Díaz-Canel
nega guinada capitalista e diz que Cuba muda para enfrentar bloqueio dos EUA
Em meio
ao endurecimento da política externa dos Estados Unidos sob o segundo governo Donald Trump, o presidente de
Cuba, Miguel Díaz-Canel, concedeu uma
entrevista exclusiva ao jornal Claridad, de Porto Rico, na qual
abordou os principais desafios enfrentados pela Revolução Cubana diante do
recrudescimento do bloqueio econômico, da crescente pressão imperialista na
América Latina e das mudanças em curso no modelo econômico da ilha.
LEIA A
ENTREVISTA:
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Jorge Lefevre Tavárez: Nas últimas semanas, certos temas
despertaram grande interesse e muitas perguntas sobre o que ocorre em Cuba, no
contexto de uma intensificação da agressão imperialista por parte do governo
Donald Trump. Queríamos iniciar a conversa comentando as 176 medidas econômicas
e sociais recentemente anunciadas. A partir de distintas perspectivas
ideológicas, há uma pergunta recorrente: o que poderá ocorrer no futuro, a
partir dessas medidas, que abrem certos setores estratégicos da economia cubana
ao capital privado e ao mercado? Para dar dois exemplos, há uma abertura para
os bancos privados e a flexibilização da venda de propriedades imobiliárias.
Queríamos saber, então, sua avaliação sobre essas preocupações e sobre uma
possível abertura ao capitalismo em Cuba.
Creio
que é injusto quando afirmam que essas medidas, que estamos aplicando de
maneira soberana e que foram construídas com determinado consenso e após muitos
anos de debate, tenham algo a ver com uma restauração capitalista. Como parte
do processo natural de continuidade geracional em Cuba, a geração que está
assumindo neste momento as principais responsabilidades no Partido Comunista e
no governo, no Estado, nasceu com a Revolução e defende a Revolução. A
Revolução é a nossa vida. Não se pode pensar que qualquer um de nós esteja
promovendo uma restauração capitalista em Cuba. Mas sempre que em Cuba se faz
algo, tudo é polêmico, tudo desperta interesse. Também se manipula a realidade
cubana e se tenta atribuir-lhe muitas interpretações a partir da direita e,
lamentavelmente, às vezes também da esquerda.Em primeiro lugar, nós temos um
desafio como nação, temos um desafio como Revolução, e é um desafio que
precisamos assumir com muita responsabilidade e objetividade. Cuba está
tratando de realizar o processo de construção socialista — e insisto, de
construção socialista — nas condições de uma pequena ilha que sobreviveu ao
bloqueio econômico, comercial e financeiro, recrudescido e agora levado ao
máximo com um bloqueio energético por parte da potência mais poderosa do mundo.
Como se constrói o socialismo nessas condições? Alguém já o concebeu? Alguém
pôde antecipar isso? Nós estudamos a teoria marxista. Estudamos também a
Revolução Russa, os movimentos revolucionários do mundo, a experiência da
construção socialista no Vietnã e na China. Mas ninguém esteve submetido ao
bloqueio prolongado que sofre Cuba. Quem pode nos ensinar como se constrói o
socialismo nessas condições, se ninguém tem essa experiência, se ninguém viveu
dessa forma? Nós, por isso, fomos à essência de nossa história, à essência do
pensamento de Fidel, do general de Exército e também ao legado do pensamento do
Che.
Este é
um debate que já havia começado há vários anos. Ainda que haja pessoas que
digam que estas são medidas novas, desde o Sexto Congresso do Partido, quando
surgiu a primeira versão das Diretrizes da Política Econômica e Social, já se
dizia que era preciso fazer mudanças em nosso modelo econômico e social sem
renunciar ao socialismo. Posteriormente, nos Sétimo e Oitavo Congressos, foi
conceituado o modelo econômico e social. No processo de construção do que é
chamado de transição ao socialismo, há diferentes tipos de propriedade. O que
distingue o socialismo é que a propriedade social deve ser a principal, sobre
os principais meios de produção. Nós não negamos isso. Por outro lado, nossa
Constituição — uma Constituição socialista — reconhece distintos tipos de
propriedade e, inclusive, diferentes formas de administrar a propriedade social
de todo o povo por meio de diferentes atores econômicos. Nós estamos vivendo
uma situação extremamente complexa de bloqueio, com danos acumulados nos planos
econômico e social devido ao prolongamento desse bloqueio. Temos que ser
capazes, com características cubanas, de construir este socialismo. Portanto,
trata-se de não renunciar ao ideal e de avançar sem abandonar a construção
socialista. Porque nós nunca pudemos fazer o socialismo que queremos, mas sim o
socialismo que foi possível construir. Chama-me muito a atenção o fato de esse
programa de medidas conter tantos aspectos e tanto conteúdo e, no entanto, o
foco recair apenas sobre a questão de saber se estamos ou não abrindo
determinadas atividades ao setor privado. Por que não veem que a primeira coisa
que as medidas fazem é declarar a continuidade do socialismo em Cuba? Por que
não veem que seguimos reafirmando a propriedade social como a principal forma
de propriedade? Por que não dizem que tudo o que estamos pretendendo é liberar
as forças produtivas para produzir mais em meio a estas condições, gerar mais
riqueza material para distribuí-la com justiça social? Qualquer medida que
adotemos sempre considera as pessoas em situação de vulnerabilidade ou
desigualdade. Estes são conceitos socialistas que estão na base de tudo o que
vamos fazer. Mas, além disso, a maior parte das pessoas que representam o
setor, digamos, não estatal em Cuba, o setor privado, é formada por pessoas
revolucionárias. Não é gente que se opõe à Revolução. Quando estamos falando da
possibilidade de investimento por cubanos residentes no exterior, não estamos
falando dos cubanos que querem fazer desaparecer a Revolução. Estamos falando
dos cubanos que mantiveram uma relação com seu país, com sua identidade e que
querem contribuir. Seria muito contraditório que nós, que estamos abertos ao
investimento estrangeiro, não estivéssemos abertos ao investimento dos cubanos
que vivem aqui ou residem no exterior. Esses elementos fazem parte do conteúdo
dessas medidas. E há referências históricas. Lembrem-se de que, para Cuba, a
Revolução nunca foi fácil. Estivemos, em 1962, à beira de um conflito nuclear
de alcance mundial. Depois, nos anos 1990, veio o Período Especial. No Período
Especial, coisas que hoje parecem muito normais foram totalmente inovadoras e
necessárias naquela época. Naquele momento, pela primeira vez, Cuba
descriminalizou a posse de divisas, e isso significava a criação de
determinados níveis de desigualdade em uma sociedade que sempre lutou pela
justiça social. Significava que um grupo de pessoas passaria a se distinguir de
outras não pela contribuição de seu trabalho — que é o princípio da
distribuição no socialismo —, mas porque tinha acesso às remessas enviadas do
exterior. Mas o país necessitava de divisas. Essas divisas não entravam porque
estavam bloqueadas. Se podiam entrar por essa via, por que iríamos impedir? As questões da economia política precisam ser
analisadas em toda a sua inter-relação. Cuba deu esse passo para dispor de um
nível maior de divisas. Mas para quê? Para fortalecer os programas sociais,
fortalecer a economia e, fortalecendo a economia, manter os programas sociais.
Nossa visão, que Fidel nos ensinou, é a de desenvolvimento econômico com
desenvolvimento social. Os países capitalistas podem se desenvolver
economicamente, mas isso não significa desenvolvimento social, porque não há
justiça social. Tudo isso fez parte desse debate. Tenham certeza de que aqui
não há traição à construção socialista, nem por princípio, nem por convicção,
nem por ação.
·
Luis De Jesús: Muitas dessas medidas, inclusive, já
haviam sido propostas por economistas e especialistas cubanos há vários anos. O
senhor comentava, inclusive, que elas já tinham sido discutidas em congressos
anteriores do Partido. A pergunta agora é: por que implementá-las com essa
celeridade?
Pela
compreensão. Não podemos aplicar medidas se não houver compreensão, se não
tivermos construído um consenso. Imaginem que, ainda assim, em meio a esta
situação, nós as estamos propondo e já existem opiniões divididas. Depende
muito de conseguirmos construir politicamente a compreensão dessas medidas. São
medidas que envolvem contradições e riscos. Nem todos os economistas as
propuseram a partir da perspectiva da construção socialista. Já há um grupo de
economistas defendendo um projeto de desenvolvimento social de mercado —
retiraram a palavra “socialismo”. Há outros que começaram a dizer que é preciso
mudar o sistema político. Nós não vamos mudar o sistema político. Continuamos
defendendo nosso socialismo. Esse foi um debate que, como eu dizia, começou no
Sexto Congresso. Aprofundou-se no Sétimo, avançou no Oitavo, e já estávamos nos
preparando para o Nono Congresso. No fim do ano passado, quando pretendíamos
levar todas essas questões ao Nono Congresso, tivemos de tomar a decisão de
adiá-lo, porque a situação do país era muito complexa e precisávamos concentrar
nossos esforços no fundamental. Mas o que explicamos na 11ª Plenária do Comitê
Central do Partido, realizada no fim do ano passado? Que o adiamento do
congresso não significava deixar de implementar as medidas necessárias para dar
continuidade à Revolução. Sem dúvida, a própria situação também nos impõe
urgência. Faz seis meses que não entra uma gota de combustível em Cuba. Alguma
economia do mundo pode funcionar sem combustível? Alguma economia consegue
manter programas sociais e justiça social sem combustível? Aplicaram contra nós
uma política genocida, criminosa. O que está sendo cometido contra Cuba é um
crime. E, mesmo nessas condições, continuamos sonhando e continuamos defendendo
nossos princípios. Mas há coisas que precisam mudar.
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Sobre a comunicação com o povo para que compreenda essas
medidas. Presidente, vivo em Cuba há cinco anos e, nos últimos tempos, vemos
situações que não existiam há quatro anos. Por exemplo, no bairro onde moro,
praticamente todas as noites há panelaços em razão do descontentamento com os
apagões. O senhor acredita que a população realmente compreende a situação pela
qual o país está passando?
Acredito
que a maior parte da população compreende. Também não podemos ser idealistas.
Às vezes se olha para Cuba com um idealismo enorme e se acredita que, em um
processo de construção socialista sob permanente agressão dos Estados Unidos,
todos pensarão da mesma forma e agirão da mesma maneira. Isso é impossível. O
que acontece é que essas peculiaridades de Cuba são exploradas pela intoxicação
midiática com que tentam desacreditá-la. Esta também é uma sociedade
heterogênea, como qualquer outra do mundo. Mas é uma sociedade com maturidade
política. O que posso dizer é que a maior parte do nosso povo sabe qual é a
origem dos nossos problemas e sabe que eles decorrem muito mais do bloqueio
prolongado e do recrudescimento desse bloqueio do que de uma gestão deficiente,
como procuram fazer crer os porta-vozes do imperialismo. Porque sabem da
vontade com que se trabalha aqui, sabem do vínculo existente entre governo e
povo e sabem como os problemas são enfrentados. O principal obstáculo ao nosso
desenvolvimento continua sendo o bloqueio. Mas apenas essa convicção não basta.
A resistência, por si só, não resolve os problemas. Por isso, eu disse na
Assembleia Nacional e também na última Plenária do Comitê Central que um
governo revolucionário, um partido revolucionário consciente da situação, não
existe apenas para explicar a crise; existe para ajudar a solucioná-la. É
preciso agir. Não podemos permanecer parados no tempo. Eu lhes digo: em meio a
toda esta situação, que vocês vivem e que é muito dura — porque há escassez de
transporte, de alimentos, de medicamentos, e apagões prolongados que chegam a
ultrapassar vinte horas —, é natural que exista insatisfação. Ninguém pode
estar satisfeito. O povo está sofrendo. Isso faz parte da estratégia
imperialista. A estratégia imperialista consiste em asfixiar economicamente
Cuba para provocar exatamente isso: uma ruptura entre o povo e a Revolução.
Como disse Trump certa vez: “Aplicamos todas as pressões possíveis; já quase
não há mais nada a fazer, a não ser arrasá-los.”
·
Quando o senhor assumiu a Presidência, ainda havia certo
otimismo em razão da retomada do diálogo com os Estados Unidos que, embora
nunca tenha eliminado o bloqueio, estabeleceu uma comunicação que trouxe alguns
resultados econômicos. Agora, apesar de Cuba ter demonstrado diversas vezes
interesse em dialogar, já não existe apenas resistência ao diálogo, mas uma
ofensiva total durante o segundo governo Donald Trump. Gostaríamos que o senhor
refletisse sobre essa mudança e também explicasse como Cuba se prepara para
enfrentar um ambiente tão hostil.
Cuba e
a Revolução sempre mantiveram a mesma posição: a de construir um canal de
comunicação que permita, por meio do diálogo, resolver os problemas existentes
e estabelecer uma relação civilizada entre países vizinhos, independentemente
das diferenças ideológicas, que existem e continuarão existindo. Os Estados
Unidos mantêm relações dessa natureza com países que consideram seus
adversários. Têm relações com a Rússia, com a China e com outros países que não
são seus aliados.
Agora,
Cuba sempre defendeu que esse diálogo deve ocorrer com base no respeito à nossa
autodeterminação, à nossa soberania e à nossa independência, sem
questionamentos ao nosso sistema político nem condicionamentos prévios para
iniciar uma conversa. Um diálogo que contribua para preservar a segurança
nacional de Cuba, a segurança nacional dos Estados Unidos e, inclusive, a
estabilidade da América Latina e do Caribe. Esse diálogo deveria permitir
identificar áreas nas quais possamos desenvolver projetos comuns que beneficiem
ambos os povos. É isso que os nossos povos merecem. Eles não merecem viver em
confronto. Para que isso aconteça, é necessária disposição das duas partes.
Também é preciso sensibilidade, porque estão em jogo relações bilaterais. Essas
conversas exigem, igualmente, certa discrição para construir consensos e
elaborar uma agenda capaz de produzir avanços concretos, afastando-nos da
lógica permanente do confronto. O governo de Barack Obama atuou dessa maneira.
Foi um governo discreto nas negociações, avançou gradualmente, nunca impôs
condições prévias, e fomos construindo passos conjuntos até que chegou o
momento de anunciar os resultados dessas conversações e restabelecer as
relações. Obama não suspendeu o bloqueio. Ainda assim, cidadãos estadunidenses
e cubanos puderam voltar a circular entre os dois países, alguns negócios
passaram a ser realizados, o turismo cresceu e ambos os países obtiveram
benefícios. Como povos, podemos compartilhar muitas coisas: experiências,
cultura, ciência, esporte. Nós continuamos tentando construir esse canal de
comunicação. Mas todos os dias surge uma nova sanção contra uma entidade cubana
ou contra um cidadão cubano. Todos os dias ouvimos uma nova ameaça de invasão
ou agressão. Todos os dias há uma ofensa ao nosso povo. Todos os dias apertam
ainda mais o cerco do bloqueio.
Quando
isso acontece, perde-se a confiança na possibilidade de diálogo. Existe uma
posição de absoluta assimetria. Há um comportamento profundamente mentiroso e
calunioso por parte do governo dos Estados Unidos. Tomam como pretexto a
afirmação de que Cuba representa uma ameaça extraordinária e incomum à
segurança nacional dos Estados Unidos. Isso é mentira. Nós nunca praticamos qualquer
ação de agressão contra os Estados Unidos. Também afirmam que Cuba é um país
que apoia o terrorismo. Essa é outra mentira. Nós somos vítimas do terrorismo.
Temos mais de 3.200 vítimas de ações terroristas organizadas e apoiadas por
governos dos Estados Unidos. Recentemente, impedimos uma ação terrorista
organizada a partir do território estadunidense. Os Estados Unidos impedem a
chegada de navios de petróleo a Cuba, mas permitem que embarcações partam de
seu território para cometer atos terroristas contra nosso país. Há muita
hipocrisia e muito pouca dignidade nessas posições. Há muita mentira, muita
calúnia, muito ódio e muita prepotência. O povo cubano é um povo rebelde e
coerente com sua própria história. Diante de toda essa situação, adotamos uma
estratégia para defender nossa soberania, nossa autodeterminação e nossa
capacidade de resistência criativa, estruturada em cinco eixos.
O
primeiro é a defesa nacional. Elevamos nossos níveis de preparação. Nossa
doutrina é inteiramente defensiva. Não nos preparamos para agredir ninguém;
preparamo-nos para dissuadir qualquer tentativa de agressão contra Cuba.
Queremos que qualquer um que cogite uma aventura militar saiba o custo que ela
teria. Estamos desenvolvendo um amplo movimento político de participação
popular, sobretudo nas comunidades, porque hoje é nelas que a vida cotidiana se
concentra em razão das próprias adaptações que tivemos de fazer na vida laboral
e no calendário escolar diante das limitações provocadas pelo bloqueio. Também
estamos atribuindo protagonismo à juventude. Os jovens criaram um projeto
extremamente inovador: a Rede Juvenil Comunitária, organizada em sete frentes
de atuação voltadas para o atendimento à população vulnerável, a produção de
alimentos, a questão energética, as atividades culturais, a disciplina social e
a atuação nas redes sociais em defesa da Revolução. Também desenvolvemos uma
ofensiva comunicacional. Não podemos permitir que os únicos conteúdos sobre
Cuba presentes nas redes sociais sejam aqueles produzidos pela campanha de
desinformação e ódio promovida pelos operadores subordinados aos interesses do
império. O quinto eixo é fortalecer o movimento internacional de solidariedade
com Cuba. No campo econômico, há muitas outras iniciativas, mas algumas são
fundamentais. Vamos consumir aquilo que formos capazes de produzir. Por isso,
estamos impulsionando uma estratégia para alcançar, no menor prazo possível, a
soberania alimentar do país. Outro grande objetivo é a transição energética
baseada em fontes renováveis. No ano passado, conseguimos investimentos
equivalentes a mais de 1.000 megawatts em parques fotovoltaicos. Sem esses
investimentos, o sistema energético teria colapsado. Vamos continuar avançando
nessa transição, combinando a expansão das energias renováveis com o
aproveitamento do petróleo produzido em Cuba.
·
Parte do recrudescimento do bloqueio, especialmente do
bloqueio energético, decorre da pressão que os Estados Unidos exercem sobre
outros países em suas relações com Cuba. Gostaríamos que o senhor comentasse
uma impressão recorrente: embora Cuba tenha sido historicamente um país
extremamente solidário com aqueles que solicitaram sua ajuda, hoje, em um
momento em que tanto se fala em multipolaridade e em desafios à hegemonia
estadunidense, parece que muitos países — inclusive alguns governados por
forças progressistas — não oferecem a ajuda de que Cuba necessita. Países
produtores de petróleo, por diferentes razões, não têm enfrentado de maneira
mais firme o que, na prática, constitui uma política genocida dos Estados
Unidos.
A
solidariedade é uma forma de agir. Eu diria que é a forma mais altruísta de
comportamento de uma pessoa, de um grupo social, de uma comunidade, de um país
ou de um povo. Ela só existe quando há convicção e quando não existe egoísmo.
Fidel
nos ensinou o verdadeiro conceito de solidariedade. Sempre dizia que ela era um
compromisso moral, uma dívida moral que devíamos cumprir com o restante da
humanidade. Também dizia que não éramos solidários compartilhando aquilo que
nos sobrava, mas aquilo que tínhamos, fosse pouco ou muito. Creio que Cuba foi,
ao longo de todos esses anos, um exemplo desse princípio. A solidariedade é um
dos valores que precisamos preservar no mundo, porque representa a alternativa
ao egoísmo e ao individualismo próprios das sociedades de consumo. E, de fato,
existe solidariedade com Cuba. Cuba não está sozinha. Em datas importantes,
como o Primeiro de Maio e o 26 de Julho, milhares de pessoas de todo o mundo
chegam a Cuba para manifestar sua solidariedade. Essa solidariedade chega todos
os anos também de Porto Rico. Há mais de 35 anos, a Brigada Juan Rius Rivera
visita Cuba, liderada por nossa amiga e irmã Milagros Rivera. Nos momentos mais
difíceis, recebemos solidariedade do irmão povo mexicano e da presidenta Claudia
Sheinbaum. Recebemos ajuda da Federação Russa. O único navio que conseguiu
chegar a Cuba em seis meses foi um navio russo, que nos deu um respiro durante
15 dias. Tenho certeza de que, no bairro onde você mora, houve menos apagões
naquele período do que agora. Também recebemos ajuda da China. Muitos dos
investimentos que realizamos em parques fotovoltaicos e em outros insumos foram
possíveis graças ao apoio chinês. Recebemos ajuda do Vietnã, além da
solidariedade de inúmeras organizações e movimentos políticos ao redor do
mundo.
Cuba
jamais pedirá solidariedade como retribuição pela solidariedade que ofereceu.
Nós
partimos de uma convicção: a solidariedade é a expressão mais altruísta que
pode existir entre pessoas, povos e nações. Nunca exigiremos nada em troca. Mas
acredito que este seja um momento — e digo isso sem pensar apenas em Cuba — em
que defender Cuba significa defender também a causa do anti-imperialismo, do
socialismo, da luta anticolonial e da justiça social. Quem hoje se levanta em
defesa de Cuba, como dizia Martí, levanta-se para todos os tempos. Porque
aquilo que fazem hoje contra Cuba pode ser feito amanhã contra qualquer outro
país. O mundo não pode tornar-se cúmplice por omissão, permanecendo em silêncio
diante do que está acontecendo. Se aceitarem que isso seja feito contra Cuba,
amanhã aceitarão que seja feito contra qualquer outro povo. Onde isso irá
parar? É esse o mundo que queremos construir? Foi esse o mundo que Fidel nos
pediu para ajudar a construir?
Hoje
predomina a linguagem da guerra, das ameaças, das medidas unilaterais e das
sanções coercitivas. A distância entre ricos e pobres cresce continuamente. O
mundo torna-se cada vez mais excludente. Penso que a situação de Cuba deveria
estar na pauta do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Mas vocês sabem que
ali existe o mecanismo do direito de veto, profundamente antidemocrático. Com
esse mecanismo, torna-se extremamente difícil condenar os Estados Unidos e seus
aliados. O que acontece hoje com Cuba também acontece em Gaza, diante do
genocídio contra o povo palestino. Também acontece nas agressões contra o Irã e
em tantos outros conflitos nos quais, quase sempre, está envolvido o governo
dos Estados Unidos. Creio que organismos como o Grupo dos 77 e China, a
Comunidade do Caribe (Caricom) e o Movimento dos Países Não Alinhados deveriam
exigir, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o fim imediato do bloqueio
contra Cuba, de todas as sanções e dessa política de caráter genocida.
·
Presidente, permita-me retomar esse ponto, porque a
pergunta do Jorge me parece muito importante neste momento vivido por Cuba.
Cuba teve gestos de solidariedade e altruísmo com o restante do mundo que, para
mim, são incomensuráveis. No entanto, além dos povos e dos movimentos
populares, parece não haver uma resposta equivalente à solidariedade que Cuba
demonstrou ao longo de sua história. A pergunta é: Cuba espera mais do restante
do mundo?
Minha
resposta é que Cuba jamais exigirá de ninguém mais solidariedade como
retribuição pela que ofereceu. Isso depende das pessoas, dos governos e dos
povos. Nós não vamos julgar ninguém porque nos deu mais ou menos solidariedade.
Aquilo que oferecemos, oferecemos por convicção. Agora, sim, acreditamos que
deveria existir hoje um amplo debate, tanto nas Nações Unidas quanto nos blocos
regionais, em apoio a Cuba. A solidariedade com Cuba tornou-se uma questão
estratégica para a humanidade. Porque, em Cuba, está sendo defendido tudo
aquilo que é anticapitalista e anti-imperialista. Em Cuba, está sendo defendida
a paz, a segurança, a independência e a autodeterminação. Da mesma forma,
acredito que os governos solidários precisam encontrar mecanismos jurídicos que
rompam as bases desse cerco multidimensional. Também seria injusto afirmar que
não recebemos ajuda. Recebemos apoio dos movimentos de solidariedade, de
organizações políticas, de partidos, de movimentos sociais, e houve países que
nos ajudaram. O México e a presidenta Claudia Sheinbaum, por exemplo, procuram
constantemente formas de apoiar Cuba. Falamos muito da posição dos governos,
mas também precisamos olhar para a posição dos povos. Porque não existe
agressão imperialista capaz de derrotar a solidariedade entre os povos.
Nesse
sentido, vejo três tarefas fundamentais. A primeira é romper o cerco midiático
imposto contra Cuba, criando plataformas de comunicação capazes de mostrar a
realidade do país, exatamente como vocês estão fazendo. Vieram a Cuba,
conheceram a realidade cubana e agora vão relatá-la. A segunda é continuar
promovendo ações de solidariedade e ajuda humanitária, como ocorreu com a
Flotilha Nossa América e com mais de 120 organizações que enviaram ajuda ao
povo cubano. Posso dizer que o povo cubano é profundamente agradecido. Hoje,
praticamente todos os municípios contam, nos principais centros de atendimento
à população — postos de saúde, bancos e lares de idosos —, com sistemas
fotovoltaicos que ajudam a enfrentar a crise energética. Muitos desses sistemas
fazem parte dos programas do governo, mas muitos outros foram instalados graças
às doações e à solidariedade internacional, sobretudo dos povos irmãos, dos
povos amigos e dos movimentos de solidariedade. O terceiro aspecto é que os
povos também pressionem seus parlamentos e governos para que encontrem
instrumentos legais capazes de desmontar toda essa política de cerco promovida
pelos Estados Unidos.
É
importante lembrar que o recrudescimento recente do bloqueio decorre
principalmente de duas ordens executivas: a de 29 de janeiro, que instituiu o
bloqueio energético, e a de primeiro de maio, que internacionalizou o bloqueio
por meio das chamadas sanções secundárias. Com esse mecanismo, o governo dos
Estados Unidos ameaça qualquer governo, empresa, entidade ou pessoa, em
qualquer parte do mundo, que deseje cooperar ou manter relações com Cuba. Os
próprios governos precisam defender sua soberania. Quem deu aos Estados Unidos
o direito de agir como gendarme do mundo? Quem lhes concedeu o direito de
decidir o que outros países podem ou não fazer? Diante disso, é preciso
resistir. E os povos precisam exigir de seus governos e parlamentos — que os
representam — que não aceitem essa imposição.
Fonte:
Por Luis de Jesus Reyes, Jorge Lefevre Tavarez, no CLARIDAD

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