quinta-feira, 9 de julho de 2026

Estratégia bolsonarista em audiência nos EUA fracassou, avaliam analistas

O segundo e último dia da audiência pública sobre o "tarifaço" contra o Brasil em Washington, D.C. contou com a presença do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

A audiência ocorreu nesta terça-feira (7) no Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), que analisa a proposta de taxar os produtos brasileiros em 25%, com base na Seção de 301 da Lei de Comércio de 1974 norte-americana.

Também se inscreveram para serem expositores na audiência associações brasileiras de setores atingidos pelo tarifaço, como da indústria e do agronegócio. O Planalto e o Itamaraty já manifestaram em diferentes ocasiões que o tarifaço é político e uma afronta à soberania do Brasil.

Esta é a segunda-vez que a Casa Branca sobretaxa os produtos brasileiros para além do mínimo de 10% aplicado globalmente no "Dia da Libertação", quando o presidente Donald Trump anunciou tarifas a todos os países com que Washington comercializa.

Após ter celebrado as primeiras como vitória contra o governo Lula, Flávio Bolsonaro mudou sua retórica e defendeu a suspensão das tarifas, argumentando que a medida fortalece o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, seu adversário nas eleições.

Na semana passada, o senador já havia enviado uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio, com teor similar, mas recebeu como resposta que o documento estava mal endereçado, deveria ser direcionado ao representante de comércio Jamieson Greer, e que, na visão do governo norte-americano, a imposição de novas tarifas deve ser mantida.

A decisão final sobre as taxações está prevista para ser divulgada no dia 15 de julho. A Sputnik Brasil repercutiu o encontro com especialistas em ciência política, economia e relações internacionais. O consenso é de que o episódio não conseguiu contornar o desgaste político do clã Bolsonaro.

Na opinião da analista internacional e doutora em ciência política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Ana Prestes, as novas investidas da ala bolsonarista da direita não conseguiram apagar um erro de origem, uma vez que teriam sido responsáveis pela imposição das primeiras tarifas contra o Brasil.

À época, o irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, que mora nos EUA e perdeu o mandato de deputado federal por faltar às sessões da Câmara, antecipou o tarifaço nas redes sociais e agradeceu publicamente Donald Trump pelas medidas.

"Eles se apresentaram comemorando e dizendo que era um preço a se pagar pelo Brasil estar sob a condução do presidente Lula. Eles são percebidos pela opinião pública em geral como gratos ao tarifaço."

Eduardo Bolsonaro chegou a ser condenado no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo crime de coação no curso do processo, uma vez que suas ações nos Estados Unidos foram justificadas por ele mesmo como tentativa de ajudar o julgamento de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em seu julgamento por tentativa de golpe de Estado.

Para ela, mesmo sem influência na decisão final da Casa Branca, Flávio Bolsonaro entrou para a história como um dos políticos brasileiros mais subservientes a uma potência estrangeira.

A análise foi respaldada na avaliação do professor de relações internacionais do IBMEC/RJ e doutor em direito Lier Pires Ferreira. Ele ressaltou o peso simbólico da participação de Flávio Bolsonaro na audiência, sem qualquer alcance técnico ou decisório.

"O entreguismo do clã Bolsonaro não foi bem-visto pela população, que percebe cada vez mais que a 'famiglia' trabalha pelos seus próprios interesses, não pelos interesses do Brasil. […] O Itamaraty vê a participação de Flávio como potencialmente prejudicial, pois legitima junto ao governo Trump a nítida divisão interna no Brasil sobre as políticas questionadas, mesmo que o senador não tenha chancelado a pretensão norte-americana."

<><> Sobre as investigações e justificativas

As investigações que podem justificar a taxação têm base na chamada Seção 301 da legislação comercial estadunidense. Dentre as medidas consideradas injustas estão: a retirada de determinados conteúdos políticos da Internet, a suspensão de perfis de residentes nos EUA; a responsabilização de empresas dos EUA de mídia social com multas e restrição de acesso a ativos, contas e sistemas de processamento de pagamentos no Brasil.

O escritório também acusa o Brasil de não adotar medidas suficientes para combater o suborno e a corrupção, falsificação de produtos, desmatamento ilegal ― problemas que se enquadram nos motivos para o país superfaturar outras nações.

Ainda constam nas denúncias as alegações de tratamento tarifário desigual às exportações de etanol dos EUA.

O Pix também é alvo das investigações, que, segundo os investigadores, prejudica de forma desleal serviços concorrentes de pagamento eletrônico estadunidenses, bem como acordos comerciais preferenciais de produtos mexicanos e indianos em diversos setores.

"As acusações dos EUA têm aparência técnica, mas forte conteúdo político […] o contexto mostra uso político de instrumentos comerciais para pressionar decisões soberanas do Brasil", disse a cientista política. "Há temas comerciais reais, como etanol e propriedade intelectual, mas a inclusão de Pix, regulação digital, corrupção e desmatamento amplia a investigação para áreas de soberania regulatória brasileira. O caso não é apenas sobre comércio, mas uma clara disputa geopolítica."

O professor do IBMEC seguiu a mesma linha de raciocínio. Ferreira citou a questão histórica das patentes e da propriedade intelectual do etanol e do comércio digital/Pix como avaliações mais técnicas, embora esta última, motivada pela pressão de lobbies de fintechs dos EUA. Já as acusações de corrupção e desmatamento ilegal são "grosseiramente políticas", segundo ele.

"Mesmo tentando dar uma feição técnica, os 'tarifaços trumpistas' são majoritariamente reconhecidos como ações política imperialistas, intervencionistas, ilegais e ilegítimas."

<><> Impactos de mais tarifas na política brasileira

Os reflexos políticos para Lula tendem a ocorrer, sobretudo, se houver perda de empregos e queda de renda, mas também pode fortalecer o governo, na avaliação de Prestes, pela posição de Lula como "defensor do Brasil contra uma agressão externa".

Os efeitos do aumento das tarifas no humor dos setores da economia brasileira mais expostos às exportações para os EUA, como a agroindústria e a indústria de transformação, assim como químicos e aviação civil, são ainda imprevisíveis. Mas os analistas concordam que politicamente Lula saiu vitorioso em uma simbólica queda de braço com o bolsonarismo.

"Em que pesem efeitos setoriais sensíveis, essas novas e injustas sanções sobre o Brasil, país com o qual os EUA mantêm um superávit histórico, permite ao governo capitalizar politicamente a medida como 'ataque externo', mobilizando apoio nacionalista", declarou Ferreira.

As manifestações de parlamentares e entidades empresariais ajudaram a reforçar a postura do governo brasileiro, de buscar o diálogo diplomático, afastando o enfrentamento político, mas sem renunciar a uma postura independente e soberana.

O pesquisador mencionou outros países, como México e Canadá, cujos líderes, como Lula, defenderam os interesses soberanos de seus países, não intervenções oportunísticas, e foram beneficiados politicamente.

Segundo ele, o fato de o governo Trump ter isentado produtos, como frutas, nozes, petróleo bruto, fármacos, fertilizantes, carne bovina, café, minerais de terras raras e partes de aeronaves brasileiras, diminuiu os "efeitos deletérios sobre a economia e, mesmo, sobre o governo Lula".

Para a cientista política, se as tarifas forem implementadas, perdem trabalhadores, exportadores brasileiros, consumidores estadunidenses e a relação entre dois países com mais de dois séculos de laços diplomáticos.

<>< Máculas e consequências de longo prazo

O episódio pode deixar marcas duradouras, com desconfiança, percepção de interferência externa e necessidade de o Brasil diversificar mercados e reduzir dependência dos EUA, concluiu a pesquisadora.

"A lição central é que soberania, integração regional, BRICS e multipolaridade não são temas abstratos: são instrumentos concretos de defesa nacional diante de chantagens comerciais."

Ferreira foi além e avaliou o episódio como mais um passo rumo à "degradação da confiança internacional em relação aos EUA", que tende a acelerar o declínio relativo do país em benefício da China. Além disso, a relação bilateral entre Brasil e EUA sofreu evidente erosão de confiança, judicialização de questões essencialmente comerciais:

"Os 'tarifaços' e outras medidas também forçam uma mudança de paradigmas nas relações Brasil-EUA, que migram de uma 'parceria estratégica" para a 'gestão de contenciosos', com menor cooperação em temas sensíveis. Portanto, este episódio tende a ser lembrado como um ponto de inflexão na relação bilateral, sinalizando para um certo afastamento."

<><> Nos EUA, jogando para a torcida, Flávio Bolsonaro volta a pedir adiamento de tarifas

O senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro, defendeu nesta terça-feira (7), durante audiência pública destinada ao setor empresarial, o adiamento das sobretaxas propostas aos produtos brasileiros.

Aos integrantes do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), ele afirmou que os resultados das tarifas de 2025 indicam que as tarifas não atingiram seus objetivos. Em vez disso, ajudaram a popularidade do governo Lula.

"Em vez disso, elas foram exploradas politicamente pelo atual governo brasileiro. Uma tarifa de 25% penaliza todo o povo brasileiro — exceto justamente as autoridades responsáveis por essas decisões."

Em abril de 2025, o presidente estadunidense, Donald Trump, aplicou tarifas a quase todos países com base nos déficits comerciais. O Brasil, cujo comércio com os EUA é superavitário par aos norte-americanos, recebeu a tarifa mínima de 10%.

No entanto, dois meses depois em julho, a Casa Branca anunciou uma sobretarifa de 40% contra os produtos brasileiros, citando motivos comerciais e políticos, como o tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro, desde então condenado pela articulação de um golpe de Estado em 2022.

A medida, segundo pesquisas de opinião, elevou a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que abraçou o discurso de defesa da soberania, enquanto engavetou os pedidos por anistia ao ex-presidente Bolsonaro, afirmaram à época analistas à Sputnik Brasil.

Desde então, as tarifasforam sendo retiradas gradualmente através de negociações bilaterais, como foi o caso de novembro de 2025, quando os Estados Unidos retiraram a sobretarifa de 40% de diversos setores, e em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte norte-americana decretou que o mecanismo legal usado para impor as tarifas globais teve seu uso desvirtuado.

<><> O fator eleições

Em sua fala aos representantes norte-americanos, Flávio Bolsonaro lembrou que dentro de 90 dias, quando ocorre a eleição no Brasil, o cenário político do país pode ser completamente diferente. Segundo o pré-candidato, isto deve ser considerado na aplicação das tarifas.

Ou seja, em sua visão, se eleito, haverá um novo diálogo entre o Brasil e a Casa Branca. Caso contrário

"Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir."

•        Flávio Bolsonaro perde autonomia entre pendulares após dossiê aos EUA, aponta pesquisa

Flávio Bolsonaro enfrentou desgaste entre eleitores pendulares após enviar aos EUA um dossiê pedindo a suspensão de tarifas, movimento visto como submissão e motivado por cálculo eleitoral, enquanto Lula avançou nesse grupo por ser percebido como mais alinhado aos interesses do Brasil.

De acordo com um dos principais jornais do país, o dossiê de 86 páginas enviado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao governo dos Estados Unidos, em que ele pede pela suspensão por 180 dias das tarifas sobre produtos brasileiros, teria provocado desgaste entre os chamados eleitores pendulares do pré-candidato à Presidência da República, segundo a oitava rodada da pesquisa qualitativa do Instituto Democracia em Xeque.

Segundo a apuração, a instituição afirma que esse grupo, decisivo em disputas polarizadas, reagiu mal ao gesto, e que Flávio Bolsonaro estaria perdendo não apenas confiança, mas também autonomia narrativa.

O levantamento indica que os entrevistados enxergaram no documento maior preocupação do senador com o impacto eleitoral das tarifas do que com a defesa das empresas brasileiras afetadas.

Para além disso, a menção ao Pix na carta enviada ao presidente dos EUA, Donald Trump, também teria sido mal recebida, interpretada por parte dos participantes como sinal de alinhamento aos interesses das empresas norte-americanas de cartões de crédito.

A pesquisa aponta ainda que, pela terceira semana consecutiva, a agenda de Flávio Bolsonaro estaria dominada por polêmicas e explicações consideradas insuficientes, além da percepção de que informações relevantes estariam sendo omitidas.

O diretor de Relações Institucionais do instituto responsável pela pesquisa, Beto Vasques, afirmou à apuração que episódios recentes como a carta a Trump, o ruído envolvendo Michelle Bolsonaro e declarações de Paulo Figueiredo sobre o voto feminino reforçaram entre os entrevistados a imagem de um candidato visto menos como figura autônoma e mais como extensão de uma família em conflito permanente, envolvida em controvérsias sucessivas e percebida como subordinada aos Estados Unidos.

Nesse contexto, o estudo qualitativo aponta avanço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva entre os eleitores pendulares. Vasques disse que, embora o presidente não desperte entusiasmo nesse segmento, ele seria associado de forma mais consistente às políticas sociais e à defesa dos interesses do Brasil.

Os participantes da pesquisa teriam distinguido, segundo o instituto, a diferença entre manter uma boa relação com os Estados Unidos e adotar postura de submissão aos interesses norte-americanos.

O senador Flávio Bolsonaro está inscrito para falar na audiência pública promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), em Washington, mas aliados do senador já sinalizam preocupação de que sua fala possa servir de combustível para a campanha de Lula.

Em paralelo, a defesa do Brasil feita por Lula foi vista de maneira positiva, ainda que persistam críticas ao que alguns classificaram como um discurso "antiamericanista".

Enquanto isso, o impacto do envolvimento de Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do governo no Senado, em um suposto esquema de corrupção, continuaria presente, mas com menor força, já que o afastamento de Wagner da liderança do governo foi bem recebido por esse eleitorado.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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