Paulo
Kliass: Por um teto para os juros
O Banco
Central (BC) divulgou na semana passada seu relatório mensal contendo as
Estatísticas Fiscais do governo. Como sempre acontece nestes momentos, as
informações receberam pouco destaque por parte dos comentaristas e analistas
vinculados ao sistema financeiro. Afinal, ali estavam presentes os dados que
escancaram a verdadeira “gastança” do governo federal. Enquanto boa parte dos
especialistas em finanças públicas ocupa seu precioso tempo em criticar as
chamadas “pautas bombas” em vias de aprovação pelo Congresso Nacional, não se
encontra um único comentário a respeito da conta orçamentária mais deficitária
de todas.
Refiro-me
às despesas financeiras, em especial aquelas relativas ao pagamento de juros
aos detentores de títulos da dívida pública federal. Ao longo do mês de maio,
foram gastos R$ 108 bilhões para esse fim. Isso corresponde a R$ 4,3 bi que
foram desviados do orçamento da União a cada dia útil daquele mês. Uma loucura!
Trata-se do dispêndio mais parasita de todos, que não promove nenhuma atividade
econômica produtiva e não emprega ninguém. Mas contra ele não se levantam as
vozes que exigem austeridade fiscal a todo custo e responsabilidade férrea no
controle do gasto governamental.
Esse
montante representa mais um triste recorde em termos de política econômica do
governo. Nunca antes um valor de tal magnitude havia sido registrado no quinto
mês do calendário nos anos anteriores. Em maio de 2025, por exemplo, os gastos
com pagamento de juros haviam alcançado a marca de R$ 92 bi. Ou seja, ao
contrário de todo o esforço empreendido pela área econômica do governo por
compressão das demais despesas primárias, os dispêndios financeiros observaram
um crescimento de 17% de um maio para o outro. Caso o enfoque recaia sobre o
acumulado dos cinco primeiros meses, neste ano as estatísticas nos informam um
total de R$ 459 bi. Isso representa um aumento de 29% sobre os R$ 356 bi
ocorridos no período de janeiro a maio do ano passado. É importante ressaltar
que nenhuma outra conta do Orçamento foi contemplada com tal elevação.
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Juros intocáveis e crescentes
Com a
divulgação das informações relativas a maio, o Brasil segue mantendo um patamar
superior a R$ 1 trilhão em 12 meses para as despesas com juros da dívida
pública. A virada trilionária deu-se a partir de dezembro do ano passado e,
desde então, o total vem crescendo a cada novo período de 30 dias incorporado
ao fluxo anual. Atualmente, o total é de R$ 1,11 tri.
De
acordo com a série histórica apresentada pelo Tesouro Nacional, desde que os
valores relativos à despesa com juros na contabilidade do governo federal
passaram a ser apurados de forma sistemática em janeiro de 1997, o total
atingiu a marca impressionante de R$ 13 tri. Ocorre que esse montante vem
crescendo de forma acentuada ao longo dos últimos anos. Assim, por exemplo,
apenas durante o período do terceiro mandato do presidente Lula, os juros
acumulados de janeiro de 2023 a maio de 2026 já atingiram R$ 3 tri. Ou seja,
apenas durante os 41 meses decorridos, os gastos com juros representaram 24% de
tudo aquilo que foi dispendido a esse título em 353 meses de todo o período.
Essa
informação pode ser bem entendida quando se compara a evolução da participação
percentual das despesas com juros sobre o Produto Interno Bruto (PIB). A
aceleração do gasto com juros é evidente: o período de 1997 a 2022 apresenta
uma média anual de 4,3%, ao passo que o primeiro triênio do terceiro mandato de
Lula registra 6,6%. Essa variável deve continuar oferecendo uma tendência de
alta, uma vez que 2024 foi de 7,3% e 2025 atingiu 7%, ambas representando os
maiores valores de toda a série histórica.
Essa
evolução meteórica das despesas com juros ocorre, dentre outros fatores, em
função do crescimento da taxa referencial de juros. A manutenção da Selic em
níveis estratosféricos opera como um dos principais causadores de tal volume
crescente com pagamento de juros. Por outro lado, a utilização da metodologia
do “primário” e as regras da austeridade fiscal comprimem as despesas
não-financeiras e liberam as financeiras. Assim, caso estivessem valendo para
os juros as mesmas condições previstas no Teto do Temer e no Teto do Haddad
(“carinhosamente” chamado de Arcabouço Fiscal), o montante de juros pagos em
2025, por exemplo, deveria ser bem menor do que o trilhão realizado. Se as
despesas de juros crescessem na mesma proporção das despesas totais do orçamento,
esse total deveria ser de “apenas” R$ 650 bi.
Esse
exercício serve como argumento para demonstrar a necessidade de se estabelecer
um teto para os juros. A metodologia poderia ser de um limite máximo para o
total de gastos com juros da dívida, seja como proporção do PIB, seja como
fator de crescimento de um exercício para outro. Afinal, não faz sentido o
governo comprimir as despesas com saúde, previdência social, educação,
segurança pública, assistência social e tantas outras, ao mesmo tempo em que
deixa livre o crescimento das despesas financeiras.
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É necessário limitar os juros
Por
outro lado, é necessário estabelecer um limite para os juros como variável
utilizada em operações de crédito, empréstimo, financiamento e tantas outras
existentes no mercado financeiro. O texto original da Constituição Federal de
1988 estabelecia em seu art. 192 um máximo de 12% para a taxa real de juros.
Aqui está a redação original do § 3º do referido artigo:
(…) “As
taxas de juros reais, nelas incluídas comissões e quaisquer outras remunerações
direta ou indiretamente referidas à concessão de crédito, não poderão ser
superiores a doze por cento ao ano; a cobrança acima deste limite será
conceituada como crime de usura, punido, em todas as suas modalidades, nos
termos que a lei determinar.” (…)
O
disposto no parágrafo nunca foi respeitado pelo sistema bancário e financeiro,
uma vez que o próprio artigo determinava a necessidade de uma lei complementar
para organizar as bases do mercado financeiro. Mas antes mesmo que essa lei
fosse aprovada, o governo Fernando Henrique encaminhou ao legislativo uma
Proposta de Emenda Constitucional (PEC 21 /1997) que foi aprovada e gerou a
Emenda Constitucional nº 40, promulgada em 2003. A nova norma revogou o
dispositivo do limite de juros e liberou completamente a definição das taxas
por parte dos bancos e demais instituições financeiras. Além disso, o BC nunca
cumpriu sua missão de órgão regulador e fiscalizador do sistema para impor
limites e sanções à prática de spreads abusivos.
Assim,
a definição de um limite para a taxa de juros pode ocorrer por um novo
dispositivo legal e/ou constitucional. No entanto, a sociedade brasileira não
precisa aguardar que o Congresso Nacional aprove alguma medida para um novo
limite entrar em vigor. Para tanto, bastaria que o BC exercesse sua função
precípua e estabelecesse limites para os spreads nas operações de crédito. Além
disso, seria importante que o governo federal utilizasse os bancos públicos, a
exemplo do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal, para implementar tal
prática. Com isso, o oligopólio da banca privada seria obrigado, por uma
questão de concorrência, a reduzir também as suas taxas para os clientes.
• Quem ganha com os juros altos? Por
Maurício Luperi
Em
artigo anterior utilizei a metáfora de um médico que receita sempre o mesmo
remédio para doenças diferentes.
Independentemente
da origem da inflação, a resposta parecia ser sempre a mesma: elevar a taxa
Selic.
Mas
essa constatação conduz naturalmente a uma segunda pergunta.
Se o
Brasil convive há décadas com uma das maiores taxas reais de juros do mundo,
quem se beneficia dessa situação?
Responder
a essa pergunta exige abandonar uma visão excessivamente simplificada da
economia.
Durante
muito tempo, o debate monetário brasileiro concentrou-se quase exclusivamente
na discussão entre inflação e juros.
Pouco
se discutiu sobre os efeitos distributivos da política monetária.
No
entanto, juros não apenas controlam a demanda agregada.
Eles
também redistribuem renda.
Toda
elevação da taxa Selic modifica a remuneração relativa de diferentes grupos
econômicos.
Aumenta
o custo do crédito para famílias e empresas.
Desestimula
investimentos produtivos.
Reduz o
consumo financiado.
Mas,
simultaneamente, amplia a remuneração dos ativos financeiros indexados à taxa
básica de juros.
Essa
dupla natureza da política monetária costuma receber pouca atenção.
Nas
últimas décadas, diversos economistas procuraram compreender esse fenômeno.
Hyman
Minsky mostrou como o sistema financeiro adquire crescente influência sobre o
funcionamento das economias capitalistas.
François
Chesnais descreveu a mundialização financeira como uma nova etapa do
capitalismo.
Gerald
Epstein definiu a financeirização como um processo no qual mercados,
instituições e motivações financeiras passam a exercer influência crescente
sobre a economia.
Engelbert
Stockhammer caracterizou esse processo como um regime de acumulação sob
dominância financeira.
Costas
Lapavitsas mostrou como parte crescente dos lucros passou a ser obtida por
mecanismos financeiros, e não diretamente pela produção.
Esses
autores ajudam a compreender uma transformação mundial.
Mas o
caso brasileiro apresenta uma particularidade.
Em
muitas economias desenvolvidas, a financeirização ocorre principalmente por
meio dos mercados de capitais, da valorização dos ativos privados e da expansão
do crédito.
No
Brasil, entretanto, a própria política monetária tornou-se um dos principais
mecanismos de remuneração da riqueza financeira.
Quando
a Selic aumenta, aumentam também os rendimentos dos títulos públicos, das
aplicações indexadas ao CDI, dos fundos de renda fixa e de diversos
instrumentos financeiros.
Naturalmente,
isso cria incentivos para que diferentes agentes econômicos prefiram um
ambiente de juros elevados.
Entre
esses agentes encontram-se bancos comerciais, bancos de investimento, gestoras
de recursos, fundos de pensão, seguradoras, investidores institucionais, fundos
multimercados, family offices, investidores estrangeiros posicionados em renda
fixa e até mesmo tesourarias de grandes empresas, que frequentemente destinam
parte significativa de seus recursos às aplicações financeiras.
É
importante deixar claro que isso não significa a existência de qualquer
conspiração.
Esses
agentes apenas respondem aos incentivos criados pelas regras do próprio sistema
econômico.
O
problema, portanto, não está nas escolhas individuais.
Está na
forma como as instituições organizam esses incentivos.
Quanto
maior a remuneração proporcionada pelos ativos financeiros, menor tende a ser a
atratividade relativa do investimento produtivo.
Empresas
adiam projetos.
Famílias
reduzem o consumo financiado.
O custo
do capital aumenta.
O
crescimento potencial diminui.
A
própria arrecadação futura do Estado tende a ser afetada pelo menor dinamismo
da economia.
Existe
ainda outro aspecto frequentemente negligenciado.
Os
juros elevados não produzem apenas um conflito distributivo entre capital e
trabalho.
Produzem
também um conflito dentro do próprio capital.
Como
observa Marcelo Milan, empresas produtivas enfrentam aumento dos custos de
capital de giro, financiamento e investimento justamente quando instituições
financeiras ampliam seus ganhos com aplicações indexadas à Selic.
Dependendo
das condições de mercado, parte desses custos acaba sendo incorporada aos
preços.
Paradoxalmente,
uma política monetária excessivamente restritiva pode contribuir para elevar
determinados custos de produção.
Essa
observação aproxima-se das reflexões de José Luís Oreiro sobre os limites da
política monetária diante da inflação de custos e do chamado price puzzle,
fenômeno em que aumentos dos juros podem ser seguidos, ao menos
temporariamente, por elevação da inflação.
Se a
política monetária produz efeitos distributivos tão importantes, surge
inevitavelmente uma nova pergunta.
Como
interesses econômicos tão distintos acabam convergindo para uma política
monetária que se mantém relativamente estável ao longo de governos de
diferentes orientações políticas?
Responder
a essa questão exige olhar menos para os agentes econômicos e mais para as
instituições.
É
justamente esse o tema do próximo artigo.
Nele
discutirei como o regime de metas de inflação, o Relatório Focus, a comunicação
do COPOM, a cobertura da imprensa econômica e a produção das expectativas
ajudam a formar aquilo que proponho chamar de arquitetura institucional da
política monetária.
Mais do
que perguntar quem ganha com os juros elevados, será preciso compreender como
essa engrenagem funciona.
Fonte:
Outras Palavras/Jornal GGN

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