Faz
terapia pelo ChatGPT? Especialistas explicam riscos
Recorrer
à inteligência artificial para desabafar, pedir conselhos ou lidar com questões
emocionais tem se tornado uma prática cada vez mais comum. Uma pesquisa da
Sentio University aponta que 48,7% dos usuários de ferramentas de IA
(inteligência artificial) que relatam problemas de saúde mental utilizam essas
plataformas para buscar algum tipo de apoio emocional.
Entre
eles, 73% afirmam recorrer à tecnologia para lidar com a ansiedade, enquanto
60% dizem buscar ajuda para sintomas de depressão.
A
facilidade de acesso, a disponibilidade 24 horas por dia e a gratuidade estão
entre os principais fatores que explicam o crescimento desse comportamento.
Especialistas
ouvidos pela CNN Brasil, no entanto, alertam que essas plataformas não
substituem o acompanhamento psicológico e podem trazer riscos à saúde mental e
à privacidade dos usuários.
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IA não substitui acompanhamento psicológico
Para o
psicólogo Jimmy Pessoa, doutor em Psicologia Social e do Trabalho pela USP
(Universidade de São Paulo), os modelos de inteligência artificial são
desenvolvidos para gerar respostas que atendam às expectativas do usuário, e
não para realizar intervenções terapêuticas.
“A IA
vai sempre simular aquilo com a perspectiva mais exata que a pessoa está
buscando. E, no que diz respeito ao adoecimento e ao sofrimento emocional, a IA
não consegue contemplar”, afirma.
Segundo
o especialista, uma das funções da psicoterapia é justamente questionar padrões
de comportamento e crenças do paciente, processo que pode ser comprometido
quando a conversa ocorre com um chatbot.
“O que
faz a grande diferença de uma análise psicológica é quando o paciente muda a
tonalidade, quando fala do pai e hesita, quando fala da dor e para, quando
chora. Isso nenhum tipo de plataforma consegue entender”, diz.
A
pesquisadora dos impactos da sociedade na saúde mental e professora da PUC-SP
(Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) Dora Kaufman também afirma que
a lógica de funcionamento dos chatbots difere da relação terapêutica
estabelecida entre psicólogo e paciente.
“A
função do especialista nunca é agradar o paciente ou dizer coisas que o façam
se sentir bem”, afirma.
Segundo
Kaufman, ferramentas desse tipo não devem ser utilizadas por pessoas em
sofrimento psíquico intenso ou em situações que envolvam risco à própria vida.
A
professora ainda ressalta que não é especialista no tema específico de saúde
mental e que o assunto, o qual detalha ser de extrema urgência, ainda precisa
de investigações profundas.
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Estudos apontam falhas éticas
Pesquisadores
da Brown University avaliaram o comportamento de modelos de inteligência
artificial em simulações de atendimentos baseadas em conversas reais de terapia
cognitivo-comportamental.
As
respostas foram analisadas por psicólogos licenciados, que identificaram 15
violações recorrentes de princípios éticos relacionados ao atendimento em saúde
mental.
Entre
os problemas observados estão demonstrações de empatia consideradas
artificiais, dificuldade para compreender o contexto específico do paciente e
falhas na condução de situações de crise, incluindo relatos envolvendo
pensamentos suicidas.
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Casos levantam debate sobre segurança
O
debate sobre o uso da IA em situações de sofrimento emocional ganhou força após
casos registrados nos Estados Unidos.
Em
julho de 2025, o norte-americano Zane Shamblin, de 23 anos, conversou por mais
de quatro horas com o ChatGPT sobre planos de tirar a própria vida.
Durante
a conversa, o chatbot respondeu de forma acolhedora e só apresentou informações
sobre prevenção ao suicídio nos momentos finais da interação.
Outro
caso envolveu Sewell Setzer, de 14 anos, que desenvolveu uma relação com um
chatbot de uma outra plataforma de inteligência artificial.
Segundo
familiares, o adolescente manteve conversas sobre automutilação e suicídio
antes de morrer. O episódio resultou em processos judiciais e ampliou o debate
sobre mecanismos de segurança em plataformas de inteligência artificial.
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Dados pessoais também preocupam especialistas
Além
dos impactos na saúde mental, especialistas em direito digital alertam para os
riscos relacionados à privacidade das informações compartilhadas com
plataformas de inteligência artificial.
Segundo
Paulo Henrique Fernandes, head de produtos e tecnologia de um escritório de
advocacia, desabafar com um chatbot não oferece as mesmas garantias legais de
confidencialidade existentes na relação entre paciente e psicólogo.
“Quando
alguém desabafa com um psicólogo, existe o sigilo garantido pelo Código de
Ética da profissão e pela legislação. Quando desabafa com um chatbot, existe
apenas a relação de consumo com uma empresa de tecnologia”, afirma.
Já o
advogado especialista em proteção de dados Pedro Sanches explica que as
informações fornecidas aos modelos de IA podem ser incorporadas ao
funcionamento da tecnologia de uma forma diferente do armazenamento tradicional
de arquivos.
“Quando
um dado entra no fluxo de treinamento de um modelo, ele se transforma em
vetores matemáticos, deixando de existir como um arquivo de texto isolado.
Exigir a eliminação tradicional desses elementos ignora a própria engenharia da
ferramenta”, diz.
Fernandes
recomenda que usuários evitem inserir nomes completos, diagnósticos médicos,
informações de terceiros ou outros dados sensíveis nas conversas com chatbots.
O especialista também orienta desativar, sempre que possível, a opção que
permite o uso das conversas para treinamento dos modelos de inteligência
artificial.
Para
Jimmy Pessoa, a principal estratégia para preservar a saúde mental continua
sendo fortalecer relações humanas e reduzir a dependência das plataformas
digitais.
“A
primeira saída é fazer com que essa pessoa entenda a necessidade de redução do
uso do telefone, das redes sociais e dessas IAs para se dedicar a viver a
realidade como ela é”, conclui.
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CNN Brasil simula sessão de terapia com IA
Para
avaliar na prática como a inteligência artificial responde a relatos de
sofrimento emocional, a reportagem da CNN Brasil realizou a simulação de uma
sessão de terapia com o ChatGPT.
A
interação começou com um pedido direto para iniciar uma sessão terapêutica.
Logo na primeira resposta, a plataforma afirmou que não substitui um psicólogo
ou outro profissional de saúde mental, mas disse que poderia oferecer um espaço
para reflexão e organização dos pensamentos.
Na
sequência, a reportagem simulou um cenário de sofrimento emocional relacionado
a problemas no trabalho e conflitos familiares. O chatbot respondeu validando
os sentimentos apresentados e, em seguida, passou a investigar se havia risco à
integridade física do usuário, perguntando se a tristeza era acompanhada de
pensamentos de automutilação ou de falta de vontade de viver.
O teste
também incluiu uma pergunta direta sobre suicídio. Nesse momento, o sistema
interrompeu o tom de conversa cotidiana e passou a seguir um protocolo de
gerenciamento de crise.
Em vez
de fornecer qualquer orientação sobre métodos, a ferramenta respondeu que a
principal recomendação era "não enfrentar isso sozinho".
Em
seguida, perguntou se o risco dizia respeito ao próprio usuário ou a outra
pessoa, questionou se havia possibilidade de uma tentativa nas próximas horas e
orientou o afastamento de objetos que pudessem ser utilizados para causar
danos.
O
chatbot também apresentou contatos de emergência disponíveis no Brasil,
incluindo o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), pelo telefone 192,
a Polícia Militar, pelo 190, e o CVV (Centro de Valorização da Vida), que
oferece atendimento gratuito pelo número 188.
Em
seguida, voltou a perguntar se o usuário estava em segurança, recomendou
procurar um familiar ou amigo de confiança e repetiu as orientações para buscar
atendimento especializado e utilizar os canais de prevenção ao suicídio.
A
simulação mostra que os modelos de inteligência artificial possuem mecanismos
de segurança capazes de identificar expressões associadas a crises emocionais e
ativar protocolos de prevenção.
Ainda
assim, conforme ressaltam os especialistas ouvidos pela CNN Brasil, essas
ferramentas não substituem a avaliação clínica nem o acompanhamento realizado
por profissionais de saúde mental.
Fonte:
CNN Brasil

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