quinta-feira, 9 de julho de 2026

Tensão aumenta na Colômbia: Petro e De la Espriella levam o clima político ao limite

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou as reuniões de transição com o governo do presidente cessante Gustavo Petro em meio a acusações mútuas de suposta fraude e corrupção. Analistas disseram à Sputnik que ambos estão envolvidos em uma "guerra de narrativas", que pode perigosamente se estender às ruas.

A um mês do dia 7 de agosto, data marcada para a transferência de poder na Colômbia, a crescente tensão entre o atual presidente Gustavo Petro e o presidente eleito Abelardo de la Espriella levou à suspensão das reuniões de transição entre os dois governos e a acusações mútuas de corrupção, suposta fraude e tentativas de golpe.

Por volta do meio-dia de 7 de julho, De la Espriella anunciou pelas redes sociais sua decisão de "suspender imediatamente o processo de transição com o governo corrupto cujo mandato está terminando e que, por meio de suas decisões e conduta, pretende destruir a Colômbia".

Como explicou posteriormente o presidente eleito em uma mensagem de vídeo, a suspensão das negociações entre os dois governos se deu devido à "tentativa de golpe contra o mandato popular" do atual presidente, que se recusou a reconhecer a vitória eleitoral de De la Espriella.

"Petro e Iván Cepeda iniciaram seu Plano B para permanecerem no poder a todo custo, e pretendem fazê-lo por meio de um golpe de Estado. Nas últimas horas, o plano se intensificou e Petro, assumindo poderes que pertencem ao órgão eleitoral, recusou-se a reconhecer minha eleição como presidente eleito", denunciou De la Espriella em uma mensagem gravada.

Anteriormente, por meio de sua conta nas redes sociais, Petro havia afirmado ter "todas as informações" sobre um suposto esquema para manipular os resultados eleitorais, baseado na manipulação de um servidor de computador localizado em Los Angeles, Califórnia, pertencente a dois irmãos colombianos de sobrenome Bautista.

"O atual presidente da Colômbia enfrenta evidências de fraude eleitoral por meios algorítmicos e com financiamento estrangeiro, proibido por nossa Constituição", escreveu Petro, acrescentando em outra parte de sua mensagem que, como consequência dessa operação, "o presidente da Colômbia não reconhece a legitimidade do novo governo". Assim, resumiu: "Abelardo não venceu a eleição."

<><> Aposta no 'confronto democrático'

Em diálogo com a Sputnik, o advogado e analista político Álvaro Padilla explicou que a alegação de Petro se baseia na premissa de que "nos boletins finais da apuração, quando a diferença entre De la Espriella e Cepeda começou a diminuir, Cepeda na verdade o ultrapassou, mas o algoritmo [de contagem] foi manipulado para determinar o contrário".

Padilla ressaltou que, embora a contagem oficial e a preliminar tenham coincidido em 99%, a hipótese é que a irregularidade tenha ocorrido "no nível algorítmico" durante a transmissão dos resultados. Em todo caso, o analista enfatizou que, para o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), órgão responsável pela apuração dos votos, "não houve fraude", e De la Espriella já foi oficialmente declarado presidente eleito.

Consultado também pela Sputnik, o analista político Diógenes Rosero opinou que Petro baseia seu argumento na premissa de que "nenhum processo eleitoral é infalível" para "alimentar uma narrativa" de fraude, narrativa essa que poderia ofuscar a vitória de De la Espriella. Ele acredita que isso faz mais parte de uma estratégia política futura do que de uma expectativa genuína de mudar o resultado das eleições de junho.

"Esta não é a primeira vez que Petro se recusa a reconhecer um governo; ele já o fez com o então presidente Iván Duque [2018-2022]. Acho que ele está repetindo a mesma tática agora para gerar uma narrativa que vise deslegitimar o governo e enviar uma mensagem", afirmou Rosero.

Para Padilla, a atitude do presidente pode ser explicada pelas suas divergências com o candidato de Petro, Iván Cepeda, relativamente à estratégia a adotar após as eleições. Enquanto Cepeda inicialmente defendia uma postura mais moderada em resposta à vitória de De la Espriella, "Petro não queria moderação alguma, mas sim um confronto democrático".

Assim, a liderança do atual presidente foi fundamental para persuadir Cepeda a modificar o seu discurso inicial e a apelar à "desobediência civil pacífica" contra De la Espriella.

<><> Um choque de narrativas

Analistas concordaram que a tensão entre De la Espriella e Petro diminuirá até a cerimônia de posse de 7 de agosto, mas também alertaram que o clima de polarização política que caracterizou este processo eleitoral persistirá pelos próximos quatro anos.

"Estamos saindo de um ambiente de polarização que agora se transforma em deslegitimação. De um lado, há uma tentativa de deslegitimar o governo e, do outro, de deslegitimar a oposição. Há uma guerra de legitimidade que se transformará em uma espécie de polarização contínua", enfatizou Rosero.

Segundo o especialista, ambos os lados tentarão resolver esse confronto com "apelos ao povo" baseados em "narrativas altamente identitárias" que, longe de buscarem entendimento com o restante da classe política, visarão se fortalecer com apoio popular em pesquisas e nas redes sociais, e com a narrativa de serem os verdadeiros "representantes do povo".

Embora tanto o governo colombiano quanto a esquerda possam jogar esse jogo, Rosero acredita que De la Espriella terá uma vantagem inicial nessa disputa, já que, de sua posição de poder, ele "pode influenciar a opinião pública, implementar medidas e tomar ações" que a farão se voltar para o seu lado.

<><> Será que De la Espriella terá sua própria 'polícia política' contra Petro?

Nesse sentido, ele imaginou que o governo de De la Espriella buscará "agir rapidamente em relação à questão da segurança", um dos assuntos mais sensíveis para a opinião pública colombiana, a fim de obter apoio popular por meio de uma estratégia de "cenoura e vara".

Na mesma linha, Rosero enfatizou que De la Espriella apostará grande parte de seu capital político em sua resposta aos potenciais protestos convocados pela oposição a Petro. "Haverá uma guerra de marchas, e De la Espriella arriscará grande parte de sua legitimidade dependendo de como conter essas mobilizações", observou.

Padilla, por sua vez, defendeu a ideia de que o anúncio de um "Bloco de Defesa para a Segurança Urbana" para salvaguardar a segurança nas principais cidades do país também reflete a intenção de De la Espriella de estabelecer "uma força policial política que terá como alvo qualquer pessoa que se oponha ao governo por meio da desobediência civil".

Além disso, o especialista observou que esses tipos de organizações de defesa civil, compostas principalmente por ex-policiais e veteranos militares, têm sido tradicionalmente "a gênese do paramilitarismo" na Colômbia e podem representar uma fonte de violência em eventuais confrontos que possam ocorrer no contexto dessas novas e tensas situações.

¨      Presidente eleito da Colômbia suspende transição, alegando conspiração para um 'golpe de Estado'

O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, suspendeu nesta terça-feira (7) o processo de transição governamental — que estava em andamento com a administração do líder em fim de mandato, Gustavo Petro — depois que o atual mandatário se recusou a reconhecer os resultados da eleição no dia anterior, alegando fraude.

Em um vídeo publicado nas redes sociais, o conservador De la Espriella afirmou que, ao se recusar a reconhecer sua vitória, Petro e o ex-candidato governista Iván Cepeda haviam iniciado um plano para "se agarrar ao poder a qualquer custo, e pretendem fazê-lo por meio de um golpe de Estado" — uma acusação para a qual ele não apresentou provas.

"Como presidente eleito, conclamo as Forças Armadas da Colômbia a honrarem seu juramento: proteger a Constituição e a democracia, e desobedecer a qualquer ordem de Petro em sentido contrário", afirmou De la Espriella. Ele também instou a comunidade internacional a monitorar a transferência de poder e convocou seus eleitores a praticarem a "resistência" até 7 de agosto, data prevista para a sua posse.

Horas antes, Petro havia publicado na rede social X que, embora alguns lhe pedissem para "permanecer no poder, sabendo que aqueles que estão chegando não venceram a eleição", ele não o faria, pois "o mandato popular que me foi concedido tem data para terminar, e sou um democrata".

De acordo com a Associated Press, Germán Ávila, ministro das Finanças e coordenador da transição pelo governo Petro, ordenou que sua equipe suspendesse o processo como medida recíproca. Em declaração transmitida pela televisão, ele criticou comentários feitos por Carlos Alfonso Lucio — membro da equipe de De la Espriella —, que disse a um veículo de imprensa local que a nova administração moveria ações judiciais com base nas descobertas do processo de transição "anticorrupção".

Após reconhecer a vitória de De la Espriella, Cepeda alertou que recorreria à "desobediência civil pacífica" caso o candidato conservador não renunciasse à sua dupla cidadania americana antes de assumir o cargo.

<><> Resposta de Petro

O atual presidente da Colômbia respondeu rapidamente a declaração de Abelardo de la Espriella, afirmando que as reuniões da Comissão devem acontecer apesar do anúncio do presidente eleito.

“Aqueles que se retiram do processo de transição são aqueles que não suportam o fato de que toda a população percebe sua falta de preparo e que seus insultos públicos são calúnias”, afirmou Petro.

Segundo o atual presidente, “o processo de transição de governo continua perante o povo”, e que, diante da ausência de representantes da futura administração, “cadeiras vazias serão colocadas na esperança de que aqueles que fraudaram as eleições finalmente entendam o que significa governar”.

“A transição está sendo conduzida pelo povo; é uma transferência pública de poder que termina em 6 de agosto à meia-noite, porque esse foi o mandato do povo, e eu obedeço ao povo, a ninguém mais”, frisou o mandatário.

A disputa entre o atual e o futuro governo acontece no dia seguinte ao anúncio de Petro sobre a antecipação da sua saída do cargo, que acontecerá no próximo dia 20 de julho – e não em 7 de agosto, como estava programado anteriormente.

O presidente justificou a medida afirmando que a manutenção do cronograma oficial seria “trágico” para a história colombiana.

Além de antecipar sua saída, Petro convocou uma grande mobilização nacional para o dia 20 de julho.

“Faremos, em todas as praças públicas da Colômbia, o grito de independência do povo livre por uma Colômbia livre e pelas reformas sociais. Espero vocês para o desfile e nosso grito de Independência Nacional. Todas e todos com as bandeiras da Colômbia limpas e alegres”, escreveu Petro, nas redes sociais.

¨      As “verdades universais” que a imprensa peruana esconde sobre a vitória de Keiko Fujimori. Por Gustavo Espinoza M.

A proclamação dos resultados eleitorais do Peru referentes ao pleito de 7 de junho, realizada na última sexta-feira (3), encerra um período da vida política do país. Para o Peru formal, termina uma etapa e começa outra. E, nela, o dever dos “patriotas” é cerrar fileiras em torno de Keiko Fujimori porque ela foi “a presidenta que venceu a eleição”.

Trata-se, evidentemente, de uma afirmação que buscará se impor como uma verdade universal, quando, na realidade, as verdades universais compartilhadas pelos peruanos são outras.

A primeira verdade universal é que houve trapaça nas eleições de 2026. Não é necessário falar em “fraude”, porque esse é um termo desgastado. Dizemos trapaça porque esse conceito corresponde a uma estratégia de maior alcance e de mais alto nível, que se manifesta por meio de diversas modalidades.

A primeira delas se expressou na singular captura de todos os órgãos de poder pela máfia governante. Desde a construção de uma “maioria” corrupta no Congresso da República até a captura de todos os órgãos de direção do Estado, como a Procuradoria-Geral da Nação, o Tribunal Constitucional, a Junta Nacional de Justiça, a cúpula militar, a “grande imprensa”, o empresariado e até a Defensoria do Povo, todos caíram, um a um, nas mãos de um mesmo núcleo de poder.

E esse processo foi sendo consolidado graças à “aliança” de forças efêmeras e circunstanciais e contou com a vergonhosa adesão do Perú Libre, criação de Vladimir Cerrón. Assim se completou a “maioria” governista que fez o que quis, sobretudo a partir de dezembro de 2022.

O controle de toda a estrutura legal não foi suficiente. Foi necessário acrescentar um conjunto de ações destinado a enfraquecer a oposição, mas também a controlar a estrutura eleitoral e manejá-la conforme seus interesses.

Nesse esforço, suspenderam os direitos políticos de alguns e prenderam outros; além disso, destituíram funcionários e obrigaram a renunciar aqueles que não aceitaram fazer o jogo deles, com o objetivo de enfraquecer a presença de seus críticos e reduzir sua capacidade de atuação. Essa é uma segunda verdade universal que ninguém pode negar.

A terceira também não é nova. Vem sendo aplicada há mais de duas décadas, mas, desta vez, mostrou-se realmente contundente. Refere-se ao nível de representação alcançado pela pessoa que ocupou o primeiro lugar na votação. Para entender o caso, é preciso colocar os pés no chão: Keiko Fujimori obteve, no primeiro turno eleitoral, em 12 de abril, 10% dos votos.

Esse percentual foi artificialmente elevado para 17% quando lhe foram acrescentados os votos nulos e anulados, considerados como “validamente emitidos”. Seu percentual aumentou, mas o número de votos permaneceu o mesmo: 10% dos sufrágios.

Com esse percentual, Keiko deveria ter direito a 10% da representação parlamentar: em um Senado de 60 membros, deveria obter seis senadores. E, em uma Câmara dos Deputados de 130 integrantes, 13 parlamentares.

Aconteceu, no entanto, que, em vez de seis senadores, foram-lhe atribuídos 22. E, em vez de 13 deputados, foram-lhe reconhecidos 41. Como isso aconteceu? Bem, foi uma simples “interpretação da lei”. Também lhe somaram os votos nulos e anulados, o que a favoreceu a esse extremo.

Essa verdade, portanto, é clara e direta: Keiko Fujimori possui uma representação parlamentar que não lhe corresponde e que jamais obteve. Simplesmente lhe foi concedida.

A quarta também é facilmente comprovável. Keiko Fujimori perdeu a eleição no Peru, mas será a nova presidenta do Peru. Quem venceu — isto é, Roberto Sánchez — obteve 9.060.022 votos, o equivalente a 50,088% dos sufrágios. E Keiko alcançou 9.028.008 votos, correspondentes a 49,912%. Essa é uma verdade universal que ninguém poderá desconhecer.

Keiko, que perdeu a votação no Peru, “reverteu” essa realidade com os votos obtidos no exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Um fato insólito, mas também inédito, que abriu uma espécie de Caixa de Pandora. Nunca havia acontecido.

Como isso foi possível? Por meio de um artifício simples: não foi realizada a digitalização dos votos quando estes foram apurados, ou seja, quando a contagem foi encerrada na seção eleitoral, conforme determinava a lei.

Para tornar isso possível, as autoridades eleitorais decidiram “mudar a norma” e estabeleceram que, entre o primeiro e o segundo turno, isso fosse permitido. Pode uma mudança regulamentar modificar uma lei? Pode uma alteração dessa natureza ser feita na fase final de um processo eleitoral?

As autoridades poderão apresentar múltiplas explicações, mas o que ficará claro e se converterá na quarta verdade universal é que, ao não serem digitalizados os votos logo após sua apuração, durante o transporte das atas e sua totalização em Lima — após vários dias de deslocamento — perderam-se a segurança e o sigilo do voto.

Além disso, rompida a cadeia de garantias e com as atas abertas ao acesso de terceiros — os funcionários do serviço consular — qualquer alteração poderia ter ocorrido. Em todo caso, perdeu-se completamente a garantia elementar de uma consulta eleitoral.

Uma quinta verdade diz respeito à presença de elementos estrangeiros no desenvolvimento do processo eleitoral. Não se trata dos observadores internacionais formalmente credenciados, mas de um diplomata estrangeiro — o único — que teve acesso direto e contato permanente com os órgãos eleitorais durante todo o processo.

Foi, de fato, o embaixador dos Estados Unidos, Bernie Navarro, o único embaixador credenciado junto ao governo peruano que se reuniu em diversas ocasiões com os funcionários do Poder Eleitoral e que teve acesso a todos os procedimentos em andamento. Nenhum outro membro do corpo diplomático desfrutou de tais privilégios.

Cinco verdades universais que todos devem conhecer e defender para escapar do falso dilema em que a imprensa vendida pretende nos colocar. Não se trata de reconhecer, ou não, a eleição realizada. Trata-se de afirmar que ela não representa a vontade dos cidadãos porque foi ostensivamente manipulada para produzir um resultado contrário à opinião do nosso povo.

Assim, para além de qualquer artifício, Keiko Fujimori não simboliza a legalidade nem encarna a democracia.

 

Fonte: Sputnik Brasil/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

 

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