Luís
Nassif: O Brasil pode virar o jogo na prorrogação
O
Brasil chega aos noventa minutos empatado.
Não
perdeu a partida. Mas tampouco conseguiu transformar seu imenso potencial em
vitória.
Ao
longo do jogo, cada período deixou jogadores em campo. Alguns foram expulsos,
outros vendidos às pressas, vários ficaram esquecidos no banco. Mas ainda
existe uma espinha dorsal capaz de disputar a prorrogação.
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A
ditadura militar, apesar de seu legado autoritário, deixou instituições que
sobreviveram ao regime e se tornaram patrimônio do desenvolvimento nacional. A
Embrapa revolucionou a agricultura tropical; a Eletrobras estruturou a expansão
do sistema elétrico; a Sudam buscou integrar a Amazônia; a Finep tornou-se peça
central do financiamento à inovação; a ENAP profissionalizou parte do Estado.
Com a
Constituição de 1988, o Brasil voltou a acreditar que poderia jogar
coletivamente.
Ela
reorganizou o meio-campo social do país. A Seguridade Social deixou de ser
apenas previdência para formar um sistema integrado de Previdência, Saúde e
Assistência Social, financiado por múltiplas fontes. O SUS substituiu um modelo
restrito aos contribuintes por um sistema universal. O Benefício de Prestação
Continuada garantiu renda mínima a idosos e pessoas com deficiência em situação
de pobreza, independentemente de contribuição. A Previdência Rural reconheceu
milhões de trabalhadores antes invisíveis.
No
ataque social vieram também os novos direitos trabalhistas: jornada de 44
horas, FGTS universalizado, licença-maternidade ampliada, licença-paternidade,
férias com adicional constitucional, fortalecimento do décimo terceiro salário.
Ao
mesmo tempo, a Constituição colocou a sociedade dentro do estádio. Conselhos de
participação passaram a integrar a gestão das políticas públicas. Os povos
indígenas tiveram reconhecidos seus direitos originários às terras
tradicionais; as comunidades quilombolas conquistaram reconhecimento
constitucional; a educação tornou-se direito público subjetivo, protegida por
vinculação mínima de recursos.
Era um
time promissor.
Então
veio o governo Fernando Collor.
Muitos
jogadores foram dispensados antes mesmo de estrearem. A abertura econômica
ocorreu sem uma estratégia industrial capaz de preparar a equipe para o
campeonato internacional. Ainda assim, alguns atletas permaneceram úteis, como
o Sebrae, as Câmaras Setoriais e os programas nacionais de qualidade.
Fernando
Henrique Cardoso estabilizou a economia, mas alterou profundamente o esquema
tático. A financeirização passou a comandar o jogo. Privatizações relevantes
foram conduzidas sem uma estratégia integrada de desenvolvimento industrial. O
país desmontou o sistema Telebrás, privatizou a Companhia Vale do Rio Doce e
perdeu a oportunidade de organizar cadeias produtivas robustas nos setores
petroquímico e siderúrgico. Em compensação, deixou um jogador de primeira
linha: os Fundos Setoriais de Ciência e Tecnologia.
Pouco a
pouco, o Brasil foi perdendo peças importantes do seu elenco industrial. A
integração construída durante décadas foi substituída por um balcão permanente
de compra e venda de ativos. Ganhou eficiência em alguns segmentos, mas perdeu
escala, coordenação e capacidade de planejamento.
Os
governos Lula amenizaram parte dos efeitos sociais desse modelo. Aproveitaram
os espaços que restavam para reduzir a fome, ampliar o mercado interno e
democratizar o acesso ao ensino superior. O maior legado talvez tenha sido a
extraordinária expansão das universidades federais e dos institutos federais,
formando uma geração de pesquisadores, engenheiros, médicos e técnicos
espalhados por todo o território nacional.
Depois
veio o grande desmonte.
A
equipe técnica passou às mãos de dirigentes incapazes de compreender o próprio
jogo. O impeachment abriu uma sequência de governos que desmontaram políticas
públicas, enfraqueceram instituições, reduziram investimentos e desorganizaram
completamente a seleção brasileira do desenvolvimento.
Quando
Lula voltou ao comando, encontrou um elenco desentrosado. Sua prioridade foi
reconstruir a defesa e reparar os estragos mais imediatos. Mas o esquema
continuou excessivamente cauteloso. O meio-campo permaneceu amarrado por uma
política monetária e cambial que limitou a capacidade ofensiva da economia.
Agora,
se tudo correr bem, com Lula 4 o Brasil entrará na prorrogação.
Na
defesa estarão o sistema nacional de ciência e tecnologia, as universidades
federais e estaduais, os institutos federais, a Finep, a Fiocruz, o Butantan,
articulados por instituições como o CGEE e o Ipea.
No
ataque, permanecem jogadores decisivos: Petrobras, BNDES, Banco do Brasil e
Caixa Econômica Federal. Dependendo da estratégia, poderão atuar ao lado de
empresários nacionais e multinacionais interessados em reconstruir cadeias
produtivas sofisticadas.
Existem,
porém, dois obstáculos.
O
primeiro é a excessiva cautela do técnico Lula-Ancelotti, que ainda parece
hesitar em montar um esquema capaz de mobilizar plenamente o talento
brasileiro.
O
segundo está fora das quatro linhas.
Assim
como a CBF frequentemente impede que o melhor futebol brasileiro apareça, parte
da elite política e econômica continua funcionando como um colégio de cartolas,
bloqueando qualquer tentativa de reorganizar o projeto nacional de
desenvolvimento.
Se o
técnico decidir confiar definitivamente na criatividade brasileira e escalar o
melhor time possível, talvez a torcida volte a acreditar.
E,
quando uma torcida volta a acreditar, até os cartolas descobrirão que não são
donos do estádio.
Talvez
então o Brasil consiga enfim soltar o grito que ficou preso na garganta desde
que o medo da inflação transformou a estabilização econômica em um modelo
permanente de contenção do desenvolvimento, entregando o comando do jogo à
lógica da financeirização.
• Brasil já venceu o novo tarifaço antes
dele começar
Aos 12
meses encerrados em junho de 2026, a corrente de comércio exterior do Brasil —
a soma de tudo que o país exportou e importou — alcançou US$ 634,74 bilhões, o
maior valor da série histórica, alta de 6,5% sobre os 12 meses imediatamente
anteriores. Em uma década, o volume de comércio do país mais que triplicou: era
de US$ 181,5 bilhões em 2016-17.
Foram
US$ 354,9 bilhões em exportações e US$ 279,9 bilhões em importações, resultando
num superávit comercial de US$ 75,0 bilhões. É o segundo maior saldo da série
jul-jun — atrás apenas dos US$ 84,5 bilhões registrados no ciclo anterior, o
que significa uma queda de 11,2%. O motivo não foi fraqueza das vendas externas
(que cresceram 4,3%), mas sim o salto das compras do exterior (+9,5%), reflexo
de uma demanda interna aquecida.
É
contra esse quadro de pujança que o senador e pré-candidato à Presidência
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington neste fim de semana. Ele
participa nesta terça-feira (7), ao lado do USTR (Representação Comercial dos
EUA) e da Comissão de Comércio Internacional americana, de audiências sobre o
tarifaço de 25% que o governo Trump quer aplicar sobre praticamente todos os
produtos brasileiros a partir de 1º de agosto.
A
ironia é que os próprios números do comércio exterior brasileiro — todos eles
oficiais, do ComexStat/MDIC — mostram que o Brasil já venceu esse tarifaço
antes mesmo de ele começar.
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A pauta que sustenta o recorde
Cinco
capítulos respondem por mais da metade de tudo o que o Brasil vende ao mundo,
nos 12 meses até junho. Desses, três são commodities que o mundo precisa
comprar de alguém — soja, minério e petróleo —, e duas são produtos nos quais o
Brasil é potência absoluta (carnes e açúcar). A diversidade já é, em si, uma
defesa contra qualquer tarifação dirigida.
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A virada do petróleo
A
história mais forte destes 10 anos está escondida dentro do capítulo de
combustíveis. Em 2016-17, o Brasil era deficitário em petróleo e derivados:
exportava US$ 10,4 bilhões e importava US$ 11,1 bilhões, um saldo negativo de
US$ 0,8 bilhão. Nos 12 meses até junho de 2026, exportou US$ 62,0 bilhões e
importou US$ 32,1 bilhões — superávit de US$ 29,9 bilhões.
O
pré-sal transformou a balança energética do país. Mas há um detalhe: o Brasil
ainda importa US$ 10,3 bilhões em diesel (gasóleo) por ano, o item isolado mais
comprado do exterior, porque seu parque de refino não acompanhou a demanda
interna. Exporta-se o cru; importa-se o refinado.
Complexo
soja: US$ 57,7 bilhões
A soja,
principal commodity agrícola exportada, movimentou quase US$ 60 bilhões. O
detalhe:
• Soja em grão: US$ 47,3 bilhões (112,8
bilhões de kg)
• Farelo/farinha de soja: US$ 8,5 bilhões
• Óleo de soja: US$ 1,85 bilhão
Quase
tudo em grão, in natura — o segundo maior item da pauta, atrás só do petróleo
bruto.
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Para onde vai tudo isso
A China
segue sendo, de longe, o maior parceiro comercial do Brasil. A corrente
comercial entre os dois países somou US$ 174,1 bilhões nos 12 meses até junho —
mais que o dobro do segundo colocado. O superávit brasileiro com Pequim foi de
+US$ 28,1 bilhões.
Os
Estados Unidos aparecem em segundo, com corrente de US$ 78,7 bilhões e saldo
praticamente zero (−US$ 1,5 bilhão). A União Europeia, tomada como bloco, é a
terceira maior parceira: corrente de US$ 100,0 bilhões e superávit brasileiro
de +US$ 3,8 bilhões.
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Por que o tarifaço não assusta
É aqui
que entra o ponto geopolítico central — e os dados o sustentam.
A
narrativa de Washington é a de que um tarifaço de 25% (ou até 40%, conforme
análise da FTI Consulting, se somado a tarifas recíprocas) “puniria” o Brasil.
A realidade é que o Brasil ampliou drasticamente o leque de destinos de suas
exportações na última década, reduzindo sua dependência de qualquer comprador
único.
Os
números são eloquentes:
1. A China sozinha absorve quase todo o
superávit comercial brasileiro (+US$ 28,1 bi). Sem a China, o saldo comercial
do Brasil estaria perto do equilíbrio. É ela que compra a soja, o minério, o
petróleo e, cada vez mais, a carne.
2. A relação com os EUA já é equilibrada
(saldo de −US$ 1,5 bi). Aplicar 25% sobre produtos brasileiros tende a
encarecer insumos para a própria indústria americana e elevar preços ao
consumidor dos EUA — não a “dobrar” o Brasil.
3. Os produtos-prioridade do tarifaço são
commodities globalmente demandadas. Soja, minério de ferro e petróleo têm
compradores em fila na Ásia, no Oriente Médio e na própria Europa. Se os EUA
taxarem a soja brasileira, ela simplesmente vai para a China; se taxarem o aço,
ele vai para qualquer outro mercado. O Brasil consegue deslocar o que os EUA
deixarem de comprar para outros compradores — exatamente o que ocorreu no
tarifaço anterior, quando o agronegócio chinês migrou para o Brasil.
4. A Holanda, porta de entrada da Europa,
registrou superávit brasileiro de +US$ 9,5 bilhões. A Rússia, de quem o Brasil
compra fertilizantes essenciais à própria agroexportação, movimentou US$ 13
bilhões. Há uma teia comercial ampla e resiliente.
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A tese que os dados confirmam
A
audiência desta terça-feira em Washington, com Flávio Bolsonaro pedindo ao USTR
a suspensão da tarifa de 25%, se dá num momento em que o Brasil nunca esteve
tão forte do ponto de vista comercial. Em 12 meses: recorde de corrente de
comércio, segundo maior superávit da história para o período, virada do
petróleo e diversificação de mercados.
A
ameaça americana é, do ponto de vista estritamente comercial, quase inócua. O
Brasil já ampliou seus destinos a ponto de qualquer queda na demanda dos
Estados Unidos ser absorvida por outros compradores — principalmente a China,
mas também o bloco europeu, o Sudeste Asiático e o Oriente Médio.
Em
outras palavras: o Brasil matou, pela diversificação, o efeito de um tarifaço
que ainda nem começou. O que Trump assina em 1º de agosto pode até render
manchete — mas, pelos números do MDIC, o Brasil já venceu esse novo tarifaço
ridículo antes mesmo de ele começar.
• Lula acelera agenda social com pacote
bilionário de educação, saúde e moradia
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta sexta-feira (3) um amplo
pacote de investimentos em educação, saúde e habitação, reforçando uma
estratégia que combina expansão da infraestrutura pública com a ampliação de
políticas sociais em um momento de crescimento econômico e aproximação do
calendário eleitoral de 2026. Em cerimônia no Palácio do Planalto, o governo
inaugurou novos institutos federais, liberou R$ 464,8 milhões para o Sistema
Único de Saúde (SUS) e entregou 1.619 moradias do programa Minha Casa, Minha
Vida em diferentes estados do país.
O eixo
mais simbólico da agenda foi a educação. O governo inaugurou simultaneamente
dez novos campi da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e
Tecnológica, distribuídos entre São Paulo, Amazonas, Espírito Santo e Piauí. As
unidades receberam investimentos de R$ 206,6 milhões, sendo R$ 196,5 milhões
financiados pelo Novo PAC. A iniciativa integra o plano nacional de expansão
dos Institutos Federais, lançado em 2024, que prevê a criação de 100 novas
unidades em todo o país e a abertura de cerca de 140 mil novas vagas, sobretudo
no ensino técnico integrado ao ensino médio.
Na
saúde, o governo autorizou R$ 464,8 milhões para fortalecer a rede pública, com
recursos destinados à modernização da estrutura hospitalar, aquisição de
equipamentos e ampliação da capacidade de atendimento do SUS. O investimento
faz parte da estratégia de recomposição do sistema público após anos de redução
de investimentos e busca diminuir desigualdades regionais na oferta de serviços
especializados.
A
terceira frente foi a habitação. Foram entregues 1.619 unidades habitacionais
do Minha Casa, Minha Vida em municípios de Rio de Janeiro, Alagoas, Sergipe,
Goiás, Mato Grosso do Sul e São Paulo, beneficiando aproximadamente 6,5 mil
pessoas. O investimento total alcança R$ 262,9 milhões. Segundo dados do
Palácio do Planalto, desde a retomada do programa, em 2023, já foram
contratadas mais de 2,4 milhões de moradias, enquanto o déficit habitacional
caiu de 8,3% em 2022 para 7,4% em 2024.
Mais do
que uma sequência de inaugurações, o evento evidencia a estratégia do governo
de concentrar entregas concretas em áreas com elevado impacto social. Educação
técnica, fortalecimento do SUS e acesso à moradia figuram entre as políticas
públicas com maior capacidade de gerar efeitos econômicos de longo prazo,
impulsionando emprego, qualificação profissional, produtividade e melhoria das
condições de vida.
Há
também uma leitura política evidente. Em meio às disputas com o Congresso por
espaço orçamentário e às movimentações para a sucessão presidencial de 2026,
Lula busca reforçar a imagem de um governo voltado à execução de obras e à
ampliação de serviços públicos. A escolha por anúncios simultâneos em diversos
estados procura demonstrar capilaridade nacional e fortalecer a presença
federal em regiões estratégicas.
O
pacote também reforça o papel do Novo PAC como principal instrumento de
investimento do governo. Desde seu lançamento, o programa passou a concentrar
recursos destinados à infraestrutura social, educação, saúde, mobilidade e
habitação, funcionando como a principal vitrine da política de desenvolvimento
da atual gestão.
Ao
combinar expansão dos Institutos Federais, reforço financeiro ao SUS e novas
entregas do Minha Casa, Minha Vida em uma única agenda, o governo procura
consolidar uma narrativa de crescimento econômico associado à ampliação do
Estado de bem-estar. Em um cenário de pré-campanha, a mensagem é clara:
transformar investimentos públicos em ativos políticos por meio de entregas de
grande visibilidade e impacto social.
Fonte:
Jornal GGN/O Cafezinho

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