Pode
ou não pode missa em latim? A discussão após Vaticano excomungar grupo
ultraconservador
Como de
praxe, foi em latim a missa solene dedicada a São Pedro e São Paulo celebrada
na Basílica de São Pedro, no Vaticano, no último dia 29. Três dias depois, o
papa Leão excomungaria as lideranças do grupo ultraconservador Fraternidade
Sacerdotal São Pio X, que tem entre suas bandeiras justamente a celebração no
antigo idioma.
Engana-se,
contudo, quem pensa que é a mesma coisa. No aspecto litúrgico, o problema não
está no idioma, mas no rito praticado e todo o aspecto político-ideológico
dessa decisão.
A
Fraternidade agora excomungada não foi punida pela predileção à língua
antiquada. Foi punida por desrespeitar a autoridade papal e por insistir em
negar as decisões do Concílio Vaticano 2º, série de encontros realizados pela
cúpula do catolicismo entre 1962 e 1965 com o objetivo de modernizar a Igreja
Católica. A ponta do iceberg deste movimento está nas celebrações do grupo, ao
modo anterior ao concílio, ou seja, seguindo o chamado rito tridentino.
O
historiador e cientista da religião Víctor Gama, pesquisador na Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), lembra que dentre todas as
divergências que a Fraternidade tem com a Igreja Católica contemporânea, a
"mais visível" é a questão litúrgica. "Eles entendem que a
'missa antiga', a missa tridentina, é a expressão mais perfeita do culto
católico."
Este
formato de missa antiga é sempre em latim e com o padre de costas para a
assembleia. O modelo aprovado no concílio e adotado pela Igreja ocidental após
o mesmo não proíbe nem o idioma latino, tampouco restringe a maneira como o
padre deve se posicionar diante dos fiéis.
Contudo,
em nome de uma maior acessibilidade e facilidade de comunicação, sugere que as
missas sejam no idioma vernáculo da comunidade e que o padre se dirija de
frente às pessoas, otimizando o entendimento.
O
latim, enquanto língua oficial do Vaticano, presente em inúmeros documentos
oficiais, pode ser utilizado, principalmente em ocasiões solenes.
Mas
mesmo assim, como ocorreu na recente missa dedicada a São Pedro e São Paulo, o
rito litúrgico e o contemporâneo e, para que todos compreendam, tanto as
leituras bíblicas quanto a homilia do celebrante, são feitas no idioma corrente
da comunidade.
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Ritos
"A
questão não é a língua, é o rito. Uma missa pode ser celebrada em qualquer
língua", afirma o vaticanista Filipe Domingues, professor na Pontifícia
Universidade Gregoriana, em Roma, e diretor na instituição Lay Centre, também
em Roma.
"O
Concílio Vaticano 2º não proibiu o latim, mas facilitou o uso das línguas
locais", resume o teólogo e historiador Gerson Leite de Moraes, professor
na Universidade Presbiteriana Mackenzie. "A orientação era de que a missa
se tornasse mais inclusiva."
"A
missa em latim não foi abolida. Isso é uma dessas lendas paroquiais que foram
repetidas por gente que nunca leu meia página do Concílio", comenta o
padre José Eduardo de Oliveira e Silva, doutor em teologia pela Pontifícia
Universidade de Santa Cruz, em Roma.
"O
Código de Direito Canônico diz que a celebração eucarística pode ser feita em
latim ou em outra língua, desde que os textos estejam legitimamente aprovados.
E o próprio Vaticano 2º disse que o uso do latim devia ser preservado nos ritos
latinos, embora admitisse um uso mais amplo da língua vernácula quando isso
fosse pastoralmente útil."
"Então,
numa paróquia comum, no rito romano atual, o padre pode celebrar em
latim", completa o sacerdote. "O que ele não pode é inventar uma
liturgia particular, fazer da missa um manifesto pessoal ou usar o latim como
bandeira de guerra contra a própria Igreja."
O rito
tridentino, utilizado pelos seguidores da Fraternidade São Pio, remete ao
Concílio de Trento, realizado entre 1545 e 1563. Ocorre que, naquela época de
comunicação mais difícil, as missas acabavam sendo diferentes entre si.
"Havia uma tendência de que em cada lugar a liturgia se desenvolvesse de
forma diferente. Depois de Trento, buscou-se unificar isso", pontua.
Era
preciso padronizar. Uma das questões debatidas naquela série de encontros da
Igreja era justamente o desejo de criar um rito que unificasse as celebrações.
Daí o rito, que acabou sendo a praxe nas paróquias católicas do Ocidente até o
Concílio Vaticano 2º.
O
formato acabou sendo conhecido popularmente como "missa em latim" ou
"missa antiga". Com o padre de costas. Na verdade, a ideia era que o
padre também estivesse orientado de frente para o altar, assim como a
assembleia — naquele formato, em uma língua que poucos dominavam, de fato era
difícil prever uma interação do padre com os fiéis.
Com o
passar os séculos, essa liturgia foi passando por atualizações. O último texto
desse tipo de celebração está no Missal Romano de 1962, justamente o que
costuma ser utilizado pelos que negam os avanços do concílio realizado na
década de 1960.
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Missa em latim
Se o
uso do latim não é visto como um problema canônico hoje, a insistência em se
ater a esse missal obsoleto — a "chamada forma litúrgica anterior à
reforma pós-conciliar", como define o padre Oliveira e Silva — é.
"A
expressão 'missa em latim' foi uma forma de simplificar uma questão muito mais
complexa", diz Domingues.
A
questão, contextualiza ele, envolve o chamado movimento tradicionalista da
Igreja, uma série de grupos conservadores que enfatizam o período pré-conciliar
— e, em maior ou menor grau, não aceitam as decisões do Concílio Vaticano 2º.
Preocupado
com o avanço de grupos ultraconservadores tradicionalistas, o papa Francisco
(1936-2025) publicou em 2021 um documento, chamado Traditionis Custodes,
determinando que tais celebrações só podem ocorrer mediante autorização do
bispo responsável pela circunscrição.
"A
partir desse documento, essa missa tridentina só pode ser celebrada em algumas
situações específicas. Francisco afirmou que o Concílio Vaticano 2º já havia
decidido por uma só forma de celebração então o que se podia fazer era que a
Igreja abrisse exceções para algumas comunidades, por um bem pastoral",
contextualiza o vaticanista Domingues.
"O
documento também exige que os grupos ligados a essa liturgia não neguem a
validade e a legitimidade da reforma litúrgica, do Vaticano 2º e do magistério
dos papas", ressalta o Oliveira e Silva.
A ideia
era coibir cismas e manter a unidade, ainda que respeitando pastoralmente
opções alheias ao script contemporâneo.
"Francisco
estabeleceu alguns critérios para isso. Um deles é que não sejam criados novos
grupos tradicionalistas, já que a missa tridentina poderia ser concedida apenas
a grupos já existentes", pontua Gama. "Também não poderia ser celebrada
em igrejas paróquias, mas apenas em capelas."
Antes,
o papa Bento 16 (1927-2022) havia facilitado o rito da "missa
antiga". "Ele concedeu uma autorização universal, um documento, em
2007, que dizia que qualquer sacerdote poderia decidir celebrar nesse rito, sem
necessidade de pedir autorização", diz Gama. "Havia uma liberdade
universal e foi um momento do crescimento das missa tridentinas no Brasil e no
mundo."
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De costas
Sobre o
posicionamento do padre celebrante, Oliveira e Silva esclarece que a expressão
tecnicamente correta não é o popular "de costas", mas sim a forma
latina ad orientem. "No rito antigo, isso é o normal. No rito novo, a
celebração voltada ao povo se tornou a prática ordinária", comenta.
Segundo a Instrução Geral do Missão Romana, o altar deve ser construído de modo
que se possa celebrar voltado ao povo. "É o considerado desejável onde for
possível", salienta o padre.
"Mas
a direção física do celebrante não é um detector automático de fé",
ressalta Oliveira e Silva. "Deus não cabe nessa geometria de
sacristia."
"Esse
modo de celebrar não foi abolido", salienta Gama. "Mas acabou caindo
em desuso, porque a liturgia passou por uma série de reformas com o objetivo de
ficar mais adaptada, de se tornar mais compreensível para nossa época."
No
entendimento dos tradicionalistas, a importância do latim pode ser entendida
sob várias camadas. Em primeiro lugar porque o idioma funciona como um sinal
histórico. "É continuidade, universalidade e estabilidade", afirma
Oliveira e Silva. "Não pertence a uma nação. Cria uma espécie de distância
sagrada em relação ao uso banal da linguagem. E por ser uma língua estável,
ajuda a proteger fórmulas doutrinais de oscilações, modismos e traduções
infelizes."
Domingues
lembra que quando o rito contemporâneo usa o latim, geralmente o faz para
enfatizar a "dimensão da universalidade da Igreja". "É usado
também como língua oficial da Santa Sé", ressalta.
Há o
aspecto simbólico. "O latim liga a liturgia romana a séculos de oração,
canto gregoriano, teologia, direito canônico, santos, concílios, documentos
pontifícios", enumera Oliveira e Silva. "Lembra ao fiel que a Igreja
não começou ontem."
"O
latim tem o caráter de universalidade e também a característica de
imutabilidade, por ser uma língua morta", analisa Gama. Ele ressalta que
ainda há o aspecto teológico, já que a Igreja Católica recomenda que os seus
sacerdotes compreendam bem o idioma.
O
problema, lembra o padre, está na caricatura. "É achar que o latim, por si
só, é o critério. Isso é ideologia", comenta. "O latim pode ser usado
santamente, como língua de oração da Igreja. Ou pode virar fetiche
estético."
Para o
teólogo Moraes, essa ênfase no uso do latim remete a um período em que a Igreja
Católica detinha um poder hegemônico na Europa. De certa forma, os grupos
tradicionalistas querem recuperar essa aura, em uma perspectiva que nega a
própria sociedade contemporânea, secularizada, segundo a análise do professor.
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O cisma atual
No caso
da Fraternidade São Pio X, a missa tridentina é apenas a casca externa de um
problema muito mais profundo. "É questão de fundo é eclesiológica: quem
tem autoridade para julgar autenticamente a tradição", comenta o padre
Oliveira e Silva.
"O
problema não é a missa em latim, o rito. É que as pessoas estão fazendo isso
por causa de uma questão política, ideológica e doutrinária", afirma
Domingues.
Fonte:
BBC News Brasil

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