Mãe
perde filho para as bets e luta para ver influenciadores na Justiça: “são
traficantes
Vânia
poderia ser adjetivo. Retrato vivo de quando o Estado falha em prevenir
tragédias anunciadas, a professora de 54 anos virou órfã às avessas de um filho
de 26, há dois anos. Desde então, se soma à multidão de famílias amputadas pelo
crime que hoje buscam o poder público e a Justiça em procura de algum sentido,
mas, em seu caso, encontra uma dificuldade a mais: o que enfrenta nem crime é.
Ainda. E, em plena Copa do Mundo, o lembrete constante de sua perda está nas
redes sociais, nas transmissões dos jogos, estampado em paradas de ônibus ou em
cada intervalo comercial, onde quer que olhe, quase sempre associado a rostos
sorridentes que dizem convidar apenas para “diversão”.
Para
todas as instâncias, Vânia de Souza Borges diz que o filho, Rafael, foi vítima
de traficantes. “Eles são traficantes, sim. Talvez uma modalidade diferente e
mais moderna do tráfico. Assim como o traficante de cocaína, que é tão
penalizado pela lei, eu não tenho dúvida que essas pessoas também são
traficantes. Elas induzem as pessoas, levam a pessoa ao erro, induzem as
pessoas até que elas percam tudo”, diz a professora que quer responsabilizar
influenciadores pelos estragos das bets que ajudam a disseminar.
“Eles
comercializam um produto, eles simulam que é uma coisa, e esse produto não é.
[…] Muitos deles fazem uma publicidade simulando o ganho de dinheiro nessas
plataformas, mostram uma riqueza exorbitante, dando a entender que essa riqueza
veio dessas plataformas, quando a gente sabe que não é bem assim, que eles
estão na verdade ganhando por trás, que eles não estão jogando”, resume. Vânia
perdeu o filho, mas não a consciência.
Foi com
esse objetivo que a moradora de Uberlândia (MG) buscou o Congresso Nacional
durante a realização da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) das Bets em
2024. A carta, escrita por ela após, sem sucesso, buscar ajuda na Polícia Civil
mineira e também no Ministério Público do estado, estava entre os milhares de
arquivos da CPI aos quais a Agência Pública teve acesso.
O
relato de uma mãe cujo filho tirou a própria vida na casa em que residia acabou
arquivado junto ao relatório dos trabalhos da comissão, o primeiro a ser
rejeitado em 10 anos no Senado, deixando de indiciar 16 responsáveis por
empresas de apostas online e influenciadores. Desde então, o território ocupado
pelas bets no orçamento da família brasileira só cresceu, chegando, segundo a
Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), a R$ 360
bilhões apenas no ano passado.
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Sob controle
Rafael
Borges Amaral trabalhava em um lava-jato próximo de casa. Era sua
especialidade. Já havia até montado um com recursos próprios anos atrás. “Não
tinha preguiça”, faz questão de pontuar a mãe, Vânia. Aos 26 anos, investia em
trabalhos manuais e no próprio talento com as pessoas para ganhar a vida, por,
ainda na juventude, decidir que não seguiria o caminho do ensino superior.
Ex-nadador
federado do Praia Clube de Uberlândia, até os 15, e descrito como brincalhão, o
rapaz queria empreender, tomar as próprias decisões e conquistar desejos de
menino, como a moto, comemorada pela família quando adquirida.
“Ele
guardava dinheiro, a princípio guardava, comprava as coisas que gostava, sempre
à vista. Nunca foi menino de se endividar. Ele sempre foi muito responsável,
juntava dinheiro, comprava e trabalhava, acordava muito cedo, espontaneamente,
5h30, ia trabalhar e a jornada dele era bem puxada”, conta a professora e mãe.
Rafael,
como tantos, queria ficar rico. Muito rico. E “tinha ficado sabendo de gente
que tinha ganhado” dinheiro apenas jogando, se divertindo. A mãe conta que ele
não saía do celular, mas, como qualquer jovem, passava tempo jogando,
conversando nas redes sociais, pensava ela.
Mas os
momentos de introspecção e concentração absoluta na tela passaram a varar as
noites. Vez ou outra, madrugadas viradas em claro desembocavam no horário do
trabalho do dia seguinte. “Mãe, eu já ganhei tanto, é muito bom isso aqui”,
dizia, segundo a professora, que disse lembrar com clareza as respostas. Quando
protestava, ouvia que estava tudo sob controle, “que ele sabia até onde podia
ir”.
Não
sabia. Nem ele, nem a família. “A gente foi notando umas coisas diferentes
nele”, relembra Vânia ao remontar seus dias nos oito meses de apreensão que
viveu aquele pesadelo. O carinho tradicional, conta, deu lugar a explosões
agressivas. Rafael, mais isolado, começou a faltar ao trabalho.
“Só que
chegou num momento que eu comecei a perceber que ele começou a se desfazer de
bens dele, bens materiais. Ele vendeu a moto”, segundo a mãe, “sem razão”. “E
de repente o dinheiro desapareceu”, afirma.
“Todos
nós tentamos muito conversar com ele, todos nós, eu, meu esposo, minhas filhas,
todos nós. Às vezes, eu acordava no meio da noite, ele estava jogando, eu ia
lá, chorava, cheguei a chorar mesmo, pedir para ele sair do computador, porque
eu sabia, eu tinha certeza que aquilo era fraude”, lamenta Vânia, ao contar
como as sucessivas brigas fizeram o filho sair de casa para morar com a avó.
Quando
eu entrava no assunto, ele não aceitava. E aí ele ficava diferente, já não era
mais aquele menino doce, e ficava agressivo comigo, falava coisas que às vezes
me ofendiam, e a gente entrou em atrito, eu e ele. Atrito constante. Até que
num determinado dia, esse atrito foi um pouco mais exaltado e ele resolveu ir
para a casa da minha mãe, também uma pessoa mais idosa
Longe
da vigilância dos pais, Rafael pode ter se sentido mais à vontade, mas a
situação não melhorou. O dinheiro começou a faltar para sair com os amigos,
fazer coisas do dia a dia, e o constrangimento da própria situação financeira
ficou cada vez mais pesado. O cenário foi descrito em mensagem de áudio enviada
a um amigo pelo Instagram, em que dizia trabalhar, trabalhar, e ver todo o
dinheiro ir para o jogo. “Se eu tivesse ouvido minha mãe, se eu tivesse ouvido
minha família”, chegou a lamentar.
A saída
que encontrava era apostar o dinheiro que ganhava, para tentar recuperar o que
já havia perdido antes. Mas aí, novas perdas se somavam ao quadro. Era 23 de
março de 2024, aniversário das duas irmãs de Rafael. Em mais uma madrugada de
esperança por desfechos diferentes, à 1h48, o jovem fez uma transferência de R$
30 para uma empresa de pagamentos conhecida por atuar nos sistemas de bets que
ele conhecia tão bem. Foi a última
aposta feita por Rafael.
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Culpa, castigo e o mito da responsabilidade
Vânia é
descrita pela psicologia como “sobrevivente”. Não é apenas um estado de
espírito ou figura de linguagem, mas uma condição de um luto marcado por
estigma, raiva, isolamento e, em doses brutais e irracionais, culpa de quem é
diretamente envolvido com vítimas de mortes não naturais do gênero. “Eu buscava
respostas, eu buscava culpados, eu me culpava, eu me punia, mesmo sem entender
o porquê”, afirma. “Durante o velório, colegas também me relataram que ele
falava, que se perdesse novamente, ele iria fazer isso, porque ele não
suportava mais”, lembra. Mas a resposta nunca lhe pareceu suficiente.
“Eu
cheguei a me culpar por não ter dado para o meu filho [o que ele precisava],
porque eu não tinha conhecimento da dimensão do problema. Eu achava que fosse
apenas uma má vontade. Uma falta de interesse dele em sair do vício. Então, eu
entendo hoje que não é. Que isso é mais grave do que a gente pensa. Que é
sério, que é um vício, que precisa de ajuda, precisa de tratamento”, conta a
professora.
Vânia
foi atrás de acesso às senhas, às contas, anotações… Todas as pistas que a
permitissem dar algum senso de lógica ao episódio. Abrir essa caixa de Pandora
permitiu que a professora experimentasse parte do cotidiano do filho.
“No
e-mail dele, eram, assim, dezenas de publicidades chegando todos os dias, nas
redes sociais dele também o tempo todo, muita propaganda, influencers, gente de
toda forma tentando aliciar”, descreve. “Eu vi a pressão que ele sofreu”,
resume. A revolta se traduziu numa missão de responsabilizar quem acredita ter
contribuído para a morte de Rafael.
Vânia
procurou primeiro a Polícia Civil de Minas Gerais, mas esbarrou num quesito
básico: a falta de “provas”. “[A polícia] me recebeu, assim, com bastante
indiferença. Por ser um auto-extermínio [se] pressupõe que não há uma pessoa
que tenha diretamente contribuído para a morte”, conta. Insatisfeita, foi ao
Ministério Público, tanto nas promotorias criminal e do consumidor, mas o
desfecho foi semelhante.
“Outro
dia recebi a resposta, que o processo iria ser arquivado, porque nada ficou
comprovado”, afirma. “Eu percebo assim, que é uma coisa que, sozinha, eu não
vou conseguir nunca. O que eu quero? Eu quero que isso, de alguma forma, ajude
evitar que isso venha a acontecer com outras pessoas, porque está acontecendo.
Não dá para fechar os olhos e achar que não está.”
A carta
ao Senado, escrita por Vânia, foi um apelo para que histórias como a de Rafael
não passassem batida. “Ele era bombardeado o tempo todo com propagandas desses
jogos que são cassinos online tais como: Blaze, Tropa do Luva Oficial, Playpix,
Bet 7k, Poker Novinet, Parimatch, Jogapix, Sports Bet.io”, escreveu a
professora, antes de elencar uma série de influenciadores que conseguiu
identificar terem impactado a conta do filho.
Acho
uma tremenda hipocrisia quando a gente vê sendo veiculado, por exemplo, na TV,
propagandas de bets, pedindo para que as pessoas joguem com responsabilidade. A
pessoa que está viciada, ela não tem esse domínio, do que seja responsabilidade
ou do que não seja. É um vício. Então, falar, ‘jogar com responsabilidade’,
isso aí não basta”, reclama, pedindo por legislação mais rigorosa.
A
professora de Uberlândia quer justiça, mas nem sempre há força para lutar. “O
luto é cheio de altos e baixos, né? Tem dia que eu estou menos mal, tem dia que
eu estou péssima, mas não me resta alternativa a não ser continuar a vida”,
afirmou à Pública, sobre a motivação para seguir os dias sem Rafael. “Eu
comecei a ser sepultada naquele dia, né? Tenho mais duas filhas, mas um pedaço
meu já está sepultado”.
Enquanto
não há definição sobre a possibilidade de proibir as bets no país ou do papel
dos influenciadores no incentivo aos jogos de azar, a discussão segue em
suspenso. Da mesma forma é a sensação do luto da mãe que quer
responsabilizações, que, como no caso de Vânia, atinge um não-lugar em que o
tempo é relativo. Do alto de seu apartamento, de onde conversa com a
reportagem, ela fala como se acostumou a aguardar por dias diferentes e
respostas outras.
“Minha
filha criou um álbum [de fotos de Rafael]. Parece que ficou lindo. Me entregou
há mais de um ano. Eu não tive coragem de abrir até hoje. Eu falei para ela que
um dia eu vou abrir, mas por enquanto não. Porque eu sei que se eu abrir,
começar a folhear, eu vou ver situações que nós vivemos e que nunca mais vamos
viver mais. E aí, eu sei que isso vai me baquear”, se emociona, na residência
da família, em que Rafael ainda habita no quarto ainda dele. “O psicólogo pediu
que eu desfizesse, mas eu não tenho coragem. Está do mesmo jeito”.
Mas
nada mais será igual.
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Proteção que se passa adiante
Vânia
de Souza Borges, aos 54 anos, segue atuando como professora de adolescentes.
Para encarar os dias após a perda, diz, faz acompanhamento médico, recorre a
medicação contra depressão e faz questão de contar a história de sua família
como forma de impedir que o roteiro se torne ainda mais comum do que tem
testemunhado em grupos de apoio.
“Eu,
sendo professora, educadora, eu tenho conversado muito com meus alunos, dentro
do possível, tentado esclarecer, tentado sempre conversar, alertar, mostrar,
né? Às vezes, uma pessoa de fora falando, eles escutam muito mais do que os
próprios pais”, fala, lembrando da própria experiência.
“Eu
lido com adolescentes. Então, numa faixa etária, assim, que eu sei que também é
muito propícia para entrar nesse tipo de vício, então eu tenho tentado dessa
forma”, alerta, na esperança de que o trabalho individual, por menor que seja,
faça a diferença diante do coletivo, visando a segurança de famílias dos mais
diversos tipos espalhadas pelo país, uma missão que tomou para si, em busca de
sentido.
“Eu vou
fazer Justiça. Como eu falei, meu filho não volta, mas existem os outros filhos
ainda, filhos de outras pessoas que eu não gostaria que isso tivesse
acontecido”, conclui. A professora não quer que outras mães sejam Vânia. Porque
Vânia poderia ser adjetivo: aquela que sobrevive ao nadar contra a maré.
Fonte:
Por Ed Wanderley e Thiago Domenici, da Agencia Pública

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