A
Seleção que um dia foi poesia
Lá
pelos 10 minutos do segundo tempo, me senti obrigado a dar explicação. Na sala
repleta, cheguei até as minhas filhas e argumentei que o jogo passivo da
Seleção era uma estratégia.
“Então
eles estão jogando mal de propósito?”
As
crianças vão no ponto. De fato, a impressão era essa.
Em 5 de
julho de 1982, a Seleção perdeu para a Itália dirigida por um técnico que dizia
que futebol não era jogar bem ou vencer, mas jogar bem para vencer. 44 anos
depois, jogamos mal para vencer, conduzidos por um técnico italiano. Entre uma
derrota e outra, o futebol brasileiro se transfigurou. Esta trajetória é
reconstituída no livro “Saudades do que nunca fomos”.
As
raízes do desastre contra a Noruega são profundas. Em 1982, a comunidade
futebolista brasileira interpretou a “tragédia do Sarriá” como uma sentença: o
futebol-arte não compensa. Dali em diante, enquanto o neoliberalismo ajustava
sociedades, o futebol brasileiro também se ajustava. Em 1994, a Seleção foi
campeã derrotando a Itália com um futebol defensivo. Foi uma espécie de
identificação com o agressor que traumatizou. A Seleção venceu, mas e o futebol
brasileiro?
Nos
anos seguintes, o esporte continuou se ajustando e se globalizando segundo
padrões europeus. Por um momento, pareceu que o Brasil se encaixaria bem: a
Seleção foi vice em 1998 e campeã em 2002.
Só que
não. De lá para cá, nenhuma seleção sul-americana campeã do mundo, venceu uma
europeia campeã em Copa nos noventa minutos. E o Brasil, foi eliminado sempre
que enfrentou uma seleção europeia no mata-mata. Visto por este lado, a derrota
confirmou um padrão. Mas contra a Noruega, foi diferente.
Com os
jogadores brasileiros migrando cada vez mais cedo para a Europa, com o tempo a
contratação de um treinador europeu se impôs. Claro, o mister teve que jogar o
jogo da CBF: fechou um contrato até 2030 mas convocou Neymar.
Sabemos
que o Neymar imaginário desafia a razão esportiva. Em sua melhor forma, o
jogador nunca resolveu uma partida decisiva de Copa. Em um país cada vez mais
sem futuro nem trabalho, que se evangeliza dentro e fora de campo, Neymar é a
bet encarnada: é a expectativa do milagre na linguagem do futebol.
Mas o
mister disse que não reza porque Deus tem assuntos mais importantes. Contra o
Japão, mexeu bem e a Seleção virou.Neymar ficou no banco, mas inconformado.
Contra a Noruega, mexeu fatal. Tirou Rayan que, além de atacar, cobria a
lateral direita. De fato, a mudança desequilibrou o jogo, só que contra. Aquele
que encarnava o Salvador, trouxe a destruição. O Brasil levou dois gols pela
direita, Neymar deu um pontapé no meia norueguês que alugou o meio de campo, e
bateu boca enquanto se escorriam os minutos finais. Como num espelho do
bolsonarismo, nosso messias de chuteira foi pura pulsão de morte. A salvação,
revelou-se como o fim.
O
desfecho escatológico não dissipou a vergonha em campo, mas a escancarou. Foi a
cereja podre de um bolo azedo, como disse Casagrande. O Brasil teve a menor
posse de bola da sua história em Copas. Em parte, foi a estratégia de deixar a
Noruega jogar e ficar no contra-ataque. Em parte, foi incompetência: o Brasil
simplesmente não conseguiu ter a bola nos pés. Pode-se discutir se a estratégia
foi acertada, e a maioria dos comentaristas acha que não. Mas o que mais
preocupa, é o que ela revela.
Partindo
do princípio de que Ancelotti conhece mais de futebol do que você e eu,
deduzimos que a estratégia resultou da leitura que ele fez do confronto. Este
técnico experiente olhou para a Seleção brasileira; olhou para a Noruega; e
chegou à conclusão de que o melhor a fazer, era dar a bola aos noruegueses e
jogar no contra-ataque. Menos permeável à aura da “amarelinha” no imaginário
brasileiro, o treinador estrangeiro avaliou que não tínhamos meio de campo para
se impor: o time pequeno no confronto éramos nós.
Partindo
de um diagnóstico severo das limitações do plantel brasileiro, Ancelotti
amarrou o time a elas, em lugar de tentar arrancar dele o seu melhor. Foi a
versão paraguaia da seleção brasileira, sem a raça dos vizinhos. Talvez tenha
sido uma profecia auto-realizada: um time escalado para jogar pequeno, terminou
sendo pequeno mesmo. Fomos Cabo Verde ao contrário.
E
assim, o horizonte de expectativas do futebol brasileiro que vem se estreitando
desde 1982, se rebaixou mais um degrau. Antes desse domingo, ninguém apostava
Noruega no bolão. Depois dele, promoções de distribuir cerveja ou cancelar a
dívida da TV se o Brasil ganhar a Copa, perderão tração. A magia, sobreviverá
como nostalgia. E a atração, se desloca do esporte para a imagem. O mundo
corporativo não sorteou viagens para ver jogos da Copa, mas para um
fim-de-semana com Ronaldo em Ibiza.
O
encantamento do futebol brasileiro sobrevive pelas brechas. Mas também é
atiçado como ilusão interessada por quem ganha dinheiro com isso, como o
ufanismo embalado pelas bets da Cazé TV.
Cada
vez mais desconectado do desempenho nos gramados, a paixão ainda floresce na
Copa, porque ela conecta com desejos de vida. Quem não quer cancelar uma
segunda-feira, se encontrar e fazer festa? São anseios compartilhados com
populações racializadas em todo o mundo, que também torcem pela Seleção que um
dia foi poesia. Enquanto o desejo de fruição lúdica da vida seguir pulsando, é
porque o jogo não acabou. Mesmo que, para os brasileiros, mais uma Copa tenha
terminado.
• O mito do salvador messiânico naufragou
novamente. Por Fabio Luis Barbosa dos Santos
á pelos
10 minutos do segundo tempo, me senti obrigado a dar explicação. Na sala
repleta, cheguei até as minhas filhas e argumentei que o jogo passivo da
Seleção era uma estratégia.
“Então
eles estão jogando mal de propósito?”
As
crianças vão no ponto. De fato, a impressão era essa.
Em 5 de
julho de 1982, a Seleção perdeu para a Itália dirigida por um técnico que dizia
que futebol não era jogar bem ou vencer, mas jogar bem para vencer. 44 anos
depois, jogamos mal para vencer, conduzidos por um técnico italiano. Entre uma
derrota e outra, o futebol brasileiro se transfigurou. Esta trajetória é
reconstituída no livro Saudades do que nunca fomos.
As
raízes do desastre contra a Noruega são profundas. Em 1982, a comunidade
futebolista brasileira interpretou a “tragédia do Sarriá” como uma sentença: o
futebol-arte não compensa. Dali em diante, enquanto o neoliberalismo ajustava
sociedades, o futebol brasileiro também se ajustava. Em 1994, a Seleção foi
campeã derrotando a Itália com um futebol defensivo. Foi uma espécie de
identificação com o agressor que traumatizou. A Seleção venceu, mas e o futebol
brasileiro?
Nos
anos seguintes, o esporte continuou se ajustando e se globalizando segundo
padrões europeus. Por um momento, pareceu que o Brasil se encaixaria bem: a
Seleção foi vice em 1998 e campeã em 2002.
Só que
não. De lá para cá, nenhuma seleção sul-americana campeã do mundo, venceu uma
europeia campeã em Copa nos noventa minutos. E o Brasil, foi eliminado sempre
que enfrentou uma seleção europeia no mata-mata. Visto por este lado, a derrota
confirmou um padrão. Mas contra a Noruega, foi diferente.
Com os
jogadores brasileiros migrando cada vez mais cedo para a Europa, com o tempo a
contratação de um treinador europeu se impôs. Claro, o mister teve que jogar o
jogo da CBF: fechou um contrato até 2030 mas convocou Neymar.
Sabemos
que o Neymar imaginário desafia a razão esportiva. Em sua melhor forma, o
jogador nunca resolveu uma partida decisiva de Copa. Em um país cada vez mais
sem futuro e com a precarização do trabalho, que se evangeliza dentro e fora de
campo, Neymar é a bet encarnada: é a expectativa do milagre na linguagem do
futebol.
“Aquele
que encarnava o Salvador, trouxe a destruição. Como num espelho do
bolsonarismo, nosso messias de chuteira foi pura pulsão de morte.”
Mas o
mister disse que não reza porque Deus tem assuntos mais importantes. Contra o
Japão, mexeu bem e a Seleção virou. Neymar ficou no banco, mas inconformado.
Contra a Noruega, mexeu fatal. Tirou Rayan que, além de atacar, cobria a
lateral direita. De fato, a mudança desequilibrou o jogo, só que contra. Aquele
que encarnava o Salvador, trouxe a destruição. O Brasil levou dois gols pela
direita, Neymar deu um pontapé no meia norueguês que alugou o meio de campo, e
bateu boca enquanto se escorriam os minutos finais. Como num espelho do
bolsonarismo, nosso messias de chuteira foi pura pulsão de morte. A salvação,
revelou-se como o fim.
<><>
Versão paraguaia da seleção só que sem a raça dos vizinhos
Odesfecho
escatológico não dissipou a vergonha em campo, mas a escancarou. Foi a cereja
podre de um bolo azedo, como disse Casagrande. O Brasil teve a menor posse de
bola da sua história em Copas. Em parte, foi a estratégia de deixar a Noruega
jogar e ficar no contra-ataque. Em parte, foi incompetência: o Brasil
simplesmente não conseguiu ter a bola nos pés. Pode-se discutir se a estratégia
foi acertada, e a maioria dos comentaristas acha que não. Mas o que mais
preocupa, é o que ela revela.
Partindo
do princípio de que Ancelotti conhece mais de futebol do que você e eu,
deduzimos que a estratégia resultou da leitura que ele fez do confronto. Este
técnico experiente olhou para a Seleção brasileira; olhou para a Noruega; e
chegou à conclusão de que o melhor a fazer, era dar a bola aos noruegueses e
jogar no contra-ataque. Menos permeável à aura da “amarelinha” no imaginário
brasileiro, o treinador estrangeiro avaliou que não tínhamos meio de campo para
se impor: o time pequeno no confronto éramos nós.
Partindo
de um diagnóstico severo das limitações do plantel brasileiro, Ancelotti
amarrou o time a elas, em lugar de tentar arrancar dele o seu melhor. Foi a
versão paraguaia da seleção brasileira, sem a raça dos vizinhos. Talvez tenha
sido uma profecia auto-realizada: um time escalado para jogar pequeno, terminou
sendo pequeno mesmo. Fomos Cabo Verde ao contrário.
E
assim, o horizonte de expectativas do futebol brasileiro que vem se estreitando
desde 1982, se rebaixou mais um degrau. Antes desse domingo, ninguém apostava
Noruega no bolão. Depois dele, promoções de distribuir cerveja ou cancelar a
dívida da TV se o Brasil ganhar a Copa, perderão tração. A magia, sobreviverá
como nostalgia. E a atração, se desloca do esporte para a imagem. O mundo
corporativo não sorteou viagens para ver jogos da Copa, mas para um
fim-de-semana com Ronaldo em Ibiza.
O
encantamento do futebol brasileiro sobrevive pelas brechas. Mas também é
atiçado como ilusão interessada por quem ganha dinheiro com isso, como o
ufanismo embalado pelas bets da CazéTV.
Cada
vez mais desconectado do desempenho nos gramados, a paixão ainda floresce na
Copa, porque ela conecta com desejos de vida. Quem não quer cancelar uma
segunda-feira, se encontrar e fazer festa? São anseios compartilhados com
populações racializadas em todo o mundo, que também torcem pela Seleção que um
dia foi poesia. Enquanto o desejo de fruição lúdica da vida seguir pulsando, é
porque o jogo não acabou. Mesmo que, para os brasileiros, mais uma Copa tenha
terminado.
Fonte:
Por Fábio Luís Barbosa dos Santos, em Outras Palavras/Jacobin Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário