quarta-feira, 8 de julho de 2026

Luís Nassif: O Brasil pode virar o jogo na prorrogação

O Brasil chega aos noventa minutos empatado.

Não perdeu a partida. Mas tampouco conseguiu transformar seu imenso potencial em vitória.

Ao longo do jogo, cada período deixou jogadores em campo. Alguns foram expulsos, outros vendidos às pressas, vários ficaram esquecidos no banco. Mas ainda existe uma espinha dorsal capaz de disputar a prorrogação.

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A ditadura militar, apesar de seu legado autoritário, deixou instituições que sobreviveram ao regime e se tornaram patrimônio do desenvolvimento nacional. A Embrapa revolucionou a agricultura tropical; a Eletrobras estruturou a expansão do sistema elétrico; a Sudam buscou integrar a Amazônia; a Finep tornou-se peça central do financiamento à inovação; a ENAP profissionalizou parte do Estado.

Com a Constituição de 1988, o Brasil voltou a acreditar que poderia jogar coletivamente.

Ela reorganizou o meio-campo social do país. A Seguridade Social deixou de ser apenas previdência para formar um sistema integrado de Previdência, Saúde e Assistência Social, financiado por múltiplas fontes. O SUS substituiu um modelo restrito aos contribuintes por um sistema universal. O Benefício de Prestação Continuada garantiu renda mínima a idosos e pessoas com deficiência em situação de pobreza, independentemente de contribuição. A Previdência Rural reconheceu milhões de trabalhadores antes invisíveis.

No ataque social vieram também os novos direitos trabalhistas: jornada de 44 horas, FGTS universalizado, licença-maternidade ampliada, licença-paternidade, férias com adicional constitucional, fortalecimento do décimo terceiro salário.

Ao mesmo tempo, a Constituição colocou a sociedade dentro do estádio. Conselhos de participação passaram a integrar a gestão das políticas públicas. Os povos indígenas tiveram reconhecidos seus direitos originários às terras tradicionais; as comunidades quilombolas conquistaram reconhecimento constitucional; a educação tornou-se direito público subjetivo, protegida por vinculação mínima de recursos.

Era um time promissor.

Então veio o governo Fernando Collor.

Muitos jogadores foram dispensados antes mesmo de estrearem. A abertura econômica ocorreu sem uma estratégia industrial capaz de preparar a equipe para o campeonato internacional. Ainda assim, alguns atletas permaneceram úteis, como o Sebrae, as Câmaras Setoriais e os programas nacionais de qualidade.

Fernando Henrique Cardoso estabilizou a economia, mas alterou profundamente o esquema tático. A financeirização passou a comandar o jogo. Privatizações relevantes foram conduzidas sem uma estratégia integrada de desenvolvimento industrial. O país desmontou o sistema Telebrás, privatizou a Companhia Vale do Rio Doce e perdeu a oportunidade de organizar cadeias produtivas robustas nos setores petroquímico e siderúrgico. Em compensação, deixou um jogador de primeira linha: os Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia.

Pouco a pouco, o Brasil foi perdendo peças importantes do seu elenco industrial. A integração construída durante décadas foi substituída por um balcão permanente de compra e venda de ativos. Ganhou eficiência em alguns segmentos, mas perdeu escala, coordenação e capacidade de planejamento.

Os governos Lula amenizaram parte dos efeitos sociais desse modelo. Aproveitaram os espaços que restavam para reduzir a fome, ampliar o mercado interno e democratizar o acesso ao ensino superior. O maior legado talvez tenha sido a extraordinária expansão das universidades federais e dos institutos federais, formando uma geração de pesquisadores, engenheiros, médicos e técnicos espalhados por todo o território nacional.

Depois veio o grande desmonte.

A equipe técnica passou às mãos de dirigentes incapazes de compreender o próprio jogo. O impeachment abriu uma sequência de governos que desmontaram políticas públicas, enfraqueceram instituições, reduziram investimentos e desorganizaram completamente a seleção brasileira do desenvolvimento.

Quando Lula voltou ao comando, encontrou um elenco desentrosado. Sua prioridade foi reconstruir a defesa e reparar os estragos mais imediatos. Mas o esquema continuou excessivamente cauteloso. O meio-campo permaneceu amarrado por uma política monetária e cambial que limitou a capacidade ofensiva da economia.

Agora, se tudo correr bem, com Lula 4 o Brasil entrará na prorrogação.

Na defesa estarão o sistema nacional de ciência e tecnologia, as universidades federais e estaduais, os institutos federais, a Finep, a Fiocruz, o Butantan, articulados por instituições como o CGEE e o Ipea.

No ataque, permanecem jogadores decisivos: Petrobras, BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal. Dependendo da estratégia, poderão atuar ao lado de empresários nacionais e multinacionais interessados em reconstruir cadeias produtivas sofisticadas.

Existem, porém, dois obstáculos.

O primeiro é a excessiva cautela do técnico Lula-Ancelotti, que ainda parece hesitar em montar um esquema capaz de mobilizar plenamente o talento brasileiro.

O segundo está fora das quatro linhas.

Assim como a CBF frequentemente impede que o melhor futebol brasileiro apareça, parte da elite política e econômica continua funcionando como um colégio de cartolas, bloqueando qualquer tentativa de reorganizar o projeto nacional de desenvolvimento.

Se o técnico decidir confiar definitivamente na criatividade brasileira e escalar o melhor time possível, talvez a torcida volte a acreditar.

E, quando uma torcida volta a acreditar, até os cartolas descobrirão que não são donos do estádio.

Talvez então o Brasil consiga enfim soltar o grito que ficou preso na garganta desde que o medo da inflação transformou a estabilização econômica em um modelo permanente de contenção do desenvolvimento, entregando o comando do jogo à lógica da financeirização.

•        Brasil já venceu o novo tarifaço antes dele começar

Aos 12 meses encerrados em junho de 2026, a corrente de comércio exterior do Brasil — a soma de tudo que o país exportou e importou — alcançou US$ 634,74 bilhões, o maior valor da série histórica, alta de 6,5% sobre os 12 meses imediatamente anteriores. Em uma década, o volume de comércio do país mais que triplicou: era de US$ 181,5 bilhões em 2016-17.

Foram US$ 354,9 bilhões em exportações e US$ 279,9 bilhões em importações, resultando num superávit comercial de US$ 75,0 bilhões. É o segundo maior saldo da série jul-jun — atrás apenas dos US$ 84,5 bilhões registrados no ciclo anterior, o que significa uma queda de 11,2%. O motivo não foi fraqueza das vendas externas (que cresceram 4,3%), mas sim o salto das compras do exterior (+9,5%), reflexo de uma demanda interna aquecida.

É contra esse quadro de pujança que o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington neste fim de semana. Ele participa nesta terça-feira (7), ao lado do USTR (Representação Comercial dos EUA) e da Comissão de Comércio Internacional americana, de audiências sobre o tarifaço de 25% que o governo Trump quer aplicar sobre praticamente todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.

A ironia é que os próprios números do comércio exterior brasileiro — todos eles oficiais, do ComexStat/MDIC — mostram que o Brasil já venceu esse tarifaço antes mesmo de ele começar.

<><> A pauta que sustenta o recorde

Cinco capítulos respondem por mais da metade de tudo o que o Brasil vende ao mundo, nos 12 meses até junho. Desses, três são commodities que o mundo precisa comprar de alguém — soja, minério e petróleo —, e duas são produtos nos quais o Brasil é potência absoluta (carnes e açúcar). A diversidade já é, em si, uma defesa contra qualquer tarifação dirigida.

<><> A virada do petróleo

A história mais forte destes 10 anos está escondida dentro do capítulo de combustíveis. Em 2016-17, o Brasil era deficitário em petróleo e derivados: exportava US$ 10,4 bilhões e importava US$ 11,1 bilhões, um saldo negativo de US$ 0,8 bilhão. Nos 12 meses até junho de 2026, exportou US$ 62,0 bilhões e importou US$ 32,1 bilhões — superávit de US$ 29,9 bilhões.

O pré-sal transformou a balança energética do país. Mas há um detalhe: o Brasil ainda importa US$ 10,3 bilhões em diesel (gasóleo) por ano, o item isolado mais comprado do exterior, porque seu parque de refino não acompanhou a demanda interna. Exporta-se o cru; importa-se o refinado.

Complexo soja: US$ 57,7 bilhões

A soja, principal commodity agrícola exportada, movimentou quase US$ 60 bilhões. O detalhe:

•        Soja em grão: US$ 47,3 bilhões (112,8 bilhões de kg)

•        Farelo/farinha de soja: US$ 8,5 bilhões

•        Óleo de soja: US$ 1,85 bilhão

Quase tudo em grão, in natura — o segundo maior item da pauta, atrás só do petróleo bruto.

<><> Para onde vai tudo isso

A China segue sendo, de longe, o maior parceiro comercial do Brasil. A corrente comercial entre os dois países somou US$ 174,1 bilhões nos 12 meses até junho — mais que o dobro do segundo colocado. O superávit brasileiro com Pequim foi de +US$ 28,1 bilhões.

Os Estados Unidos aparecem em segundo, com corrente de US$ 78,7 bilhões e saldo praticamente zero (−US$ 1,5 bilhão). A União Europeia, tomada como bloco, é a terceira maior parceira: corrente de US$ 100,0 bilhões e superávit brasileiro de +US$ 3,8 bilhões.

<><> Por que o tarifaço não assusta

É aqui que entra o ponto geopolítico central — e os dados o sustentam.

A narrativa de Washington é a de que um tarifaço de 25% (ou até 40%, conforme análise da FTI Consulting, se somado a tarifas recíprocas) “puniria” o Brasil. A realidade é que o Brasil ampliou drasticamente o leque de destinos de suas exportações na última década, reduzindo sua dependência de qualquer comprador único.

Os números são eloquentes:

1.       A China sozinha absorve quase todo o superávit comercial brasileiro (+US$ 28,1 bi). Sem a China, o saldo comercial do Brasil estaria perto do equilíbrio. É ela que compra a soja, o minério, o petróleo e, cada vez mais, a carne.

2.       A relação com os EUA já é equilibrada (saldo de −US$ 1,5 bi). Aplicar 25% sobre produtos brasileiros tende a encarecer insumos para a própria indústria americana e elevar preços ao consumidor dos EUA — não a “dobrar” o Brasil.

3.       Os produtos-prioridade do tarifaço são commodities globalmente demandadas. Soja, minério de ferro e petróleo têm compradores em fila na Ásia, no Oriente Médio e na própria Europa. Se os EUA taxarem a soja brasileira, ela simplesmente vai para a China; se taxarem o aço, ele vai para qualquer outro mercado. O Brasil consegue deslocar o que os EUA deixarem de comprar para outros compradores — exatamente o que ocorreu no tarifaço anterior, quando o agronegócio chinês migrou para o Brasil.

4.       A Holanda, porta de entrada da Europa, registrou superávit brasileiro de +US$ 9,5 bilhões. A Rússia, de quem o Brasil compra fertilizantes essenciais à própria agroexportação, movimentou US$ 13 bilhões. Há uma teia comercial ampla e resiliente.

<><> A tese que os dados confirmam

A audiência desta terça-feira em Washington, com Flávio Bolsonaro pedindo ao USTR a suspensão da tarifa de 25%, se dá num momento em que o Brasil nunca esteve tão forte do ponto de vista comercial. Em 12 meses: recorde de corrente de comércio, segundo maior superávit da história para o período, virada do petróleo e diversificação de mercados.

A ameaça americana é, do ponto de vista estritamente comercial, quase inócua. O Brasil já ampliou seus destinos a ponto de qualquer queda na demanda dos Estados Unidos ser absorvida por outros compradores — principalmente a China, mas também o bloco europeu, o Sudeste Asiático e o Oriente Médio.

Em outras palavras: o Brasil matou, pela diversificação, o efeito de um tarifaço que ainda nem começou. O que Trump assina em 1º de agosto pode até render manchete — mas, pelos números do MDIC, o Brasil já venceu esse novo tarifaço ridículo antes mesmo de ele começar.

•        Lula acelera agenda social com pacote bilionário de educação, saúde e moradia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta sexta-feira (3) um amplo pacote de investimentos em educação, saúde e habitação, reforçando uma estratégia que combina expansão da infraestrutura pública com a ampliação de políticas sociais em um momento de crescimento econômico e aproximação do calendário eleitoral de 2026. Em cerimônia no Palácio do Planalto, o governo inaugurou novos institutos federais, liberou R$ 464,8 milhões para o Sistema Único de Saúde (SUS) e entregou 1.619 moradias do programa Minha Casa, Minha Vida em diferentes estados do país.

O eixo mais simbólico da agenda foi a educação. O governo inaugurou simultaneamente dez novos campi da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, distribuídos entre São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Piauí. As unidades receberam investimentos de R$ 206,6 milhões, sendo R$ 196,5 milhões financiados pelo Novo PAC. A iniciativa integra o plano nacional de expansão dos Institutos Federais, lançado em 2024, que prevê a criação de 100 novas unidades em todo o país e a abertura de cerca de 140 mil novas vagas, sobretudo no ensino técnico integrado ao ensino médio.

Na saúde, o governo autorizou R$ 464,8 milhões para fortalecer a rede pública, com recursos destinados à modernização da estrutura hospitalar, aquisição de equipamentos e ampliação da capacidade de atendimento do SUS. O investimento faz parte da estratégia de recomposição do sistema público após anos de redução de investimentos e busca diminuir desigualdades regionais na oferta de serviços especializados.

A terceira frente foi a habitação. Foram entregues 1.619 unidades habitacionais do Minha Casa, Minha Vida em municípios de Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe, Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, beneficiando aproximadamente 6,5 mil pessoas. O investimento total alcança R$ 262,9 milhões. Segundo dados do Palácio do Planalto, desde a retomada do programa, em 2023, já foram contratadas mais de 2,4 milhões de moradias, enquanto o déficit habitacional caiu de 8,3% em 2022 para 7,4% em 2024.

Mais do que uma sequência de inaugurações, o evento evidencia a estratégia do governo de concentrar entregas concretas em áreas com elevado impacto social. Educação técnica, fortalecimento do SUS e acesso à moradia figuram entre as políticas públicas com maior capacidade de gerar efeitos econômicos de longo prazo, impulsionando emprego, qualificação profissional, produtividade e melhoria das condições de vida.

Há também uma leitura política evidente. Em meio às disputas com o Congresso por espaço orçamentário e às movimentações para a sucessão presidencial de 2026, Lula busca reforçar a imagem de um governo voltado à execução de obras e à ampliação de serviços públicos. A escolha por anúncios simultâneos em diversos estados procura demonstrar capilaridade nacional e fortalecer a presença federal em regiões estratégicas.

O pacote também reforça o papel do Novo PAC como principal instrumento de investimento do governo. Desde seu lançamento, o programa passou a concentrar recursos destinados à infraestrutura social, educação, saúde, mobilidade e habitação, funcionando como a principal vitrine da política de desenvolvimento da atual gestão.

Ao combinar expansão dos Institutos Federais, reforço financeiro ao SUS e novas entregas do Minha Casa, Minha Vida em uma única agenda, o governo procura consolidar uma narrativa de crescimento econômico associado à ampliação do Estado de bem-estar. Em um cenário de pré-campanha, a mensagem é clara: transformar investimentos públicos em ativos políticos por meio de entregas de grande visibilidade e impacto social.

 

Fonte: Jornal GGN/O Cafezinho

 

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