Poucas
denúncias e difícil acesso travam combate à escravidão no corte de lenha
ENTRE
2017 E 2025, 336 trabalhadores foram resgatados do trabalho escravo em
atividades relacionadas ao cultivo de eucalipto e extração de madeira, mostram
dados do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego) enviados a pedido da Repórter
Brasil. Parte desses casos envolve produtores que forneceram lenha para grandes
empresas de grãos, carnes e laticínios.
É o que
revelam flagrantes de trabalho escravo dos últimos quatro anos. Como noticiou a
Repórter Brasil, empregadores autuados por submeter seus empregados a condições
análogas à escravidão comercializaram madeira para biomassa com gigantes do
agronegócio como Aurora, Amaggi, grupo Durli e Bravalat.
Para
especialistas ouvidos pela reportagem, a cadeia de produção da lenha apresenta
desafios como a dificuldade do Estado de realizar fiscalizações no setor e,
consequentemente, levar adiante a
responsabilização dos empregadores.
“Existem
pouquíssimos dados e denúncias sobre a cadeia da madeira e isso faz com que
tenhamos pouca fiscalização. Das poucas que acontecem, é muito difícil achar a
frente de trabalho, porque o fluxo precisa ser rápido. Eles se movem muito
rapidamente”, analisa Camilla Holanda Mendes da Rocha, procuradora regional do
Trabalho em Rondônia e no Acre.
A lenha
é usada como biomassa em grande parte da indústria agropecuária do Brasil.
Publicações da Embrapa apontam, por exemplo, que o insumo é o combustível mais
usado na secagem de grãos — etapa central da pós-colheita e grande demandante
de energia térmica.
Para a
procuradora, as grandes empresas consumidoras de lenha devem tomar medidas para
que sua rede de fornecedores não esteja contaminada por violações trabalhistas
e de direitos humanos. “Se há uma expansão da cadeia produtiva dos grãos, por
exemplo, há uma grande demanda de lenha, o que impulsiona esse mercado e
pressiona o território e as comunidades”, diz.
“É
preciso que esses impulsionadores tenham mais responsabilidade nas suas
articulações. Inclusive a responsabilidade de entender que a criação da
demanda, se não for acompanhada de ações de direitos humanos, pode ser muito
degradante e devastadora, principalmente na região amazônica”, complementa
Rocha.
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Resgates no corte de lenha
Entre
as 336 vítimas de trabalho análogo à escravidão no cultivo de eucalipto e na
extração de madeira entre 2017 e 2025, 42 foram resgatadas em municípios da
Amazônia Legal. No recorte do bioma Amazônia, foram sete pessoas.
O
número de resgatados no setor representa 2,1% do total quando se considera
todos os grupos de atividades fiscalizadas no mesmo período. Esses dados, no
entanto, podem estar subnotificados. A Repórter Brasil identificou operações
madeireiras com resgates realizados no período, mas que não foram
contabilizados nos dados enviados pelo MTE por questões técnicas ou registros
em diferentes CNAEs (Classificação Nacional de Atividades Econômicas), que
definem a atividade exercida pelos empregadores fiscalizados.
Auditores-fiscais
do Trabalho, procuradores do Trabalho e pesquisadores ouvidos pela reportagem
avaliam que os resgates contabilizados são uma parcela mínima comparada à
realidade do campo. Parte dessa cadeia de produção, afirmam, funciona à margem
do controle estatal.
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Biomassa sustentável?
Em
2024, a indústria brasileira consumiu 26,6 milhões de toneladas do insumo,
segundo o Balanço Energético Nacional. O setor de alimentos e bebidas respondeu
por quase 9 milhões de toneladas — cerca de um terço do consumo industrial
total do produto — o que representou 11% de seu consumo energético, percentual
semelhante ao da eletricidade.
Dados
do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) apontam que 74% da
lenha produzida no Brasil em 2023 teve
origem em áreas cultivadas com espécies como o eucalipto. Uma fatia relevante
dessa produção, no entanto, ainda vem de vegetação nativa, prática criticada
por ambientalistas.
Entre
junho de 2021 e maio de 2023, o produtor Tomaz Edilson Filice Chayb, autuado
por trabalho escravo em março de 2023, emitiu, ao menos, 733 guias florestais
para comercializar lenha retirada de mata nativa no Mato Grosso com grandes
empresas do agronegócio.
“Conscientizar
as empresas de que elas precisam ter um olhar amplo sobre os seus insumos é
extremamente importante, ainda mais insumos que venham da natureza. Da mesma
forma que o frigorífico precisa saber se o gado está vindo ou não de uma área
de desmatamento, ele também precisa dar conta dos insumos secundários, que, de
alguma forma, podem o expor a riscos”, alerta Leonardo Martin Sobral, diretor
de florestas e restauração do Imaflora (Instituto de Manejo e Certificação
Florestal e Agrícola).
Para os
especialistas ouvidos pela reportagem, além de origem comprovada, licenciamento
ambiental e rastreabilidade, a sustentabilidade no uso da lenha depende de
condições adequadas de trabalho no corte e transporte da matéria-prima, algo
que, alertam, não está ocorrendo.
“Atraídos
por uma perspectiva de remuneração mais alta, os trabalhadores [da extração de
lenha] realizam atividades informais e são expostos a acidentes graves ou até
fatais, em lugares inóspitos E há certa invisibilidade sobre esses riscos”,
afirma o auditor-fiscal do Trabalho Magno Pimenta Riga.
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É preciso mais do que monitorar a Lista Suja, dizem especialistas
Entre
junho de 2021 e maio de 2023, Amaggi, Durli Agropecuária, Bravalat Laticínios e
o produtor rural Rafael Bortolli, ligado ao Grupo Bom Futuro, compraram lenha
de Chayb, autuado em março de 2023 por manter trabalhadores que extraíam
madeira em condições análogas à escravidão em Nova Xavantina (MT).
O caso
traz um alerta. “Não há verificação efetiva por parte das empresas. Elas barram
o fornecedor a partir do monitoramento da Lista Suja do Trabalho Escravo, mas
pode ser que aquele empregador não esteja na lista, que sua atividade seja
desenvolvida de forma irregular”, ressalta a procuradora Camilla Holanda Mendes
da Rocha. O cadastro, mantido pelo governo federal, torna públicos os nomes de
pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por trabalho análogo à
escravidão.
“A
empresa que adquire a madeira como insumo tem responsabilidade por esse
produto. É possível fazer auditorias de fornecedores e cobrar todos os aspectos
legais, como o registro de funcionários, por exemplo”, explica Sobral, do
Imaflora. “Se uma grande empresa começa a olhar para a sua cadeia de
suprimentos, ela está estimulando outras a fazerem um movimento para a
legalidade”, complementa.
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Desafios das fiscalizações da extração de madeira
Para
realizar as fiscalizações, os auditores do Trabalho encontram barreiras como a
escassez de denúncias, a rapidez com que as atividades ocorrem, o difícil
acesso aos locais das frentes de trabalho e o medo dos trabalhadores de serem
presos por estarem desmatando. “Em uma área de 10 hectares, que são 10 campos
de futebol, uma equipe de extração consegue fazer o trabalho em um dia, mesmo
que de forma manual. É muito rápido porque é uma atividade de alta
produtividade”, afirma Sobral.
Há
muitos atores envolvidos na cadeia de produção da lenha: o dono da terra, o
arrendatário, a equipe que faz o corte e a empresa que compra o produto, que,
muitas vezes, ainda não é a destinação final. “É de difícil detecção [o
trabalho escravo no setor] em razão do interesse econômico e do consenso de
todos os elos da cadeia, exceto o do trabalhador, de que é preciso buscar
vantagens econômicas”, afirma o procurador do Trabalho Paulo Douglas Almeida de
Moraes.
Quando
a fiscalização consegue chegar às frentes de trabalho de extração de madeira,
precisa ainda enfrentar o medo dos trabalhadores, que faz com que eles, muitas
vezes, fujam. “Eles acham que serão presos, por estarem desmatando, cortando as
árvores. Mas o nosso objetivo ali é salvar o trabalhador daquela condição de
submissão. Eles estão ali por necessidade”, explica a auditora Edna Lúcia Alves
Ferreira da Rocha, representante do Sinait (Sindicato Nacional dos
Auditores-Fiscais do Trabalho).
Enquanto
na região Amazônica os números de desmatamento seguem altos, as denúncias sobre
as condições de quem faz a extração da madeira quase não ocorrem. “Por ser uma
atividade que, muitas vezes, está ligada a um contexto de ilegalidade, seja
porque é um desmatamento ilegal ou uma terra com a origem em grilagem, não há
denúncias”, diz a procuradora Camilla Holanda Mendes da Rocha.
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Mais ações em conjunto poderiam otimizar trabalho
Enquanto
a Auditoria-Fiscal do Trabalho, do MTE, realiza as ações de combate ao trabalho
escravo, o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais
Renováveis) é responsável por fiscalizar o desmatamento, juntamente com órgãos
ambientais estaduais. Entre 2017 e 2025, o Ibama realizou 1.590 operações
relacionadas à flora na Amazônia, conforme dados enviados à Repórter Brasil.
A
realização de mais atuações em conjunto, hoje feitas em número muito pequeno,
poderia otimizar o trabalho e facilitar o acesso dos auditores aos
trabalhadores explorados, afirmam os entrevistados. “O Plano Nacional de
Erradicação do Trabalho Escravo já institucionaliza essa atuação entre os
órgãos públicos, mas isso precisa virar uma prática consolidada nos
territórios”, enfatiza a procuradora Rocha.
“É
muito importante também a capacitação dos agentes e dos servidores para que,
caso ele se depare com uma situação de trabalho escravo, consiga identificá-lo
para registrar e encaminhar ao local correto de recebimento de denúncia”,
complementa.
Auditores-fiscais
do Trabalho ouvidos pela reportagem, que preferiram não se identificar,
explicaram que o fato de não contarem com equipamentos como aeronaves dificulta
o acesso a áreas remotas, principalmente em locais como a Amazônia. Ações em
conjunto poderiam facilitar esse acesso, já que o Ibama conta com essa
estrutura.
Em
entrevista à Repórter Brasil, Jair Schmitt, presidente do Ibama, afirmou que o
órgão está aberto para essa possibilidade. Segundo ele, quando os agentes
constatam situações irregulares de trabalho, encaminham denúncias aos órgãos
competentes. “Principalmente em áreas de exploração ilegal, os indícios de
irregularidade são frequentes. Os trabalhadores, geralmente, não estão
registrados, não têm equipamentos de proteção, dormem em barracas no meio da
mata”.
Segundo
ele, um acordo de cooperação técnica entre os órgãos está em planejamento, mas
que ações em conjunto podem ser feitas independentemente disso.
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Mais de mil campos de futebol de floresta transformados em lenha
A
extração de madeira de mata nativa pelo produtor Tomaz Edilson Filice Chayb era
autorizada pela Sema-MT (Secretaria do Meio Ambiente do Mato Grosso).
No
último 9 de junho, no entanto, o governo de Mato Grosso assinou um TCA (Termo
de Compromisso Ambiental) com o Ministério Público do estado, por meio do qual
se compromete a zerar, a partir de 2034, o uso de lenha oriunda de matas
nativas em caldeiras de geração de energia. O acordo foi o resultado de
investigações conduzidas pelo órgão para apurar possíveis irregularidades na
aprovação de PSS (Planos de Suprimento Sustentável) pela Sema-MT.
O
Ministério Público argumenta que, no caso de grandes consumidores industriais
de lenha e carvão, o Código Florestal Brasileiro restringe a fonte da
matéria-prima a florestas plantadas ou a Plano de Manejo Florestal.
As
áreas autorizadas para desmatamento por Chayb somaram 1,1 mil hectares. Foram
883,9 hectares na fazenda Vô Afife, — unidade que comercializou com as empresas
Amaggi, Durli Agropecuária, Bravalat e com o pecuarista Rafael Bortoli — e
295,2 hectares na propriedade Macaúba do Xingú, unidade que comercializou com a
Bravalat.
Os
pareceres técnicos de aprovação do Plano de Exploração Florestal dessas
propriedades, acessados pela Repórter Brasil, afirmam que nas áreas do bioma
Cerrado foram encontradas espécies ameaçadas de extinção no Brasil.
O
documento cita ainda que as áreas autorizadas para desmatamento estão
parcialmente inseridas na zona de amortecimento da TI (Terra Indígena)
Capoto/Jarina, que enfrenta ameaças recorrentes, principalmente de incêndios
florestais. Lideranças da comunidade, como o indígena Raoni, manifestam também
preocupação sobre as invasões de garimpeiros e madeireiros ilegais na área.
Na
fazenda Vô Afife, a área autorizada para desmatamento e queima foi considerada
livre de embargos pela Sema-MT. Porém, há um embargo ambiental de 8,5 hectares
determinado pela secretaria na propriedade, em razão do corte raso na Área de
Reserva Legal em 2020.
Nas
documentações de autorização da fazenda Macaúba, consta, ainda, que em 2022 a
Sema-MT identificou 7,8 hectares de desmatamento fora da área autorizada. Há
também menção a auto de infração e embargo incidindo sobre a área do
licenciamento, com notificação para manifestação e adequações.
Questionada
pela Repórter Brasil, a Sema-MT afirmou que “as autorizações para exploração
florestal foram emitidas seguindo os critérios legais e técnicos e o rito
normal do processo de licenciamento ambiental”, com a exigência de medidas
compensatórias e protocolo de solicitação de Atestado Administrativo da Funai
(Fundação Nacional dos Povos Indígenas).
Em
relação às menções de infração ambiental feitas por técnicos da própria Sema-MT
nas documentações da fazenda Macaúba, a secretaria respondeu somente que “a
área recebeu autorização para supressão de vegetação” e que, apesar da
informação que consta no parecer técnico, “não existem nas bases da Sema
registros de embargo ou auto de infração sobre a área da Autorização de Desmate
citada”.
Sobre o
embargo na fazenda Vô Afife, a Sema afirmou que “o registro passou a constar na
base pública em data posterior à emissão dos pareceres técnicos, por isso não
foi mencionado na referida análise” (leia aqui o posicionamento na íntegra).
Em
relação à origem da lenha adquirida do produtor, a Amaggi disse à reportagem
que “reafirma a sua criteriosidade na aquisição de biomassa, ressaltando que,
no momento da aquisição, as autorizações concedidas pela Sema-MT estavam
regularmente vigentes, inclusive com a manutenção do volume disponibilizado
pelo órgão ambiental no sistema Sisflora, para a devida comercialização”.
Afirmou
ainda que compete ao órgão ambiental a avaliação de todos os aspectos técnicos
e legais previamente à emissão da autorização. A Amaggi também diz ter
realizado uma visita no local, quando, segundo a empresa, “foi possível
visualizar que a área embargada se encontrava devidamente isolada e em processo
de regeneração, conforme já havia sido apurado por imagens e declarado pelo
proprietário da fazenda, garantindo, assim, que não há qualquer tipo de
comercialização de biomassa oriunda de áreas irregulares”.
Também
procurada pela Repórter Brasil, a Neolat afirmou que a autorização de
exploração florestal, o licenciamento das propriedades de origem e a emissão
das guias florestais “são atos das autoridades ambientais competentes e que as
compras foram regulares e devidamente documentadas no âmbito deste sistema”.
Fonte:
Repórter Brasil

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