espécies de “fábricas de artigos” produzem, em uma
escala industrial, estudos falsos ou de baixa qualidade. E essa produção está
aumentando rapidamente, ameaçando a integridade do conteúdo gerado em
diferentes áreas. Esses artigos são repletos de fraudes, com imagens
adulteradas ou trechos plagiados. Para tentar escapar de detectores de plágios,
as fábricas de artigos frequentemente usam inteligência artificial para alterar
o texto.
Uma
análise recente publicada no periódico British Medical Journal (BMJ)informou
que cerca de 261 mil artigos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024
apresentam sinais de fraude. Esse volume representa 10% de toda a literatura
sobre a doença disponível no PubMed, uma das maiores bases de dados biomédicos
do mundo.
A CAPES
(Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior) inicialmente destinada a
desenvolvimento do corpo docente das universidades, se transformou em um
instrumento de métrica e avaliação.
A
expectativa racional passa a ser o acadêmico alinhar sua pesquisa às agendas
dominantes para aumentar a probabilidade de aceitação. O efeito resultante
tende também a produzir fragmentação da pesquisa em várias publicações. Salami
science (ou “ciência do salame”) é a prática antiética de fragmentar uma grande
pesquisa em vários artigos científicos menores e superficiais, em vez de
publicar um único estudo robusto. O objetivo é aumentar, artificialmente, o
número de publicações do autor, priorizando quantidade sobre qualidade. Há
também convergência temática em certas linhas de pensamento filiadas a notórios
pensadores. Percebe-se nelas a endogenia de citações. Novatos buscam
estratégias de inserção em redes já consolidadas. O sistema premia a
previsibilidade metodológica. Inovação radical, como uma teoria alternativa,
eleva risco de rejeição. A consequência não é necessariamente mediocridade, mas
conformidade – e não a busca de revolução científica.
A
produção científica entra em um circuito autorreferencial: cita-se para ser
citado, publica-se para manter visibilidade, participa-se de redes para
influenciar e ser lembrado. A existência de plateia em um evento é menos
importante do que a foto do grupo promotor para ser postada nas redes sociais.
A publicação, com frequência, não decorre mais de um processo intenso de
pesquisa, e debate, não significa mais o desaguadouro de um processo
significativo, ela passa a ser “inventada”, produzida, fruto de bricolagem,
repetição ou fatiamento. A publicação ganhou vida própria.
Predomina
uma ilusão de progresso, na verdade vemos a destruição de trajetórias, pela
exaustão, competitividade predatória, adoecimento que terminam por produzir uma
perda de sentido no trabalho docente. Surge em escala institucional a “síndrome
do impostor”, ou seja, docentes e estudantes representam um papel que entra em
contradição com seu desejo e paz interior. Não se trata apenas de falta de
autoconfiança, mas sim de cobrança excessiva com sobrecarga de trabalho e
estudo sem acolhimento e muitas vezes com ameaças.
A
tabela de classificação dos pesquisadores pelas agências de fomento impõe um
“sarrafo” cada vez mais alto, pelo fato das metas que foram cumpridas se
tornarem obsoletas. De forma que, quando um pesquisador alcança uma meta ela já
mudou, semelhante a racionalidade imposta a gerentes de instituições
financeiras. A distorção dessa política de avaliação chegou a tal ponto que um
pesquisador de longa trajetória de produção acadêmica e bem-posicionado na
escada classificatória pode, de repente, ser rebaixado por não atingir o
quantitativo esperado de publicações para aquele período, o que torna
provisório o título de “vencedor” e sua respectiva classificação.
A
configuração desse quadro torna evidente a necessidade do tratamento da
convivência universitária como dimensão central da vida nas universidades
públicas ao lado do ensino, pesquisa e extensão. Significa a criação de uma
condição de trabalho docente e aprendizagem discente fortalecedora do respeito
aos direitos humanos, liberadora das potencialidades humanas e do protagonismo
juvenil, numa trajetória que implique na busca da superação da competição
predatória, do modelo dominação-submissão e do individualismo, tão
indispensáveis da democracia na ciência.
Fonte:
Por Denise Vieira da Silva, em A Terra é Redonda

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