quinta-feira, 9 de julho de 2026

Gustavo Tapioca: O jogo mais importante para o futuro do Brasil já começou

A eleição no Peru consolidou mais um governo alinhado ao novo ciclo conservador do continente sul-americano. A Colômbia também mudou de direção. A Argentina aprofundou sua aproximação com Washington. A crise venezuelana continuou no centro da disputa internacional.

E o Brasil passou a ocupar posição cada vez mais estratégica nesse novo tabuleiro continental.

Não se trata de uma sucessão de episódios isolados. Observados em conjunto, esses movimentos revelam uma reorganização política que ultrapassa as fronteiras nacionais.

A eleição presidencial brasileira de 2026 deixou de ser apenas uma disputa doméstica entre governo e oposição. Tornou-se uma peça central de um rearranjo geopolítico que envolve interesses econômicos, estratégicos e ideológicos muito mais amplos.

<><> O continente mudou

O que se observa é a formação de um novo eixo político regional, articulado por governos conservadores, movimentos de direita e redes internacionais que compartilham métodos, discursos e estratégias.

Em maior ou menor grau, segurança pública, combate ao “globalismo”, guerra cultural, liberalização econômica e aproximação com Washington aparecem como elementos recorrentes dessa nova agenda.

Nesse cenário, o Brasil tornou-se a peça mais importante. Não apenas por ser a maior economia da região, mas porque permanece como o principal país governado por um presidente identificado com um projeto de integração regional autônoma, fortalecimento dos BRICS e defesa de uma política externa multipolar. O Brasil de Lula, que tenta a reeleição.

Em outras palavras: quem vencer a eleição brasileira de 2026 influenciará muito mais do que os rumos internos do país. Influenciará o equilíbrio político de um continente que vive um ciclo de fortalecimento de governos e movimentos conservadores, identificados com o trumpismo.

<><> A volta da palavra soberania

Curiosamente, uma palavra que parecia esquecida voltou a ocupar espaço no debate público: soberania.

Há sessenta e dois anos, poucos meses depois do golpe militar de 1964, o então embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães, pronunciou uma frase que atravessaria gerações: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”.

A declaração sintetizou uma concepção de política externa baseada no alinhamento automático com Washington em pleno contexto da Guerra Fria.

Hoje, o debate reaparece sob circunstâncias completamente diferentes. Já não se trata da Guerra Fria. Já não se trata da disputa entre capitalismo e socialismo. A questão voltou porque a soberania nacional reapareceu como tema da própria campanha presidencial.

Em editorial, O Estado de S. Paulo criticou duramente a atuação de Flávio Bolsonaro ao afirmar que ele teria chegado ao ponto de sugerir que Washington ajustasse sua política comercial ao calendário eleitoral brasileiro.

Para o jornal, isso equivaleria a convidar uma potência estrangeira a interferir na dinâmica política nacional — algo classificado como um grave atentado à soberania brasileira.

Não foi um dirigente do PT. Não foi Lula. Não foi um dirigente do governo. Foi o jornal O Estado de S. Paulo.

Durante décadas, discussões sobre soberania nacional foram frequentemente associadas ao discurso da esquerda brasileira.

Quando um jornal tradicionalmente identificado com posições liberais e frequentemente crítico dos governos petistas utiliza o mesmo conceito para analisar a atuação de um líder da extrema-direita, o debate muda de patamar.

A soberania deixa de ser apenas uma bandeira ideológica. Passa a ser apresentada como um interesse permanente do Estado brasileiro.

<><> Washington na campanha brasileira

Os fatos das últimas semanas ajudam a compreender por que a discussão sobre soberania voltou ao centro da política nacional.

Flávio Bolsonaro intensificou sua agenda nos Estados Unidos, participou de encontros com integrantes do governo Donald Trump, manteve interlocução direta com o secretário de Estado, Marco Rubio, participou de eventos da ultradireita trumpista e voltou a defender uma aproximação política cada vez mais estreita entre Brasília e Washington.

A preocupação com os desdobramentos dessa estratégia deixou de ser apenas objeto do debate político. Em resposta oficial à Câmara dos Deputados, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, advertiu que a decisão unilateral dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas pode abrir espaço para medidas extraterritoriais contra instituições, empresas e cidadãos brasileiros.

O chanceler chegou a mencionar, entre os riscos potenciais, a possibilidade de utilização dessa classificação como justificativa para ações coercitivas, inclusive militares, contra o território nacional.

<><> Não se trata apenas de afinidade ideológica

Raramente, desde a redemocratização, um candidato presidencial brasileiro manteve interlocução tão frequente e pública com autoridades da principal potência mundial durante uma campanha.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro consolidou sua posição como principal elo entre o bolsonarismo e o universo político do trumpismo. E aliou-se de corpo e alma à ultradireita trumpista que avança pela América do Sul, visando ao maior país do continente: o Brasil.

Não se trata mais apenas de uma aliança entre dois líderes conservadores. Trata-se de uma rede política transnacional, liderada pela ultradireita trumpista, que tem no Brasil a aliança explícita da extrema-direita bolsonarista e de setores dos partidos da direita.

<><> A nova cartilha

Eden Valadares, em artigo publicado neste sábado, 4, com o título O golpe está aí. Cai quem quer, identifica a cartilha.

O primeiro é a segurança pública, apresentada como resposta simples para problemas complexos. O segundo é a guerra cultural, capaz de mobilizar emoções e dividir a sociedade entre “patriotas” e “inimigos internos”. O terceiro é a defesa de um programa econômico ultraliberal. O quarto é o questionamento permanente das instituições democráticas sempre que elas contrariam os interesses do próprio movimento.

E observou que a estratégia da nova direita latino-americana deixou de depender exclusivamente do discurso econômico. Ela passou a combinar diferentes elementos que aparecem repetidamente em diversos países.

Observados isoladamente, esses elementos parecem apenas temas de campanha. Em conjunto, revelam um método político. A mesma receita que sempre aparece nas declarações de Flávio Bolsonaro.

<><> O método que se espalha pela América do Sul

Foi exatamente esse método que começou a aparecer, com diferentes intensidades, na Argentina de Javier Milei, no Chile de José Antonio Kast, na Bolívia de Rodrigo Paz, no Paraguai de Santiago Peña, no Equador de Daniel Noboa, no Peru de Keiko Fujimori e na Colômbia de Abelardo de la Espriella.

No caso venezuelano, o ponto não é a classificação ideológica do governo, mas a centralidade do país na estratégia de pressão dos Estados Unidos sobre a região. Foi na Venezuela que Trump sequestrou o presidente Nicolás Maduro e a primeira-dama Cília Flores, que continuam presos desde janeiro de 2026 nos Estados Unidos.

<><> O principal objetivo é o Brasil

Existe, entretanto, uma diferença importante entre o Brasil e vários de seus vizinhos. Apesar do novo cenário continental, Luiz Inácio Lula da Silva continua liderando as pesquisas eleitorais. Ao mesmo tempo, a própria direita ainda não conseguiu resolver sua principal questão estratégica: quem será capaz de ampliar o eleitorado bolsonarista sem perder sua identidade?

A disputa pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro mostrou que a sucessão do bolsonarismo começou antes mesmo da eleição de 2026.

A reorganização continental avança. Mas seu principal objetivo, o Brasil, ainda permanece em aberto. A eleição de outubro vai decidir se a ultradireita trumpista e a extrema-direita brasileira do aliado Flávio Bolsonaro avançam ou continuarão estancadas pela reeleição de Lula.

Está em disputa a posição que o Brasil ocupará na América do Sul nas próximas décadas, sua capacidade de formular uma política externa orientada pelos próprios interesses e o papel que exercerá num mundo cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências.

<><> “O que é bom para o Brasil é bom para os EUA”

Há sessenta e dois anos, Juracy Magalhães resumiu uma determinada visão de país em uma frase que atravessou gerações. Hoje, ela já não precisa ser repetida.

Basta observar quem viaja, com quem se reúne, quem pede apoio, quem pretende influenciar a política brasileira a partir de Washington e quem considera natural que decisões estratégicas sobre o Brasil sejam discutidas fora do Brasil.

Enquanto milhões de brasileiros acompanhavam a Copa do Mundo, esse debate voltou silenciosamente ao centro da vida nacional. A Copa acabou. Agora começa a disputa que decidirá muito mais do que um campeonato.

Ela decidirá qual será o lugar do Brasil na América do Sul e no mundo durante a próxima geração.

•        Racionalidade da financeirização. Por Fernando Nogueira da Costa

Em fase do ciclo com capacidade produtiva ociosa, racionalmente, as empresas investem em financeirização. Visam a acumulação de reservas financeiras necessárias para o autofinanciamento quando o crescimento for retomado.

Em contextos de baixa demanda agregada, elevada capacidade produtiva ociosa, incerteza radical quanto ao futuro e rentabilidade produtiva deprimida é racional as empresas direcionarem parte relevante de seus recursos para aplicações financeiras líquidas e seguras em vez de expandirem imediatamente o investimento produtivo. Isso não é necessariamente “irracionalidade especulativa”. É sim comportamento defensivo de gestão patrimonial e de liquidez.

Essa distinção entre decisões microeconômicas e contexto macroeconômico é muito importante. A lógica microeconômica da empresa sinaliza para ela investir produtivamente quando espera demanda futura suficiente, utilização rentável da capacidade instalada, estabilidade macroeconômica e retorno superior ao custo do capital.

Se já existe capacidade produtiva sobrando, estoques elevados e vendas fracas, então, construir novas fábricas pode ser economicamente irracional. Nessas circunstâncias, preservar liquidez, reduzir endividamento, carregar ativos financeiros e manter caixa aplicado pode ser a decisão mais prudente.

John Maynard Keynes já percebia isso ao enfatizar o investimento depender das expectativas incertas e da confiança abalada diante da rentabilidade esperada. Não basta juros baixos e disponibilidade de crédito. Se empresários esperam demanda insuficiente, recessão e excesso de capacidade, preferem liquidez.

A financeirização corporativa possui dimensão funcional. É importante separar gestão financeira funcional da financeirização predatória. Empresas modernas precisam administrar caixa, fazer hedge cambial, acumular reservas, realizar aplicações temporárias, fazer gestão de risco e cuidar de ter funding no futuro. Isso é parte normal do capitalismo contemporâneo.

O autofinanciamento tornou-se estratégico. Em economias instáveis, empresas acumulam caixa, títulos líquidos e ativos financeiros para sobreviver a crises, preservar crédito e financiar expansão futura. Especialmente, isso ocorre em países periféricos, onde juros, câmbio e crédito oscilam frequentemente.

O problema surge quando a lógica financeira substitui estruturalmente a produtiva. Há diferença entre financeirização defensiva e transitória, para preservação de liquidez, proteção patrimonial e espera por retomada da demanda, e financeirização parasitária estrutural, quando ganhos financeiros se tornam mais atraentes, em longo prazo, em vez da produção. A busca da valorização patrimonial passa, então, a dominar decisões corporativas.

O contexto macroeconômico importa decisivamente. Em países com juros muito altos, crescimento baixo, demanda fraca, volatilidade elevada, ativos financeiros oferecem retorno elevado e risco relativamente baixo. Nessas condições, o sistema econômico induz comportamento rentista racional.

O caso brasileiro é emblemático. O Banco Central do Brasil fixa juros reais muito elevados, provocando baixo crescimento e forte remuneração de títulos de dívida pública e depósitos a prazo pós-fixados (100% CDI).

Isso gerou preferência por aplicações financeiras, retenção de liquidez e baixa propensão ao investimento produtivo. Não era por empresários e outros agentes econômicos serem “irracionais”, mas porque a estrutura de incentivos macroeconômicos favorecia a valorização financeira.

Michał Kalecki ajuda a interpretar isso com o princípio da demanda efetiva. Empresas investem quando esperam vender mais e lucrar mais. Se todas, simultaneamente, seguram investimento e preservam caixa, a demanda agregada enfraquece ainda mais. Surge um paradoxo macroeconômico: o comportamento racional individual produz estagnação coletiva.

A financeirização também virou forma de proteção contra incerteza sistêmica. No capitalismo contemporâneo, volatilidade cambial, crises recorrentes, choques financeiros globais e instabilidade geopolítica promovem a preferência por liquidez. Grandes corporações, por isso, hoje operam quase como gestoras de ativos e administradoras de riscos.

Mas existe um limite sistêmico. Se a maioria das empresas prefere aplicações financeiras, recompra de ações e retenção de caixa em vez de ampliar produção, contratar e inovar, o crescimento estrutural tende a desacelerar. Isso porque a produtividade cresce menos, o emprego é insuficiente e a demanda está estagnada.

O paradoxo contemporâneo é o capitalismo atual produzir excesso de poupança financeira e insuficiência de investimento produtivo. Isso é discutido por autores como Lawrence Summers (estagnação secular), Hyman Minsky (instabilidade inerente), John Maynard Keynes (armadilha da liquidez) e Rudolf Hilferding (capital bancário controlador do capital industrial).

Então, o problema não é “ter reservas financeiras”. Isso é perfeitamente racional. O problema aparece quando o sistema macroeconômico inteiro passa a favorecer persistentemente valorização patrimonial, aplicações financeiras, arbitragem e especulação em detrimento da expansão produtiva, da inovação, do emprego e do atendimento da demanda dos consumidores.

Por isso, a financeirização não é apenas parasitismo e especulação improdutiva. Ela também organiza liquidez, reduz riscos, viabiliza investimento, permite coordenação intertemporal, sustenta aposentadorias e preserva reservas corporativas.

O debate real é em qual momento a racionalidade financeira microeconômica começa a produzir efeitos macroeconômicos de desaceleração, concentração e fragilidade sistêmica. Os ciclos possuem fase de alavancagem e fase de desalavancagem financeira.

A vida econômico-financeira é oscilante, em um sistema global no qual cada configuração conjuntural ou tendencial emerge de interações entre milhares de agentes econômicos. É difícil, mas temos de aprender a lidar com isso sem achar a solução ser um ato de vontade unilateral tipo “tem de acabar com isso!”.

O conflito de interesses é imenso. Os próprios trabalhadores se dividem entre aqueles com acusações de a falta de empregos ser culpa da “financeirização” e outros com defesa da capitalização de sua poupança para a fase de aposentadoria.

 

Fonte: Brasil 247/A Terra é Redonda

 

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