Estratégia
bolsonarista em audiência nos EUA fracassou, avaliam analistas
O
segundo e último dia da audiência pública sobre o "tarifaço" contra o
Brasil em Washington, D.C. contou com a presença do senador e presidenciável
Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
A
audiência ocorreu nesta terça-feira (7) no Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que analisa a proposta
de taxar os produtos brasileiros em 25%, com base na Seção de 301 da Lei de
Comércio de 1974 norte-americana.
Também
se inscreveram para serem expositores na audiência associações brasileiras de
setores atingidos pelo tarifaço, como da indústria e do agronegócio. O Planalto
e o Itamaraty já manifestaram em diferentes ocasiões que o tarifaço é político
e uma afronta à soberania do Brasil.
Esta é
a segunda-vez que a Casa Branca sobretaxa os produtos brasileiros para além do
mínimo de 10% aplicado globalmente no "Dia da Libertação", quando o
presidente Donald Trump anunciou tarifas a todos os países com que Washington
comercializa.
Após
ter celebrado as primeiras como vitória contra o governo Lula, Flávio Bolsonaro
mudou sua retórica e defendeu a suspensão das tarifas, argumentando que a
medida fortalece o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu
adversário nas eleições.
Na
semana passada, o senador já havia enviado uma carta ao secretário de Estado,
Marco Rubio, com teor similar, mas recebeu como resposta que o documento estava
mal endereçado, deveria ser direcionado ao representante de comércio Jamieson
Greer, e que, na visão do governo norte-americano, a imposição de novas tarifas
deve ser mantida.
A
decisão final sobre as taxações está prevista para ser divulgada no dia 15 de
julho. A Sputnik Brasil repercutiu o encontro com especialistas em ciência
política, economia e relações internacionais. O consenso é de que o episódio
não conseguiu contornar o desgaste político do clã Bolsonaro.
Na
opinião da analista internacional e doutora em ciência política pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Prestes, as novas investidas da
ala bolsonarista da direita não conseguiram apagar um erro de origem, uma vez
que teriam sido responsáveis pela imposição das primeiras tarifas contra o
Brasil.
À
época, o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, que mora nos EUA e perdeu o
mandato de deputado federal por faltar às sessões da Câmara, antecipou o
tarifaço nas redes sociais e agradeceu publicamente Donald Trump pelas medidas.
"Eles
se apresentaram comemorando e dizendo que era um preço a se pagar pelo Brasil
estar sob a condução do presidente Lula. Eles são percebidos pela opinião
pública em geral como gratos ao tarifaço."
Eduardo
Bolsonaro chegou a ser condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime
de coação no curso do processo, uma vez que suas ações nos Estados Unidos foram
justificadas por ele mesmo como tentativa de ajudar o julgamento de seu pai, o
ex-presidente Jair Bolsonaro, em seu julgamento por tentativa de golpe de
Estado.
Para
ela, mesmo sem influência na decisão final da Casa Branca, Flávio Bolsonaro
entrou para a história como um dos políticos brasileiros mais subservientes a
uma potência estrangeira.
A
análise foi respaldada na avaliação do professor de relações internacionais do
IBMEC/RJ e doutor em direito Lier Pires Ferreira. Ele ressaltou o peso
simbólico da participação de Flávio Bolsonaro na audiência, sem qualquer
alcance técnico ou decisório.
"O
entreguismo do clã Bolsonaro não foi bem-visto pela população, que percebe cada
vez mais que a 'famiglia' trabalha pelos seus próprios interesses, não pelos
interesses do Brasil. […] O Itamaraty vê a participação de Flávio como
potencialmente prejudicial, pois legitima junto ao governo Trump a nítida
divisão interna no Brasil sobre as políticas questionadas, mesmo que o senador
não tenha chancelado a pretensão norte-americana."
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Sobre as investigações e justificativas
As
investigações que podem justificar a taxação têm base na chamada Seção 301 da
legislação comercial estadunidense. Dentre as medidas consideradas injustas
estão: a retirada de determinados conteúdos políticos da Internet, a suspensão
de perfis de residentes nos EUA; a responsabilização de empresas dos EUA de
mídia social com multas e restrição de acesso a ativos, contas e sistemas de
processamento de pagamentos no Brasil.
O
escritório também acusa o Brasil de não adotar medidas suficientes para
combater o suborno e a corrupção, falsificação de produtos, desmatamento ilegal
― problemas que se enquadram nos motivos para o país superfaturar outras
nações.
Ainda
constam nas denúncias as alegações de tratamento tarifário desigual às
exportações de etanol dos EUA.
O Pix
também é alvo das investigações, que, segundo os investigadores, prejudica de
forma desleal serviços concorrentes de pagamento eletrônico estadunidenses, bem
como acordos comerciais preferenciais de produtos mexicanos e indianos em
diversos setores.
"As
acusações dos EUA têm aparência técnica, mas forte conteúdo político […] o
contexto mostra uso político de instrumentos comerciais para pressionar
decisões soberanas do Brasil", disse a cientista política. "Há temas
comerciais reais, como etanol e propriedade intelectual, mas a inclusão de Pix,
regulação digital, corrupção e desmatamento amplia a investigação para áreas de
soberania regulatória brasileira. O caso não é apenas sobre comércio, mas uma
clara disputa geopolítica."
O
professor do IBMEC seguiu a mesma linha de raciocínio. Ferreira citou a questão
histórica das patentes e da propriedade intelectual do etanol e do comércio
digital/Pix como avaliações mais técnicas, embora esta última, motivada pela
pressão de lobbies de fintechs dos EUA. Já as acusações de corrupção e
desmatamento ilegal são "grosseiramente políticas", segundo ele.
"Mesmo
tentando dar uma feição técnica, os 'tarifaços trumpistas' são majoritariamente
reconhecidos como ações política imperialistas, intervencionistas, ilegais e
ilegítimas."
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Impactos de mais tarifas na política brasileira
Os
reflexos políticos para Lula tendem a ocorrer, sobretudo, se houver perda de
empregos e queda de renda, mas também pode fortalecer o governo, na avaliação
de Prestes, pela posição de Lula como "defensor do Brasil contra uma
agressão externa".
Os
efeitos do aumento das tarifas no humor dos setores da economia brasileira mais
expostos às exportações para os EUA, como a agroindústria e a indústria de
transformação, assim como químicos e aviação civil, são ainda imprevisíveis.
Mas os analistas concordam que politicamente Lula saiu vitorioso em uma
simbólica queda de braço com o bolsonarismo.
"Em
que pesem efeitos setoriais sensíveis, essas novas e injustas sanções sobre o
Brasil, país com o qual os EUA mantêm um superávit histórico, permite ao
governo capitalizar politicamente a medida como 'ataque externo', mobilizando
apoio nacionalista", declarou Ferreira.
As
manifestações de parlamentares e entidades empresariais ajudaram a reforçar a
postura do governo brasileiro, de buscar o diálogo diplomático, afastando o
enfrentamento político, mas sem renunciar a uma postura independente e
soberana.
O
pesquisador mencionou outros países, como México e Canadá, cujos líderes, como
Lula, defenderam os interesses soberanos de seus países, não intervenções
oportunísticas, e foram beneficiados politicamente.
Segundo
ele, o fato de o governo Trump ter isentado produtos, como frutas, nozes,
petróleo bruto, fármacos, fertilizantes, carne bovina, café, minerais de terras
raras e partes de aeronaves brasileiras, diminuiu os "efeitos deletérios
sobre a economia e, mesmo, sobre o governo Lula".
Para a
cientista política, se as tarifas forem implementadas, perdem trabalhadores,
exportadores brasileiros, consumidores estadunidenses e a relação entre dois
países com mais de dois séculos de laços diplomáticos.
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Máculas e consequências de longo prazo
O
episódio pode deixar marcas duradouras, com desconfiança, percepção de
interferência externa e necessidade de o Brasil diversificar mercados e reduzir
dependência dos EUA, concluiu a pesquisadora.
"A
lição central é que soberania, integração regional, BRICS e multipolaridade não
são temas abstratos: são instrumentos concretos de defesa nacional diante de
chantagens comerciais."
Ferreira
foi além e avaliou o episódio como mais um passo rumo à "degradação da
confiança internacional em relação aos EUA", que tende a acelerar o
declínio relativo do país em benefício da China. Além disso, a relação
bilateral entre Brasil e EUA sofreu evidente erosão de confiança,
judicialização de questões essencialmente comerciais:
"Os
'tarifaços' e outras medidas também forçam uma mudança de paradigmas nas
relações Brasil-EUA, que migram de uma 'parceria estratégica" para a
'gestão de contenciosos', com menor cooperação em temas sensíveis. Portanto,
este episódio tende a ser lembrado como um ponto de inflexão na relação
bilateral, sinalizando para um certo afastamento."
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Nos EUA, jogando para a torcida, Flávio Bolsonaro volta a pedir adiamento de
tarifas
O
senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, defendeu nesta
terça-feira (7), durante audiência pública destinada ao setor empresarial, o
adiamento das sobretaxas propostas aos produtos brasileiros.
Aos
integrantes do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos
(USTR, na sigla em inglês), ele afirmou que os resultados das tarifas de 2025
indicam que as tarifas não atingiram seus objetivos. Em vez disso, ajudaram a
popularidade do governo Lula.
"Em
vez disso, elas foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro.
Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro — exceto justamente as
autoridades responsáveis por essas decisões."
Em
abril de 2025, o presidente estadunidense, Donald Trump, aplicou tarifas a
quase todos países com base nos déficits comerciais. O Brasil, cujo comércio
com os EUA é superavitário par aos norte-americanos, recebeu a tarifa mínima de
10%.
No
entanto, dois meses depois em julho, a Casa Branca anunciou uma sobretarifa de
40% contra os produtos brasileiros, citando motivos comerciais e políticos,
como o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, desde então condenado
pela articulação de um golpe de Estado em 2022.
A
medida, segundo pesquisas de opinião, elevou a popularidade do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, que abraçou o discurso de defesa da soberania, enquanto
engavetou os pedidos por anistia ao ex-presidente Bolsonaro, afirmaram à época
analistas à Sputnik Brasil.
Desde
então, as tarifasforam sendo retiradas gradualmente através de negociações
bilaterais, como foi o caso de novembro de 2025, quando os Estados Unidos
retiraram a sobretarifa de 40% de diversos setores, e em fevereiro deste ano,
quando a Suprema Corte norte-americana decretou que o mecanismo legal usado
para impor as tarifas globais teve seu uso desvirtuado.
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O fator eleições
Em sua
fala aos representantes norte-americanos, Flávio Bolsonaro lembrou que dentro
de 90 dias, quando ocorre a eleição no Brasil, o cenário político do país pode
ser completamente diferente. Segundo o pré-candidato, isto deve ser considerado
na aplicação das tarifas.
Ou
seja, em sua visão, se eleito, haverá um novo diálogo entre o Brasil e a Casa
Branca. Caso contrário
"Impor
agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são
responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas
consequências — seria o pior momento possível para agir."
• Flávio Bolsonaro perde autonomia entre
pendulares após dossiê aos EUA, aponta pesquisa
Flávio
Bolsonaro enfrentou desgaste entre eleitores pendulares após enviar aos EUA um
dossiê pedindo a suspensão de tarifas, movimento visto como submissão e
motivado por cálculo eleitoral, enquanto Lula avançou nesse grupo por ser
percebido como mais alinhado aos interesses do Brasil.
De
acordo com um dos principais jornais do país, o dossiê de 86 páginas enviado
pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao governo dos Estados Unidos, em que ele
pede pela suspensão por 180 dias das tarifas sobre produtos brasileiros, teria
provocado desgaste entre os chamados eleitores pendulares do pré-candidato à
Presidência da República, segundo a oitava rodada da pesquisa qualitativa do
Instituto Democracia em Xeque.
Segundo
a apuração, a instituição afirma que esse grupo, decisivo em disputas
polarizadas, reagiu mal ao gesto, e que Flávio Bolsonaro estaria perdendo não
apenas confiança, mas também autonomia narrativa.
O
levantamento indica que os entrevistados enxergaram no documento maior
preocupação do senador com o impacto eleitoral das tarifas do que com a defesa
das empresas brasileiras afetadas.
Para
além disso, a menção ao Pix na carta enviada ao presidente dos EUA, Donald
Trump, também teria sido mal recebida, interpretada por parte dos participantes
como sinal de alinhamento aos interesses das empresas norte-americanas de
cartões de crédito.
A
pesquisa aponta ainda que, pela terceira semana consecutiva, a agenda de Flávio
Bolsonaro estaria dominada por polêmicas e explicações consideradas
insuficientes, além da percepção de que informações relevantes estariam sendo
omitidas.
O
diretor de Relações Institucionais do instituto responsável pela pesquisa, Beto
Vasques, afirmou à apuração que episódios recentes como a carta a Trump, o
ruído envolvendo Michelle Bolsonaro e declarações de Paulo Figueiredo sobre o
voto feminino reforçaram entre os entrevistados a imagem de um candidato visto
menos como figura autônoma e mais como extensão de uma família em conflito
permanente, envolvida em controvérsias sucessivas e percebida como subordinada
aos Estados Unidos.
Nesse
contexto, o estudo qualitativo aponta avanço do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva entre os eleitores pendulares. Vasques disse que, embora o presidente não
desperte entusiasmo nesse segmento, ele seria associado de forma mais
consistente às políticas sociais e à defesa dos interesses do Brasil.
Os
participantes da pesquisa teriam distinguido, segundo o instituto, a diferença
entre manter uma boa relação com os Estados Unidos e adotar postura de
submissão aos interesses norte-americanos.
O
senador Flávio Bolsonaro está inscrito para falar na audiência pública
promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos
(USTR, na sigla em inglês), em Washington, mas aliados do senador já sinalizam
preocupação de que sua fala possa servir de combustível para a campanha de
Lula.
Em
paralelo, a defesa do Brasil feita por Lula foi vista de maneira positiva,
ainda que persistam críticas ao que alguns classificaram como um discurso
"antiamericanista".
Enquanto
isso, o impacto do envolvimento de Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo
no Senado, em um suposto esquema de corrupção, continuaria presente, mas com
menor força, já que o afastamento de Wagner da liderança do governo foi bem
recebido por esse eleitorado.
Fonte:
Sputnik Brasil

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