Quem
são os indígenas que buscam regulamentar a mineração de ouro e diamante em suas
terras
Entre a
tentativa de controlar a exploração ilegal e o temor de novos impactos sociais
e ambientais, indígenas cinta larga estão divididos sobre a regulamentação da
mineração em suas terras — tema que chegou ao Supremo Tribunal Federal (STF).
"A
gente em uma terra tão rica, batendo na porta de instituições de uma forma
miserável", resume Gilmar Cinta Larga, presidente da Coordenação das
Organizações Indígenas do
Povo Cinta Larga (Patjamaaj).
O
território dos Cinta Larga, que totaliza 2,7 milhões de hectares na divisa
do Mato Grosso com Roraima,
fica em uma das maiores jazidas do mundo de kimberlito — rocha que forma diamantes —, segundo
relatório do Instituto Kanindé.
A área
se divide em quatro terras indígenas (TIs) principais: Roosevelt, Parque do
Aripuanã, Aripuanã e Serra Morena.
Segundo
informações da Agência Brasileira de Informação (Abin) citadas em um parecer
antropológico sobre os cinta larga realizado em 2016, US$ 20 milhões em
diamantes advindos da região saem de forma ilegal do Brasil todos os meses.
A
descoberta oficial dos diamantes na terra indígena ocorreu em 1999 e, no ano
seguinte, já havia garimpo por
não indígenas, o que intensificou os conflitos e a violência na região. Antes
desta descoberta, também já havia garimpo de ouro na região desde meados da
década de 1970.
Somada
a isso está a sensação de ausência do Estado em impedir a entrada do garimpo e
garantir fontes de renda para a população.
A
Patjamaaj abriu um processo no STF que
resultou na determinação do ministro Flávio Dino em fevereiro para que o
Congresso regulamente a mineração em terras indígenas em até dois anos.
A
determinação estabeleceu, ainda, condições provisórias para a atividade, desde
que autorizada pelas comunidades e com sua participação direta nos resultados
financeiros.
O
pedido da associação a Dino vai na direção contrária ao posicionamento de
outras organizações indígenas, como a Articulação dos Povos Indígenas
Brasileiros (Apib).
A
Constituição não impede que haja mineração em TIs, mas condiciona isso à
autorização do Congresso Nacional. Até o momento, no entanto, o Legislativo não
definiu as regras para a atividade. Diversos projetos de lei (PLs) surgiram com
o intuito de tratar do assunto, sem sucesso.
Antes
da decisão de Dino, o Senado já havia instituído um grupo de trabalho presidido
pela senadora Tereza Cristina (PP-MS) para regulamentar mineração, em abril de
2025.
No
pedido ao STF, a Patjamaaj argumenta que tem havido uma omissão legislativa que
resulta em conflitos violentos e na exploração ilegal dos recursos. Segundo o
advogado da associação, responsável pelo pedido ao STF, Marcio Welder Ferreira,
a presença das empresas mineradoras pode ajudar a coibir as atividades
ilícitas.
"Os
invasores entram onde a polícia não está", diz Ferreira.
"Quando
o particular entra e vai minerar, ele tem obrigações também. Então, ele vai
ajudar a vigiar, a monitorar, ele vai ajudar na segurança."
A
associação também aponta que as fazendas ao redor da TI contam com benefícios,
como crédito agrícola, enquanto os cinta larga não têm fonte de renda regular,
o que resulta em uma desigualdade que "perpetua um ciclo de pobreza e
dependência", segundo consta no pedido.
Com
supervisão estatal da regulamentação da mineração, seria possível promover
projetos de saúde, educação e sustentabilidade e diminuir a dependência de
políticas assistencialistas, argumenta a associação.
De
acordo com Gilmar Cinta Larga, a ideia é que o povo cinta larga monte sua
própria mineradora e não dependa de outras empresas. Para isso, uma
possibilidade é buscar financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES).
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Sem consenso
Ao
mesmo tempo, em reuniões realizadas pelo Ministério dos Povos Indígenas (MPI)
no território dos Cinta Larga entre 28 de setembro e 4 de outubro de 2025,
alguns dos participantes citaram experiências traumáticas trazidas pela
extração de recursos, o que também inclui retirada de madeira.
Eles
destacaram a necessidade de mais tempo para discutir as consequências da
mineração nas próximas gerações.
Algumas
lideranças cinta larga também se manifestaram contra qualquer tipo de
mineração, conforme relatório do MPI.
A Apib
emitiu uma nota em que apontava os riscos da decisão de Flávio Dino. A
organização argumenta que a determinação levou em consideração o pedido
"de apenas uma associação de um único povo indígena, isto é, sem consulta
adequada aos 391 povos indígenas do país para entender se, de fato, essa é uma
vontade unificada de nossos povos".
O
coordenador jurídico da Apib, Ricardo Terena, afirma que o posicionamento dos
cinta larga sobre o assunto é uma exceção entre os indígenas e que não tem
unanimidade dentro do próprio povo.
A Apib
avalia que a Constituição não obriga a regulamentar a mineração e traz apenas
uma possibilidade.
"A
gente respeita plenamente a autonomia do povo indígena cinta larga. No entanto,
essa é uma circunstância que, como trata-se de uma situação que vai atingir não
só o povo indígena cinta larga, mas todas as comunidades indígenas do Brasil,
era necessário que fosse feita uma oitiva ampliada sobre esse tema",
pontua Terena.
Menos
de um mês depois do início do GT presidido por Teresa Cristina, o Conselho
Nacional de Política Indigenista (CNPI) publicou uma resolução pedindo ao STF
que se abstivesse da regulamentação e ao Congresso que suspendesse os trabalhos
do GT. Isso, principalmente se não houver consulta prévia, livre e informada
aos povos originários.
Para
Gilmar Cinta Larga, o Congresso já iria regulamentar a mineração eventualmente
e, com o pedido no STF, haverá mais chances de fazer isso "de uma forma
bem feita".
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Cercados pela extração
O líder
cinta larga conta que o posicionamento favorável à regulamentação da mineração
se fortaleceu após a chacina de 29 garimpeiros em abril de 2004 no contexto da
reação dos cinta larga à invasão de suas terras no auge do garimpo ilegal.
O
episódio teve grande repercussão nacional e suscitou promessas por parte do
governo federal de que haveria mais agilidade na regulamentação. De lá para cá,
no entanto, isso não ocorreu.
"Se
não há regulamentação, há exploração ilegal, há invasões, há cobiça", diz.
Na
época da chacina, há registros de que havia cerca de 5 mil garimpeiros na terra
indígena, mais do que a própria população de indígenas da época, estimada em
1,3 mil pelo Instituto Socioambiental (ISA).
Atualmente,
o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) contabiliza 2.676
cinta larga.
Em sua
decisão de fevereiro, o ministro Flávio Dino determinou que o governo federal
acabe com qualquer garimpo ilegal.
No
início de junho, Dino constatou que não houve manifestação da União sobre o
cumprimento desta decisão e determinou que fosse apresentado, em até 30 dias,
um plano para isso.
O
magistrado também estabeleceu que a mineração na TI não pode ultrapassar 1% do
uso da área e que a preferência da exploração é das cooperativas indígenas, que
também estão sujeitas a autorizações para exploração do território junto aos
órgãos do governo.
Hoje, a
quantidade de garimpeiros reduziu de forma significativa, mas sua retirada
ainda representa um desafio. Quando há operações para desmantelar o garimpo, a
atividade retorna no médio ou curto prazo.
Na ação
mais recente, de fevereiro deste ano, o Ibama, a Funai e forças policiais
apreenderam equipamentos utilizados no garimpo ilegal.
Os
órgãos retiraram 23 dragas, 12 balsas de mergulho, cinco escavadeiras
hidráulicas, bem como ouro e mercúrio.
Por
muito tempo, as TIs dos cinta larga foram alvo de pedidos para lavra e pesquisa
para mineração, ainda que não houvesse possibilidade de exploração mineral pela
falta de regulamentação.
Em
2005, o Ministério Público Federal (MPF) abriu uma ação civil pública contra o
Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), atual Agência Nacional de
Mineração (ANM), por não indeferir requerimentos de lavra minerária dentro das
TIs.
No
documento, o MPF cita que haveria 479 requerimentos de pesquisa, lavra e
exploração mineral na área dos cinta larga.
Na
ocasião, o MPF argumentou que a posição "titubeante" da agência
fomentava o crime organizado e alimentava "especulações, pressões,
lobbys".
O órgão
também disse que "uma nova contenda entre indígenas e garimpeiros pode
determinar a dizimação do Povo Indígena Cinta Larga".
Embora
o ministério tenha conseguido vitórias importantes na Justiça, com determinação
judicial para cancelar os requerimentos dentro e no entorno da TI, a ação vem
se arrastando e chegou até o STF.
Desde
2025, o caso está também sob relatoria de Flávio Dino. O ministro, por sua vez,
determinou que o povo cinta larga fosse ouvido.
Representantes
de aldeias dos cinta larga tem se reunido desde então com membros de órgãos
públicos federais e estaduais e do STF para determinar a melhor forma de fazer
isso.
Em
agosto de 2020, a ANM informou que havia três autorizações de lavra garimpeiras
no entorno das TIs Roosevelt e Parque do Aripuanã, bem como 16 requerimentos de
pesquisa de lavra. A Permissão de Lavra Garimpeira consiste em um regime
simplificado para obter autorização de extração mineral.
Os
dados foram solicitados pelo MPF, que investigava se houve descumprimento da
decisão judicial que bloqueava a pesquisa e exploração de minérios dentro e no
entorno do território cinta larga.
O caso
foi arquivado em dezembro de 2020, "pois os fatos em análise já vêm sendo
tratados judicialmente, não tendo ocorrido ainda o trânsito em julgado".
O
antropólogo João Dal Poz, que trabalhou com os cinta larga dos anos 1980 até
2017, chama o que ocorreu com a exploração minerária de "tragédia
social", em que as condições de vida de determinada sociedade humana foram
solapadas de forma rápida.
"Uma
transformação abrupta com todo tipo de degradação", pondera.
"Eles
ficaram cercados de uma série de criminosos ambientais operando, e eles nesse
meio, tendo relação com essas pessoas, tendo associações comerciais",
explica.
O
pedido de regulamentação de mineração nas TIs trata-se de uma tentativa de ter
maior controle sobre seu território, o que, no atual contexto, significa
controle dos recursos minerários, analisa Poz.
No caso
dos cinta larga, a busca não é apenas pelos royalties da
mineração, e sim pelo protagonismo desse processo, ao mesmo tempo em que tenta
"se colocar em um mundo que está mudando", o que consiste em uma
tarefa árdua.
Para o
presidente da Patjamaaj, a regulamentação pode mostrar que "o indígena tem
o potencial, sim, de empreendedor, de ajudar o país a se desenvolver".
Gilmar
Cinta Larga conta que, no Acampamento Terra Livre de 2024, os cinta larga
apresentaram algumas demandas para a Funai e para o MPI, sendo uma delas apoio
para formas alternativas de geração de renda, como coleta da castanha e
agricultura familiar. Mas não houve retorno das autoridades.
O líder
cinta larga acrescenta que a coleta de castanhas hoje ocorre sem grande apoio
do governo.
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A tragédia social
Um
relatório produzido pela Coordenação Regional da Funai em Cacoal em abril de
2016 destacou que o garimpo tem causado traumas profundos à população e
prejuízos na cultura, na saúde, na educação e na organização social.
Os
próprios indígenas, "seduzidos" pelas promessas dos garimpeiros, se
juntam à atividade, diz o relatório. "Existem relatos de visitas a aldeias
por parte de servidores da Funai em que estão vazias. Centenas de pessoas estão
na atividade garimpeira."
O
relatório parece entrar em contradição com um parecer antropológico, feito em
maio do mesmo ano e anexado ao processo que levou a questão ao STF, o qual
destaca serem poucos os indígenas que se envolvem com o garimpo.
O
documento acrescenta que um número ainda mais restrito deles têm acesso aos
lucros do garimpo. A distribuição da riqueza dentro do próprio território é
desigual e beneficia, principalmente, não-indígenas.
A
atividade ameaça a existência dos cinta larga enquanto grupo étnico, analisa o
parecer. Provoca destruição da mata ciliar, desmatamento, assoreamento e
poluição das águas de rios com mercúrio.
Além
disso, propicia proliferação de doenças, como malária e viroses. Durante o auge
garimpeiro, as casas de prostituição contribuíram para a propagação de
Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs).
O
relatório da Funai descreve que, com o garimpo, se dissemina, principalmente
entre os homens, o uso do álcool e de drogas ilícitas. O consumo pelos
indígenas dessas substâncias tem início dentro do garimpo, mas continua nas
aldeias.
Algumas
práticas culturais também foram interrompidas, como a Festa do Porcão, que
chegou a ser retomada em 2014. Havia 20 anos que a festa não ocorria. De acordo
com Gilmar Cinta Larga, a festa celebra e "dá as boas-vindas ao que vai
acontecer".
Mas o
relatório informa que muitas aldeias não compareceram e que os principais
presentes eram anciãos.
"No
ano de 2015, a intenção era dar continuidade à festa tradicional, mas, devido à
intensa atividade ilícita no decorrer do ano, a própria comunidade não se
mostrou interessada em realizar", afirma o documento.
Gilmar
Cinta Larga diz que a Festa do Porcão irá acontecer neste ano e destaca que
existem outras festas tradicionais mantidas pela comunidade, como a da
colheita. Ele acrescenta que a cultura ancestral vive com crianças falando a
língua materna e oficinas de arco e flecha.
Segundo
descrição da Funai, entre os órgãos governamentais, há a ideia de que os cinta
larga são "ricos" e, por isso, não precisam de apoio, além de um
temor em trabalhar com eles por episódios como a chacina de 2004.
O
relatório conta ainda que existem casos de jovens não indígenas que se casam
com anciãs para ter acesso à riqueza mineral da região.
Há
também casos de abuso sexual. Em 2015, houve registro de dois estupros de
meninas indígenas por não indígenas envolvidos em atividades ilícitas e que
eram de confiança dos cinta larga.
Fonte:
BBC News Brasil

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