Intervenção
de Trump na Copa expõe laços políticos da Fifa
A
Federação Internacional de Futebol (Fifa) provocou uma reviravolta no domingo
(05/07) ao suspender um cartão vermelho contra um atacante dos Estados Unidos
na Copa do Mundo. O presidente americano, Donald Trump, confirmou ter pedido
diretamente ao presidente da entidade, Gianni Infantino, que a decisão do
árbitro brasileiro Raphael Claus fosse revisada.
"Pedi
uma revisão porque não achei que foi uma falta. Tudo o que fiz foi pedir uma
revisão. Eu não disse 'você tem que fazer isso'", disse Trump no dia
seguinte a repórteres na Casa Branca. Ele também questionou a qualidade do
árbitro Claus, afirmando que ele era "um pouco suspeito, se você for
verificar o passado dele".
Como
resultado, Folarin Balogun está liberado para a partida contra a Bélgica nas
oitavas de final desta segunda-feira. A medida colocou o processo disciplinar
da Fifa no centro da atenção global, provocou uma reação furiosa da Bélgica e
consolidou a relação entre a entidade máxima do futebol e o poder político como
principal tema desta Copa.
Em
questão de minutos, a intervenção da Fifa desencadeou uma das maiores
tempestades midiáticas do torneio. Analistas e ex-jogadores discutem se a
federação fez justiça ou minou as próprias regras, na esteira de outras
controvérsias envolvendo a relação de afinidade entre Infantino e Trump.
Balogun
marcou seu terceiro gol da Copa sobre Bósnia e Herzegovina na semana passada.
Mas recebeu o cartão vermelho no segundo tempo por cravar a chuteira no
tornozelo de Tarik Muharemovic. O jogador americano de 25 anos foi expulso após
revisão do VAR, sob o protesto do técnico dos EUA, Mauricio Pochettino.
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Casa Branca comemora decisão
Trump
ligou para Infantino após o jogo em que Balogun foi suspenso, reportaram as
agências de notícias Reuters, AFP e Associated Press, citando fontes em
anonimato. A Fifa então anunciou a reversão da suspensão de um jogo que Balogun
enfrentava devido ao cartão vermelho.
Infatino
confirmou o telefonema na segunda-feira, mas disse ter explicado a Trump que os
órgãos judiciais da Fifa atuam de forma independente.
"Durante
nossa conversa, expliquei que havia um processo jurídico em andamento
envolvendo os órgãos judiciais independentes da Fifa e que o caso seria
decidido oportunamente pelos órgãos competentes", disse o cartola em nota.
"É assim que o sistema da Fifa funciona, e esse é um princípio que sempre
defenderei."
A Fifa
informou que Balogun estará sujeito a um período probatório de ano,
justificando a decisão no seu código disciplinar. A entidade tem
discricionariedade para suspender total ou parcialmente a aplicação de uma
sanção disciplinar.
"Se
Folarin Balogun cometer outra infração de natureza e gravidade semelhantes
durante o período probatório, a suspensão será reativada e a sanção aplicada
sem prejuízo de qualquer sanção adicional imposta pela nova infração",
acrescentou.
A
Federação de Futebol dos EUA aceitou a decisão, enquanto Trump optou por um
agradecimento público. "Obrigado à Fifa por fazer o que era certo e
reverter uma grande injustiça", escreveu Trump na própria mídia social. Já
a Casa Branca celebrou, na sua página oficial da rede social X, escrevendo:
"EUA-EUA-EUA."
Os
companheiros de Balogun disseram que só souberam da reversão do cartão pelas
redes sociais, quando estavam a caminho do treinamento antes do jogo desta
segunda-feira em Seattle.
"Acho
que 99,9% das pessoas do futebol disseram que é uma punição injusta e há
precedentes que permitem suspender uma punição e cumpri-la depois, então não
entendo como as pessoas podem ficar surpresas", disse Pochettino numa
entrevista coletiva no domingo à noite.
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Bélgica apela e tem recurso negado
A
Bélgica chegou a tentar apelar da decisão da Fifa, sem sucesso. A entidade
argumentou nesta segunda-feira que a Real Associação Belga de Futebol (RBFA)
não é parte do caso e, portanto, não está autorizada a contestar a suspensão do
cartão vermelho.
A RBFA,
contudo, disse que ainda pretende contestar a elegibilidade de Balogun —
presumivelmente no Tribunal Arbitral do Esporte — caso ele seja incluído na
súmula da equipe americana.
"Até
o momento, a RBFA ainda não recebeu qualquer fundamentação para essa decisão
[de permitir que Balogun jogue apesar do cartão vermelho], nem recebeu as
informações que vem solicitando desde o início do processo. A RBFA informou à
Federação de Futebol dos Estados Unidos que contesta a elegibilidade do
jogador, caso ele seja incluído na súmula do árbitro. Isso deixa todas as
demais medidas em aberto."
A
federação belga disse estar "surpresa" com o caso, argumentando que o
regulamento da Fifa "estabelece claramente que um cartão vermelho
(expulsão) resulta automaticamente em suspensão para a próxima partida da
equipe, como ocorreu em todos os cartões vermelhos anteriores nesta Copa do
Mundo".
"Para
salvaguardar os direitos legítimos de todas as equipes participantes e proteger
os princípios fundamentais do fair play em nosso esporte, tanto nesta Copa do
Mundo da Fifa quanto em futuras edições do torneio, a RBFA está investigando
todas as opções possíveis", disse em nota.
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Uefa: "injustificável"
A União
das Associações Europeias de Futebol (Uefa) criticou duramente a Fifa por
"cruzar uma linha vermelha", chamando a decisão de
"incompreensível e injustificável".
"O
futebol, assim como qualquer outro esporte, depende de regras, que são a base
para uma competição justa, honesta e transparente. Às vezes, as regras estão
abertas a interpretações. Neste caso, não", disse a organização em
comunicado.
Até
mesmo o ex-presidente da Fifa Sepp Blatter, que deixou o cargo em 2015 em meio
a acusações de corrupção, juntou-se às críticas.
"Cartões
vermelhos não são anulados por telefonemas políticos. Eles são anulados por
regras, provas e órgãos independentes", afirmou. "Se um presidente
dos Estados Unidos intervém junto ao presidente da FIFA — e um jogador é
repentinamente liberado antes de uma partida eliminatória da Copa do Mundo —, a
pergunta é inevitável: Quo vadis, FIFA? O futebol jamais deve se tornar um
playground para o poder político."
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Seleções reagem mal
Comentando
o caso, o técnico da Inglaterra, Thomas Tuchel, opinou que Balogun não merecia
cartão vermelho. Mas questionou a suspensão da punição pela Fifa, após ver seu
defensor Jarell Quansah ser expulso na vitória por 3 a 2 sobre o México nas
oitavas de final no domingo.
"O
VAR entrou em ação, três pessoas revisaram e acharam que era vermelho. Então a
decisão foi tomada", disse. "Quem anula essa decisão depois, e
quando? E com base em quê? Até onde isso vai agora? Isso é estranho para mim...
Onde isso começa e onde termina?"
O
técnico da Noruega, Stale Solbakken, também criticou a ação da Fifa. "O
que acontece com o próximo cartão vermelho?", questionou. "Vai haver
algum comitê em algum lugar que vai remover esse cartão?"
A
Confederação Brasileira de Futebol (CBF) saiu em defesa do árbitro brasileiro.
"A CBF refuta qualquer insinuação que coloque em dúvida a integridade de
Raphael Claus. Trata-se de um profissional exemplar, cuja carreira é amplamente
respaldada por avaliações técnicas, desempenho consistente e confiança das
principais competições nacionais e internacionais", declarou.
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Garrincha também se beneficiou
O
Brasil esteve envolvido no último episódio que envolveu a suspensão de um
cartão vermelho sob aparente influência política, em 1962. O meio-campista
brasileiro Garrincha foi expulso no minuto 83 da semifinal contra a seleção
chilena por chutar um adversário.
Mas ele
pôde jogar a final contra a Tchecoslováquia após uma campanha de pressão, que
contou com apoio do presidente Jorge Alessandri, do Chile, então país-sede. O
Brasil venceu e conquistou então o segundo título consecutivo.
Em
novembro do ano passado, a Fifa adiou as duas partidas finais de uma suspensão
de três jogos de Cristiano Ronaldo por um cartão vermelho contra a Irlanda nas
eliminatórias, permitindo que ele jogasse no início desta Copa.
Já o
zagueiro argentino Nicolás Otamendi e o meio-campista equatoriano Moisés
Caicedo tiveram suspensões de um jogo adiadas em abril por cartões vermelhos
nas eliminatórias, o que também lhes permitiu atuar na estreia do Mundial.
Fonte:
DW Brasil

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