quinta-feira, 9 de julho de 2026

IA: Os contornos e sentidos da nova disputa

Tal qual Vladimir e Estragon esperando Godot, parte dos analistas críticos das tecnologias pergunta-se diuturnamente quando a bolha da Inteligência Artificial (IA) vai estourar. Olham para os investimentos astronômicos que vêm sendo feitos, observam os modelos de negócio atuais, fatoram os crescentes custos energéticos e ambientais, e se lembram do que foi a bolha da Internet, lá no início dos anos 2000. Depois de um período de anos de vultosos investimentos de capital de risco em empresas novas e velhas — e de desavisados tentando surfar a onda, nutridos por altas expectativas de lucros –, tudo começou a vir abaixo em março de 2000, numa queda que só encontraria fundo em outubro de 2002, acumulando perdas de cerca de 78%.

A verdadeira recuperação das empresas pontocom só viria bem mais tarde, com o boom dos smartphones e das redes sociais, sobre as bases lançadas pela invenção e solidificação do capitalismo de vigilância como modelo de negócio. Nele, os dados dos usuários servem de insumo para operações de previsão e modificação de comportamentos, exploradas pelo marketing. Foram anos de crescimento e infiltração na vida cotidiana, presididos por empresas que priorizavam a expansão e o domínio de mercado sobre o lucro imediato, enquanto tateavam respostas para a construção do novo ciclo. Chegaram ao atual, que deu origem às Big Techs.

Com a IA, o roteiro se inverte: a alternativa lucrativa está sendo desenhada antes do eventual estouro da bolha, e não tateada anos depois dele. Uma estrutura inteira já se monta, altamente dependente dos absurdos e ainda incompreensíveis investimentos no desenvolvimento e na sustentação dos modelos fundacionais — o GPT da OpenAI, o Claude da Anthropic, o Gemini do Google e mesmo os chineses DeepSeek e Qwen, este da Alibaba. Não por acaso, são em boa parte as mesmas Big Techs nascidas do ciclo da vigilância que agora disputam a posse dessa nova camada, reinvestindo o poder ali acumulado para capturá-la. Nessa economia em formação, os tokens são a unidade básica de troca e os agentes de IA, os grandes consumidores. E assim como o petróleo foi a base energética do desenvolvimento industrial do século passado, os modelos fundacionais surgem como o insumo em torno do qual gravita um novo capitalismo, movido a agentes “inteligentes”.

Pensemos a indústria do software, hoje o caso mais visível. Empresas que antes vendiam o trabalho de seus programadores passam a operar exércitos de agentes que leem, escrevem e corrigem código de forma autônoma, cada tarefa queimando milhões de tokens comprados dos donos dos modelos. O ganho de produtividade é real, mas a dependência também: o custo dessa nova cadeia produtiva é, na prática, uma fatura de tokens que a empresa não controla, pois o preço é definido por quem detém o modelo fundacional. Se a tarifa sobe, se o acesso é cortado, se o modelo muda de comportamento, é o negócio inteiro que oscila. E o software é apenas o primeiro: a mesma lógica avança sobre o atendimento ao cliente, a análise jurídica, o diagnóstico médico, a pesquisa científica, qualquer setor onde a “inteligência” possa ser fatiada em tokens e terceirizada a um agente.

Vale entender a engrenagem. Um modelo fundacional é um sistema treinado, a um custo hoje na casa dos bilhões de dólares, sobre uma quantidade colossal de texto, código e imagens, num processo que exige data centers inteiros, energia e água em escala industrial, e chips avançados fabricados por pouquíssimas empresas no mundo. O resultado é um motor de propósito geral, capaz de responder, resumir, programar, traduzir. Mas esse motor não faz nada sozinho, ele apenas processa aquilo que recebe e devolve uma resposta, cobrando por unidade de texto processado (tokens).

É aí que entram os agentes. Um agente de IA é um programa que usa o modelo como “cérebro” para executar tarefas de forma autônoma. Quebra um objetivo em passos, consulta o modelo a cada passo, age (busca dados, escreve um arquivo, dispara um e-mail), avalia o resultado e consulta de novo. Cada uma dessas consultas gasta tokens. Quanto mais sofisticada a tarefa, mais idas e vindas, mais tokens queimados. O agente é, por assim dizer, o motor de combustão; o modelo fundacional, a refinaria; e o token, a gasolina que ela vende.

A economia do século XX foi altamente dependente do petróleo, e quem controlava esse recurso controlava também o ritmo do mundo industrializado. Em 1960, países produtores (não só árabes, mas também a Venezuela e o Irã, entre outros) se organizaram na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Em 1973, transformaram esse recurso em arma geopolítica, cortando o fluxo de energia barata para as economias industrializadas e provocando uma recessão mundial. Por décadas, as empresas mais valiosas do planeta foram as petrolíferas. Esse posto só mudou de mãos quando as big techs assumiram a liderança. Não por acaso, o novo recurso estratégico deixou de ser o que se extrai do solo e passou a ser o que se extrai de nós – os dados, e o que se constrói a partir deles, os modelos. Capazes de seguir coletando esses dados e aprimorando seus modelos, tudo indica que as corporações de IA verão a dependência a elas só se aprofundar. Quem tiver acesso facilitado aos modelos colherá os benefícios; quem erguer sua operação sobre os modelos alheios pode terminar com uma fatura de tokens impossível de pagar.

Construir alternativas, porém, é possível. A lição da OPEP talvez possa ser lida ao contrário. Não se trata de formar um cartel que fecha a torneira para extrair renda, mas de coordenar esforços soberanos para abrir o acesso e quebrar a dependência. O DeepSeek, que usou código aberto e alegou ter chegado perto da fronteira com muito menos capital, mostra que o caminho existe. Mas estamos assistindo apenas ao nascimento de um processo longo e complexo. Para de fato fazer frente às big techs, será preciso cooperar e coordenar em escala: compartilhar infraestruturas que, ao mesmo tempo, facilitem o acesso aos eventuais benefícios e minimizem os prejuízos, sobretudo os ambientais, de uma indústria que consome energia e água em escala brutal.

É nesse tabuleiro que entra a China. Desde 2018 o país realiza anualmente, em Shanghai, o World Artificial Intelligence Conference (WAIC). Para a edição de 2026, marcada para julho, prepara o lançamento de algo mais ambicioso: a WAICO, a World Artificial Intelligence Cooperation Organization, uma organização intergovernamental de cooperação em IA. A proposta foi apresentada em 2025 pelo primeiro-ministro Li Qiang, que defendeu uma governança conjunta da tecnologia e a formação de um marco global de regras com amplo consenso. O enquadramento é deliberado: a IA como “bem público internacional”, e a China disposta a compartilhar sua experiência e seus produtos tecnológicos para ajudar os países a fortalecer suas capacidades — com menção explícita e repetida ao Sul Global.

Enquanto os Estados Unidos atacam e enfraquecem o sistema ONU, a China faz referência a resoluções propostas pelo próprio país e já aceitas por unanimidade pelos Estados- membros. O comunicado sobre o evento de 2026, e sobre a nova organização, menciona explicitamente a resolução A/RES/78/311 da ONU, que aponta para a necessária conexão entre IA, desenvolvimento sustentável e soberania nacional. A retórica do documento é altamente não-intervencionista, com ênfase no respeito à “soberania de cada país ao direito a seu caminho próprio de desenvolvimento” com IA sendo tratada como um “bem público em vez de um monopólio de poucas firmas ou poderes”.

Nada disso dispensa a cautela. Uma organização proposta e localizada em Shanghai aponta também para um centro de poder específico. Porém, é um centro que se entende como parte do Sul Global e que vem construindo institucionalidades alternativas e mais horizontais como os Brics. Além disso, convém comparar as propostas que estão de fato sobre a mesa. De um lado, os Estados Unidos, que se retiram dos foros multilaterais, tratam a IA como instrumento de dominação e oferecem ao mundo a adesão a um stack proprietário cujas regras são escritas alhures. De outro, uma proposta que, ainda que tomada com suspeita pelos mais céticos, acena para a continuidade de um multilateralismo. Talvez imperfeito, mas revisado, mais atento às diferenças e à ideia de que os países podem crescer juntos em vez de uns às custas dos outros.

O que torna essa aposta interessante não é a boa vontade, mas o princípio que carrega. A China construiu sua própria ascensão apostando que a riqueza se produz distribuindo capacidade, e não concentrando-a. É essa lógica que, transposta para a IA, interessa ao Sul Global. Um recurso compartilhado em vez de cativo; uma base tecnológica comum, energeticamente mais racional do que a corrida de cada país erguendo seus próprios data centers redundantes; cooperação genuína no desenvolvimento em vez da compra perpétua de tokens a preço de senhorio. É o oposto exato da economia que descrevi no início deste texto, aquela em que poucas empresas destilam inteligência e cobram por gota. Esforços como o da WAICO podem não cumprir tudo o que prometem — mas apontam, ao menos, para a direção certa: a de que o petróleo do século XXI não precise ter donos. E essa direção, hoje, o Sul Global só terá se ajudar a construí-la, e não se esperar sentado que ela chegue pronta.

•        A IA não vai acabar com o trabalho – vai piorar os empregos. Por Juliane Furno

O tema do fim do trabalho ou da sua plena substituição pelo avanço do progresso técnico, em especial pela inteligência artificial, parece ter se tornado corriqueiro. Por onde eu passo, a tese do fim do trabalho ecoa quase com naturalidade.

Minha intenção aqui é problematizá-la à luz da história e da economia política. Ao longo do tempo, a tese do fim do trabalho tem produzido especulações que não encontram respaldo na realidade. As visões vão das mais otimistas, como a de Hannah Arendt – para quem a automação poderia libertar a humanidade do labor – às mais pessimistas, como a de Martin Ford, que trata do crescimento do desemprego tecnológico e da ameaça aos empregos industriais e típicos de classe média.

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Essa não é uma nova discussão. Desde os anos 1980 discute-se sobre o famoso livro de André Gorz, “Adeus ao proletariado”. Vocalizando um conjunto de vozes da esquerda “pós-trabalho”, Gorz defende a possibilidade de surgimento de uma sociedade com redução do trabalho heterônomo – ou seja, com regras definidas por terceiros e subordinado a eles – e organizada com sentidos principais que vão além do trabalho.

<><> A utopia do tempo livre

Todas essas teses relacionam-se a um mesmo ponto: o avanço das forças produtivas capitalistas teria elevado a tal ponto a produtividade que serão possíveis reduções expressivas da jornada de trabalho, demandando menos tempo socialmente necessário para a produção de bens e serviços. Essas teses vêm acompanhadas da ideia de fim da centralidade do trabalho como categoria organizadora da sociedade no capitalismo.

No entanto, a história insiste em contrariar as previsões de futuro. A sensação coletiva é de que cada vez trabalhamos mais, não a despeito, mas em função do progresso técnico, especialmente em tempos de smartphones e home office, nos quais fica cada vez mais turva a noção de tempo de trabalho e de não trabalho. A Argentina acabou de aprovar uma reforma trabalhista em que, justamente, a jornada de trabalho é alargada, em uma clara tendência de ampliação do lucro por mais-valia absoluta.

Mais-valia é um conceito marxista que significa a diferença entre as horas de trabalho destinadas à reprodução social, ou seja, o trabalho necessário, e as horas de trabalho em que o trabalhador produz valor por ele não apropriado na forma de salário, o trabalho excedente. A mais-valia pode ser ampliada por aumento da jornada de trabalho, mas, conforme se desenvolve o capitalismo, a mais-valia absoluta vai dando lugar à mais-valia relativa, em que o aumento da exploração do trabalho não ocorre exatamente por aumento das horas trabalhadas, mas pelo aumento da produtividade.

<><> Força de trabalho e capitalismo

Quero dialogar a partir de três hipóteses sobre por que acredito que o trabalho não vai acabar, nem mesmo perder centralidade. A primeira envolve a constatação das características principais de funcionamento do capitalismo. Karl Marx e Friedrich Engels, no “Manifesto comunista”, já viam o capitalismo como um modo de produção altamente dinâmico, e o expressaram na seguinte afirmação: “A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de produção”. Ou seja, no capitalismo, as transformações de ordem técnica e produtiva são uma regra e operam desde o seu nascedouro.

Ainda que com o avanço das forças produtivas aumente proporcionalmente o emprego de tecnologia e maquinaria em relação ao trabalho, em termos absolutos, quanto mais avança o capitalismo, mais ele precisa da sua principal mercadoria: a força de trabalho. O trabalhador é a única mercadoria do capitalismo que consegue gerar mais valor do que ele vale. Não é possível haver capitalismo sem exploração do trabalho, que é a sua única fonte de lucro. O capitalismo não pode, portanto, prescindir do trabalho humano vivo. Mesmo que se amplie a maquinaria, a máquina ainda é resultado do trabalho humano vivo, e sua operação e manutenção também não podem prescindir dos trabalhadores.

A segunda hipótese é de que não há correlação estatística entre o progresso tecnológico e o desemprego. Aliás, a noção de que vivemos em uma era de revoluções técnicas também precisa ser problematizada. Antes mesmo do capitalismo, a construção do barco a vela já foi, para a época, uma revolução técnica de grandes proporções, capaz de encurtar o tempo de viagens e poupar trabalho. Portanto, o progresso das tecnologias poupadoras de força de trabalho não é exclusividade da nossa geração.

Ainda assim, a taxa de desemprego não se comporta de forma correlacionada com os níveis de revoluções tecnológicas. Pensem numa simples comparação: se a tecnologia e a automação gerassem desemprego, o Japão teria uma taxa de desemprego superior à de países com mercados de trabalho intensivo em mão de obra, como Bangladesh, por exemplo. E ocorre o contrário.

Assim também podemos pensar para o Brasil. Nenhuma das flutuações recentes na taxa de desemprego se relaciona a rupturas tecnológicas. O emprego e o desemprego são resultados das decisões de investimentos. Portanto, ainda que poupando proporcionalmente mão de obra, o capitalismo segue sob a lógica da reprodução ampliada do capital, em que cada vez mais capital é empregado no processo de produção.

Por fim, as terceira e última hipótese é que a tese do fim do trabalho ou do desemprego estrutural por acumulação de progresso técnico é ainda mais irrealista se pensarmos que estamos no Brasil, ou seja, em um país que tem uma quantidade substancial de trabalhadores boias-frias, que fazem o trabalho que uma simples colheitadeira poderia fazer. Segundo a Organização Internacional do Trabalho, a OIT, o Brasil é um dos países com mais trabalhadoras domésticas do mundo. Ou seja, ainda que haja elevada disponibilidade de recursos tecnológicos, o excedente estrutural de força de trabalho no Brasil torna o trabalho muito barato e, portanto, de farto uso. Nesse caso, eu apontaria que carecemos de desenvolvimento técnico e não o contrário, do ponto de vista do mercado de trabalho.

<><> O início de uma nova etapa

Em síntese, a era da inteligência artificial e do acelerado progresso das forças produtivas não parece resultar no fim do trabalho, ainda que anuncie uma nova etapa de sua reorganização sob o capitalismo. Como em outros momentos da história, o progresso técnico tende a transformar ocupações, deslocar trabalhadores, alterar qualificações exigidas e, atualmente, ampliar formas de controle sobre o tempo e o ritmo do trabalho, mas jamais eliminando a centralidade da força de trabalho na produção de valor.

Então eu diria que a questão principal não está em uma suposta marcha inevitável rumo a uma sociedade sem trabalho, mas segue localizada na forma social em que a tecnologia é incorporada, subordinada à acumulação de capital. No caso brasileiro, que tem um mercado de trabalho marcado pela informalidade, baixos salários e ocupações extremamente precarizadas, falar em fim do trabalho soa como abstração deslocada da realidade. Portanto, a questão segue ressignificada, e me parece que não é sobre o fim ou não do emprego, nem mesmo do assalariado, mas sobre os tipos de emprego que já estão emergindo. Será a oportunidade de, de fato, dar “adeus ao proletariado” e ampliar o tempo de lazer e comunidade? Acredito que não.

 

Fonte: Por Rafael Evangelista, em Outras Palavras/The Intercept

 

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