Tensão
aumenta na Colômbia: Petro e De la Espriella levam o clima político ao limite
O
presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, cancelou as reuniões
de transição com o governo do presidente cessante Gustavo Petro em meio a
acusações mútuas de suposta fraude e corrupção. Analistas disseram à Sputnik
que ambos estão envolvidos em uma "guerra de narrativas", que pode
perigosamente se estender às ruas.
A um
mês do dia 7 de agosto, data marcada para a transferência de poder na Colômbia,
a crescente tensão entre o atual presidente Gustavo Petro e o presidente eleito
Abelardo de la Espriella levou à suspensão das reuniões de transição entre
os dois governos e a acusações mútuas de corrupção,
suposta fraude e tentativas de golpe.
Por
volta do meio-dia de 7 de julho, De la Espriella anunciou pelas redes sociais
sua decisão de "suspender imediatamente o processo de transição com o
governo corrupto cujo mandato está terminando e que, por meio de suas decisões
e conduta, pretende destruir a Colômbia".
Como
explicou posteriormente o presidente eleito em uma mensagem de vídeo, a
suspensão das negociações entre os dois governos se deu devido à
"tentativa de golpe contra o mandato popular" do atual presidente,
que se recusou a reconhecer a vitória eleitoral de De la Espriella.
"Petro
e Iván Cepeda iniciaram seu Plano B para permanecerem no poder a todo
custo, e pretendem fazê-lo por meio de um golpe de Estado. Nas últimas horas, o
plano se intensificou e Petro, assumindo poderes que pertencem ao órgão
eleitoral, recusou-se a reconhecer minha eleição como presidente eleito",
denunciou De la Espriella em uma mensagem gravada.
Anteriormente,
por meio de sua conta nas redes sociais, Petro havia afirmado ter "todas
as informações" sobre um suposto esquema para manipular os resultados
eleitorais, baseado na manipulação de um servidor de computador localizado em
Los Angeles, Califórnia, pertencente a dois irmãos colombianos de sobrenome
Bautista.
"O
atual presidente da Colômbia enfrenta evidências de fraude eleitoral por meios
algorítmicos e com financiamento estrangeiro, proibido por nossa
Constituição", escreveu Petro, acrescentando em outra parte de sua
mensagem que, como consequência dessa operação, "o presidente da
Colômbia não reconhece a legitimidade do novo governo". Assim, resumiu:
"Abelardo não venceu a eleição."
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Aposta no 'confronto democrático'
Em
diálogo com a Sputnik, o advogado e analista político Álvaro Padilla explicou
que a alegação de Petro se baseia na premissa de que "nos boletins finais
da apuração, quando a diferença entre De la Espriella e Cepeda começou a
diminuir, Cepeda na verdade o ultrapassou, mas o algoritmo [de contagem]
foi manipulado para determinar o
contrário".
Padilla
ressaltou que, embora a contagem oficial e a preliminar tenham coincidido em
99%, a hipótese é que a irregularidade tenha ocorrido "no nível
algorítmico" durante a transmissão dos resultados. Em todo caso, o
analista enfatizou que, para o Conselho Nacional Eleitoral (CNE), órgão
responsável pela apuração dos votos, "não houve fraude", e De la
Espriella já foi oficialmente declarado presidente eleito.
Consultado
também pela Sputnik, o analista político Diógenes Rosero opinou que Petro
baseia seu argumento na premissa de que "nenhum processo eleitoral é
infalível" para "alimentar uma narrativa" de fraude, narrativa essa que poderia
ofuscar a vitória de De la Espriella. Ele acredita que isso faz mais parte de
uma estratégia política futura do que de uma expectativa genuína de mudar o
resultado das eleições de junho.
"Esta
não é a primeira vez que Petro se recusa a reconhecer um governo; ele já o fez
com o então presidente Iván Duque [2018-2022]. Acho que ele está repetindo
a mesma tática agora para gerar uma narrativa que vise deslegitimar o governo e
enviar uma mensagem", afirmou Rosero.
Para
Padilla, a atitude do presidente pode ser explicada pelas suas divergências com
o candidato de Petro, Iván Cepeda, relativamente à estratégia a adotar após as eleições. Enquanto Cepeda
inicialmente defendia uma postura mais moderada em resposta à vitória de
De la Espriella, "Petro não queria moderação alguma, mas sim um confronto
democrático".
Assim,
a liderança do atual presidente foi fundamental para persuadir Cepeda a
modificar o seu discurso inicial e a apelar à "desobediência civil
pacífica"
contra De la Espriella.
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Um choque de narrativas
Analistas
concordaram que a tensão entre De la Espriella e Petro diminuirá até a
cerimônia de posse de 7 de agosto, mas também alertaram que o clima de polarização
política que
caracterizou este processo eleitoral persistirá pelos próximos quatro
anos.
"Estamos
saindo de um ambiente de polarização que agora se transforma em deslegitimação.
De um lado, há uma tentativa de deslegitimar o governo e, do outro, de
deslegitimar a oposição. Há uma guerra de legitimidade que se transformará em
uma espécie de polarização contínua", enfatizou Rosero.
Segundo
o especialista, ambos os lados tentarão resolver esse confronto com
"apelos ao povo" baseados em "narrativas altamente
identitárias" que, longe de buscarem entendimento com o restante da
classe política, visarão se fortalecer com apoio
popular em
pesquisas e nas redes sociais, e com a narrativa de serem os verdadeiros
"representantes do povo".
Embora
tanto o governo colombiano quanto a esquerda possam jogar esse jogo, Rosero
acredita que De la Espriella terá uma vantagem inicial nessa disputa, já que,
de sua posição de poder, ele "pode influenciar a opinião pública,
implementar medidas e tomar ações" que a farão se voltar para o seu
lado.
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Será que De la Espriella terá sua própria 'polícia política' contra Petro?
Nesse
sentido, ele imaginou que o governo de De la Espriella buscará "agir
rapidamente em relação à questão da segurança", um dos assuntos mais
sensíveis para
a opinião pública colombiana, a fim de obter apoio popular por meio de uma
estratégia de "cenoura e vara".
Na
mesma linha, Rosero enfatizou que De la Espriella apostará grande parte de seu
capital político em sua resposta aos potenciais protestos convocados pela
oposição a Petro. "Haverá uma guerra de marchas, e De la Espriella
arriscará grande parte de sua legitimidade dependendo de como conter essas
mobilizações", observou.
Padilla,
por sua vez, defendeu a ideia de que o anúncio de um "Bloco de Defesa para
a Segurança Urbana" para salvaguardar a segurança nas principais cidades
do país também reflete a intenção de De la Espriella de estabelecer
"uma força policial política que terá como alvo qualquer pessoa que
se oponha ao governo por meio da
desobediência civil".
Além
disso, o especialista observou que esses tipos de organizações de defesa civil,
compostas principalmente por ex-policiais e veteranos militares, têm sido
tradicionalmente "a gênese do paramilitarismo" na Colômbia
e podem representar uma fonte de violência em eventuais
confrontos que possam ocorrer no contexto dessas novas e tensas situações.
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Presidente eleito da Colômbia suspende transição,
alegando conspiração para um 'golpe de Estado'
O
presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, suspendeu nesta
terça-feira (7) o processo de transição governamental — que estava em andamento
com a administração do líder em fim de mandato, Gustavo Petro — depois que o
atual mandatário se recusou a reconhecer os resultados da eleição no dia
anterior, alegando fraude.
Em um
vídeo publicado nas redes sociais, o conservador De la
Espriella afirmou
que, ao se recusar a reconhecer sua vitória, Petro e o ex-candidato
governista Iván Cepeda haviam iniciado um plano para "se
agarrar ao poder a qualquer custo, e pretendem fazê-lo por meio de um golpe de
Estado" — uma acusação para a qual ele não apresentou provas.
"Como
presidente eleito, conclamo as Forças Armadas da Colômbia a honrarem seu
juramento: proteger a Constituição e a democracia, e desobedecer a qualquer
ordem de Petro em sentido contrário", afirmou De la Espriella. Ele também
instou a comunidade internacional a monitorar a transferência de poder e
convocou seus eleitores a praticarem a "resistência" até 7
de agosto, data prevista para a sua posse.
Horas
antes, Petro havia publicado na rede social X que, embora alguns lhe pedissem
para "permanecer no poder, sabendo que aqueles que estão chegando não
venceram a eleição", ele não o faria, pois "o mandato popular
que me foi concedido tem data para terminar, e sou um democrata".
De
acordo com a Associated Press, Germán Ávila, ministro das Finanças e
coordenador da transição pelo governo Petro, ordenou que sua equipe
suspendesse o processo como medida recíproca. Em declaração transmitida pela
televisão, ele criticou comentários feitos por Carlos Alfonso Lucio —
membro da equipe de De la Espriella —, que disse a um veículo de imprensa local
que a nova administração moveria ações judiciais com base nas descobertas
do processo de transição "anticorrupção".
Após reconhecer a vitória
de De la Espriella, Cepeda
alertou que recorreria à "desobediência
civil pacífica" caso
o candidato conservador não renunciasse à sua dupla cidadania americana antes
de assumir o cargo.
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Resposta de Petro
O atual
presidente da Colômbia respondeu rapidamente a declaração de Abelardo de la
Espriella, afirmando que as reuniões da Comissão devem acontecer apesar do
anúncio do presidente eleito.
“Aqueles
que se retiram do processo de transição são aqueles que não suportam o fato de
que toda a população percebe sua falta de preparo e que seus insultos públicos
são calúnias”, afirmou Petro.
Segundo
o atual presidente, “o processo de transição de governo continua perante o
povo”, e que, diante da ausência de representantes da futura administração,
“cadeiras vazias serão colocadas na esperança de que aqueles que fraudaram as
eleições finalmente entendam o que significa governar”.
“A
transição está sendo conduzida pelo povo; é uma transferência pública de poder
que termina em 6 de agosto à meia-noite, porque esse foi o mandato do povo, e
eu obedeço ao povo, a ninguém mais”, frisou o mandatário.
A
disputa entre o atual e o futuro governo acontece no dia seguinte ao anúncio de Petro sobre a antecipação
da sua saída do cargo,
que acontecerá no próximo dia 20 de julho – e não em 7 de agosto, como estava
programado anteriormente.
O
presidente justificou a medida afirmando que a manutenção do cronograma oficial
seria “trágico” para a história colombiana.
Além de
antecipar sua saída, Petro convocou uma grande mobilização nacional para o dia
20 de julho.
“Faremos,
em todas as praças públicas da Colômbia, o grito de independência do povo livre
por uma Colômbia livre e pelas reformas sociais. Espero vocês para o desfile e
nosso grito de Independência Nacional. Todas e todos com as bandeiras da
Colômbia limpas e alegres”, escreveu Petro, nas redes sociais.
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As “verdades universais” que a imprensa peruana esconde
sobre a vitória de Keiko Fujimori. Por Gustavo Espinoza M.
A
proclamação dos resultados eleitorais do Peru referentes ao
pleito de 7 de junho, realizada na última sexta-feira (3), encerra um período
da vida política do país. Para o Peru formal, termina uma etapa e começa outra.
E, nela, o dever dos “patriotas” é cerrar fileiras em torno de Keiko Fujimori porque ela foi
“a presidenta que venceu a eleição”.
Trata-se,
evidentemente, de uma afirmação que buscará se impor como uma verdade
universal, quando, na realidade, as verdades universais compartilhadas pelos
peruanos são outras.
A
primeira verdade universal é que houve trapaça nas eleições de 2026. Não é
necessário falar em “fraude”, porque esse é um termo desgastado. Dizemos
trapaça porque esse conceito corresponde a uma estratégia de maior alcance e de
mais alto nível, que se manifesta por meio de diversas modalidades.
A
primeira delas se expressou na singular captura de todos os órgãos de poder
pela máfia governante. Desde a construção de uma “maioria” corrupta no
Congresso da República até a captura de todos os órgãos de direção do Estado,
como a Procuradoria-Geral da Nação, o Tribunal Constitucional, a Junta Nacional
de Justiça, a cúpula militar, a “grande imprensa”, o empresariado e até a
Defensoria do Povo, todos caíram, um a um, nas mãos de um mesmo núcleo de
poder.
E esse
processo foi sendo consolidado graças à “aliança” de forças efêmeras e
circunstanciais e contou com a vergonhosa adesão do Perú Libre, criação de Vladimir Cerrón. Assim se completou
a “maioria” governista que fez o que quis, sobretudo a partir de dezembro de
2022.
O
controle de toda a estrutura legal não foi suficiente. Foi necessário
acrescentar um conjunto de ações destinado a enfraquecer a oposição, mas também
a controlar a estrutura eleitoral e manejá-la conforme seus interesses.
Nesse
esforço, suspenderam os direitos políticos de alguns e prenderam outros; além
disso, destituíram funcionários e obrigaram a renunciar aqueles que não
aceitaram fazer o jogo deles, com o objetivo de enfraquecer a presença de seus
críticos e reduzir sua capacidade de atuação. Essa é uma segunda verdade
universal que ninguém pode negar.
A
terceira também não é nova. Vem sendo aplicada há mais de duas décadas, mas,
desta vez, mostrou-se realmente contundente. Refere-se ao nível de
representação alcançado pela pessoa que ocupou o primeiro lugar na votação.
Para entender o caso, é preciso colocar os pés no chão: Keiko Fujimori obteve,
no primeiro turno eleitoral, em 12 de abril, 10% dos votos.
Esse
percentual foi artificialmente elevado para 17% quando lhe foram acrescentados
os votos nulos e anulados, considerados como “validamente emitidos”. Seu
percentual aumentou, mas o número de votos permaneceu o mesmo: 10% dos
sufrágios.
Com
esse percentual, Keiko deveria ter direito a 10% da representação parlamentar:
em um Senado de 60 membros, deveria obter seis senadores. E, em uma Câmara dos
Deputados de 130 integrantes, 13 parlamentares.
Aconteceu,
no entanto, que, em vez de seis senadores, foram-lhe atribuídos 22. E, em vez
de 13 deputados, foram-lhe reconhecidos 41. Como isso aconteceu? Bem, foi uma
simples “interpretação da lei”. Também lhe somaram os votos nulos e anulados, o
que a favoreceu a esse extremo.
Essa
verdade, portanto, é clara e direta: Keiko Fujimori possui uma representação
parlamentar que não lhe corresponde e que jamais obteve. Simplesmente lhe foi
concedida.
A
quarta também é facilmente comprovável. Keiko Fujimori perdeu a eleição no
Peru, mas será a nova presidenta do Peru. Quem venceu — isto é, Roberto Sánchez
— obteve 9.060.022 votos, o equivalente a 50,088% dos sufrágios. E Keiko
alcançou 9.028.008 votos, correspondentes a 49,912%. Essa é uma verdade
universal que ninguém poderá desconhecer.
Keiko,
que perdeu a votação no Peru, “reverteu” essa realidade com os votos obtidos no
exterior, sobretudo nos Estados Unidos. Um fato insólito, mas também inédito,
que abriu uma espécie de Caixa de Pandora. Nunca havia acontecido.
Como
isso foi possível? Por meio de um artifício simples: não foi realizada a
digitalização dos votos quando estes foram apurados, ou seja, quando a contagem
foi encerrada na seção eleitoral, conforme determinava a lei.
Para
tornar isso possível, as autoridades eleitorais decidiram “mudar a norma” e
estabeleceram que, entre o primeiro e o segundo turno, isso fosse permitido.
Pode uma mudança regulamentar modificar uma lei? Pode uma alteração dessa
natureza ser feita na fase final de um processo eleitoral?
As
autoridades poderão apresentar múltiplas explicações, mas o que ficará claro e
se converterá na quarta verdade universal é que, ao não serem digitalizados os
votos logo após sua apuração, durante o transporte das atas e sua totalização
em Lima — após vários dias de deslocamento — perderam-se a segurança e o sigilo
do voto.
Além
disso, rompida a cadeia de garantias e com as atas abertas ao acesso de
terceiros — os funcionários do serviço consular — qualquer alteração poderia
ter ocorrido. Em todo caso, perdeu-se completamente a garantia elementar de uma
consulta eleitoral.
Uma
quinta verdade diz respeito à presença de elementos estrangeiros no
desenvolvimento do processo eleitoral. Não se trata dos observadores
internacionais formalmente credenciados, mas de um diplomata estrangeiro — o
único — que teve acesso direto e contato permanente com os órgãos eleitorais
durante todo o processo.
Foi, de
fato, o embaixador dos Estados Unidos, Bernie Navarro, o único embaixador
credenciado junto ao governo peruano que se reuniu em diversas ocasiões com os
funcionários do Poder Eleitoral e que teve acesso a todos os procedimentos em
andamento. Nenhum outro membro do corpo diplomático desfrutou de tais
privilégios.
Cinco
verdades universais que todos devem conhecer e defender para escapar do falso
dilema em que a imprensa vendida pretende nos colocar. Não se trata de
reconhecer, ou não, a eleição realizada. Trata-se de afirmar que ela não
representa a vontade dos cidadãos porque foi ostensivamente manipulada para
produzir um resultado contrário à opinião do nosso povo.
Assim,
para além de qualquer artifício, Keiko Fujimori não simboliza a legalidade nem
encarna a democracia.
Fonte: Sputnik
Brasil/Diálogos do Sul Global/Opera Mundi

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