Hegemonia
institucionalizada da extrema-direita
Pelo
menos desde 2016, quando do impeachment da presidenta Dilma
Rousseff, candidatos de direita buscam se colocar como antissistema, como
disruptivos, como contrários ao establishment político. O
paradoxo, mas nem tanto, é que neste contexto pautas conservadoras devem dar o
tom do debate. “As pautas nessa eleição vão ser antifeminismo,
antiesquerdismo principalmente, esse esquerdismo que pode ser muitas
coisas: anticomunismo, antiesquerdismo, antifeminismo. Tem uma
ideia também de ir contra a Lei de Cotas, porque elas seriam uma proteção
para os preguiçosos e prejudicariam os batalhadores. Então, há um conjunto de
pautas com muita repercussão na política”, explica a professora e
pesquisadora Mayra Goulart em entrevista concedida por telefone
ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
A
questão de gênero é um aspecto importante neste contexto, na medida em que
estabelece uma clivagem importante entre progressistas e conservadores. “O
extremismo é uma resposta fácil, uma resposta simples. E é por isso que ele tem
ganhado muita adesão dessa juventude conservadora, que adere a
pautas red pill, pautas antifeministas, pautas que tentam evocar o
ideal tradicional de masculinidade que está sendo questionado por todos os
movimentos progressistas”, aponta a entrevistada.
Apesar
do discurso de ruptura, quando se observa a realidade com atenção, o que se
percebe é que partidos como o PL e União Brasil se tornaram
muito hábeis em criar grandes conglomerados de políticos radicalmente
institucionalizados e hegemônicos. “Então, muito mais do que a maioria, é
cooptação de quadros políticos, quadros, muitas vezes, fisiológicos. Ou seja,
de pessoas que já tinham família na política, que já controlavam máquinas
partidárias e que mudaram de partido e passaram a adotar esse discurso de
extrema-direita, porque muitas vezes aderem a eles, porque são pessoas mais
conservadoras, mas principalmente porque isso aumenta a sua chance de vitória
eleitoral. E, com isso, há uma hegemonia institucionalizada de uma
extrema-direita que continua usando um discurso antissistêmico,
anti-institucional”, descreve Goulart.
>>>>
Confira a entrevista
·
A democracia como modelo de deliberação política tem sido
alvo de críticas há alguns anos. No geral, na perspectiva da direita, a saída
para a crise democrática é uma torção autoritária no modelo; do ponto de vista
da esquerda o desafio é garantir uma representatividade mais coerente com a
pluralidade social. Frente a estas tensões, como entender a democracia
brasileira hoje e superar seus entraves?
Mayra
Goulart – Primeira
coisa é entender que colocamos tudo no mesmo balaio: nós acabamos
tratando democracia e liberalismo como se eles fossem a
mesma coisa e, na verdade, são tradições muito distintas. Uma se situa lá na
democracia grega ateniense e a outra só surge no século XVII. São dois mil anos
que separam essas duas tradições. Só que com as revoluções burguesas, com a
luta pelo sufrágio, as lutas históricas que os povos travaram, eles passaram a
demandar as duas coisas que a gente chama de democracia liberal.
O que
a extrema-direita repudia é um componente liberal que diz respeito
aos direitos civis, às minorias. É esse elemento da democracia
liberal que acaba sendo deixado de lado pela extrema-direita. Ao mesmo
tempo, um outro atributo dessa extrema-direita é disputar os termos. Então,
eles vão falar de liberalismo, democracia, de minoria, só que eles vão disputar
os termos. Ou seja, quando falam de minoria, muitas vezes eles estão falando do
branco, hétero, porque dizem que é uma minoria perseguida. Quando falam de
liberdade, situam ou no plano econômico falando de liberdade de mercado, ou no
plano dessa liberdade contra o politicamente correto, contra as amarras
daqueles que defendem a proteção das minorias.
Portanto,
temos uma série de elementos que esgarçam os próprios conceitos. E é aí que
entra o ponto da sua questão. Não é que a extrema-direita diga: “Nós
não somos democráticos”. O que ela fala é que “nós somos muito democráticos,
nós somos muito liberais”, mas esvazia esses termos do seu sentido histórico.
·
Do ponto de vista partidário, como se caracteriza o
conservadorismo político no Brasil?
Mayra
Goulart – Temos
uma linha conservadora que vem desde a União Democrática Nacional – UDN.
Mesmo antes, se formos pensar no Império, havia um partido conservador que
sempre, de alguma maneira, se estrutura a partir de uma crítica ou aos
elementos de direitos civis ou ao papel redistributivista do Estado.
São
duas tradições. Uma que critica os populismos, como eles pensavam no
século XX, a partir da ideia de aumentar os repasses às classes populares
através daquilo que se chamava de assistencialismo. Ou ela tem esse pendor
mais moralista em termos daquilo que se chama de “costumes”, que na verdade são
direitos civis, falando contra os direitos das minorias e contra a inclusão
delas nas esferas política, econômica e social.
·
Quais as principais pautas que devem mobilizar os
conservadores no pleito de 2026?
Mayra
Goulart – Destaca-se
muito o antifeminismo. É uma pauta que mobiliza muito, porque mobiliza até
mesmo mulheres que entendem o feminismo como uma ameaça a eventuais relações
que essas mulheres têm. Ou dentro de casa com seu marido, e elas acham que o
feminismo vai deixá-las sem marido, ou com suas filhas, porque o feminismo pode
ser usado para contestá-las. Então o antifeminismo é uma pauta que
tem esse componente muito importante.
O anticomunismo é
essa ideia de um comunismo que pode significar ou uma liberdade sexual, ou
a ideia de fim da propriedade privada, de que vai chegar alguém na minha casa e
violar o meu domicílio. Ou o secularismo, o comunismo como antirreligião. O
“bom” do anticomunismo é que ele tem essa flexibilidade para encarar diferentes
agendas.
Portanto,
as pautas nessa eleição vão ser antifeminismo, antiesquerdismo principalmente,
esse esquerdismo que pode ser muitas coisas: anticomunismo, antiesquerdismo,
antifeminismo. Tem uma ideia também de ir contra a Lei de Cotas, porque
elas seriam uma proteção para os preguiçosos e prejudicariam os batalhadores.
Então, há um conjunto de pautas com muita repercussão na política.
·
Qual o papel do fisiologismo partidário no contexto
democrático nacional?
Mayra
Goulart – Essa
questão é central. Eu fiquei pensando muito nisso, porque o meu laboratório se
estrutura para analisar a política local, mas ele tem uma parte empírica, que
fazemos junto com a COPPE [Instituto Alberto Luiz Coimbra de
Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia] aqui da UFRJ, que é uma área de
tecnologia. Construímos uma plataforma para tentar posicionar georreferências,
emendas e os gastos de campanha. Porque entendemos que a direita e a
extrema-direita, que eram antissistema, institucionalizaram-se e passaram a
controlar muito os recursos e a se apresentar como alternativa política dentro
do sistema.
No
estado do Rio de Janeiro, por exemplo, um quarto das cadeiras
do Legislativo Estadual, do Legislativo Federal e das
prefeituras são ocupadas pelo Partido Liberal – PL. Com esse
enraizamento institucional, eles passaram a controlar muito recurso, porque,
diferentemente do que acontecia há dez anos, em que os políticos tinham
que barganhar recursos das empresas para fazer financiamento empresarial de
campanha ou junto ao governo, para conseguir recursos sendo parlamentar. Hoje,
essa verba é garantida por meio das emendas parlamentares ou do Fundo Público,
que é utilizado para financiar a campanha e financiar os partidos políticos.
·
Um dos seus interesses de pesquisa são as juventudes
conservadoras. Como elas se caracterizam e qual é a principal diferença para
conservadores mais velhos?
Mayra
Goulart – A
geração atual já nasceu com a premissa de se reconstruir, de se desconstruir.
Porque o discurso feminista, em defesa das mulheres, as evidências de que
as mulheres sofrem violência por parte dos homens evidenciam que isso não é uma
exceção: uma em cada três mulheres que já sofreu tentativa de estupro. É uma
certa regra, a forma como a masculinidade é construída
tradicionalmente tem cada vez menos aceite por parte das mulheres. Logo, esses
meninos de hoje já nascem sobre o imperativo de se reconstruir.
Esses
meninos ainda não se construíram e já estão sob o imperativo de se
reconstruírem. Eles ainda não sabem o que é ser homem, não têm uma ideia de
como vão se relacionar com mulheres, com o próprio corpo. Só que eles sabem que
aquilo que o pai dele é, o que as figuras masculinas apresentam, já está sendo
interditado. Então eles estão muito confusos, sem referência.
E é
isso, a meu ver, que tem explicado a adesão deles a respostas fáceis. Porque o
que caracteriza o extremismo é uma resposta muito simples para um
problema complexo. Por ser simples, é capaz de ter muita adesão. Quando é algo
mais complexo, multifacetado e multidimensional, há pontos que a pessoa
concorda e pontos que ela discorda. E isso diminui o grau de adesão.
O extremismo,
não. Ele é uma resposta fácil, uma resposta simples. E é por isso que ele tem
ganhado muita adesão dessa juventude conservadora, que adere a pautas red
pill, pautas antifeministas, pautas que tentam evocar o ideal tradicional
de masculinidade que está sendo questionado por todos os movimentos
progressistas.
·
O que esperar dos jovens nas eleições de outubro?
Mayra
Goulart – Uma
divisão, uma clivagem de gênero muito grande. Meninos se comportando de uma
maneira e meninas de outra. Meninos muitas vezes tendo mais vocação de aderir a
projetos extremistas de direita e meninas mais vocacionadas para aderir a
processos mais complexificados, que discutem gênero, raça e políticas sociais
de inclusão.
·
O Fundo Partidário foi instituído com o objetivo de
garantir possibilidades de candidaturas mais horizontais, mas na prática qual
se tornou seu papel no contexto político do Brasil?
Mayra
Goulart – Ele
tem empoderado as elites partidárias. Temos, nos últimos anos, com a cláusula
de barreira e com o fim das coligações proporcionais, um processo em que
reduzimos o número de partidos efetivamente existentes no parlamento. E,
simultaneamente, temos a criação de fundos públicos para financiar os partidos
com atuação parlamentar. Ou seja, tem menos partidos controlando o recurso
público.
Isso
empodera os chefes de partido, porque muitas vezes essas siglas não têm
procedimento burocrático ou democrático que diga como esses recursos vão ser
distribuídos, para quais candidaturas etc. Essa discricionariedade empodera os
chefes de partido.
·
É possível afirmar que há no Brasil atual uma certa
institucionalização do conservadorismo? Onde ela ocorre? Quais são seus
sintomas?
Mayra
Goulart – Achei
excelente essa pergunta. Eu estou finalizando um relatório sobre o Estado
do Rio de Janeiro, que evidencia que o PL controla boa parte dos
cargos eletivos no Estado. Eu rodei um teste para saber se essas lideranças do
PL eram novas, se eram de renovação de quadros que vieram junto com o
bolsonarismo, algo novo que vinha com essa extrema-direita, ou se eram pessoas
que já tinham mandato, trajetória e aderiram ao PL, ao bolsonarismo. E 79%
se enquadram nessa segunda hipótese.
Então,
muito mais do que a maioria, é cooptação de quadros políticos, quadros muitas
vezes fisiológicos, pessoas que já tinham família na política, que já
controlavam máquinas partidárias e que mudaram de partido e passaram a adotar
esse discurso de extrema-direita, porque muitas vezes aderem a eles, porque são
pessoas mais conservadoras, mas principalmente porque isso aumenta a sua chance
de vitória eleitoral.
Com
isso, há uma hegemonia institucionalizada de uma extrema-direita que continua
usando um discurso antissistêmico, anti-institucional.
·
Nas últimas legislaturas federais, na Câmara e no Senado,
tem sido recorrente o diagnóstico de que foi eleito sucessivamente o congresso
mais conservador da história. O que se pode esperar para este ano? Como o poder
econômico captura o processo de renovação parlamentar para o próximo período?
Mayra
Goulart – O
primeiro aspecto para o próximo período [é a questão das emendas
parlamentares]: um deputado que controla esse montante de recursos, que é
controlado por meio das emendas parlamentares, que já somam R$ 61 bilhões em
2026, [opera para garantir sua reeleição].
Ou
seja, a chance de eles usarem esse recurso para aumentar a sua viabilidade
eleitoral, se reelegerem ou se elegerem a outros cargos e elegerem pessoas da
sua família política para os seus cargos no parlamento, é muito grande. Então,
mesmo que haja uma renovação nominal, é difícil ter uma renovação efetiva.
O
segundo aspecto para esse próximo Congresso é a hegemonia de quem tem
mandato contra quem não tem mandato dentro dos partidos políticos. Pois
essas elites partidárias cada vez mais são formadas por pessoas que têm
mandato, que têm um staff financiado através desse montante de
recursos que estão controlando através das emendas e mesmo pela verba de
gabinete. Esses são os pontos que eu considero mais importantes de serem
ressaltados.
·
Há um arquétipo curioso no campo da extrema-direita que é
o patriota contrário à soberania do país. Os exemplos abundam. De onde surge
essa figura e por que esse discurso funciona no universo conservador? Há pares
na história desse tipo de político?
Mayra
Goulart – Essa
é uma grande contradição do extremismo de direita global. Porque ao mesmo
tempo que ele é nacionalista, principalmente no caso dos países periféricos,
convive com o sentimento de admiração e adesão às potências hegemônicas
do Hemisfério Norte. E isso é uma espécie de modulação no
nacionalismo dele, mais do que modulação, é uma contradição propriamente dita.
Enquanto
faz muito sentido para um cara de uma grande potência falar que é nacionalista
e que faz, que prende, que arrebenta; para um país periférico, que precisa do
sistema multilateral, que recorre a agências de fomento globais e que sofre com
o unilateralismo das grandes potências, esse discurso unilateralista é mais
problemático.
·
Voltando ao conceito de “democracia blindada”, que
descreve um arranjo onde as instituições são moldadas para proteger os
interesses do mercado financeiro e do grande capital. Olhando para o Brasil
recente (com a autonomia do Banco Central, as amarras fiscais e a captura do
orçamento público pelo Legislativo), como enxerga essa dinâmica de blindagem
operando hoje? O quanto a nossa Nova República se tornou impermeável à
soberania popular na esfera econômica?
Mayra
Goulart – Esse
ponto é muito bom, porque uma das raízes da ascensão da
extrema-direita e da diminuição da direita tradicional é porque as
restrições ao gasto público, a austeridade, acaba dificultando a diferenciação
entre os políticos a partir de uma agenda econômica mais ou menos gastadora.
Então, temos o arcabouço fiscal, teto de gastos e a austeridade diminuindo
a diferenciação partidária nessa temática.
·
Você pesquisa os discursos de Bolsonaro e já publicou
artigos sobre o tema. Como estes discursos transformaram Bolsonaro em líder de
massas com aspirações totalitárias?
Mayra
Goulart – Eu
fiz uma série de artigos sobre os discursos do Bolsonaro. Primeiro,
analisei os programas de governo, depois analisei os discursos proferidos em
plenário e, então, analisei as suas postagens durante e depois da Presidência.
Peguei toda a trajetória dele de legislador, de candidato presidencial e de
presidente. A minha ideia é entender como ele conforma uma identidade política
capaz de conseguir uma vitória majoritária, mas também ver como ele atualiza
esses vínculos.
E, é
claro, tem dois elementos que eu acho importantes aqui. O primeiro é a
aderência dele a um contexto global, em que há uma extrema-direita
global que se retroalimenta em termos de produção intelectual, em termos
de um dar legitimidade para o outro.
Ao
mesmo tempo, ele se aproveita de uma demanda reprimida por parte de candidatos
nacionais que tiveram uma pauta abertamente conservadora e antiesquerdista,
porque o que se apresentava antes de alternativa ao Partido dos
Trabalhadores era uma direita que não se colocava com esse viés
conservador, antiesquerdista, radical. Havia uma demanda reprimida, esse é o
primeiro ponto.
O
segundo é o elemento vertebrador do sistema político brasileiro, que é
o antipetismo. E Jair Bolsonaro foi capaz de enquadrar esse
antipetismo em uma temática popular, através desses discursos conservadores.
Nessa
capilarização da extrema-direita, nessa capacidade que
o Bolsonaro tem de traduzir o antipetismo para um discurso capaz de
chegar ao cidadão comum, o papel fundamental foi o da religião, das igrejas que
conseguiram fazer esse processo de tradução de uma linguagem que antes era
muito política, muito econômica, para argumentos mais morais e mais
maniqueístas. E, com isso, aumentou a penetração.
·
Com as mudanças nas regras eleitorais, as federações
passam a funcionar como um partido único em um compromisso que dura quatro anos
e não só no período da eleição, como eram as coligações. União Brasil e
Progressistas, por exemplo, formam agora a federação União Progressista
Brasileira. Já é possível prever qual será o impacto das fusões partidárias no
pleito de 2026?
Mayra
Goulart – Essa
pergunta é muito boa, porque tem muito a ver com aquilo que estávamos
discutindo, que é que o sistema político brasileiro, a partir da cláusula
de barreira, do fim das coligações proporcionais, está passando por um processo
de concentração, diminuição dos partidos e aumento dos recursos disponíveis aos
partidos. Ou seja, há menos partidos e mais recursos.
Com
isso, os dirigentes partidários passam a ter muito poder. E esse é o caso da União
Progressista, em que há um aumento do poder desses dirigentes. E a
contrapartida disso é um aumento da competição intrapartidária. Então, haverá
um partido só, que na verdade é uma federação com uma nominata única, para
colocar uma série de lideranças, o que vai aumentar a competição
intrapartidária.
Fonte: Entrevista
com Mayra Goulart da Silva, para Cristina Guerini, em IHU

Nenhum comentário:
Postar um comentário