quinta-feira, 9 de julho de 2026

Díaz-Canel nega guinada capitalista e diz que Cuba muda para enfrentar bloqueio dos EUA

Em meio ao endurecimento da política externa dos Estados Unidos sob o segundo governo Donald Trump, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, concedeu uma entrevista exclusiva ao jornal Claridad, de Porto Rico, na qual abordou os principais desafios enfrentados pela Revolução Cubana diante do recrudescimento do bloqueio econômico, da crescente pressão imperialista na América Latina e das mudanças em curso no modelo econômico da ilha.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Jorge Lefevre Tavárez: Nas últimas semanas, certos temas despertaram grande interesse e muitas perguntas sobre o que ocorre em Cuba, no contexto de uma intensificação da agressão imperialista por parte do governo Donald Trump. Queríamos iniciar a conversa comentando as 176 medidas econômicas e sociais recentemente anunciadas. A partir de distintas perspectivas ideológicas, há uma pergunta recorrente: o que poderá ocorrer no futuro, a partir dessas medidas, que abrem certos setores estratégicos da economia cubana ao capital privado e ao mercado? Para dar dois exemplos, há uma abertura para os bancos privados e a flexibilização da venda de propriedades imobiliárias. Queríamos saber, então, sua avaliação sobre essas preocupações e sobre uma possível abertura ao capitalismo em Cuba.

Creio que é injusto quando afirmam que essas medidas, que estamos aplicando de maneira soberana e que foram construídas com determinado consenso e após muitos anos de debate, tenham algo a ver com uma restauração capitalista. Como parte do processo natural de continuidade geracional em Cuba, a geração que está assumindo neste momento as principais responsabilidades no Partido Comunista e no governo, no Estado, nasceu com a Revolução e defende a Revolução. A Revolução é a nossa vida. Não se pode pensar que qualquer um de nós esteja promovendo uma restauração capitalista em Cuba. Mas sempre que em Cuba se faz algo, tudo é polêmico, tudo desperta interesse. Também se manipula a realidade cubana e se tenta atribuir-lhe muitas interpretações a partir da direita e, lamentavelmente, às vezes também da esquerda.Em primeiro lugar, nós temos um desafio como nação, temos um desafio como Revolução, e é um desafio que precisamos assumir com muita responsabilidade e objetividade. Cuba está tratando de realizar o processo de construção socialista — e insisto, de construção socialista — nas condições de uma pequena ilha que sobreviveu ao bloqueio econômico, comercial e financeiro, recrudescido e agora levado ao máximo com um bloqueio energético por parte da potência mais poderosa do mundo. Como se constrói o socialismo nessas condições? Alguém já o concebeu? Alguém pôde antecipar isso? Nós estudamos a teoria marxista. Estudamos também a Revolução Russa, os movimentos revolucionários do mundo, a experiência da construção socialista no Vietnã e na China. Mas ninguém esteve submetido ao bloqueio prolongado que sofre Cuba. Quem pode nos ensinar como se constrói o socialismo nessas condições, se ninguém tem essa experiência, se ninguém viveu dessa forma? Nós, por isso, fomos à essência de nossa história, à essência do pensamento de Fidel, do general de Exército e também ao legado do pensamento do Che.

Este é um debate que já havia começado há vários anos. Ainda que haja pessoas que digam que estas são medidas novas, desde o Sexto Congresso do Partido, quando surgiu a primeira versão das Diretrizes da Política Econômica e Social, já se dizia que era preciso fazer mudanças em nosso modelo econômico e social sem renunciar ao socialismo. Posteriormente, nos Sétimo e Oitavo Congressos, foi conceituado o modelo econômico e social. No processo de construção do que é chamado de transição ao socialismo, há diferentes tipos de propriedade. O que distingue o socialismo é que a propriedade social deve ser a principal, sobre os principais meios de produção. Nós não negamos isso. Por outro lado, nossa Constituição — uma Constituição socialista — reconhece distintos tipos de propriedade e, inclusive, diferentes formas de administrar a propriedade social de todo o povo por meio de diferentes atores econômicos. Nós estamos vivendo uma situação extremamente complexa de bloqueio, com danos acumulados nos planos econômico e social devido ao prolongamento desse bloqueio. Temos que ser capazes, com características cubanas, de construir este socialismo. Portanto, trata-se de não renunciar ao ideal e de avançar sem abandonar a construção socialista. Porque nós nunca pudemos fazer o socialismo que queremos, mas sim o socialismo que foi possível construir. Chama-me muito a atenção o fato de esse programa de medidas conter tantos aspectos e tanto conteúdo e, no entanto, o foco recair apenas sobre a questão de saber se estamos ou não abrindo determinadas atividades ao setor privado. Por que não veem que a primeira coisa que as medidas fazem é declarar a continuidade do socialismo em Cuba? Por que não veem que seguimos reafirmando a propriedade social como a principal forma de propriedade? Por que não dizem que tudo o que estamos pretendendo é liberar as forças produtivas para produzir mais em meio a estas condições, gerar mais riqueza material para distribuí-la com justiça social? Qualquer medida que adotemos sempre considera as pessoas em situação de vulnerabilidade ou desigualdade. Estes são conceitos socialistas que estão na base de tudo o que vamos fazer. Mas, além disso, a maior parte das pessoas que representam o setor, digamos, não estatal em Cuba, o setor privado, é formada por pessoas revolucionárias. Não é gente que se opõe à Revolução. Quando estamos falando da possibilidade de investimento por cubanos residentes no exterior, não estamos falando dos cubanos que querem fazer desaparecer a Revolução. Estamos falando dos cubanos que mantiveram uma relação com seu país, com sua identidade e que querem contribuir. Seria muito contraditório que nós, que estamos abertos ao investimento estrangeiro, não estivéssemos abertos ao investimento dos cubanos que vivem aqui ou residem no exterior. Esses elementos fazem parte do conteúdo dessas medidas. E há referências históricas. Lembrem-se de que, para Cuba, a Revolução nunca foi fácil. Estivemos, em 1962, à beira de um conflito nuclear de alcance mundial. Depois, nos anos 1990, veio o Período Especial. No Período Especial, coisas que hoje parecem muito normais foram totalmente inovadoras e necessárias naquela época. Naquele momento, pela primeira vez, Cuba descriminalizou a posse de divisas, e isso significava a criação de determinados níveis de desigualdade em uma sociedade que sempre lutou pela justiça social. Significava que um grupo de pessoas passaria a se distinguir de outras não pela contribuição de seu trabalho — que é o princípio da distribuição no socialismo —, mas porque tinha acesso às remessas enviadas do exterior. Mas o país necessitava de divisas. Essas divisas não entravam porque estavam bloqueadas. Se podiam entrar por essa via, por que iríamos impedir?  As questões da economia política precisam ser analisadas em toda a sua inter-relação. Cuba deu esse passo para dispor de um nível maior de divisas. Mas para quê? Para fortalecer os programas sociais, fortalecer a economia e, fortalecendo a economia, manter os programas sociais. Nossa visão, que Fidel nos ensinou, é a de desenvolvimento econômico com desenvolvimento social. Os países capitalistas podem se desenvolver economicamente, mas isso não significa desenvolvimento social, porque não há justiça social. Tudo isso fez parte desse debate. Tenham certeza de que aqui não há traição à construção socialista, nem por princípio, nem por convicção, nem por ação.

·        Luis De Jesús: Muitas dessas medidas, inclusive, já haviam sido propostas por economistas e especialistas cubanos há vários anos. O senhor comentava, inclusive, que elas já tinham sido discutidas em congressos anteriores do Partido. A pergunta agora é: por que implementá-las com essa celeridade?

Pela compreensão. Não podemos aplicar medidas se não houver compreensão, se não tivermos construído um consenso. Imaginem que, ainda assim, em meio a esta situação, nós as estamos propondo e já existem opiniões divididas. Depende muito de conseguirmos construir politicamente a compreensão dessas medidas. São medidas que envolvem contradições e riscos. Nem todos os economistas as propuseram a partir da perspectiva da construção socialista. Já há um grupo de economistas defendendo um projeto de desenvolvimento social de mercado — retiraram a palavra “socialismo”. Há outros que começaram a dizer que é preciso mudar o sistema político. Nós não vamos mudar o sistema político. Continuamos defendendo nosso socialismo. Esse foi um debate que, como eu dizia, começou no Sexto Congresso. Aprofundou-se no Sétimo, avançou no Oitavo, e já estávamos nos preparando para o Nono Congresso. No fim do ano passado, quando pretendíamos levar todas essas questões ao Nono Congresso, tivemos de tomar a decisão de adiá-lo, porque a situação do país era muito complexa e precisávamos concentrar nossos esforços no fundamental. Mas o que explicamos na 11ª Plenária do Comitê Central do Partido, realizada no fim do ano passado? Que o adiamento do congresso não significava deixar de implementar as medidas necessárias para dar continuidade à Revolução. Sem dúvida, a própria situação também nos impõe urgência. Faz seis meses que não entra uma gota de combustível em Cuba. Alguma economia do mundo pode funcionar sem combustível? Alguma economia consegue manter programas sociais e justiça social sem combustível? Aplicaram contra nós uma política genocida, criminosa. O que está sendo cometido contra Cuba é um crime. E, mesmo nessas condições, continuamos sonhando e continuamos defendendo nossos princípios. Mas há coisas que precisam mudar.

·        Sobre a comunicação com o povo para que compreenda essas medidas. Presidente, vivo em Cuba há cinco anos e, nos últimos tempos, vemos situações que não existiam há quatro anos. Por exemplo, no bairro onde moro, praticamente todas as noites há panelaços em razão do descontentamento com os apagões. O senhor acredita que a população realmente compreende a situação pela qual o país está passando?

Acredito que a maior parte da população compreende. Também não podemos ser idealistas. Às vezes se olha para Cuba com um idealismo enorme e se acredita que, em um processo de construção socialista sob permanente agressão dos Estados Unidos, todos pensarão da mesma forma e agirão da mesma maneira. Isso é impossível. O que acontece é que essas peculiaridades de Cuba são exploradas pela intoxicação midiática com que tentam desacreditá-la. Esta também é uma sociedade heterogênea, como qualquer outra do mundo. Mas é uma sociedade com maturidade política. O que posso dizer é que a maior parte do nosso povo sabe qual é a origem dos nossos problemas e sabe que eles decorrem muito mais do bloqueio prolongado e do recrudescimento desse bloqueio do que de uma gestão deficiente, como procuram fazer crer os porta-vozes do imperialismo. Porque sabem da vontade com que se trabalha aqui, sabem do vínculo existente entre governo e povo e sabem como os problemas são enfrentados. O principal obstáculo ao nosso desenvolvimento continua sendo o bloqueio. Mas apenas essa convicção não basta. A resistência, por si só, não resolve os problemas. Por isso, eu disse na Assembleia Nacional e também na última Plenária do Comitê Central que um governo revolucionário, um partido revolucionário consciente da situação, não existe apenas para explicar a crise; existe para ajudar a solucioná-la. É preciso agir. Não podemos permanecer parados no tempo. Eu lhes digo: em meio a toda esta situação, que vocês vivem e que é muito dura — porque há escassez de transporte, de alimentos, de medicamentos, e apagões prolongados que chegam a ultrapassar vinte horas —, é natural que exista insatisfação. Ninguém pode estar satisfeito. O povo está sofrendo. Isso faz parte da estratégia imperialista. A estratégia imperialista consiste em asfixiar economicamente Cuba para provocar exatamente isso: uma ruptura entre o povo e a Revolução. Como disse Trump certa vez: “Aplicamos todas as pressões possíveis; já quase não há mais nada a fazer, a não ser arrasá-los.”

·        Quando o senhor assumiu a Presidência, ainda havia certo otimismo em razão da retomada do diálogo com os Estados Unidos que, embora nunca tenha eliminado o bloqueio, estabeleceu uma comunicação que trouxe alguns resultados econômicos. Agora, apesar de Cuba ter demonstrado diversas vezes interesse em dialogar, já não existe apenas resistência ao diálogo, mas uma ofensiva total durante o segundo governo Donald Trump. Gostaríamos que o senhor refletisse sobre essa mudança e também explicasse como Cuba se prepara para enfrentar um ambiente tão hostil.

Cuba e a Revolução sempre mantiveram a mesma posição: a de construir um canal de comunicação que permita, por meio do diálogo, resolver os problemas existentes e estabelecer uma relação civilizada entre países vizinhos, independentemente das diferenças ideológicas, que existem e continuarão existindo. Os Estados Unidos mantêm relações dessa natureza com países que consideram seus adversários. Têm relações com a Rússia, com a China e com outros países que não são seus aliados.

Agora, Cuba sempre defendeu que esse diálogo deve ocorrer com base no respeito à nossa autodeterminação, à nossa soberania e à nossa independência, sem questionamentos ao nosso sistema político nem condicionamentos prévios para iniciar uma conversa. Um diálogo que contribua para preservar a segurança nacional de Cuba, a segurança nacional dos Estados Unidos e, inclusive, a estabilidade da América Latina e do Caribe. Esse diálogo deveria permitir identificar áreas nas quais possamos desenvolver projetos comuns que beneficiem ambos os povos. É isso que os nossos povos merecem. Eles não merecem viver em confronto. Para que isso aconteça, é necessária disposição das duas partes. Também é preciso sensibilidade, porque estão em jogo relações bilaterais. Essas conversas exigem, igualmente, certa discrição para construir consensos e elaborar uma agenda capaz de produzir avanços concretos, afastando-nos da lógica permanente do confronto. O governo de Barack Obama atuou dessa maneira. Foi um governo discreto nas negociações, avançou gradualmente, nunca impôs condições prévias, e fomos construindo passos conjuntos até que chegou o momento de anunciar os resultados dessas conversações e restabelecer as relações. Obama não suspendeu o bloqueio. Ainda assim, cidadãos estadunidenses e cubanos puderam voltar a circular entre os dois países, alguns negócios passaram a ser realizados, o turismo cresceu e ambos os países obtiveram benefícios. Como povos, podemos compartilhar muitas coisas: experiências, cultura, ciência, esporte. Nós continuamos tentando construir esse canal de comunicação. Mas todos os dias surge uma nova sanção contra uma entidade cubana ou contra um cidadão cubano. Todos os dias ouvimos uma nova ameaça de invasão ou agressão. Todos os dias há uma ofensa ao nosso povo. Todos os dias apertam ainda mais o cerco do bloqueio.

Quando isso acontece, perde-se a confiança na possibilidade de diálogo. Existe uma posição de absoluta assimetria. Há um comportamento profundamente mentiroso e calunioso por parte do governo dos Estados Unidos. Tomam como pretexto a afirmação de que Cuba representa uma ameaça extraordinária e incomum à segurança nacional dos Estados Unidos. Isso é mentira. Nós nunca praticamos qualquer ação de agressão contra os Estados Unidos. Também afirmam que Cuba é um país que apoia o terrorismo. Essa é outra mentira. Nós somos vítimas do terrorismo. Temos mais de 3.200 vítimas de ações terroristas organizadas e apoiadas por governos dos Estados Unidos. Recentemente, impedimos uma ação terrorista organizada a partir do território estadunidense. Os Estados Unidos impedem a chegada de navios de petróleo a Cuba, mas permitem que embarcações partam de seu território para cometer atos terroristas contra nosso país. Há muita hipocrisia e muito pouca dignidade nessas posições. Há muita mentira, muita calúnia, muito ódio e muita prepotência. O povo cubano é um povo rebelde e coerente com sua própria história. Diante de toda essa situação, adotamos uma estratégia para defender nossa soberania, nossa autodeterminação e nossa capacidade de resistência criativa, estruturada em cinco eixos.

O primeiro é a defesa nacional. Elevamos nossos níveis de preparação. Nossa doutrina é inteiramente defensiva. Não nos preparamos para agredir ninguém; preparamo-nos para dissuadir qualquer tentativa de agressão contra Cuba. Queremos que qualquer um que cogite uma aventura militar saiba o custo que ela teria. Estamos desenvolvendo um amplo movimento político de participação popular, sobretudo nas comunidades, porque hoje é nelas que a vida cotidiana se concentra em razão das próprias adaptações que tivemos de fazer na vida laboral e no calendário escolar diante das limitações provocadas pelo bloqueio. Também estamos atribuindo protagonismo à juventude. Os jovens criaram um projeto extremamente inovador: a Rede Juvenil Comunitária, organizada em sete frentes de atuação voltadas para o atendimento à população vulnerável, a produção de alimentos, a questão energética, as atividades culturais, a disciplina social e a atuação nas redes sociais em defesa da Revolução. Também desenvolvemos uma ofensiva comunicacional. Não podemos permitir que os únicos conteúdos sobre Cuba presentes nas redes sociais sejam aqueles produzidos pela campanha de desinformação e ódio promovida pelos operadores subordinados aos interesses do império. O quinto eixo é fortalecer o movimento internacional de solidariedade com Cuba. No campo econômico, há muitas outras iniciativas, mas algumas são fundamentais. Vamos consumir aquilo que formos capazes de produzir. Por isso, estamos impulsionando uma estratégia para alcançar, no menor prazo possível, a soberania alimentar do país. Outro grande objetivo é a transição energética baseada em fontes renováveis. No ano passado, conseguimos investimentos equivalentes a mais de 1.000 megawatts em parques fotovoltaicos. Sem esses investimentos, o sistema energético teria colapsado. Vamos continuar avançando nessa transição, combinando a expansão das energias renováveis com o aproveitamento do petróleo produzido em Cuba.

·        Parte do recrudescimento do bloqueio, especialmente do bloqueio energético, decorre da pressão que os Estados Unidos exercem sobre outros países em suas relações com Cuba. Gostaríamos que o senhor comentasse uma impressão recorrente: embora Cuba tenha sido historicamente um país extremamente solidário com aqueles que solicitaram sua ajuda, hoje, em um momento em que tanto se fala em multipolaridade e em desafios à hegemonia estadunidense, parece que muitos países — inclusive alguns governados por forças progressistas — não oferecem a ajuda de que Cuba necessita. Países produtores de petróleo, por diferentes razões, não têm enfrentado de maneira mais firme o que, na prática, constitui uma política genocida dos Estados Unidos.

A solidariedade é uma forma de agir. Eu diria que é a forma mais altruísta de comportamento de uma pessoa, de um grupo social, de uma comunidade, de um país ou de um povo. Ela só existe quando há convicção e quando não existe egoísmo.

Fidel nos ensinou o verdadeiro conceito de solidariedade. Sempre dizia que ela era um compromisso moral, uma dívida moral que devíamos cumprir com o restante da humanidade. Também dizia que não éramos solidários compartilhando aquilo que nos sobrava, mas aquilo que tínhamos, fosse pouco ou muito. Creio que Cuba foi, ao longo de todos esses anos, um exemplo desse princípio. A solidariedade é um dos valores que precisamos preservar no mundo, porque representa a alternativa ao egoísmo e ao individualismo próprios das sociedades de consumo. E, de fato, existe solidariedade com Cuba. Cuba não está sozinha. Em datas importantes, como o Primeiro de Maio e o 26 de Julho, milhares de pessoas de todo o mundo chegam a Cuba para manifestar sua solidariedade. Essa solidariedade chega todos os anos também de Porto Rico. Há mais de 35 anos, a Brigada Juan Rius Rivera visita Cuba, liderada por nossa amiga e irmã Milagros Rivera. Nos momentos mais difíceis, recebemos solidariedade do irmão povo mexicano e da presidenta Claudia Sheinbaum. Recebemos ajuda da Federação Russa. O único navio que conseguiu chegar a Cuba em seis meses foi um navio russo, que nos deu um respiro durante 15 dias. Tenho certeza de que, no bairro onde você mora, houve menos apagões naquele período do que agora. Também recebemos ajuda da China. Muitos dos investimentos que realizamos em parques fotovoltaicos e em outros insumos foram possíveis graças ao apoio chinês. Recebemos ajuda do Vietnã, além da solidariedade de inúmeras organizações e movimentos políticos ao redor do mundo.

Cuba jamais pedirá solidariedade como retribuição pela solidariedade que ofereceu.

Nós partimos de uma convicção: a solidariedade é a expressão mais altruísta que pode existir entre pessoas, povos e nações. Nunca exigiremos nada em troca. Mas acredito que este seja um momento — e digo isso sem pensar apenas em Cuba — em que defender Cuba significa defender também a causa do anti-imperialismo, do socialismo, da luta anticolonial e da justiça social. Quem hoje se levanta em defesa de Cuba, como dizia Martí, levanta-se para todos os tempos. Porque aquilo que fazem hoje contra Cuba pode ser feito amanhã contra qualquer outro país. O mundo não pode tornar-se cúmplice por omissão, permanecendo em silêncio diante do que está acontecendo. Se aceitarem que isso seja feito contra Cuba, amanhã aceitarão que seja feito contra qualquer outro povo. Onde isso irá parar? É esse o mundo que queremos construir? Foi esse o mundo que Fidel nos pediu para ajudar a construir?

Hoje predomina a linguagem da guerra, das ameaças, das medidas unilaterais e das sanções coercitivas. A distância entre ricos e pobres cresce continuamente. O mundo torna-se cada vez mais excludente. Penso que a situação de Cuba deveria estar na pauta do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas vocês sabem que ali existe o mecanismo do direito de veto, profundamente antidemocrático. Com esse mecanismo, torna-se extremamente difícil condenar os Estados Unidos e seus aliados. O que acontece hoje com Cuba também acontece em Gaza, diante do genocídio contra o povo palestino. Também acontece nas agressões contra o Irã e em tantos outros conflitos nos quais, quase sempre, está envolvido o governo dos Estados Unidos. Creio que organismos como o Grupo dos 77 e China, a Comunidade do Caribe (Caricom) e o Movimento dos Países Não Alinhados deveriam exigir, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o fim imediato do bloqueio contra Cuba, de todas as sanções e dessa política de caráter genocida.

·        Presidente, permita-me retomar esse ponto, porque a pergunta do Jorge me parece muito importante neste momento vivido por Cuba. Cuba teve gestos de solidariedade e altruísmo com o restante do mundo que, para mim, são incomensuráveis. No entanto, além dos povos e dos movimentos populares, parece não haver uma resposta equivalente à solidariedade que Cuba demonstrou ao longo de sua história. A pergunta é: Cuba espera mais do restante do mundo?

Minha resposta é que Cuba jamais exigirá de ninguém mais solidariedade como retribuição pela que ofereceu. Isso depende das pessoas, dos governos e dos povos. Nós não vamos julgar ninguém porque nos deu mais ou menos solidariedade. Aquilo que oferecemos, oferecemos por convicção. Agora, sim, acreditamos que deveria existir hoje um amplo debate, tanto nas Nações Unidas quanto nos blocos regionais, em apoio a Cuba. A solidariedade com Cuba tornou-se uma questão estratégica para a humanidade. Porque, em Cuba, está sendo defendido tudo aquilo que é anticapitalista e anti-imperialista. Em Cuba, está sendo defendida a paz, a segurança, a independência e a autodeterminação. Da mesma forma, acredito que os governos solidários precisam encontrar mecanismos jurídicos que rompam as bases desse cerco multidimensional. Também seria injusto afirmar que não recebemos ajuda. Recebemos apoio dos movimentos de solidariedade, de organizações políticas, de partidos, de movimentos sociais, e houve países que nos ajudaram. O México e a presidenta Claudia Sheinbaum, por exemplo, procuram constantemente formas de apoiar Cuba. Falamos muito da posição dos governos, mas também precisamos olhar para a posição dos povos. Porque não existe agressão imperialista capaz de derrotar a solidariedade entre os povos.

Nesse sentido, vejo três tarefas fundamentais. A primeira é romper o cerco midiático imposto contra Cuba, criando plataformas de comunicação capazes de mostrar a realidade do país, exatamente como vocês estão fazendo. Vieram a Cuba, conheceram a realidade cubana e agora vão relatá-la. A segunda é continuar promovendo ações de solidariedade e ajuda humanitária, como ocorreu com a Flotilha Nossa América e com mais de 120 organizações que enviaram ajuda ao povo cubano. Posso dizer que o povo cubano é profundamente agradecido. Hoje, praticamente todos os municípios contam, nos principais centros de atendimento à população — postos de saúde, bancos e lares de idosos —, com sistemas fotovoltaicos que ajudam a enfrentar a crise energética. Muitos desses sistemas fazem parte dos programas do governo, mas muitos outros foram instalados graças às doações e à solidariedade internacional, sobretudo dos povos irmãos, dos povos amigos e dos movimentos de solidariedade. O terceiro aspecto é que os povos também pressionem seus parlamentos e governos para que encontrem instrumentos legais capazes de desmontar toda essa política de cerco promovida pelos Estados Unidos.

É importante lembrar que o recrudescimento recente do bloqueio decorre principalmente de duas ordens executivas: a de 29 de janeiro, que instituiu o bloqueio energético, e a de primeiro de maio, que internacionalizou o bloqueio por meio das chamadas sanções secundárias. Com esse mecanismo, o governo dos Estados Unidos ameaça qualquer governo, empresa, entidade ou pessoa, em qualquer parte do mundo, que deseje cooperar ou manter relações com Cuba. Os próprios governos precisam defender sua soberania. Quem deu aos Estados Unidos o direito de agir como gendarme do mundo? Quem lhes concedeu o direito de decidir o que outros países podem ou não fazer? Diante disso, é preciso resistir. E os povos precisam exigir de seus governos e parlamentos — que os representam — que não aceitem essa imposição.

 

Fonte: Por Luis de Jesus Reyes, Jorge Lefevre Tavarez, no CLARIDAD

 

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