Economia
Solidária e socialismo real
Entre
a utopia europeia e a planificação soviética, a economia solidária encontra na
ascensão da China a chance de se tornar tradução popular do socialismo...
<><>
1. Economia Solidária e socialismo real
A
relação entre economia solidária e socialismo real é complexa. Porém, ela é
incontornável para compreendermos que a essa altura do século 21 não se trata
mais de defender uma economia alternativa de modo tímido e marginal, mas de
afirmar categoricamente que o capitalismo neoliberal chegou ao fim e que o
socialismo é o destino no horizonte da gloriosa marcha dos trabalhadores e
trabalhadoras de todos os países.
Anteriormente,
economia solidária e socialismo real não combinavam muito bem. Hoje, essa
relação precisa ser revisitada. Isso porque já se reconhece que o socialismo
real não saiu do palco da história, mas apenas se transformou. O século 21,
tendo a China como principal vetor transformativo em escala mundial, cobra no
mínimo uma nova contextualização e função para a economia solidária enquanto
eixo ideológico de crítica ao capitalismo e de proposição de uma alternativa.
Como
este debate já está acontecendo (veja uma primeira troca a partir da corajosa provocação de Dayvid Souza
Santos e a reação de Renato Dagnino e colegas no site A Terra é Redonda), quero
me somar à conversa.
Meu
argumento central é que muito mais do que ser uma linha propositiva de
determinado tipo de modelo ou sistema econômico (que precisaria atender por um
nome próprio sobre o qual sempre haverá controvérsia), a economia solidária é
um dos principais canais de tradução do Marxismo para as condições próprias do
povo trabalhador no Brasil e na América Latina.
<><>
2. O antigo contexto
O
antigo contexto da economia solidária está profundamente marcado por quatro
fatores principais.
>>>
2.1 Eurocentrismo
O
primeiro fator é o eurocentrismo. A interpretação dominante da história
econômica e política mundial era fortemente centrada na experiência europeia e,
por extensão, ocidental. Isso influenciava tanto a crítica ao capitalismo
quanto às alternativas imaginadas. A formação histórica do capitalismo levou a
uma integração global de nítido domínio das potências europeias ocidentais
sobre o restante dos povos, a partir da expansão comercial e colonização. No
que tange a fundamentação filosófica da economia solidária como modo de
produção alternativo ao capitalismo, é necessário reconhecer que o antigo
contexto enquadrava a economia solidária na tradição intelectual dos
socialistas europeus.
Tendo
como referência intelectual a obra de Paul Singer, por exemplo, a origem
histórica da economia solidária estaria no movimento cooperativista
revolucionário da primeira metade do século 19, quando surgiram variadas
iniciativas de associações e cooperativas de produção e distribuição com
pretensão de superar os empreendimentos econômicos capitalistas tradicionais.
Mesmo
que a economia solidária tenha se desenvolvido com toda uma linguagem própria e
próxima aos povos latinoamericanos, e brasileiro, em particular, a perspectiva
eurocêntrica permaneceu latente, o que é demonstrado, por exemplo, pela enorme
influência do pensamento humanista crítico francês que é bastante simpático ao
universo utopista da economia solidária.
>>>
2.2 A União Soviética (URSS)
O
segundo fator é a existência da União Soviética (URSS) como modelo-referência
de alternativa ao capitalismo. Ao longo do curto século 20, ela foi não só a
principal expressão de socialismo real, como praticamente sinônimo de
socialismo no plano mundano da geopolítica. Por isso, com seu desmantelamento
no começo dos anos 1990, consolidou-se a percepção de que o projeto socialista
como um todo havia fracassado. Isso teve um impacto profundo sobre a imaginação
política global.
A
insatisfação de muitos militantes em relação à União Soviética já vinha se
espalhando por outros canais que antecedem em muito o fim do sistema
propriamente dito. No caso da elaboração conceitual de Paul Singer, a
planificação central e a campanha anti-stalinista no Ocidente foram elementos
de forte afastamento que ensejaram a busca por outro modelo de construção
socialista. Mais flexível, menos dogmático e muito mais experimental, este
modelo ainda deveria ter orientação teórica em Marx, mas um Marx muito mais
aberto e adaptável às circunstâncias locais. Por um lado, este é um aspecto de
inovação relevante, porque quebra com o paradigma de que o Marxismo é uma
doutrina oficial e o torna mais acessível enquanto ferramenta de educação
política. Por outro lado, o antagonismo entre economia solidária e o socialismo
real soviético é o que torna o socialismo da economia solidária um socialismo
no plano das ideias e a afasta significativamente do jogo duro do poder.
A
aversão ao exercício do poder real empurrou a economia solidária para as
origens filosóficas do socialismo pré-Marxista, chegando às margens radicais do
anarquismo e dos movimentos autogestionários, que tem uma postura fortemente
crítica a qualquer molde de organização hierárquica e disciplinar. A utopia se
revela uma força importante de casulo protetor, até que uma nova conjuntura
apareça e possibilite o seu desabrochar como ciência novamente.
>>>
2.3 O neoliberalismo
O
terceiro fator é o neoliberalismo. A partir dos anos 1970, ele se afirma como
paradigma dominante de organização econômica, defendendo a redução do papel do
Estado, a liberalização dos mercados e a centralidade da iniciativa privada.
Nos anos 1990, essa visão atinge seu auge e o desemprego se torna o desafio
principal com o desfecho melancólico da brava e contraditória industrialização
brasileira.
Nesta
seara, a economia solidária não exercia apenas uma crítica negativa ao
capitalismo, mas era explicitamente propositiva e construtiva ao estimular
iniciativas autônomas populares de formação de associações e cooperativas de
trabalho para geração de renda. Contudo, como esses projetos não dependem
apenas do esforço de organização do trabalho e de produção, por serem
empreendimentos que navegam nas águas turbulentas do mercado capitalista, a
política macroeconômica de financiamento e de concatenação tecnológica entre
setores para formação de empresas competitivas no cenário internacional acaba
travando o seu desenvolvimento. A economia solidária enfrenta um enorme desafio
com a desarticulação sindical e com o avanço das novas tecnologias que alteram
profundamente o mundo do trabalho. A ideologia do empreendedorismo e da
iniciativa privada cria obstáculos significativos para os anseios coletivos e
de integração por redes entre empreendimentos econômicos solidários.
>>>
2.4 Unipolaridade
O
quarto fator é a ordem geopolítica unipolar. Com o fim da URSS, os Estados
Unidos emergem como potência hegemônica, consolidando uma ordem internacional
sem concorrentes diretos. Esse cenário reforçava ainda mais a ideia de que o
capitalismo neoliberal era o único caminho factível para os países da periferia
e colocava em posição defensiva todos os movimentos emancipatórios e
progressistas.
A
resistência para continuar existindo se tornou a ação por excelência em uma
situação extremamente desvantajosa em termos de luta por soberania e
autodeterminação. Em situações-limite, a mera sobrevivência é em si um ato
revolucionário. Por isso, mesmo que a economia solidária tenha buscado
inspiração na sabedoria popular e religiosa local de exaltação da humildade, de
defesa do compartilhar o pouco e da redenção espiritual na pobreza, não podemos
desvalorizá-la como se fosse uma economia política da escassez por opção. Isso
ocorreu por necessidade e sempre guiada pelos valores mais profundos da classe
trabalhadora latinoamericana e brasileira.
Nesse
sentido, a crítica da economia solidária que contrasta com prepotência a
economia de Francisco enquanto um dos vários pilares éticos da economia
solidária com a economia política da abundância de Deng Xiaoping (para quem
enriquecer é glorioso) não pode ter trânsito livre. A valorização da pobreza,
da humildade, dos oprimidos é um recurso estratégico importante que deve ser
compreendido em seu contexto, e levado adiante com a devida atualização. Do
contrário, corre-se o risco de inverter as coisas e exaltar a riqueza pela
riqueza, como se ela não devesse estar servindo aos povos trabalhadores.
No
antigo contexto, melhorar minimamente as condições de vida ou simplesmente
evitar que elas piorassem estava na ordem do dia. Não havia espaço para grandes
pretensões e a comunhão na pequenez era a única forma de guardar forças para
seguir lutando.
<><>
3. O novo contexto
No
cenário atual observamos transformações profundas que configuram um novo
contexto histórico, também estruturado por quatro fatores principais.
>>>
3.1 Sul Global
O
primeiro é o protagonismo crescente do Sul Global. Países da Ásia, África e
América Latina passam a ter maior peso econômico e político, questionando a
centralidade histórica do Ocidente e abrindo espaço para múltiplas trajetórias
de desenvolvimento. Se durante o período neoliberal a periferia do mundo era
sufocada pela imposição das políticas macroeconômicas de austeridade como única
via possível, agora, a crise capitalista expressa na completa perda de poder
retórico do Norte Global aponta caminhos variados que colocam a questão do
desenvolvimento social e econômica na ordem do dia.
É
verdade que o Sul Global é um conjunto muito heterogêneo de países com suas
respectivas trajetórias históricas, culturas e sistemas políticos. Porém é
certo que tal diversidade é um elemento de força contra a unidimensionalidade
do Norte Global que alinha todas as potências capitalistas em uma única
corrente imperialista que obedece a lógica do capital. A existência do Sul
Global como força geopolítica aglutinando a larga maioria da população do mundo
torna a economia solidária mais uma entre diversas opções de construção do
futuro.
Nesse
novo contexto, a economia solidária pode ser reconhecida não apenas como
pulverizadas experiências de resistência nos poros da macromalha econômica
capitalista, mas como uma extensa rede propositiva popular pela integração e
racionalização da economia como suporte da vida e do bem-estar em escala
global.
>>>
3.2 A China
O
segundo fator é a China enquanto o sistema de maior peso gravitacional dessa
nova constelação. Sua ascensão nas últimas décadas representa uma mudança
significativa na ordem internacional, mas principalmente na maneira como
devemos pensar a transição para o socialismo considerando a totalidade do
sistema-mundo capitalista.
A
controvérsia sobre o sistema chinês não é um mero passatempo intelectual, mas
uma questão fundamental para a movimentação política em todos os cantos do
mundo. As diferenças entre o projeto soviético de transição ao socialismo e o
projeto chinês são muito significativas e impactam o projeto de transição que
subjaz à economia solidária. A experiência chinesa combina planejamento
estatal, mercado e um projeto político de longo prazo, que deve ser reconhecido
como uma nova forma de socialismo real. A impureza do sistema econômico chinês,
por acomodar tanto a era Mao Zedong (1949-1978) como a era Deng Xiaoping
(1978-presente) de Reforma e Abertura, precisa ser analisada objetivamente para
que a economia solidária incorpore lições importantes sobre contradição e
dialética.
A busca
pela pureza é um desperdício de energia quando se reconhece que todo
empreendimento econômico é uma mistura de formas antagônicas de organização,
cujos extremos conformam a autogestão democrática perfeita e heterogestão
exploratória máxima.
Uma das
orientações mais complexas deixadas por Paul Singer foi justamente aquela sobre
como não devemos simplesmente escolher entre uma destas formas, mas compreender
que cada uma delas tem a sua função. Certamente o problema da hierarquia de
poder e da autoridade é grave, mas não se pode subestimar a força coletiva que
emerge da disciplina revolucionária, e que é fundamental para combater o
inimigo de forma organizada. Por mais que seja feio, é dessa unidade militar
que surge o poder real capaz de repelir o imperialismo. A Revolução Chinesa,
tendo o Partido Comunista à frente, ensina que o espontaneísmo pulverizado e
descentralizado não tem condições de provocar as mudanças estruturais
necessárias.
>>>
3.3 A economia socialista de mercado
O
terceiro fator é a chamada economia socialista de mercado. Esse é o nome
oficialmente empregado pelo governo chinês para se referir ao seu próprio
sistema econômico.
De
forma muito resumida, a economia socialista de mercado é um sistema que
articula mecanismos de mercado com objetivos estratégicos nacionais definidos
pelo Estado. Ele desafia a antiga perspectiva que opunha cartesianamente
capitalismo e socialismo. Em especial, a economia socialista de mercado aponta
que o mercado e o socialismo não são entidades incompatíveis, o que gera uma
tensão gigantesca em toda a tradição intelectual que reivindica a Economia
Política Marxista.
Esse é
um fator extremamente relevante para a elaboração conceitual e filosófica da
economia solidária, porque ele nos leva de volta à tênue distinção entre
mercado e capitalismo. Para os chineses, é perfeitamente possível existir um
mercado socialista em distinção a um mercado capitalista.
Um dos
principais desafios dos empreendimentos econômicos solidários é justamente o
fato deles existirem no e dependerem do mar revolto do mercado, onde precisam
interagir com unidades econômicas que operam pela lógica do lucro. Os
empreendimentos econômicos solidários precisam competir com empreendimentos
econômicos capitalistas, que subvertem as funções socialmente úteis do mercado
em proveito exclusivo de si próprias. O mercado é uma entidade extremamente
complexa e ambígua, sendo ao mesmo tempo um mecanismo de articulação da divisão
social do trabalho em benefício do avanço das forças produtivas e de entrave
desse avanço devido ao seu estímulo pelo ganho material privado às custas do
coletivo. A interconexão entre o social e o individual promovido pelo mercado
deve ser mais bem compreendida, tanto para o fortalecimento da assim chamada
economia socialista de mercado como da economia solidária.
>>>
3.4 Multipolaridade
O
quarto fator é a multipolaridade. Diferentemente da ordem unipolar que perdurou
entre 1990 e os anos 2020, o mundo atual é marcado pela coexistência de
múltiplos centros de poder, com diferentes modelos econômicos e políticos.
Aqui
existe uma diferença importante em relação ao período bipolar em que a URSS
expressava “o” modelo alternativo. Tudo indica que a China não exporta um
esquema pré-formatado de modelo econômico de desenvolvimento, e participa do
debate estimulando cada país a encontrar o seu próprio caminho. Em outras
palavras: a economia solidária, sendo uma característica regional de
determinadas formações socioeconômicas, pode se somar à multiplicidade de
sistemas de forma sinergética. Nesse sentido, ao invés de se contrapor com o
estilo soviético de planificação centralizada, como a economia solidária
precisou fazer no antigo contexto, ela pode se somar às variadas tentativas de
superação da financeirização exploratória que demarcou a era unipolar.
Em
síntese, nesse novo contexto, a ideia de que “não há alternativa” ao
neoliberalismo perde sentido. Diversas alternativas passam a coexistir e a
disputar legitimidade. Isso coloca um desafio importante para a economia
solidária: ela precisa se atualizar, reconhecendo que já não opera em um
cenário de ausência de alternativas, mas em um campo plural e em transformação,
onde ela é certamente bem-vinda devido ao seu vínculo genuíno com os povos
oprimidos do Brasil e da América Latina.
<><>
4. Economia Solidária como Latinoamericanização do Marxismo
Mais do
que uma resposta localizada ao desemprego ou à informalidade, a economia
solidária precisa se reposicionar como parte de um debate mais amplo sobre
modelos de desenvolvimento, formas de organização econômica e possibilidades
concretas de transformação que avançam no século 21. Esse reposicionamento,
entretanto, precisa levar adiante todo o aprendizado e de inovação criativa
durante o duro período de resistência que abarca o arco temporal neoliberal que
se estendeu dos anos 1970 até os anos 2020. Não se trata de jogar tudo fora e
recomeçar do zero a construção da economia solidária enquanto política
econômica de desenvolvimento do Brasil e das nações Latinoamericanas em geral.
Na
minha opinião, um dos aspectos mais fundamentais a ser levado adiante é a
economia solidária enquanto ferramenta comunicacional e educadora. É nesse
âmbito que ela revela o potencial de adaptar o Marxismo para as condições
próprias da realidade Latinoamericana.
Precisamos
ter serenidade para compreender a turbulência provocada pela China. A
complexidade contraditória da Reforma e Abertura que gerou a atual situação de
coisas deve ser estudada com paciência e sem apego às cicatrizes do passado no
movimento comunista mundial. Considerando o absoluto fracasso do modelo
econômico neoliberal, existe uma certa histeria ansiosa em encontrar na China
de hoje a receita para o sucesso, sobretudo econômico. Inclusive os polos
influenciadores da elite financeira capitalista já propagam a China como um
“capitalismo que deu certo”
O que
há de mais precioso na experiência chinesa, no entanto, não é um receituário
econômico a ser copiado pelos países do chamado Sul Global, mas uma abordagem
filosófica que deve ser inspiração para as nações em busca de soberania. O
Marxismo precisa encontrar sua expressão popular adequada, de acordo com as
características próprias de cada nação. Esse é o fundamento por trás de um
socialismo em consonância com os valores culturais mais essenciais do povo
chinês, e que se transmuta na noção de socialismo com características chinesas.
A
Economia Solidária funciona bem como base de comunicação junto aos povos
latinoamericanos em geral, e brasileiro em particular. Ao mobilizar uma crítica
ao capitalismo de modo intuitivo, fortemente ancorada naquilo que a população
trabalhadora julga ser os valores de referência das mulheres e homens de um
novo mundo, a Economia Solidária mobiliza, agrega, reúne e organiza.
Solidariedade, comunidade, união, coletividade, ancestralidade, saber fazer…
Tudo isso gera uma gigantesca riqueza metodológica que precisa estar em
sintonia com o legado intelectual e científico do Marxismo, de modo que um
socialismo com características brasileiras possa desabrochar e funcionar como
guia filosófico de nossa luta adiante no século 21.
Fonte:
Por Tiago Camarinha Lopes, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário