Gustavo
Tapioca: O jogo mais importante para o futuro do Brasil já começou
A
eleição no Peru consolidou mais um governo alinhado ao novo ciclo conservador
do continente sul-americano. A Colômbia também mudou de direção. A Argentina
aprofundou sua aproximação com Washington. A crise venezuelana continuou no
centro da disputa internacional.
E o
Brasil passou a ocupar posição cada vez mais estratégica nesse novo tabuleiro
continental.
Não se
trata de uma sucessão de episódios isolados. Observados em conjunto, esses
movimentos revelam uma reorganização política que ultrapassa as fronteiras
nacionais.
A
eleição presidencial brasileira de 2026 deixou de ser apenas uma disputa
doméstica entre governo e oposição. Tornou-se uma peça central de um rearranjo
geopolítico que envolve interesses econômicos, estratégicos e ideológicos muito
mais amplos.
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O continente mudou
O que
se observa é a formação de um novo eixo político regional, articulado por
governos conservadores, movimentos de direita e redes internacionais que
compartilham métodos, discursos e estratégias.
Em
maior ou menor grau, segurança pública, combate ao “globalismo”, guerra
cultural, liberalização econômica e aproximação com Washington aparecem como
elementos recorrentes dessa nova agenda.
Nesse
cenário, o Brasil tornou-se a peça mais importante. Não apenas por ser a maior
economia da região, mas porque permanece como o principal país governado por um
presidente identificado com um projeto de integração regional autônoma,
fortalecimento dos BRICS e defesa de uma política externa multipolar. O Brasil
de Lula, que tenta a reeleição.
Em
outras palavras: quem vencer a eleição brasileira de 2026 influenciará muito
mais do que os rumos internos do país. Influenciará o equilíbrio político de um
continente que vive um ciclo de fortalecimento de governos e movimentos
conservadores, identificados com o trumpismo.
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A volta da palavra soberania
Curiosamente,
uma palavra que parecia esquecida voltou a ocupar espaço no debate público:
soberania.
Há
sessenta e dois anos, poucos meses depois do golpe militar de 1964, o então
embaixador brasileiro em Washington, Juracy Magalhães, pronunciou uma frase que
atravessaria gerações: “O que é bom para os Estados Unidos é bom para o
Brasil”.
A
declaração sintetizou uma concepção de política externa baseada no alinhamento
automático com Washington em pleno contexto da Guerra Fria.
Hoje, o
debate reaparece sob circunstâncias completamente diferentes. Já não se trata
da Guerra Fria. Já não se trata da disputa entre capitalismo e socialismo. A
questão voltou porque a soberania nacional reapareceu como tema da própria
campanha presidencial.
Em
editorial, O Estado de S. Paulo criticou duramente a atuação de Flávio
Bolsonaro ao afirmar que ele teria chegado ao ponto de sugerir que Washington
ajustasse sua política comercial ao calendário eleitoral brasileiro.
Para o
jornal, isso equivaleria a convidar uma potência estrangeira a interferir na
dinâmica política nacional — algo classificado como um grave atentado à
soberania brasileira.
Não foi
um dirigente do PT. Não foi Lula. Não foi um dirigente do governo. Foi o jornal
O Estado de S. Paulo.
Durante
décadas, discussões sobre soberania nacional foram frequentemente associadas ao
discurso da esquerda brasileira.
Quando
um jornal tradicionalmente identificado com posições liberais e frequentemente
crítico dos governos petistas utiliza o mesmo conceito para analisar a atuação
de um líder da extrema-direita, o debate muda de patamar.
A
soberania deixa de ser apenas uma bandeira ideológica. Passa a ser apresentada
como um interesse permanente do Estado brasileiro.
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Washington na campanha brasileira
Os
fatos das últimas semanas ajudam a compreender por que a discussão sobre
soberania voltou ao centro da política nacional.
Flávio
Bolsonaro intensificou sua agenda nos Estados Unidos, participou de encontros
com integrantes do governo Donald Trump, manteve interlocução direta com o
secretário de Estado, Marco Rubio, participou de eventos da ultradireita
trumpista e voltou a defender uma aproximação política cada vez mais estreita
entre Brasília e Washington.
A
preocupação com os desdobramentos dessa estratégia deixou de ser apenas objeto
do debate político. Em resposta oficial à Câmara dos Deputados, o ministro das
Relações Exteriores, Mauro Vieira, advertiu que a decisão unilateral dos
Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações
terroristas pode abrir espaço para medidas extraterritoriais contra
instituições, empresas e cidadãos brasileiros.
O
chanceler chegou a mencionar, entre os riscos potenciais, a possibilidade de
utilização dessa classificação como justificativa para ações coercitivas,
inclusive militares, contra o território nacional.
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Não se trata apenas de afinidade ideológica
Raramente,
desde a redemocratização, um candidato presidencial brasileiro manteve
interlocução tão frequente e pública com autoridades da principal potência
mundial durante uma campanha.
Ao
mesmo tempo, Flávio Bolsonaro consolidou sua posição como principal elo entre o
bolsonarismo e o universo político do trumpismo. E aliou-se de corpo e alma à
ultradireita trumpista que avança pela América do Sul, visando ao maior país do
continente: o Brasil.
Não se
trata mais apenas de uma aliança entre dois líderes conservadores. Trata-se de
uma rede política transnacional, liderada pela ultradireita trumpista, que tem
no Brasil a aliança explícita da extrema-direita bolsonarista e de setores dos
partidos da direita.
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A nova cartilha
Eden
Valadares, em artigo publicado neste sábado, 4, com o título O golpe está aí.
Cai quem quer, identifica a cartilha.
O
primeiro é a segurança pública, apresentada como resposta simples para
problemas complexos. O segundo é a guerra cultural, capaz de mobilizar emoções
e dividir a sociedade entre “patriotas” e “inimigos internos”. O terceiro é a
defesa de um programa econômico ultraliberal. O quarto é o questionamento
permanente das instituições democráticas sempre que elas contrariam os
interesses do próprio movimento.
E
observou que a estratégia da nova direita latino-americana deixou de depender
exclusivamente do discurso econômico. Ela passou a combinar diferentes
elementos que aparecem repetidamente em diversos países.
Observados
isoladamente, esses elementos parecem apenas temas de campanha. Em conjunto,
revelam um método político. A mesma receita que sempre aparece nas declarações
de Flávio Bolsonaro.
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O método que se espalha pela América do Sul
Foi
exatamente esse método que começou a aparecer, com diferentes intensidades, na
Argentina de Javier Milei, no Chile de José Antonio Kast, na Bolívia de Rodrigo
Paz, no Paraguai de Santiago Peña, no Equador de Daniel Noboa, no Peru de Keiko
Fujimori e na Colômbia de Abelardo de la Espriella.
No caso
venezuelano, o ponto não é a classificação ideológica do governo, mas a
centralidade do país na estratégia de pressão dos Estados Unidos sobre a
região. Foi na Venezuela que Trump sequestrou o presidente Nicolás Maduro e a
primeira-dama Cília Flores, que continuam presos desde janeiro de 2026 nos
Estados Unidos.
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O principal objetivo é o Brasil
Existe,
entretanto, uma diferença importante entre o Brasil e vários de seus vizinhos.
Apesar do novo cenário continental, Luiz Inácio Lula da Silva continua
liderando as pesquisas eleitorais. Ao mesmo tempo, a própria direita ainda não
conseguiu resolver sua principal questão estratégica: quem será capaz de
ampliar o eleitorado bolsonarista sem perder sua identidade?
A
disputa pública entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro mostrou que a
sucessão do bolsonarismo começou antes mesmo da eleição de 2026.
A
reorganização continental avança. Mas seu principal objetivo, o Brasil, ainda
permanece em aberto. A eleição de outubro vai decidir se a ultradireita
trumpista e a extrema-direita brasileira do aliado Flávio Bolsonaro avançam ou
continuarão estancadas pela reeleição de Lula.
Está em
disputa a posição que o Brasil ocupará na América do Sul nas próximas décadas,
sua capacidade de formular uma política externa orientada pelos próprios
interesses e o papel que exercerá num mundo cada vez mais marcado pela
competição entre grandes potências.
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“O que é bom para o Brasil é bom para os EUA”
Há
sessenta e dois anos, Juracy Magalhães resumiu uma determinada visão de país em
uma frase que atravessou gerações. Hoje, ela já não precisa ser repetida.
Basta
observar quem viaja, com quem se reúne, quem pede apoio, quem pretende
influenciar a política brasileira a partir de Washington e quem considera
natural que decisões estratégicas sobre o Brasil sejam discutidas fora do
Brasil.
Enquanto
milhões de brasileiros acompanhavam a Copa do Mundo, esse debate voltou
silenciosamente ao centro da vida nacional. A Copa acabou. Agora começa a
disputa que decidirá muito mais do que um campeonato.
Ela
decidirá qual será o lugar do Brasil na América do Sul e no mundo durante a
próxima geração.
• Racionalidade da financeirização. Por
Fernando Nogueira da Costa
Em fase
do ciclo com capacidade produtiva ociosa, racionalmente, as empresas investem
em financeirização. Visam a acumulação de reservas financeiras necessárias para
o autofinanciamento quando o crescimento for retomado.
Em
contextos de baixa demanda agregada, elevada capacidade produtiva ociosa,
incerteza radical quanto ao futuro e rentabilidade produtiva deprimida é
racional as empresas direcionarem parte relevante de seus recursos para
aplicações financeiras líquidas e seguras em vez de expandirem imediatamente o
investimento produtivo. Isso não é necessariamente “irracionalidade
especulativa”. É sim comportamento defensivo de gestão patrimonial e de
liquidez.
Essa
distinção entre decisões microeconômicas e contexto macroeconômico é muito
importante. A lógica microeconômica da empresa sinaliza para ela investir
produtivamente quando espera demanda futura suficiente, utilização rentável da
capacidade instalada, estabilidade macroeconômica e retorno superior ao custo
do capital.
Se já
existe capacidade produtiva sobrando, estoques elevados e vendas fracas, então,
construir novas fábricas pode ser economicamente irracional. Nessas
circunstâncias, preservar liquidez, reduzir endividamento, carregar ativos
financeiros e manter caixa aplicado pode ser a decisão mais prudente.
John
Maynard Keynes já percebia isso ao enfatizar o investimento depender das
expectativas incertas e da confiança abalada diante da rentabilidade esperada.
Não basta juros baixos e disponibilidade de crédito. Se empresários esperam
demanda insuficiente, recessão e excesso de capacidade, preferem liquidez.
A
financeirização corporativa possui dimensão funcional. É importante separar
gestão financeira funcional da financeirização predatória. Empresas modernas
precisam administrar caixa, fazer hedge cambial, acumular reservas, realizar
aplicações temporárias, fazer gestão de risco e cuidar de ter funding no
futuro. Isso é parte normal do capitalismo contemporâneo.
O
autofinanciamento tornou-se estratégico. Em economias instáveis, empresas
acumulam caixa, títulos líquidos e ativos financeiros para sobreviver a crises,
preservar crédito e financiar expansão futura. Especialmente, isso ocorre em
países periféricos, onde juros, câmbio e crédito oscilam frequentemente.
O
problema surge quando a lógica financeira substitui estruturalmente a
produtiva. Há diferença entre financeirização defensiva e transitória, para
preservação de liquidez, proteção patrimonial e espera por retomada da demanda,
e financeirização parasitária estrutural, quando ganhos financeiros se tornam
mais atraentes, em longo prazo, em vez da produção. A busca da valorização
patrimonial passa, então, a dominar decisões corporativas.
O
contexto macroeconômico importa decisivamente. Em países com juros muito altos,
crescimento baixo, demanda fraca, volatilidade elevada, ativos financeiros
oferecem retorno elevado e risco relativamente baixo. Nessas condições, o
sistema econômico induz comportamento rentista racional.
O caso
brasileiro é emblemático. O Banco Central do Brasil fixa juros reais muito
elevados, provocando baixo crescimento e forte remuneração de títulos de dívida
pública e depósitos a prazo pós-fixados (100% CDI).
Isso
gerou preferência por aplicações financeiras, retenção de liquidez e baixa
propensão ao investimento produtivo. Não era por empresários e outros agentes
econômicos serem “irracionais”, mas porque a estrutura de incentivos
macroeconômicos favorecia a valorização financeira.
Michał
Kalecki ajuda a interpretar isso com o princípio da demanda efetiva. Empresas
investem quando esperam vender mais e lucrar mais. Se todas, simultaneamente,
seguram investimento e preservam caixa, a demanda agregada enfraquece ainda
mais. Surge um paradoxo macroeconômico: o comportamento racional individual
produz estagnação coletiva.
A
financeirização também virou forma de proteção contra incerteza sistêmica. No
capitalismo contemporâneo, volatilidade cambial, crises recorrentes, choques
financeiros globais e instabilidade geopolítica promovem a preferência por
liquidez. Grandes corporações, por isso, hoje operam quase como gestoras de
ativos e administradoras de riscos.
Mas
existe um limite sistêmico. Se a maioria das empresas prefere aplicações
financeiras, recompra de ações e retenção de caixa em vez de ampliar produção,
contratar e inovar, o crescimento estrutural tende a desacelerar. Isso porque a
produtividade cresce menos, o emprego é insuficiente e a demanda está
estagnada.
O
paradoxo contemporâneo é o capitalismo atual produzir excesso de poupança
financeira e insuficiência de investimento produtivo. Isso é discutido por
autores como Lawrence Summers (estagnação secular), Hyman Minsky (instabilidade
inerente), John Maynard Keynes (armadilha da liquidez) e Rudolf Hilferding
(capital bancário controlador do capital industrial).
Então,
o problema não é “ter reservas financeiras”. Isso é perfeitamente racional. O
problema aparece quando o sistema macroeconômico inteiro passa a favorecer
persistentemente valorização patrimonial, aplicações financeiras, arbitragem e
especulação em detrimento da expansão produtiva, da inovação, do emprego e do
atendimento da demanda dos consumidores.
Por
isso, a financeirização não é apenas parasitismo e especulação improdutiva. Ela
também organiza liquidez, reduz riscos, viabiliza investimento, permite
coordenação intertemporal, sustenta aposentadorias e preserva reservas
corporativas.
O
debate real é em qual momento a racionalidade financeira microeconômica começa
a produzir efeitos macroeconômicos de desaceleração, concentração e fragilidade
sistêmica. Os ciclos possuem fase de alavancagem e fase de desalavancagem
financeira.
A vida
econômico-financeira é oscilante, em um sistema global no qual cada
configuração conjuntural ou tendencial emerge de interações entre milhares de
agentes econômicos. É difícil, mas temos de aprender a lidar com isso sem achar
a solução ser um ato de vontade unilateral tipo “tem de acabar com isso!”.
O
conflito de interesses é imenso. Os próprios trabalhadores se dividem entre
aqueles com acusações de a falta de empregos ser culpa da “financeirização” e
outros com defesa da capitalização de sua poupança para a fase de
aposentadoria.
Fonte:
Brasil 247/A Terra é Redonda

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