Notas
sobre a medicina tradicional chinesa
A crise
sanitária causada pela COVID-19 levou o Estado e a população chinesa a recorrer
massivamente à medicina tradicional chinesa como estratégia complementar e
fundamental de combate à epidemia. Seu valor não se restringe apenas à eficácia
clínica dos fitoterápicos, mas reside numa filosofia de vida alternativa,
oposta à lógica capitalista centrada na competição pela sobrevivência e na
busca exclusiva por lucro.
A
medicina tradicional chinesa baseia-se na harmonia entre ser humano e natureza,
no equilíbrio yin-yang e nas relações sociais reciprocas, princípios que entram
em choque com o modelo médico ocidental industrializado.
Ao
longo de um século, essa tradição milenar foi submetida à hegemonia do saber
científico europeu, mas nunca perdeu sua vitalidade nas comunidades locais. Ela
se revelou decisiva em surtos anteriores: encefalite B nos anos 1950, malária
nos anos 1970 e SARS em 2003. A pandemia de coronavírus reafirmou sua
resiliência, mas também expôs as barreiras estruturais que impedem seu
reconhecimento pleno em um sistema sanitário global controlado por corporações
farmacêuticas transnacionais e instituições filantrópicas ocidentais. O
presente trabalho defende que a recuperação das medicinas tradicionais do Sul
Global é uma via essencial para descolonizar os espaços de saúde.
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A revitalização da medicina tradicional chinesa durante a COVID-19
Quando
não existiam fármacos ocidentais eficazes contra o coronavírus, a medicina
tradicional chinesa voltou ao centro das políticas públicas chinesas, graças ao
seu custo baixo, ao acesso popular e à sabedoria acumulada ao longo de
milênios. Durante a primeira fase da epidemia em Wuhan, 91,5% dos casos
confirmados no país (74.187 pacientes) receberam tratamento com recursos da
medicina tradicional chinesa. Dentre os mais de 8.400 pacientes recuperados
analisados por autoridades sanitárias, cerca de 40% foram atendidos com a
combinação entre medicina ocidental e tradicional.
O
conjunto conhecido como “três medicamentos e três fórmulas” tornou-se
referência nacional: os remédios industrializados Jinhua Qinggan, Lianhua
Qingwen e Xuebijing, somados às decocções Qingfei Paidu, Huashi Baidu e Xuanfei
Baidu. Todos foram desenvolvidos a partir de receitas clássicas da medicina
tradicional chinesa e apresentaram taxa de eficácia superior a 90% para aliviar
sintomas, impedir a evolução de casos leves para graves, reduzir mortalidade e
acelerar a reabilitação.
A
decocção Qingfei Paidu merece destaque: em 2020, foram produzidos 390 mil
caixas de decocção e 500 mil granulos para distribuição gratuita em hospitais e
centros de quarentena de Hubei, com custo de apenas 100 RMB para um tratamento
de três dias.
Esse
valor contrasta brutalmente com os antivirais ocidentais importados. O Paxlovid
da Pfizer custava cerca de 3.810 RMB por ciclo de cinco dias, o Molnupiravir da
Merck chegava a 5.033 RMB e medicamentos da GSK ultrapassavam os 15 mil RMB. Em
termos comparativos, os remédios ocidentais chegavam a ser até 140 vezes mais
caros que a Qingfei Paidu. Ainda assim, esses fármacos foram rapidamente
incorporados ao protocolo oficial de tratamento chinês, mesmo com a comprovação
da eficiência e acessibilidade da medicina tradicional chinesa.
Além
dos fitoterápicos, práticas corporais tradicionais como tai chi, os oito
movimentos de seda, acupuntura e massagem foram integradas ao protocolo
nacional de recuperação pós-COVID. Em 2022, a Organização Mundial de Saúde
organizou uma reunião de especialistas para avaliar a medicina tradicional
chinesa no tratamento da doença, elogiando seu papel e recomendando ensaios
clínicos internacionais para comprovar seus benefícios. Apesar desse
reconhecimento internacional, a medicina tradicional chinesa permanece numa
posição subalterna, fruto de uma história de mais de cem anos de opressão
cultural e institucional.
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O declínio centenário da medicina tradicional chinesa
A
medicina tradicional chinesa possui uma história de entre 8 mil e 10 mil anos,
com registros de diagnósticos e tratamentos em ossos oraculares de 3,5 mil anos
atrás. O Huangdi Neijing, a obra base da disciplina, foi compilado entre os
séculos V e II a.C., enquanto o Compêndio de matéria médica reúne milhares de
espécies vegetais e animais com fins terapêuticos. Ao longo de 2.681 anos de
registros epidêmicos (770 a.C. a 1911 d.C.), houve 669 surtos de doenças
contagiosas na China, e a medicina tradicional chinesa sempre foi a principal
ferramenta de defesa da população.
Contudo,
a partir do século XIX, ela começou a ser desvalorizada. Após as guerras do
Ópio, as potências europeias e os Estados Unidos impuseram uma narrativa de
superioridade cultural ocidental. Missionários médicos, como Peter Parker,
usaram a assistência sanitária como instrumento de evangelização e dominação
política. A Fundação Rockefeller foi uma peça-chave desse processo: a partir
dos anos 1920, investiu cerca de 45 milhões de dólares na ocidentalização da
medicina chinesa, construindo a Faculdade de Medicina da União de Pequim e
formando profissionais alinhados ao modelo médico norte-americano. Seu objetivo
não era ampliar o acesso à saúde, mas monopolizar o mercado farmacêutico chinês
e enfraquecer as referências culturais locais.
Internamente,
a repressão institucional começou na República da China. Em 1912, o Ministério
da Educação excluiu o ensino da medicina tradicional chinesa do sistema
público; em 1929, o médico alinhado ao modelo ocidental Yu Yunxiu propôs o
“Projeto de abolição da medicina antiga”. A mobilização massiva de
profissionais tradicionais forçou o governo a suspender a medida, e o dia 17 de
março passou a ser celebrado como o dia da medicina tradicional chinesa, mas a
disciplina nunca conquistou igualdade no sistema educacional e sanitário.
Com a
fundação da República Popular da China em 1949, houve um breve retrocesso nas
políticas de supressão, com autoridades sanitárias ainda defendendo a
eliminação da medicina tradicional chinesa. Em 1953, Mao Tsé-Tung interveio,
criticando essa linha e determinando que “a medicina chinesa é um grande
tesouro que deve ser vigorosamente explorado e aprimorado”. Nos anos seguintes,
foram criadas escolas de medicina tradicional chinesa, cursos para médicos
ocidentais aprenderem as técnicas tradicionais e o sistema dos “médicos pés
descalços”: profissionais mistos, camponeses e sanitaristas, que atendiam a
população rural com agulhas e ervas, garantindo cobertura básica para mais de
80% dos habitantes do campo.
A
partir da reforma e abertura dos anos 1970, a mercantilização da saúde
modificou esse cenário. Os médicos pés descalços desapareceram, os recursos
orçamentários foram majoritariamente direcionados à medicina ocidental e o
número de profissionais da medicina tradicional chinesa estagnou. Em 2017,
apenas 6,25% do financiamento sanitário nacional era destinado à medicina
tradicional; em 2023, os profissionais da medicina tradicional chinesa
representavam apenas 6,9% do total de trabalhadores da saúde, e os estabelecimentos
especializados correspondiam a 8,6% das unidades médicas do país. A lei de
médicos em exercício de 1999 tornou ilegais milhares de praticantes populares
sem certificação oficial, extinguindo saberes transmitidos por gerações.
Um
outro mecanismo de subordinação é a imposição unilateral dos padrões
regulatórios ocidentais, sobretudo da Food and Drugs Administration (FDA) dos
Estados Unidos. O Lianhua Qingwen, eficaz contra síndromes respiratórias
virais, conseguiu registro em 29 países e regiões, mas está parado na fase II
de ensaios clínicos da FDA há anos, com restrições severas na Europa. Até o
prêmio Nobel de Fisiologia concedido a Tu Youyou em 2015, pela descoberta da
artemisinina, não alterou esse cenário: o comitê do Nobel deixou explícito que
o reconhecimento valia apenas para a pesquisa científica moderna, não para o
sistema da medicina tradicional chinesa.
Posteriormente,
a patente dos compostos à base de artemisinina foi dominada pela Novartis, que
ficou com a maior parte dos lucros globais, enquanto a China recebia apenas 4%
de royalties. O mercado internacional de medicamentos derivados da artemisinina
tem participação chinesa inferior a 1%.
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A resiliência comprovada da medicina tradicional chinesa
A força
cultural da MTC se manifesta especialmente quando a medicina ocidental carece
de soluções terapêuticas, como demonstram três surtos sanitários do século XX e
XXI.
Nos
anos 1950, houve uma epidemia massiva de encefalite B na China, com taxa de
mortalidade superior a 25% entre os pacientes tratados apenas com recursos
ocidentais. Em Jinan, um grupo de 12 pacientes atendidos exclusivamente com
fórmulas da MTC foi totalmente curado, sem óbitos. Receitas clássicas como a
Bebida do Tigre Branco e formulações do Tratado sobre doenças febris
pestilenciais alcançaram taxas de eficácia de 90% em diversas províncias, sem
sequelas nos sobreviventes.
Durante
o surto de SARS em 2003, a diferença entre os dois modelos foi ainda mais
evidente. A taxa de mortalidade global da doença ficou em cerca de 11%,
enquanto na província de Guangdong – onde a medicina tradicional chinesa foi
adotada precocemente – chegou a apenas 3,8%. Nos hospitais de medicina
tradicional da região, foram registrados casos com “quatro zeros”: nenhum
óbito, nenhuma transferência para unidade grave, sem complicações e sem
contágio de equipes médicas.
Pacientes
tratados apenas com corticoides em modelo ocidental apresentaram sequelas
permanentes, como necrose óssea, enquanto os atendidos com medicina tradicional
chinesa não sofreram danos de longo prazo. A lógica terapêutica tradicional não
visa matar o patógeno, mas fortalecer a resistência do organismo humano, um
método imune às constantes mutações virais.
Na
COVID-19, a decocção Qingfei Paidu representa o auge dessa sabedoria coletiva.
Criada em cinco dias pelo praticante popular Ge Youwen, que entregou a fórmula
gratuitamente ao Estado, ela foi testada em mais de 200 pacientes com taxa de
melhora superior a 90%. Estudos retrospectivos com quase 9 mil internados em
Wuhan confirmaram redução significativa da mortalidade e ausência de lesões
hepáticas ou renais associadas ao seu uso.
Em
2022, a fórmula recebeu o Prêmio Prata de Patentes da China, e foi estabelecido
um modelo independente de licenciamento internacional que evita a apropriação
estrangeira da propriedade intelectual, rompendo um ciclo histórico de
exploração dos saberes médicos chineses.
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A hegemonia das fundações privadas
Duas
instituições filantrópicas ocidentais moldaram as regras de saúde internacional
no último século: a Fundação Rockefeller e a Fundação Bill & Melinda Gates.
A primeira construiu o modelo de medicalização colonial no século XX, usando a
saúde pública para aumentar a produtividade da mão de obra nos países
periféricos e reduzir sua autonomia cultural. A segunda se tornou a maior
financiadora privada da OMS na era do capitalismo financeiro.
O
orçamento da Organização Mundial da Saúde depende apenas de 16% de
contribuições obrigatórias dos Estados-membros; quase 10% vem de fundações
privadas, com a Gates ocupando o terceiro lugar entre os maiores doadores,
atrás apenas dos Estados Unidos e da Alemanha. Muitos dos consultores
científicos estratégicos da OMS mantêm vínculos com gigantes farmacêuticos como
Pfizer, Novartis e GSK, cujos ex-executivos compõem a equipe de gestão da
fundação.
Essa
estrutura gera conflitos de interesse estruturais. A lógica industrial
farmacêutica depende de tratamentos contínuos e doenças crônicas para manter
lucros elevados; a medicina tradicional chinesa, por sua vez, prioriza a
prevenção (“tratar a doença antes que ela apareça”), uma filosofia que entra em
oposição direta ao modelo de negócio capitalista. Por isso, as agendas de
pesquisa financiadas por essas fundações priorizam vacinas e fármacos
sintéticos, minimizando investimentos em medicinas tradicionais dos países do
Sul Global.
A
medicina tradicional chinesa não é uma alternativa perfeita nem rejeita a
medicina ocidental, mas questiona a hegemonia do pensamento eurocêntrico que
transforma um único modelo de ciência em padrão universal. O sistema sanitário
global reproduz desigualdades ao exigir que todas as práticas tradicionais se
submetam a protocolos de validação criados para fármacos sintéticos, ignorando
milênios de comprovação popular e cultural.
A
pandemia de COVID-19 revelou as limitações da saúde mercantilizada e cara, ao
mesmo tempo em que demonstrou a capacidade das comunidades de se organizar
coletivamente em prol da sobrevivência com recursos locais e acessíveis. A
resiliência cultural da medicina tradicional chinesa reside em seus valores de
harmonia com a natureza, reciprocidade social e cuidado preventivo, princípios
que oferecem uma saída ao paradigma competitivo e lucrativo do capitalismo.
A
recuperação das medicinas tradicionais em todo o Sul Global é um caminho
fundamental para a descolonização do campo sanitário. Trata-se de reconhecer a
pluralidade dos saberes médicos, romper o monopólio das corporações
farmacêuticas transnacionais e construir um regime de saúde centrado na vida
coletiva, e não no lucro privado. A experiência centenária da Medicina
Tradicional Chinesa funciona como um exemplo prático dessa luta por equidade e
diversidade cultural no cenário sanitário mundial.
Fonte:
Por Sit Tsui e Lau Kin Chi - Tradução:
Maisa Maria Baptista Prates do Amaral, em A Terra é Redonda

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