Luís
Nassif: O extrativismo no futebol brasileiro
Muito
se fala do extrativismo como uma das desgraças do continente. O ato de exportar
produtos primários, sem agregar valor, fez com que a maior parte da riqueza
produzida ficasse no exterior, atrasando a industrialização e o próprio
desenvolvimento do país.
O que
ocorre hoje no futebol é puro extrativismo, em sua forma mais primária — e,
pior, agora também como duto escancarado para lavagem de dinheiro. Aliás,
valeria uma peneira da Polícia Federal e do Ministério Público sobre os
contratos de patrocínio ou de compra dos clubes brasileiros.
O
empresário Victor Henrique de Oliveira Shimada é investigado no Brasil e foi
sancionado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, sob a acusação de atuar em
esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Os EUA afirmam que ele seria um
elo financeiro entre integrantes da facção e operadores no exterior.
Sua
empresa, a Victory Trading, aparece na investigação sobre o contrato de
patrocínio entre o Sport Club Corinthians Paulista e a VaideBet. Segundo o
Ministério Público, a empresa recebeu recursos que faziam parte do fluxo
financeiro investigado e repassou parte deles à UJ Football Talent.
A UJ
Football Talent é uma agência de intermediação de jogadores, citada na delação
de Antônio Vinícius Lopes Gritzbach como usada para lavagem de dinheiro ligada
ao PCC. A polícia afirma que ela recebeu cerca de R$ 1 milhão proveniente da
cadeia de empresas investigadas.
Essa é
a parte da contravenção. Mas vejamos agora o mercado formal de venda de
jogadores.
O
grande nome internacional é Giuliano Bertolucci, herdeiro da família
controladora da Lorenzetti, que a partir de 1990 passou a atuar no mercado de
compra e venda de jogadores através da Euro Export.
A
partir dali, negociou jogadores como o zagueiro Luisão, o meia Thiago Motta e o
zagueiro Alex, além de ter sido figura central na ida de Deco — ainda jovem
promessa da base do Corinthians — para o futebol português, o que lhe abriu as
portas dos clubes europeus.
Aos 53
anos, lidera pelo 12º ano consecutivo o mercado de transferências no futebol
brasileiro; somente na última janela internacional, negócios envolvendo seus
atletas ultrapassaram R$ 2 bilhões.
Sobre a
Seleção Brasileira, o grau de concentração chamou atenção de diferentes fontes
ao longo do tempo:
• Em uma convocação, foi responsável pela
carreira de 8 dos 30 atletas chamados (27%), com o segundo colocado tendo
apenas 3 jogadores (10%).
• Em outra lista, 7 dos 23 convocados eram
agenciados por ele — incluindo o então técnico Fernando Diniz, que também era
seu cliente.
• Mais recentemente, sob Ancelotti,
controla 6 jogadores (23% do elenco), incluindo a dupla de zaga titular
(Marquinhos e Gabriel Magalhães) e peças-chave do meio-campo (Bruno Guimarães).
Participou
da negociação Neymar–Barcelona (2013), episódio que o projetou para fora do
mercado doméstico.
Bertolucci
investe em jovens talentos, o que resulta em saídas precoces do Brasil para o
futebol europeu, com contratos assimétricos que reduzem o poder de barganha dos
clubes fornecedores.
Ele se
vale de clubes sob seu controle — possui 92% da SAF da Ferroviária — para criar
um funil de revelação e exportação acelerada de jovens. Trata-se de um mercado
que beneficia os empresários em detrimento dos clubes.
Quando
um jovem entra na carteira de Bertolucci, ganha acesso a clubes europeus, mas
fica associado a um “pacote” de negócios.
Tome-se
o caso de Gabriel Magalhães, zagueiro do Arsenal. Formado no Avaí, foi vendido
ainda jovem ao Lille (França), em 2017, por 1,5 milhão de euros, antes de
completar 20 anos. Depois, foi vendido ao Arsenal por cerca de 26 a 30 milhões
de euros.
Revelado
pelo Audax, Bruno Guimarães foi vendido ao Atlético de Madrid em janeiro de
2018, aos 20 anos, por cerca de 8 milhões de euros. Depois de se firmar no
clube espanhol, foi vendido ao Newcastle por cerca de 42 milhões de euros.
São
inúmeros os casos semelhantes. De um lado, isso impede o crescimento dos clubes
brasileiros. De outro, interrompe a formação dos jogadores segundo a escola de
futebol brasileira — que, pouco a pouco, vai desaparecendo.
• Xadrez da CazéTV fora da Copa Brasil.
Por Luís Nassif
A busca
da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da
Copa não se ampara apenas em competência técnica.
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Peça 1 — A Globo e a CBF
Encerrada
a Copa do Mundo, a CazéTV medirá forças com a Globo em um terreno onde a rival
é historicamente imbatível: o jogo político das confederações sediadas no Rio
de Janeiro.
A busca
da Globo pelo monopólio das transmissões dos principais torneios nacionais e da
Copa do Mundo não se ampara apenas em competência técnica — como costuma
sugerir o marketing esportivo —, mas em raízes econômicas e políticas
profundas. Esse poder financeiro pavimentou um quase-monopólio que garantiu à
emissora o controle direto sobre calendários e horários de jogos, moldando o
futebol ao ritmo da sua grade de programação.
O ápice
dessa simbiose ocorreu sob a batuta de Ricardo Teixeira (1989–2012). Ao suceder
o sogro João Havelange, Teixeira assumiu o comando do futebol brasileiro e nele
permaneceu por quase três décadas. Sob sua gestão, a parceria com a Globo
tornou-se orgânica: como detentora dos direitos de transmissão, a emissora
injetava adiantamentos financeiros nos clubes e ditava os rumos do calendário,
operando em perfeita sintonia com o poder político de Teixeira.
Um
episódio emblemático ilustra a lógica de barganha desse arranjo. Durante as
negociações pela exclusividade dos direitos da Seleção Brasileira, a Globo
levou ao ar um Globo Repórter que expunha as entranhas da corrupção de
Teixeira. Contudo, a investigação foi abruptamente engavetada nos dias
seguintes — um recuo estratégico que lubrificou o desfecho do acordo comercial.
A
célebre entrevista de Teixeira à revista piauí, em 2011, selou seu destino, mas
revelou seu modus operandi: o dirigente admitiu que só se preocupava com
denúncias quando elas ganhavam os holofotes do Jornal Nacional. Como apontava o
jornalista Juca Kfouri, a “promiscuidade” entre a CBF, os tribunais cariocas e
o Congresso Nacional — a chamada “bancada da bola” — funcionou como um escudo
intransponível por mais de vinte anos.
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A ironia da Lava Jato
Há uma
contradição gritante nessa engrenagem: a mesma Globo que atuou como fiadora
midiática da Operação Lava Jato e insuflou os protestos de 2015–2016 viu seus
artistas irem às ruas vestindo a camisa da Seleção de Del Nero, Marín e
Teixeira — enquanto a cúpula do seu próprio braço esportivo era citada nas
investigações do FBI sobre o mercado de propinas do futebol mundial.
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Continuidade pós-Teixeira
A queda
dos patriarcas não ruiu a estrutura. Seus sucessores, José Maria Marín e Marco
Polo Del Nero, foram tragados pelo Fifagate. O comando da entidade viu uma
dança de cadeiras entre interinos (como o Coronel Nunes e José Perdiz) e
eleitos (como Rogério Caboclo, defenestrado após denúncias de assédio). Essa
crônica instabilidade na cúpula da CBF, contudo, jamais arranhou o contrato com
a Globo, que se manteve como a principal parceira comercial do futebol
brasileiro e dos torneios da FIFA no país.
Essa
mesma lógica explica o movimento mais recente: ao abrir as negociações da Copa
do Brasil (2027–2030) para gigantes como SBT, Record, Amazon, TNT Sports,
Paramount e Disney, a CBF barrou deliberadamente a CazéTV, em meio a um
desgaste de bastidores com a Livemode. É a velha arquitetura de poder operando
sob nova roupagem, decidindo quem senta à mesa e quem assiste ao banquete do
lado de fora.
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Peça 2 — O Sistema de Poder na CBF
A
geopolítica da CBF não se organiza em torno de projetos esportivos, mas sim por
meio de blocos regionais de influência.
• O Bloco Paulista: Liderado por Reinaldo
Carneiro Bastos (presidente da Federação Paulista), historicamente rivalizou
com o atual presidente, Ednaldo Rodrigues. Diante do afastamento temporário de
Ednaldo em 2023, Bastos articulou o manifesto “Unidos por um novo futebol”,
costurando o apoio de oito federações e trinta clubes — força suficiente para
tomar o poder. Ednaldo, contudo, neutralizou a ameaça por meio da cooptação: em
vez de combater o bloco paulista, integrou Bastos e seus aliados à sua vice-presidência.
• O Bloco Fluminense: Conduzido por Rubens
“Rubinho” Lopes (Federação do Rio), é o outro pilar de sustentação da atual
gestão, sendo o responsável por pacificar a relação com os clubes cariocas,
especialmente o Flamengo. A aliança Rio-São Paulo devolveu estabilidade à CBF
após o turbulento período de Rogério Caboclo.
• Os Remanescentes de Del Nero: Embora
banido pela FIFA, Marco Polo Del Nero mantém uma rede silenciosa de influência
nos corredores da CBF, a qual Ednaldo tenta desmantelar para evitar o contágio
político de sua gestão.
• A Oposição Institucional: Gustavo Feijó
(ex-vice de Caboclo) encabeça a resistência jurídica. Ele questiona o peso
desproporcional das federações estaduais nas eleições e aciona a Justiça para
exigir que o futebol feminino — hoje sem direito a voto — tenha representação
política na entidade.
• O Fracasso do Outsider: Em 2025, Ronaldo
Fenômeno ensaiou uma candidatura à presidência, mas naufragou antes da largada:
23 das 27 federações se recusaram a ouvi-lo. O episódio expõe a blindagem do
sistema — sem o controle das federações estaduais, o capital simbólico
internacional é inútil.
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O Pano de Fundo Estrutural
Esse
modelo remonta à fundação da CBF em 1979, quando a entidade se desmembrou da
antiga CBD. Em vez de se democratizar, a confederação herdou os vícios do
regime anterior, transformando-se em uma agência privada que gere um patrimônio
coletivo em benefício de feudos estaduais. A dinastia Havelange → Teixeira → Marín/Del
Nero → Caboclo → Ednaldo representa
apenas o rearranjo de uma mesma premissa: quem domina as federações,
domina o jogo. E para financiar essa engrenagem política,
a CBF sempre necessitou de um parceiro de mídia robusto, capaz de irrigar o
sistema com blindagem política, patrocínios e adiantamentos.
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Peça 3 — A Globo e a Lava Jato
Um dos
capítulos mais enigmáticos da história recente do país foi a capacidade da Rede
Globo de atravessar a Lava Jato intacta, a despeito de estar no epicentro do
maior escândalo de corrupção do esporte global.
O
mercado esportivo nacional sustentava-se na simbiose entre as famílias Hawilla
e Marinho. Por meio da Traffic, J. Hawilla sedia direitos de transmissão que
inevitavelmente desaguavam na Globo. O vínculo comercial era cimentado por
laços societários na TV TEM — rede de afiliadas em praças estratégicas do
interior paulista —, que unia João Roberto Marinho e seus herdeiros diretamente
ao empresário.
O
Fifagate, deflagrado em 2015 pela justiça americana, expôs o mecanismo: um
propinoduto de mais de US$ 150 milhões ao longo de duas décadas em contratos de
mídia. J. Hawilla confessou os crimes e aceitou devolver US$ 151 milhões ao
Tesouro americano. Em depoimento, o delator Alejandro Burzaco apontou o
envolvimento direto de executivos da Globo, como Marcelo Campos Pinto.
Apesar
de a Polícia Federal ter aberto investigações em parceria com o FBI, a
blindagem nacional funcionou: o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro
(MPF-RJ) engavetou o avanço sobre a emissora, permitindo que ela saísse inteira
de um processo que destruiu as carreiras de Marín e Del Nero. Paralelamente,
quando o Ministério Público da Espanha solicitou acesso ao inquérito
brasileiro, uma decisão de primeira instância no Rio bloqueou o envio dos
dados.
Relatos
dão conta de que, em um encontro entre o ex-presidente Lula e o empreiteiro
Emílio Odebrecht para traçar uma resistência à Lava Jato, o empresário teria
alertado que seria inútil buscar o apoio da emissora, pois os americanos já
haviam “pegado a Globo”.
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Peça 4 — O Caso Nike
Em maio
de 2017, Sandro Rosell — ex-presidente do Barcelona e antigo homem-forte da
Nike no Brasil — foi preso na Espanha, tornando-se manchete nos principais
jornais europeus (El País, ABC e Público). As investigações revelaram que
Rosell operava em consórcio com Ricardo Teixeira por meio da empresa fachada
Alianto.
Dados
enviados à Procuradoria-Geral da República pelo FBI e pelo Ministério Público
espanhol revelaram que Teixeira utilizava contas nos EUA para triangular
recursos da CBF, utilizando as rotas do Banestado e do Banco Rural. O COAF
rastreou R$ 229 milhões em movimentações do dirigente entre 2007 e 2012,
rotulando R$ 149 milhões como suspeitos. Desse total, Teixeira recebeu R$ 13
milhões de Rosell, R$ 5 milhões da FIFA e R$ 4,4 milhões do Comitê Organizador
da Copa de 2010.
A
verdadeira ofensiva investigativa partiu da Espanha, da Suíça e dos Estados
Unidos. No Brasil, o MPF limitou-se a abrir uma apuração formal para cumprir o
protocolo de cooperação com o FBI. Tanto o MPF quanto a Polícia Federal
mantiveram uma postura letárgica, e o caso foi blindado pelo silêncio da grande
imprensa nacional — com a rara exceção das reportagens do correspondente Jamil
Chade, em Genebra.
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Peça 5 — O Mapa das Relações Institucionais
O poder
contemporâneo prescinde de ordens explícitas ou conspirações cinematográficas.
Ele se materializa na sutileza das redes de reciprocidade, na dependência
econômica, no trâmite político e no controle cirúrgico dos fluxos de
informação. É nesse ecossistema cinzento que se constroem as blindagens
institucionais, elegem-se os alvos das investigações e definem-se os limites
entre o que deve virar um escândalo nacional e o que deve mofar nas gavetas do
Judiciário.
A
perenidade das estruturas é a grande lição desse arranjo. Mudam-se os governos,
sucedem-se os dirigentes, alternam-se os operadores e atualizam-se os
mecanismos financeiros. As redes de poder, contudo, exibem uma formidável
capacidade de metamorfose e sobrevivência.
É por
isso que provavelmente a CazéTV ficará de fora do campeonato nacional.
Fonte:
Jornal GGN

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