quinta-feira, 9 de julho de 2026

Luís Nassif: O extrativismo no futebol brasileiro

Muito se fala do extrativismo como uma das desgraças do continente. O ato de exportar produtos primários, sem agregar valor, fez com que a maior parte da riqueza produzida ficasse no exterior, atrasando a industrialização e o próprio desenvolvimento do país.

O que ocorre hoje no futebol é puro extrativismo, em sua forma mais primária — e, pior, agora também como duto escancarado para lavagem de dinheiro. Aliás, valeria uma peneira da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os contratos de patrocínio ou de compra dos clubes brasileiros.

O empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada é investigado no Brasil e foi sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, sob a acusação de atuar em esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Os EUA afirmam que ele seria um elo financeiro entre integrantes da facção e operadores no exterior.

Sua empresa, a Victory Trading, aparece na investigação sobre o contrato de patrocínio entre o Sport Club Corinthians Paulista e a VaideBet. Segundo o Ministério Público, a empresa recebeu recursos que faziam parte do fluxo financeiro investigado e repassou parte deles à UJ Football Talent.

A UJ Football Talent é uma agência de intermediação de jogadores, citada na delação de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach como usada para lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A polícia afirma que ela recebeu cerca de R$ 1 milhão proveniente da cadeia de empresas investigadas.

Essa é a parte da contravenção. Mas vejamos agora o mercado formal de venda de jogadores.

O grande nome internacional é Giuliano Bertolucci, herdeiro da família controladora da Lorenzetti, que a partir de 1990 passou a atuar no mercado de compra e venda de jogadores através da Euro Export.

A partir dali, negociou jogadores como o zagueiro Luisão, o meia Thiago Motta e o zagueiro Alex, além de ter sido figura central na ida de Deco — ainda jovem promessa da base do Corinthians — para o futebol português, o que lhe abriu as portas dos clubes europeus.

Aos 53 anos, lidera pelo 12º ano consecutivo o mercado de transferências no futebol brasileiro; somente na última janela internacional, negócios envolvendo seus atletas ultrapassaram R$ 2 bilhões.

Sobre a Seleção Brasileira, o grau de concentração chamou atenção de diferentes fontes ao longo do tempo:

•        Em uma convocação, foi responsável pela carreira de 8 dos 30 atletas chamados (27%), com o segundo colocado tendo apenas 3 jogadores (10%).

•        Em outra lista, 7 dos 23 convocados eram agenciados por ele — incluindo o então técnico Fernando Diniz, que também era seu cliente.

•        Mais recentemente, sob Ancelotti, controla 6 jogadores (23% do elenco), incluindo a dupla de zaga titular (Marquinhos e Gabriel Magalhães) e peças-chave do meio-campo (Bruno Guimarães).

Participou da negociação Neymar–Barcelona (2013), episódio que o projetou para fora do mercado doméstico.

Bertolucci investe em jovens talentos, o que resulta em saídas precoces do Brasil para o futebol europeu, com contratos assimétricos que reduzem o poder de barganha dos clubes fornecedores.

Ele se vale de clubes sob seu controle — possui 92% da SAF da Ferroviária — para criar um funil de revelação e exportação acelerada de jovens. Trata-se de um mercado que beneficia os empresários em detrimento dos clubes.

Quando um jovem entra na carteira de Bertolucci, ganha acesso a clubes europeus, mas fica associado a um “pacote” de negócios.

Tome-se o caso de Gabriel Magalhães, zagueiro do Arsenal. Formado no Avaí, foi vendido ainda jovem ao Lille (França), em 2017, por 1,5 milhão de euros, antes de completar 20 anos. Depois, foi vendido ao Arsenal por cerca de 26 a 30 milhões de euros.

Revelado pelo Audax, Bruno Guimarães foi vendido ao Atlético de Madrid em janeiro de 2018, aos 20 anos, por cerca de 8 milhões de euros. Depois de se firmar no clube espanhol, foi vendido ao Newcastle por cerca de 42 milhões de euros.

São inúmeros os casos semelhantes. De um lado, isso impede o crescimento dos clubes brasileiros. De outro, interrompe a formação dos jogadores segundo a escola de futebol brasileira — que, pouco a pouco, vai desaparecendo.

•        Xadrez da CazéTV fora da Copa Brasil. Por Luís Nassif

A busca da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da Copa não se ampara apenas em competência técnica.

<><> Peça 1 — A Globo e a CBF

Encerrada a Copa do Mundo, a CazéTV medirá forças com a Globo em um terreno onde a rival é historicamente imbatível: o jogo político das confederações sediadas no Rio de Janeiro.

A busca da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da Copa do Mundo não se ampara apenas em competência técnica — como costuma sugerir o marketing esportivo —, mas em raízes econômicas e políticas profundas. Esse poder financeiro pavimentou um quase-monopólio que garantiu à emissora o controle direto sobre calendários e horários de jogos, moldando o futebol ao ritmo da sua grade de programação.

O ápice dessa simbiose ocorreu sob a batuta de Ricardo Teixeira (1989–2012). Ao suceder o sogro João Havelange, Teixeira assumiu o comando do futebol brasileiro e nele permaneceu por quase três décadas. Sob sua gestão, a parceria com a Globo tornou-se orgânica: como detentora dos direitos de transmissão, a emissora injetava adiantamentos financeiros nos clubes e ditava os rumos do calendário, operando em perfeita sintonia com o poder político de Teixeira.

Um episódio emblemático ilustra a lógica de barganha desse arranjo. Durante as negociações pela exclusividade dos direitos da Seleção Brasileira, a Globo levou ao ar um Globo Repórter que expunha as entranhas da corrupção de Teixeira. Contudo, a investigação foi abruptamente engavetada nos dias seguintes — um recuo estratégico que lubrificou o desfecho do acordo comercial.

A célebre entrevista de Teixeira à revista piauí, em 2011, selou seu destino, mas revelou seu modus operandi: o dirigente admitiu que só se preocupava com denúncias quando elas ganhavam os holofotes do Jornal Nacional. Como apontava o jornalista Juca Kfouri, a “promiscuidade” entre a CBF, os tribunais cariocas e o Congresso Nacional — a chamada “bancada da bola” — funcionou como um escudo intransponível por mais de vinte anos.

<><> A ironia da Lava Jato

Há uma contradição gritante nessa engrenagem: a mesma Globo que atuou como fiadora midiática da Operação Lava Jato e insuflou os protestos de 2015–2016 viu seus artistas irem às ruas vestindo a camisa da Seleção de Del Nero, Marín e Teixeira — enquanto a cúpula do seu próprio braço esportivo era citada nas investigações do FBI sobre o mercado de propinas do futebol mundial.

<><> Continuidade pós-Teixeira

A queda dos patriarcas não ruiu a estrutura. Seus sucessores, José Maria Marín e Marco Polo Del Nero, foram tragados pelo Fifagate. O comando da entidade viu uma dança de cadeiras entre interinos (como o Coronel Nunes e José Perdiz) e eleitos (como Rogério Caboclo, defenestrado após denúncias de assédio). Essa crônica instabilidade na cúpula da CBF, contudo, jamais arranhou o contrato com a Globo, que se manteve como a principal parceira comercial do futebol brasileiro e dos torneios da FIFA no país.

Essa mesma lógica explica o movimento mais recente: ao abrir as negociações da Copa do Brasil (2027–2030) para gigantes como SBT, Record, Amazon, TNT Sports, Paramount e Disney, a CBF barrou deliberadamente a CazéTV, em meio a um desgaste de bastidores com a Livemode. É a velha arquitetura de poder operando sob nova roupagem, decidindo quem senta à mesa e quem assiste ao banquete do lado de fora.

<><> Peça 2 — O Sistema de Poder na CBF

A geopolítica da CBF não se organiza em torno de projetos esportivos, mas sim por meio de blocos regionais de influência.

•        O Bloco Paulista: Liderado por Reinaldo Carneiro Bastos (presidente da Federação Paulista), historicamente rivalizou com o atual presidente, Ednaldo Rodrigues. Diante do afastamento temporário de Ednaldo em 2023, Bastos articulou o manifesto “Unidos por um novo futebol”, costurando o apoio de oito federações e trinta clubes — força suficiente para tomar o poder. Ednaldo, contudo, neutralizou a ameaça por meio da cooptação: em vez de combater o bloco paulista, integrou Bastos e seus aliados à sua vice-presidência.

•        O Bloco Fluminense: Conduzido por Rubens “Rubinho” Lopes (Federação do Rio), é o outro pilar de sustentação da atual gestão, sendo o responsável por pacificar a relação com os clubes cariocas, especialmente o Flamengo. A aliança Rio-São Paulo devolveu estabilidade à CBF após o turbulento período de Rogério Caboclo.

•        Os Remanescentes de Del Nero: Embora banido pela FIFA, Marco Polo Del Nero mantém uma rede silenciosa de influência nos corredores da CBF, a qual Ednaldo tenta desmantelar para evitar o contágio político de sua gestão.

•        A Oposição Institucional: Gustavo Feijó (ex-vice de Caboclo) encabeça a resistência jurídica. Ele questiona o peso desproporcional das federações estaduais nas eleições e aciona a Justiça para exigir que o futebol feminino — hoje sem direito a voto — tenha representação política na entidade.

•        O Fracasso do Outsider: Em 2025, Ronaldo Fenômeno ensaiou uma candidatura à presidência, mas naufragou antes da largada: 23 das 27 federações se recusaram a ouvi-lo. O episódio expõe a blindagem do sistema — sem o controle das federações estaduais, o capital simbólico internacional é inútil.

<><> O Pano de Fundo Estrutural

Esse modelo remonta à fundação da CBF em 1979, quando a entidade se desmembrou da antiga CBD. Em vez de se democratizar, a confederação herdou os vícios do regime anterior, transformando-se em uma agência privada que gere um patrimônio coletivo em benefício de feudos estaduais. A dinastia Havelange Teixeira Marín/Del Nero Caboclo Ednaldo representa apenas o rearranjo de uma mesma premissa: quem domina as federações, domina o jogo. E para financiar essa engrenagem política, a CBF sempre necessitou de um parceiro de mídia robusto, capaz de irrigar o sistema com blindagem política, patrocínios e adiantamentos.

<><> Peça 3 — A Globo e a Lava Jato

Um dos capítulos mais enigmáticos da história recente do país foi a capacidade da Rede Globo de atravessar a Lava Jato intacta, a despeito de estar no epicentro do maior escândalo de corrupção do esporte global.

O mercado esportivo nacional sustentava-se na simbiose entre as famílias Hawilla e Marinho. Por meio da Traffic, J. Hawilla sedia direitos de transmissão que inevitavelmente desaguavam na Globo. O vínculo comercial era cimentado por laços societários na TV TEM — rede de afiliadas em praças estratégicas do interior paulista —, que unia João Roberto Marinho e seus herdeiros diretamente ao empresário.

O Fifagate, deflagrado em 2015 pela justiça americana, expôs o mecanismo: um propinoduto de mais de US$ 150 milhões ao longo de duas décadas em contratos de mídia. J. Hawilla confessou os crimes e aceitou devolver US$ 151 milhões ao Tesouro americano. Em depoimento, o delator Alejandro Burzaco apontou o envolvimento direto de executivos da Globo, como Marcelo Campos Pinto.

Apesar de a Polícia Federal ter aberto investigações em parceria com o FBI, a blindagem nacional funcionou: o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro (MPF-RJ) engavetou o avanço sobre a emissora, permitindo que ela saísse inteira de um processo que destruiu as carreiras de Marín e Del Nero. Paralelamente, quando o Ministério Público da Espanha solicitou acesso ao inquérito brasileiro, uma decisão de primeira instância no Rio bloqueou o envio dos dados.

Relatos dão conta de que, em um encontro entre o ex-presidente Lula e o empreiteiro Emílio Odebrecht para traçar uma resistência à Lava Jato, o empresário teria alertado que seria inútil buscar o apoio da emissora, pois os americanos já haviam “pegado a Globo”.

<><> Peça 4 — O Caso Nike

Em maio de 2017, Sandro Rosell — ex-presidente do Barcelona e antigo homem-forte da Nike no Brasil — foi preso na Espanha, tornando-se manchete nos principais jornais europeus (El País, ABC e Público). As investigações revelaram que Rosell operava em consórcio com Ricardo Teixeira por meio da empresa fachada Alianto.

Dados enviados à Procuradoria-Geral da República pelo FBI e pelo Ministério Público espanhol revelaram que Teixeira utilizava contas nos EUA para triangular recursos da CBF, utilizando as rotas do Banestado e do Banco Rural. O COAF rastreou R$ 229 milhões em movimentações do dirigente entre 2007 e 2012, rotulando R$ 149 milhões como suspeitos. Desse total, Teixeira recebeu R$ 13 milhões de Rosell, R$ 5 milhões da FIFA e R$ 4,4 milhões do Comitê Organizador da Copa de 2010.

A verdadeira ofensiva investigativa partiu da Espanha, da Suíça e dos Estados Unidos. No Brasil, o MPF limitou-se a abrir uma apuração formal para cumprir o protocolo de cooperação com o FBI. Tanto o MPF quanto a Polícia Federal mantiveram uma postura letárgica, e o caso foi blindado pelo silêncio da grande imprensa nacional — com a rara exceção das reportagens do correspondente Jamil Chade, em Genebra.

<><> Peça 5 — O Mapa das Relações Institucionais

O poder contemporâneo prescinde de ordens explícitas ou conspirações cinematográficas. Ele se materializa na sutileza das redes de reciprocidade, na dependência econômica, no trâmite político e no controle cirúrgico dos fluxos de informação. É nesse ecossistema cinzento que se constroem as blindagens institucionais, elegem-se os alvos das investigações e definem-se os limites entre o que deve virar um escândalo nacional e o que deve mofar nas gavetas do Judiciário.

A perenidade das estruturas é a grande lição desse arranjo. Mudam-se os governos, sucedem-se os dirigentes, alternam-se os operadores e atualizam-se os mecanismos financeiros. As redes de poder, contudo, exibem uma formidável capacidade de metamorfose e sobrevivência.

É por isso que provavelmente a CazéTV ficará de fora do campeonato nacional.

 

Fonte: Jornal GGN

 

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