quarta-feira, 8 de julho de 2026

Enquanto Flávio oferece o Pix a Washington, Planalto desenha “mapa do caminho” para blindar o Brasil do tarifaço

A poucos dias do prazo final para a decisão de Donald Trump sobre a aplicação de uma tarifa de 25% contra produtos brasileiros, o governo Lula (PT) apresentou aos Estados Unidos uma proposta concreta para tentar destravar a negociação: reduzir alíquotas de importação em setores dominados por empresas americanas — como máquinas, equipamentos de saúde e tecnologia da informação — em troca de uma solução diplomática que evite a sobretaxa. É a aposta mais robusta do Planalto até aqui, batizada internamente de “mapa do caminho”.

<><> O que está sobre a mesa

O pacote brasileiro foi desenhado para responder, ponto a ponto, aos seis eixos levantados pela investigação comercial aberta pelos Estados Unidos com base na Seção 301 da legislação americana — o mesmo instrumento jurídico usado para justificar tarifas retaliatórias em disputas comerciais. As propostas cobrem comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, proteção à propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal. A ideia é oferecer compromissos concretos o suficiente para permitir aos dois governos avançar para um acordo antes de 15 de julho, quando vence o prazo para a decisão final de Trump.

Há, porém, uma linha que o governo brasileiro se recusa a cruzar: o Pix. O sistema de pagamentos instantâneos foi um dos alvos centrais da investigação americana, que o trata como concorrência desleal contra operadoras de cartão de crédito como Visa e Mastercard. O Planalto já sinalizou que não há espaço de negociação sobre o funcionamento da ferramenta — um ponto que, como se verá adiante, se tornou também o epicentro da crise política doméstica em torno do tema.

O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Marcio Elias Rosa, deve ter uma nova rodada de conversas nos próximos dias com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer — o mesmo interlocutor que já vinha negociando diretamente com Brasília. A avaliação interna do governo, no entanto, é de cautela: mesmo com a proposta pronta, setores do Executivo trabalham com a hipótese de que Trump prefira não conceder a Lula uma vitória diplomática justamente num ano eleitoral brasileiro.

<><> O outro lado da mesa: quando o “interlocutor” é também o problema

É aqui que a novela ganha um capítulo à parte — e talvez o mais revelador de todos. Enquanto a diplomacia oficial brasileira tenta fechar um acordo técnico, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, decidiu montar sua própria operação paralela em Washington. Na quinta-feira (2), Flávio protocolou junto ao USTR um documento de 86 páginas pedindo a suspensão imediata do tarifaço e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias — prazo que, não por acaso, empurraria a definição para depois das eleições presidenciais de outubro.

O conteúdo do documento é o que transforma o episódio em escândalo, mais do que em manobra diplomática comum. Segundo reportagens que tiveram acesso à íntegra do texto, Flávio se apresenta ao governo americano como “figura proeminente da oposição” brasileira e defende publicamente os interesses das operadoras de cartão de crédito Visa e Mastercard, propondo restrições à expansão do Pix — sistema que ele próprio credita, no documento, à gestão de seu pai, Jair Bolsonaro, omitindo que o projeto foi concebido e desenvolvido pela equipe técnica do Banco Central antes mesmo de ser lançado, em novembro de 2020.

O senador foi além: anexou ao dossiê comercial um capítulo dedicado ao escândalo do Banco Master, classificando o caso perante autoridades americanas como a maior fraude bancária da história do país — expressão emprestada, ironicamente, do próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. No texto, Flávio cita nominalmente o ex-ministro Guido Mantega, o ex-presidente do STF Ricardo Lewandowski, o líder do governo no Senado Jaques Wagner e o próprio Lula, tentando construir, para um público estrangeiro, uma narrativa que associa o escândalo financeiro à cúpula do Judiciário e do governo federal brasileiros.

<><> A confissão que virou munição para Lula

O ponto mais explosivo do documento, porém, é o argumento central usado por Flávio para justificar o pedido de adiamento: segundo ele, a manutenção das tarifas representaria uma “vitória política” para Lula, e por isso a decisão deveria ser empurrada para depois do pleito. Na prática, é uma admissão pública, feita a um governo estrangeiro, de que o próprio tarifaço — cuja escalada contou com participação ativa de aliados do senador em Washington, incluindo seu irmão Eduardo Bolsonaro e o influenciador Paulo Figueiredo — está corroendo sua candidatura e ampliando sua rejeição entre o eleitorado do agronegócio e da indústria.

A reação de Lula veio rápido e dura. Em publicação nas redes sociais, o presidente classificou a postura da família Bolsonaro como submissão aos interesses americanos e chamou o pedido de adiamento de “atitude de traidores da Pátria”. Até aliados do próprio Flávio já reconhecem, em avaliações repassadas à imprensa, que a carta foi um “tiro no pé”: fala para o eleitorado já convertido ao bolsonarismo, mas arrisca afastar setores independentes — justamente o público que uma pré-candidatura presidencial precisa conquistar.

<><> O cálculo eleitoral por trás de cada gesto

O episódio ilustra um padrão que vem se repetindo desde que o tarifaço entrou na pauta: cada lado tenta transformar a decisão americana em capital político para outubro. Auxiliares de Lula já trabalham com o cenário de que, caso as tarifas não sejam aplicadas, Flávio tentará capitalizar o resultado como fruto de sua interlocução pessoal com a Casa Branca — onde já se reuniu com Trump, o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio. Do outro lado, o Planalto aposta em associar o adversário a uma agenda de subserviência externa, num movimento que a colunista Eliane Cantanhêde resumiu como uma aposta do senador em que o critério não é se a medida é boa ou ruim para o Brasil, mas se é boa ou ruim para sua própria candidatura.

Resta saber qual dos dois roteiros vai prevalecer até 15 de julho — e se o “mapa do caminho” desenhado pela diplomacia brasileira será suficiente para evitar que a decisão final de Trump seja lida, em Brasília, como mais um capítulo da disputa presidencial que já começou, na prática, muito antes das urnas.

•        Viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA revela contradição ao tratar de tarifaço contra o Brasil

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) embarcou para Washington para participar de uma audiência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre um possível tarifaço contra produtos brasileiros. O movimento, que desloca a pré-campanha do terreno doméstico para o front comercial externo, expõe uma contradição incômoda: em vez de defender os interesses do país, o senador parece disposto a prestigiar uma pauta cara a aliados em Washington. Não há nada de patriótico em colocar holofotes estrangeiros acima da indústria e do emprego brasileiros.

De acordo com o roteiro divulgado, o parlamentar chegou à capital americana no sábado e será um dos expositores no segundo e último dia de debates sobre a possível imposição de uma tarifa adicional de 25% a bens do Brasil. Trata-se de uma audiência pública organizada pelo USTR, órgão responsável pela investigação comercial aberta contra o país. A mera presença de um senador brasileiro nesse palco, sem mandato institucional claro, já é um recado: a plateia principal não está em Brasília, mas em Washington.

O impacto potencial de uma sobretaxa dessa magnitude não é detalhe técnico. Levantamentos oficiais de comércio exterior mostram que os Estados Unidos foram, em 2023, o segundo maior destino das exportações brasileiras, compondo parcela relevante da pauta nacional. Um tarifaço de 25% contra produtos do Brasil atingiria setores-chave e cadeias produtivas integradas, com efeito dominó sobre faturamento, renda e postos de trabalho no país. A aritmética é simples: barreira lá fora, prejuízo aqui dentro.

O dano não pararia no fluxo comercial. Estatísticas do Banco Central do Brasil apontam os Estados Unidos como uma das principais origens do investimento direto no país, capital decisivo para expansão de capacidade, inovação e contratações. Ao alimentar um ambiente de hostilidade tarifária, a mensagem enviada a investidores é a pior possível: instabilidade política convertida em risco econômico. Se a conta vier, não serão os aliados de Washington a pagá-la, mas o trabalhador brasileiro.

Há ainda o ponto institucional, que não é menor. A Constituição Federal, no artigo 84, estabelece que a condução da política externa é prerrogativa do Presidente da República, com a execução diplomática a cargo do Ministério das Relações Exteriores. Não há registro público de que o Itamaraty tenha delegado a Flávio um mandato oficial para negociar ou falar em nome do Brasil numa audiência desse porte. Quando um senador atua fora desse marco, o que se vê é improviso de paradiplomacia pessoal, não defesa da soberania.

O USTR vende suas iniciativas como defesa de equilíbrio concorrencial, mas a prática é bem menos romântica: sanções comerciais seletivas têm sido usadas para pressionar países do Sul Global a alinhar agendas à conveniência de Washington. Ao se apresentar como expositor numa audiência que discute sobretaxar o Brasil, Flávio escolhe a cena em que o país é colocado no banco dos réus. Em vez de construir pontes comerciais, legitima o tribunal que mira nossa pauta exportadora.

Do ponto de vista econômico, o momento exige o oposto: previsibilidade regulatória, abertura de mercados e defesa ativa do parque produtivo nacional. Dados recentes do comércio exterior e do fluxo de investimentos mostram que relações equilibradas com os EUA interessam ao Brasil quando pautadas por respeito e simetria. Sobretaxas punitivas só ampliam a desigualdade entre países e elevam o custo de quem produz aqui, corroendo margens e desestimulando novos projetos.

Do ponto de vista político, a escolha é didática. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado a importância de uma inserção internacional soberana, com diversificação de parceiros e reforço de cadeias regionais. O Itamaraty trabalha nesse eixo, com diálogo técnico e defesa firme do interesse nacional. Ao preferir a vitrine de uma audiência organizada pelo governo dos EUA, Flávio caminha na direção contrária, alimentando a narrativa de que o Brasil deve aceitar pressões unilaterais em vez de negociar de igual para igual.

No fim, a questão é menos de agenda eleitoral e mais de prioridade de país. Um senador pode usar um voo internacional para duas coisas: defender quem produz no Brasil ou posar para aliados que veem vantagem em encarecer o que exportamos. A audiência do USTR servirá como prova dos nove. O Brasil precisa de soberania comercial, não de aval político a tarifaços ditados em Washington.

•        O “efeito Flávio”: aliados de Bolsonaro que ajudaram a criar o tarifaço agora dizem que vão depor contra ele em Washington

Empresários brasileiros que participam nesta segunda e terça-feira (6 e 7) da audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre o tarifaço de 25% contra produtos brasileiros demonstram apreensão com um fator que foge ao seu controle: a presença, na mesma audiência, do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e do influenciador Paulo Figueiredo. Representantes do setor privado avaliam que declarações dos dois podem politizar ainda mais o debate e dificultar as negociações com o governo de Donald Trump, segundo apurou a coluna Painel, da Folha de S.Paulo.

<><> A ironia no centro do episódio

Há uma camada de ironia que a preocupação dos empresários deixa escapar, mas que o histórico recente do caso escancara: tanto Flávio quanto Figueiredo — que agora se apresentarão à audiência do USTR para defender formalmente a retirada das tarifas — estão entre os principais articuladores da ofensiva que resultou na abertura da própria investigação comercial contra o Brasil. Ao lado do irmão, o ex-deputado cassado Eduardo Bolsonaro, o grupo atua desde 2025 em Washington por medidas de pressão contra autoridades brasileiras, incluindo sanções da Lei Magnitsky contra ministros do Supremo Tribunal Federal e revogação de vistos — a mesma escalada que desaguou no tarifaço que agora dizem querer reverter.

Paulo Figueiredo, inclusive, vai além do discurso anti-tarifa nesta audiência: segundo apuração da Folha, ele pretende defender publicamente a Trump que a sobretaxa de 25% seja substituída por sanções individuais contra autoridades do Judiciário brasileiro — nomeadamente contra o ministro Alexandre de Moraes, com possibilidade de extensão a outros magistrados do STF.

<><> Um documento de 86 páginas — e um pedido bastante específico

Flávio chegou a Washington neste domingo (5) depois de protocolar, na quinta-feira (2), um documento de 86 páginas ao USTR pedindo a suspensão imediata da tarifa e o adiamento de qualquer decisão por 180 dias — prazo que empurraria a definição para depois das eleições presidenciais brasileiras de outubro. O argumento central do senador, pré-candidato do PL à Presidência, é que a sobretaxa daria ao governo Lula exatamente a vitória política que busca, penalizando ao mesmo tempo a economia americana e brasileiros interessados numa relação comercial equilibrada com os Estados Unidos.

O presidente Lula já rebateu publicamente a movimentação, classificando a postura dos Bolsonaro como entreguista e de submissão aos interesses dos Estados Unidos. O Itamaraty foi na mesma linha, em nota na qual chamou o grupo de “traidores da Pátria” e atribuiu a origem do tarifaço a uma tentativa de interferência externa na Justiça brasileira.

<>< O que está em disputa na audiência

O relatório final da investigação comercial dos EUA — baseada na Seção 301 da legislação americana e que questiona políticas brasileiras que vão do Pix a acordos comerciais, passando por combate à corrupção, proteção de propriedade intelectual e desmatamento — deve ser publicado até 15 de julho. As audiências desta semana, realizadas na Comissão de Comércio Internacional dos EUA e organizadas em 14 painéis, reúnem mais de 80 interessados, incluindo entidades como a Associação Brasileira da Indústria do Arroz, o Conselho dos Exportadores de Café e representantes dos setores de etanol e cana-de-açúcar.

A estratégia desses setores é apresentar às autoridades americanas um argumento essencialmente econômico: o de que a tarifa não resolve disputas comerciais genuínas e ainda pressiona a própria inflação americana, ao encarecer insumos e produtos — do café solúvel ao etanol de milho — dos quais cadeias produtivas dos Estados Unidos dependem. Os empresários também pretendem sinalizar abertura para negociação em áreas como etanol, minerais críticos, segurança energética e propriedade intelectual, como alternativa à manutenção das tarifas.

É nesse ambiente technocrático, construído com meses de articulação e dados setoriais, que a preocupação com o “efeito Flávio” ganha sentido: qualquer desvio do discurso técnico para a disputa político-eleitoral brasileira — que é justamente o terreno em que Flávio e Figueiredo têm atuado desde o início — ameaça turvar, aos olhos do USTR, argumentos que o setor produtivo vem tentando apresentar como pragmáticos e não-partidários.

<><> Um objetivo pouco disfarçado

Segundo apuração da CNN Brasil, o cálculo político por trás da ofensiva de Flávio é duplo: primeiro, impedir a aplicação da tarifa adicional; segundo — e mais relevante para sua pré-campanha —, obter algum reconhecimento público de que a manutenção das tarifas não teria relação com sua própria atuação em Washington, dissociando seu nome do episódio que o next candidato petista já sinaliza explorar eleitoralmente. A ida de Flávio aos EUA em junho, aliás, coincidiu com a própria aplicação das tarifas — o que analistas já classificaram como um desgaste maior do que o benefício político colhido.

O governo brasileiro optou por não se pronunciar formalmente na audiência desta semana: o Ministério das Relações Exteriores decidiu concentrar sua atuação em canais diplomáticos diretos com Washington, mantendo apenas diplomatas da embaixada como observadores das sessões — numa tentativa clara de não emprestar palco institucional a um debate que, cada vez mais, corre o risco de ser sequestrado pela disputa eleitoral brasileira de 2026.

 

Fonte: O Cafezinho

 

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