IA:
Os contornos e sentidos da nova disputa
Tal
qual Vladimir e Estragon esperando Godot, parte dos analistas críticos das
tecnologias pergunta-se diuturnamente quando a bolha da Inteligência Artificial
(IA) vai estourar. Olham para os investimentos astronômicos que vêm sendo
feitos, observam os modelos de negócio atuais, fatoram os crescentes custos
energéticos e ambientais, e se lembram do que foi a bolha da Internet, lá no
início dos anos 2000. Depois de um período de anos de vultosos investimentos de
capital de risco em empresas novas e velhas — e de desavisados tentando surfar
a onda, nutridos por altas expectativas de lucros –, tudo começou a vir abaixo
em março de 2000, numa queda que só encontraria fundo em outubro de 2002,
acumulando perdas de cerca de 78%.
A
verdadeira recuperação das empresas pontocom só viria bem mais tarde, com o
boom dos smartphones e das redes sociais, sobre as bases lançadas pela invenção
e solidificação do capitalismo de vigilância como modelo de negócio. Nele, os
dados dos usuários servem de insumo para operações de previsão e modificação de
comportamentos, exploradas pelo marketing. Foram anos de crescimento e
infiltração na vida cotidiana, presididos por empresas que priorizavam a
expansão e o domínio de mercado sobre o lucro imediato, enquanto tateavam
respostas para a construção do novo ciclo. Chegaram ao atual, que deu origem às
Big Techs.
Com a
IA, o roteiro se inverte: a alternativa lucrativa está sendo desenhada antes do
eventual estouro da bolha, e não tateada anos depois dele. Uma estrutura
inteira já se monta, altamente dependente dos absurdos e ainda incompreensíveis
investimentos no desenvolvimento e na sustentação dos modelos fundacionais — o
GPT da OpenAI, o Claude da Anthropic, o Gemini do Google e mesmo os chineses
DeepSeek e Qwen, este da Alibaba. Não por acaso, são em boa parte as mesmas Big
Techs nascidas do ciclo da vigilância que agora disputam a posse dessa nova
camada, reinvestindo o poder ali acumulado para capturá-la. Nessa economia em
formação, os tokens são a unidade básica de troca e os agentes de IA, os
grandes consumidores. E assim como o petróleo foi a base energética do
desenvolvimento industrial do século passado, os modelos fundacionais surgem
como o insumo em torno do qual gravita um novo capitalismo, movido a agentes
“inteligentes”.
Pensemos
a indústria do software, hoje o caso mais visível. Empresas que antes vendiam o
trabalho de seus programadores passam a operar exércitos de agentes que leem,
escrevem e corrigem código de forma autônoma, cada tarefa queimando milhões de
tokens comprados dos donos dos modelos. O ganho de produtividade é real, mas a
dependência também: o custo dessa nova cadeia produtiva é, na prática, uma
fatura de tokens que a empresa não controla, pois o preço é definido por quem
detém o modelo fundacional. Se a tarifa sobe, se o acesso é cortado, se o
modelo muda de comportamento, é o negócio inteiro que oscila. E o software é
apenas o primeiro: a mesma lógica avança sobre o atendimento ao cliente, a
análise jurídica, o diagnóstico médico, a pesquisa científica, qualquer setor
onde a “inteligência” possa ser fatiada em tokens e terceirizada a um agente.
Vale
entender a engrenagem. Um modelo fundacional é um sistema treinado, a um custo
hoje na casa dos bilhões de dólares, sobre uma quantidade colossal de texto,
código e imagens, num processo que exige data centers inteiros, energia e água
em escala industrial, e chips avançados fabricados por pouquíssimas empresas no
mundo. O resultado é um motor de propósito geral, capaz de responder, resumir,
programar, traduzir. Mas esse motor não faz nada sozinho, ele apenas processa
aquilo que recebe e devolve uma resposta, cobrando por unidade de texto
processado (tokens).
É aí
que entram os agentes. Um agente de IA é um programa que usa o modelo como
“cérebro” para executar tarefas de forma autônoma. Quebra um objetivo em
passos, consulta o modelo a cada passo, age (busca dados, escreve um arquivo,
dispara um e-mail), avalia o resultado e consulta de novo. Cada uma dessas
consultas gasta tokens. Quanto mais sofisticada a tarefa, mais idas e vindas,
mais tokens queimados. O agente é, por assim dizer, o motor de combustão; o
modelo fundacional, a refinaria; e o token, a gasolina que ela vende.
A
economia do século XX foi altamente dependente do petróleo, e quem controlava
esse recurso controlava também o ritmo do mundo industrializado. Em 1960,
países produtores (não só árabes, mas também a Venezuela e o Irã, entre outros)
se organizaram na OPEP, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo. Em
1973, transformaram esse recurso em arma geopolítica, cortando o fluxo de
energia barata para as economias industrializadas e provocando uma recessão
mundial. Por décadas, as empresas mais valiosas do planeta foram as
petrolíferas. Esse posto só mudou de mãos quando as big techs assumiram a
liderança. Não por acaso, o novo recurso estratégico deixou de ser o que se
extrai do solo e passou a ser o que se extrai de nós – os dados, e o que se
constrói a partir deles, os modelos. Capazes de seguir coletando esses dados e
aprimorando seus modelos, tudo indica que as corporações de IA verão a
dependência a elas só se aprofundar. Quem tiver acesso facilitado aos modelos
colherá os benefícios; quem erguer sua operação sobre os modelos alheios pode
terminar com uma fatura de tokens impossível de pagar.
Construir
alternativas, porém, é possível. A lição da OPEP talvez possa ser lida ao
contrário. Não se trata de formar um cartel que fecha a torneira para extrair
renda, mas de coordenar esforços soberanos para abrir o acesso e quebrar a
dependência. O DeepSeek, que usou código aberto e alegou ter chegado perto da
fronteira com muito menos capital, mostra que o caminho existe. Mas estamos
assistindo apenas ao nascimento de um processo longo e complexo. Para de fato
fazer frente às big techs, será preciso cooperar e coordenar em escala:
compartilhar infraestruturas que, ao mesmo tempo, facilitem o acesso aos
eventuais benefícios e minimizem os prejuízos, sobretudo os ambientais, de uma
indústria que consome energia e água em escala brutal.
É nesse
tabuleiro que entra a China. Desde 2018 o país realiza anualmente, em Shanghai,
o World Artificial Intelligence Conference (WAIC). Para a edição de 2026,
marcada para julho, prepara o lançamento de algo mais ambicioso: a WAICO, a
World Artificial Intelligence Cooperation Organization, uma organização
intergovernamental de cooperação em IA. A proposta foi apresentada em 2025 pelo
primeiro-ministro Li Qiang, que defendeu uma governança conjunta da tecnologia
e a formação de um marco global de regras com amplo consenso. O enquadramento é
deliberado: a IA como “bem público internacional”, e a China disposta a
compartilhar sua experiência e seus produtos tecnológicos para ajudar os países
a fortalecer suas capacidades — com menção explícita e repetida ao Sul Global.
Enquanto
os Estados Unidos atacam e enfraquecem o sistema ONU, a China faz referência a
resoluções propostas pelo próprio país e já aceitas por unanimidade pelos
Estados- membros. O comunicado sobre o evento de 2026, e sobre a nova
organização, menciona explicitamente a resolução A/RES/78/311 da ONU, que
aponta para a necessária conexão entre IA, desenvolvimento sustentável e
soberania nacional. A retórica do documento é altamente não-intervencionista,
com ênfase no respeito à “soberania de cada país ao direito a seu caminho
próprio de desenvolvimento” com IA sendo tratada como um “bem público em vez de
um monopólio de poucas firmas ou poderes”.
Nada
disso dispensa a cautela. Uma organização proposta e localizada em Shanghai
aponta também para um centro de poder específico. Porém, é um centro que se
entende como parte do Sul Global e que vem construindo institucionalidades
alternativas e mais horizontais como os Brics. Além disso, convém comparar as
propostas que estão de fato sobre a mesa. De um lado, os Estados Unidos, que se
retiram dos foros multilaterais, tratam a IA como instrumento de dominação e
oferecem ao mundo a adesão a um stack proprietário cujas regras são escritas
alhures. De outro, uma proposta que, ainda que tomada com suspeita pelos mais
céticos, acena para a continuidade de um multilateralismo. Talvez imperfeito,
mas revisado, mais atento às diferenças e à ideia de que os países podem
crescer juntos em vez de uns às custas dos outros.
O que
torna essa aposta interessante não é a boa vontade, mas o princípio que
carrega. A China construiu sua própria ascensão apostando que a riqueza se
produz distribuindo capacidade, e não concentrando-a. É essa lógica que,
transposta para a IA, interessa ao Sul Global. Um recurso compartilhado em vez
de cativo; uma base tecnológica comum, energeticamente mais racional do que a
corrida de cada país erguendo seus próprios data centers redundantes;
cooperação genuína no desenvolvimento em vez da compra perpétua de tokens a
preço de senhorio. É o oposto exato da economia que descrevi no início deste
texto, aquela em que poucas empresas destilam inteligência e cobram por gota.
Esforços como o da WAICO podem não cumprir tudo o que prometem — mas apontam,
ao menos, para a direção certa: a de que o petróleo do século XXI não precise
ter donos. E essa direção, hoje, o Sul Global só terá se ajudar a construí-la,
e não se esperar sentado que ela chegue pronta.
• A IA não vai acabar com o trabalho – vai
piorar os empregos. Por Juliane Furno
O tema
do fim do trabalho ou da sua plena substituição pelo avanço do progresso
técnico, em especial pela inteligência artificial, parece ter se tornado
corriqueiro. Por onde eu passo, a tese do fim do trabalho ecoa quase com
naturalidade.
Minha
intenção aqui é problematizá-la à luz da história e da economia política. Ao
longo do tempo, a tese do fim do trabalho tem produzido especulações que não
encontram respaldo na realidade. As visões vão das mais otimistas, como a de
Hannah Arendt – para quem a automação poderia libertar a humanidade do labor –
às mais pessimistas, como a de Martin Ford, que trata do crescimento do
desemprego tecnológico e da ameaça aos empregos industriais e típicos de classe
média.
Aceito
receber e-mails e concordo com a Política de Privacidade e os Termos de Uso.
Essa
não é uma nova discussão. Desde os anos 1980 discute-se sobre o famoso livro de
André Gorz, “Adeus ao proletariado”. Vocalizando um conjunto de vozes da
esquerda “pós-trabalho”, Gorz defende a possibilidade de surgimento de uma
sociedade com redução do trabalho heterônomo – ou seja, com regras definidas
por terceiros e subordinado a eles – e organizada com sentidos principais que
vão além do trabalho.
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A utopia do tempo livre
Todas
essas teses relacionam-se a um mesmo ponto: o avanço das forças produtivas
capitalistas teria elevado a tal ponto a produtividade que serão possíveis
reduções expressivas da jornada de trabalho, demandando menos tempo socialmente
necessário para a produção de bens e serviços. Essas teses vêm acompanhadas da
ideia de fim da centralidade do trabalho como categoria organizadora da
sociedade no capitalismo.
No
entanto, a história insiste em contrariar as previsões de futuro. A sensação
coletiva é de que cada vez trabalhamos mais, não a despeito, mas em função do
progresso técnico, especialmente em tempos de smartphones e home office, nos
quais fica cada vez mais turva a noção de tempo de trabalho e de não trabalho.
A Argentina acabou de aprovar uma reforma trabalhista em que, justamente, a
jornada de trabalho é alargada, em uma clara tendência de ampliação do lucro
por mais-valia absoluta.
Mais-valia
é um conceito marxista que significa a diferença entre as horas de trabalho
destinadas à reprodução social, ou seja, o trabalho necessário, e as horas de
trabalho em que o trabalhador produz valor por ele não apropriado na forma de
salário, o trabalho excedente. A mais-valia pode ser ampliada por aumento da
jornada de trabalho, mas, conforme se desenvolve o capitalismo, a mais-valia
absoluta vai dando lugar à mais-valia relativa, em que o aumento da exploração
do trabalho não ocorre exatamente por aumento das horas trabalhadas, mas pelo
aumento da produtividade.
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Força de trabalho e capitalismo
Quero
dialogar a partir de três hipóteses sobre por que acredito que o trabalho não
vai acabar, nem mesmo perder centralidade. A primeira envolve a constatação das
características principais de funcionamento do capitalismo. Karl Marx e
Friedrich Engels, no “Manifesto comunista”, já viam o capitalismo como um modo
de produção altamente dinâmico, e o expressaram na seguinte afirmação: “A
burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de
produção”. Ou seja, no capitalismo, as transformações de ordem técnica e
produtiva são uma regra e operam desde o seu nascedouro.
Ainda
que com o avanço das forças produtivas aumente proporcionalmente o emprego de
tecnologia e maquinaria em relação ao trabalho, em termos absolutos, quanto
mais avança o capitalismo, mais ele precisa da sua principal mercadoria: a
força de trabalho. O trabalhador é a única mercadoria do capitalismo que
consegue gerar mais valor do que ele vale. Não é possível haver capitalismo sem
exploração do trabalho, que é a sua única fonte de lucro. O capitalismo não
pode, portanto, prescindir do trabalho humano vivo. Mesmo que se amplie a
maquinaria, a máquina ainda é resultado do trabalho humano vivo, e sua operação
e manutenção também não podem prescindir dos trabalhadores.
A
segunda hipótese é de que não há correlação estatística entre o progresso
tecnológico e o desemprego. Aliás, a noção de que vivemos em uma era de
revoluções técnicas também precisa ser problematizada. Antes mesmo do
capitalismo, a construção do barco a vela já foi, para a época, uma revolução
técnica de grandes proporções, capaz de encurtar o tempo de viagens e poupar
trabalho. Portanto, o progresso das tecnologias poupadoras de força de trabalho
não é exclusividade da nossa geração.
Ainda
assim, a taxa de desemprego não se comporta de forma correlacionada com os
níveis de revoluções tecnológicas. Pensem numa simples comparação: se a
tecnologia e a automação gerassem desemprego, o Japão teria uma taxa de
desemprego superior à de países com mercados de trabalho intensivo em mão de
obra, como Bangladesh, por exemplo. E ocorre o contrário.
Assim
também podemos pensar para o Brasil. Nenhuma das flutuações recentes na taxa de
desemprego se relaciona a rupturas tecnológicas. O emprego e o desemprego são
resultados das decisões de investimentos. Portanto, ainda que poupando
proporcionalmente mão de obra, o capitalismo segue sob a lógica da reprodução
ampliada do capital, em que cada vez mais capital é empregado no processo de
produção.
Por
fim, as terceira e última hipótese é que a tese do fim do trabalho ou do
desemprego estrutural por acumulação de progresso técnico é ainda mais
irrealista se pensarmos que estamos no Brasil, ou seja, em um país que tem uma
quantidade substancial de trabalhadores boias-frias, que fazem o trabalho que
uma simples colheitadeira poderia fazer. Segundo a Organização Internacional do
Trabalho, a OIT, o Brasil é um dos países com mais trabalhadoras domésticas do
mundo. Ou seja, ainda que haja elevada disponibilidade de recursos
tecnológicos, o excedente estrutural de força de trabalho no Brasil torna o
trabalho muito barato e, portanto, de farto uso. Nesse caso, eu apontaria que
carecemos de desenvolvimento técnico e não o contrário, do ponto de vista do
mercado de trabalho.
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O início de uma nova etapa
Em
síntese, a era da inteligência artificial e do acelerado progresso das forças
produtivas não parece resultar no fim do trabalho, ainda que anuncie uma nova
etapa de sua reorganização sob o capitalismo. Como em outros momentos da
história, o progresso técnico tende a transformar ocupações, deslocar
trabalhadores, alterar qualificações exigidas e, atualmente, ampliar formas de
controle sobre o tempo e o ritmo do trabalho, mas jamais eliminando a
centralidade da força de trabalho na produção de valor.
Então
eu diria que a questão principal não está em uma suposta marcha inevitável rumo
a uma sociedade sem trabalho, mas segue localizada na forma social em que a
tecnologia é incorporada, subordinada à acumulação de capital. No caso
brasileiro, que tem um mercado de trabalho marcado pela informalidade, baixos
salários e ocupações extremamente precarizadas, falar em fim do trabalho soa
como abstração deslocada da realidade. Portanto, a questão segue
ressignificada, e me parece que não é sobre o fim ou não do emprego, nem mesmo
do assalariado, mas sobre os tipos de emprego que já estão emergindo. Será a
oportunidade de, de fato, dar “adeus ao proletariado” e ampliar o tempo de
lazer e comunidade? Acredito que não.
Fonte:
Por Rafael Evangelista, em Outras Palavras/The Intercept

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