A
economia solidária e o programa de governo da esquerda
No
artigo “O programa de governo, as “novas economias” e a economia solidária”
comentei como se deu a participação de integrantes do movimento da economia
solidária convidados para participar do GT que trabalhou sobre o 13º e último
ponto do Programa da esquerda cujo enunciado é: “Precisamos fortalecer a
economia que conhecemos, mas também desenvolver novas economias, ampliando
oportunidades para todos e todas”.
Nele,
iniciei com um breve retrospecto da trajetória do movimento de economia
solidária. Mencionei as diferenças que ela apresenta em relação às outras
“novas economias”, destaquei suas vantagens comparativas nos planos econômico
da gestão pública, macroeconômico, social, ambiental, político de curto e longo
prazos, e salientei que para que as redes solidárias possam atender demandas
estatais de cada vez maior intensidade cognitiva será necessária uma
complementação das políticas de reindustrialização empresarial (como a NIB)
mediante uma política de Reindustrialização Solidária como a que há anos vem
sendo proposta pelo movimento de economia solidária.
Depois
de apresentar essa problemática, sugeri uma “solucionática” formulando um
esboço de política pública para a economia solidária.
Este
texto complementa o anterior indicando aspectos referentes ao rico processo
mediante o qual a esquerda elabora seus Planos de governo. Ele busca apontar a
natural tensão que se manifesta quando se trata de orientar a política
econômica para atender as necessidades da classe trabalhadora. E, em
particular, de explorar o potencial de arranjos emergentes como os enfeixados
sob a denominação “novas economias”. Com esse objetivo, e correndo o risco de
que o que este relato possa ser interpretado como uma censurável indiscrição,
reproduzo a troca de mensagens que suscitou uma contribuição que postei no
grupo de WhatsApp do GT para nosso trabalho.
Minha
primeira postagem foi esta: “A ação do Estado no campo das “Novas Economias”
deve privilegiar a crescente alocação do seu poder de compra (estimado em 15%
do PIB) à aquisição de bens e serviços (hoje limitada a 0,02% do PIB) das redes
de produção, consumo e finança da Economia Solidária.
As
conhecidas vantagens econômicas, sociais, ambientais e políticas que apresentam
em relação às redes empresariais, derivadas de seus atributos de autogestão e
propriedade coletiva dos meios de produção, demanda que a política de
Reindustrialização Solidária, orientada a complementar a NIB, seja prontamente
implementada.
O que
implica, desde a viabilização do atendimento à encomenda estatal dos bens e
serviços que as redes solidárias podem imediatamente proporcionar à população,
até medidas de política cognitiva que favoreçam agendas públicas de ensino,
pesquisa e extensão capazes de reprojetar a tecnociência capitalista, produzida
para e pelas empresas e inadequadas para sua operação, na direção de uma
Tecnociência solidária que dê conta dos múltiplos desafios de nosso projeto
político”.
Ela foi
logo comentada por um(a) de seus integrantes como segue: “Prezado(a)s: chamo a
atenção de que não estamos fazendo um programa de governo de esquerda e nem
muito menos de um governo que queira “questionar as raízes desse sistema e
advogar seu atributo civilizacional da autogestão, que possibilitará aos serres
humanos utilizar sua capacidade intelectual que ele desperdiça, e a propriedade
coletiva dos meios de produção como condição de sua materialização”. Estamos
fazendo um programa de governo de partidos de centro-esquerda (PT, PV, PSOL,
PDT, Rede, PSB e PC do B) em alianças regionais com segmentos mais à direita do
espectro político”.
“Nossas
formulações, portanto, não devem partir de pressupostos de transformação
revolucionária da sociedade. Estamos fazendo um programa de governo que induza
mudanças e caminhe para transformações. A economia solidária deve ser vista
nesse contexto de convivência com a acumulação capitalista. Para criar o Fundo
Nacional de Economia Solidária (FNAES) é preciso passar por aprovação do
Congresso, que já não o aprovou em 2024. Precisamos avançar em novas
proposições de politicas para estimular a economia solidária, ainda que não
consigamos atingir o seu caráter de superar do sistema capitalista”.
Minha
observação a esse comentário, escrita com a intenção de esclarecer minha
opinião, foi a seguinte: Em relação ao seu comentário, ressalto que a ninguém
ocorreria negar que o que precisamos é uma frente, com as características que
todos conhecemos e você corretamente ressaltou, para ganhar uma eleição. Isso,
entretanto, não implica que a esquerda perca de vista seus objetivos
estratégicos de construir um futuro para todos. E que ele deva estar baseado em
princípios como os que defende a Economia Solidária, da autogestão e de que
para que, ela se viabilize, da propriedade coletiva dos meios de produção.
Muito
menos implica que, no âmbito desta frente deixemos de franquear espaço de fala
para partidos, grupos, organizações, pessoas etc.,. que tensionem, como é
salutar e politicamente correto que ocorra no âmbito da esquerda, defendendo
cursos de ação que questionem as raízes da problemática adversa que temos que
enfrentar e que, você tem toda razão, apresentar uma “solucionática“
politicamente viável dada a correlação de forças existente.
Em
relação ao que você indica, sinto-me obrigado a esclarecer, em primeiro lugar,
que o texto que postei pretende, justamente, nas suas palavras, ir “fazendo um
programa de governo que induza mudanças e caminhe para transformações.
Em
segundo lugar, que a literatura, discursos, pronunciamentos, produzidos pelo
movimento de economia solidária (e ofereço como testemunho o conjunto artigos e
livros que escrevi sobre o tema), salvo melhor juízo não nega sua afirmação de
que “a economia solidária deve ser vista nesse contexto de convivência com a
acumulação capitalista”.
Em
terceiro lugar, saliento que, se bem é certo que para criar o Fundo Nacional de
Economia Solidária (FNAES) é preciso passar por aprovação do Congresso, que já
não o aprovou em 2024”, nada impede e pelo contrário no meu entender exige, que
sigamos lutando por reverter a situação absurda em qualquer país civilizado de
criar uma política para algo sem prever a alocação de recursos por parte do
Estado para viabilizá-la.
Criar
as condições para alterar no Congresso as chances de aprovar leis que sejam
mais condizente com os valores e interesse da classe trabalhadora, como as
referentes à Economia Solidária é uma tarefa essencial daqueles que no âmbito
da frente que você aponta como hoje necessária pretendem alterar a correlação
de forças existente.
Lembro
a você, nesse sentido, que diversas proposições do plano de governo de Lula 1,
2 e 3 e de Dilma tiveram que passar por deliberação do Congresso Nacional antes
de se transformarem em políticas públicas. Cito, para que você entenda melhor o
que se propôs, três políticas públicas que, antes de serem políticas públicas,
eram proposições de programas de governo. O Bolsa Família foi criado por MP (MP
132/2003) e convertida na Lei 10.836/2024. O Programa Minha Casa Minha Vida foi
organizado pela Lei 11.977/2009. A medida que “zerou” o IRPF para contribuintes
com vencimentos de até cinco salários mínimos foi estabelecida por meio da Lei
15.270/2025.
Ainda
em referência a sua colocação de que “Para criar o Fundo Nacional de Economia
Solidária (FNAES) é preciso passar por aprovação do Congresso, que já não o
aprovou em 2024” lembro a você que a proposta de criação do FNAES veio sendo
aceita por todas as comissões pelas quais tramitou o PL 6606/2019. E que só
depois de sucessivamente aprovado o dispositivo foi suprimido pelo substitutivo
por meio de acordo do governo (área econômica) com os opositores contrários não
ao FNAES, em particular, mas à Economia Solidária como um todo. Isso por que
também eles sabem que uma política pública sem um fundo financeiro não existe
na prática.
Para
que fique ainda mais claro, relembro que o governo Lula-1 criou a Política
Nacional de Desenvolvimento Regional (PNDR), por meio do decreto 6047/2007, com
a previsão de criação concomitante do FNDR. Ocorre que o FNDR jamais foi criado
e, consequentemente, a PNDR também nunca existiu efetivamente. Uma forma de
restar relevância à Política Nacional de Economia Solidária criada foi,
justamente, não criar o FNAES.
Em
quarto lugar, ressalto que é justamente por que “Precisamos avançar em novas
proposições de políticas para estimular a Economia Solidária, ainda que não
consigamos atingir o seu caráter de superar do sistema capitalista” que temos
que em primeiro lugar identificar, dentre as “novas economias” e no âmbito da
“economia que conhecemos” aquelas brechas que podem, com a velocidade que nós,
da esquerda, consigamos imprimir a essas mudanças, aquelas que podem ser
alargadas.
Esperando
contar com a sua atenção ao que escrevi acima, e estendendo o convite às demais
companheiras e companheiros que contribuam para o debate externando suas
considerações, envio meu abraço solidário.
Lamentavelmente,
o debate que se iniciava não prosseguiu. Para mim ele foi proveitoso. Foi a
partir das ideias nele contidas que escrevi sobre as vantagens comparativas das
redes solidárias de produção, consumo e finança, sobre a oportunidade da
Reindustrialização Solidária esbocei política pública para a economia solidária
no artigo recém-publicado.
Afinal,
qual a moral desta história? A primeira, específica, é que a posição que deve
ocupar a economia solidária no programa de governo, possa seguir sendo
discutida de maneira fundamentada e sem pré-conceitos. A segunda, genérica,
para militantes e simpatizantes da esquerda focados em áreas de política
pública onde ocorrem situações análogas. Devemos cuidar para que essa maneira
conserve nossa atitude de buscar as raízes dos problemas que enfrentamos.
Essa
radicalidade é essencial para que nossas agendas programáticas não sejam
prematuramente rebaixadas na busca de apoios políticos pouco eficazes e para
que não percamos nosso objetivo estratégico.
Fonte:
Por Renato Dagnino, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário