quinta-feira, 9 de julho de 2026

OTAN sob pressão: 4 sinais de declínio da aliança militar

Em meio a divergências entre Europa e Estados Unidos, aumento dos gastos militares e questionamentos internos, aliança enfrenta desafios à sua coesão às vésperas da reunião em Ancara.

A próxima cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Ancara, na Turquia, está prevista para ocorrer entre 7 e 8 de julho, reunindo líderes dos membros da aliança para discutir temas como o aumento dos gastos com defesa e os principais conflitos internacionais, com destaque para o da Ucrânia.

Enquanto busca definir estratégias para o conflito ucraniano, os países europeus seguem arcando com parte significativa dos custos políticos, econômicos e militares do apoio a Kiev, ao mesmo tempo em que lidam com sucessivos questionamentos dos Estados Unidos sobre o nível de comprometimento de Washington com a segurança da aliança.

O encontro acontece em meio a um cenário de incertezas e desgastes, uma vez que a Europa permanece atrelada a uma estrutura que serve cada vez menos a seus interesses, e cada vez mais à sua própria subjugação. A Sputnik Brasil reuniu alguns dos principais sinais do declínio da OTAN.

<><> Falta de coordenação de crises pelo mundo

Desde o fim da Guerra Fria, a OTAN expandiu sua atuação para além do que diz ser defesa. Na década de 1990, lançou o Diálogo Mediterrâneo, aproximando países do Norte da África e do Oriente Médio, e, em 2004, criou a Iniciativa de Cooperação de Istambul, estreitando laços militares com monarquias do Golfo.

Essas iniciativas ampliaram a influência da aliança em regiões fora de sua alçada e serviram de base para operações como a invasão da Líbia, em 2011, cuja consequência foi o colapso do Estado líbio e anos de instabilidade. Após a destruição causada, a aliança passou a tratar os fluxos migratórios rumo à Europa como uma questão de segurança, classificando a chamada "instrumentalização da migração" como uma ameaça híbrida.

Além disso, o conflito na Ucrânia aprofundou divergências entre os Estados Unidos e seus aliados europeus sobre os rumos da OTAN. Enquanto Washington passou a defender com mais frequência uma saída negociada para o conflito e a redução de seu envolvimento, países como Reino Unido, França, Alemanha e os Estados Bálticos mantiveram a assistência militar a Kiev e prolongaram as hostilidades.

As diferenças também ficaram evidentes no Oriente Médio. Apesar do apoio político a Israel, a maioria dos governos europeus evitou participar diretamente de uma escalada militar contra o Irã, privilegiando apoio logístico, em contraste com a atitude belicista dos Estados Unidos. O presidente norte-americano, Donald Trump, chegou a classificar a OTAN como um "tigre de papel" e afirmou que considerava retirar os Estados Unidos da aliança após a recusa dos europeus.

<>< Ameaça militar dos EUA contra a Europa

Antes mesmo das divergências sobre a guerra no Oriente Médio, a OTAN já havia sido abalada por um episódio que expôs as fissuras entre seus integrantes. Ao reafirmar o interesse estratégico na Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca, o governo dos Estados Unidos afirmou que a ilha poderia ser incorporada por meio de uma negociação e não descartou o uso da força caso seus objetivos não fossem atendidos.

A postura foi reforçada na nova Estratégia de Defesa Nacional dos EUA, assinada pelo secretário de Guerra, Pete Hegseth, que estabelece o controle da Groenlândia como uma prioridade estratégica e prevê uma postura mais assertiva na defesa dos interesses norte-americanos. Antes dessas ameaças, Washington havia invadido a Venezuela e sequestrado o líder Nicolás Maduro no dia 3 de janeiro, hoje preso em solo estadunidense.

O documento também sinaliza um recuo do compromisso de Washington com a segurança europeia ao afirmar que os países devem ser responsáveis pela própria defesa.

<><> Cobrança por gastos em defesa e rearmamento

Sob forte pressão do governo Trump, os gastos em defesa dos membros europeus da OTAN aumentaram 20%, alcançando US$ 574 bilhões (cerca de R$ 2,96 trilhões), enquanto elevam os investimentos militares para 5% do PIB até 2035. Apesar do compromisso, a aliança enfrenta dificuldades para transformar essas promessas em realidade.

Diversos governos europeus já enfrentam resistência política interna diante do impacto que o aumento dos gastos militares pode causar sobre os orçamentos públicos, em um contexto de baixo crescimento econômico e pressão por investimentos em áreas sociais. Além disso, a indústria de defesa tem encontrado dificuldades para ampliar rapidamente sua capacidade de produção, acumulando atrasos na entrega de equipamentos mesmo após a assinatura de contratos bilionários.

As dificuldades são agravadas pelas limitações das próprias capacidades militares europeias. O Reino Unido dispõe hoje de apenas uma fração da frota naval que possuía décadas atrás, enquanto a Alemanha passou anos sem cumprir sequer a antiga meta de investir 2% do PIB em defesa, mantendo também menos de 200 mil militares na ativa — número muito inferior ao cerca de 1,3 milhão das Forças Armadas dos Estados Unidos.

<><> Anúncio de saída de membros da aliança

Além das ameaças dos Estados Unidos de reduzir seu compromisso com a OTAN ou até mesmo abandonar a aliança, o debate sobre a permanência passou a ganhar espaço dentro da própria Europa. Nos últimos meses, lideranças políticas de diferentes países passaram a defender publicamente a revisão da participação de seus Estados na organização, alegando que a aliança deixou de atender aos interesses nacionais e passou a impor elevados custos econômicos, militares e diplomáticos aos seus integrantes.

Um dos casos mais emblemáticos ocorreu na Eslovênia. Em maio, o presidente do parlamento, Zoran Stevanovic, anunciou a intenção de convocar um referendo sobre a saída do país da OTAN. Embora a iniciativa ainda dependa de apoio político para avançar, analistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam que o episódio expõe um crescente descontentamento de parte da sociedade e da classe política com as diretrizes adotadas pela aliança.

Na França, um dos membros fundadores da OTAN, o debate também voltou à cena. O líder do partido Patriotas, Florian Philippot, defendeu novamente a retirada francesa da organização e a retomada de um diálogo direto com a Rússia. Para o político, a permanência compromete a soberania da política externa e subordina as decisões de Paris aos interesses estratégicos de Washington.

O surgimento de iniciativas desse tipo representa mais um sintoma do desgaste político da OTAN e das dificuldades internas em preservar sua coesão diante das transformações do cenário internacional.

<><> OTAN está se expandindo para envolver Estados neutros em guerra, diz analista

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) quer envolver o maior número possível de países na guerra, declarou à Sputnik Patrick Poppel, analista político austríaco.

Poppel salientou que as tentativas de envolver cada vez mais Estados neutros na OTAN ou, pelo menos, de aproximá-los dessa aliança são preparativos concretos para a guerra.

"É impossível explicar de outra forma. Tudo isso é feito com um grau muito alto de envolvimento. A todo custo, procuram incluir o maior número possível de Estados que ainda não são membros da OTAN. Isso é de fundamental importância", ressaltou.

Conforme destacou o interlocutor da agência, a Áustria neutra também é fortemente afetada por isso.

Nos últimos anos, a Rússia observou uma atividade sem precedentes da OTAN perto de suas fronteiras ocidentais. A aliança está ampliando suas iniciativas e chama isso de contenção da agressão.

Moscou expressou repetidamente sua preocupação com o aumento das forças do bloco na Europa. O Ministério das Relações Exteriores russo declarou abertura para o diálogo com a OTAN, mas em pé de igualdade, e exigiu que o Ocidente abandone o curso de militarização do continente.

<><> OTAN inflama 'ameaça chinesa' para justificar relevância e presença no Indo‑Pacífico

OTAN é acusada de inflar a narrativa de uma "ameaça dos mísseis chineses" antes da cúpula de Ancara, usando um teste rotineiro de míssil para justificar sua relevância e ampliar presença na Ásia‑Pacífico, enquanto críticas apontam que a aliança revive lógicas da Guerra Fria e busca pretextos para expandir sua influência.

De acordo com um artigo publicado no Global Times, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) estaria tentando inflar a ideia de uma "ameaça dos mísseis chineses" antes da cúpula de Ancara, em uma estratégia descrita como calculada para justificar sua relevância e ampliar sua influência na Ásia‑Pacífico.

Segundo o artigo, essa ideia "ignora que o Pacífico comporta o desenvolvimento pacífico de todas as nações e não deveria ser transformado em palco de disputas herdadas da Guerra Fria".

O artigo relata que o secretário‑geral da OTAN, Mark Rutte, teria usado um teste rotineiro de míssil lançado por submarino realizado por Pequim para reforçar a tese de que a aliança "não pode ser ingênua" diante da China.

Ainda na terça-feira (7), o governo chinês sustentou por meio de comunicados que o exercício não foi dirigido a nenhum país e obedeceu à todas as regras internacionais — como a notificação de países relevantes. Mas, de acordo com a publicação, a OTAN estaria forçando sua interpretação para enquadrá‑lo como ameaça, levantando a dúvida sobre quem realmente precisa dessa narrativa.

Ainda segundo o texto, Rutte afirmou ter discutido o tema por mensagem com o ministro da Defesa do Japão, alegando que eventos no Indo‑Pacífico afetariam o Atlântico Norte. Entretanto, a análise da mídia asiática questiona essa posição, lembrando que o teste ocorreu em águas internacionais, com aviso prévio aos países da região, sem violar soberania. Para a mídia, a preocupação da OTAN revelaria uma tentativa de expandir sua esfera de influência para o Pacífico.

A publicação contextualiza que a cúpula de Ancara foi vista como momento de reafirmação de lealdade aos EUA, em um cenário em que países europeus enfrentam pressões por gastos militares e divergências estratégicas. Protestos contra a OTAN teriam marcado o encontro, e o texto argumenta que a aliança, descrita como "relíquia da Guerra Fria", estaria exagerando a importância de exercícios alheios para manter relevância.

O artigo lembra que testes de mísseis são prática comum entre potências militares, incluindo membros centrais da OTAN, e que a mídia costuma tratá‑los como exercícios rotineiros, revelando, no caso da China, uma mentalidade de confronto.

A análise também destaca que a interação entre Rutte e o ministro japonês exporia a intenção de aprofundar a presença da OTAN na Ásia‑Pacífico. A aliança já teria firmado programas de parceria com Japão, Austrália e Nova Zelândia, movimento interpretado como busca de pretextos para expansão, alinhado aos interesses de setores militaristas japoneses. O texto contrapõe esse avanço ao histórico chinês de não iniciar guerras desde 1949.

O artigo questiona quem se beneficiaria da atuação da OTAN na região, afirmando que a China mantém uma política de defesa defensiva, arsenal nuclear mínimo e ausência de corrida armamentista.

Por fim, o texto defende que a OTAN deveria abandonar o uso das capacidades militares chinesas como instrumento político. "Rotular a China como ameaça enquanto se tenta avançar até suas fronteiras seria, segundo o Global Times, uma manobra desajeitada que não convenceria a região". O Pacífico, afirma a análise, deve permanecer espaço de convivência pacífica, não de ressurgimento de lógicas da Guerra Fria.

¨      Principal ameaça à OTAN não é Trump, mas divergências internas na Europa, alerta mídia

A próxima cúpula da OTAN em Ancara pode acabar sendo um completo fracasso, segundo relatos da imprensa. Com a persistência da desconfiança dentro da União Europeia (UE), a questão não é mais apenas se os EUA serão um bom aliado, mas se os Estados-membros do bloco serão capazes de ser bons aliados entre si, acrescentaram.

Em meio aos desentendimentos de Trump com líderes como o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), Mark Rutte, optou por uma cúpula breve, com poucas reuniões e uma declaração conjunta ao final.

No entanto, a imprensa enfatiza que as divergências com Trump não são o principal desafio do evento. Os problemas da Europa continuam sendo os mesmos que assolam a aliança há décadas: protecionismo industrial, desconfiança entre os Estados-membros e a tendência de culpar os EUA por suas dificuldades.

Como exemplo, os planos para o desenvolvimento de um caça europeu conjunto fracassaram em junho devido a disputas entre França e Alemanha sobre a distribuição dos benefícios econômicos. Além disso, Paris foi excluída do maior projeto europeu de defesa aérea, que inclui mais de 20 países da OTAN, e optou por desenvolver suas próprias tecnologias. Assim, a histórica incapacidade dos países europeus de cooperarem torna-se uma fragilidade para a aliança, enfatiza a publicação.

Outro problema destacado pela mídia é a falta de investimento em defesa por parte dos países europeus da OTAN durante décadas, o que reduziu drasticamente suas capacidades militares.

O Reino Unido, por exemplo, conserva apenas uma fração dos navios de guerra que outrora possuía, enquanto a Alemanha falhou durante anos em atingir a meta de gastos da aliança de 2% do produto interno bruto (PIB) e hoje tem menos de 200.000 militares da ativa, em comparação com os 1,3 milhão dos Estados Unidos. Os aliados europeus não podem prescindir das capacidades militares norte-americanas, como transporte aéreo, reabastecimento em voo e coleta de informações no campo de batalha, entre outras.

Na cúpula de Haia de 2025, Rutte conseguiu que os países europeus aumentassem seus gastos militares. Agora, seu principal desafio é garantir que esses fundos sejam usados para fortalecer a aliança, enquanto ele busca mediar a incerteza europeia e as tensões com Trump.

Vale ressaltar que a cúpula em Ancara ocorre após recentes tensões entre Trump e seus aliados europeus devido ao conflito com o Irã. Vários países europeus suspenderam o acesso das tropas norte-americanas às suas bases militares e se recusaram a ajudar a garantir a liberdade de navegação no estreito de Ormuz. Em resposta, Trump ameaçou retirar-se da OTAN.

¨      Países da OTAN ficaram para trás em termos de equipamentos militares devido aos drones com IA

Os países da OTAN estão muito atrasados em termos de equipamentos militares devido ao rápido desenvolvimento de drones com elementos de inteligência artificial (IA) utilizados durante o conflito na Ucrânia, relata o Neue Zurcher Zeitung (NZZ).

O presidente dos EUA, Donald Trump, havia declarado anteriormente que os drones haviam se tornado "máquinas de matar" durante o conflito na Ucrânia.

"Os drones assumiram uma parte significativa dos combates na Ucrânia. No front quase não restam tanques, obuseiros e grandes grupos de soldados. Para veículos aéreos não tripulados, parcialmente controlados por inteligência artificial, eles são um alvo muito fácil", lê-se na publicação.

Os autores do artigo afirmam que as armas caras de alta tecnologia que os países da OTAN possuem só podem, em medida limitada, suportar as novas condições de guerra.

"Os países da OTAN […] estão apenas começando a aprender como usar drones em combate [....]. E se a OTAN estiver investindo dinheiro no lugar errado?", conclui o jornal.

O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, disse que qualquer carga que contenha armas para a Ucrânia se tornará um alvo legítimo para a Rússia. O Kremlin afirmou que o fornecimento de armas à Ucrânia pelo Ocidente não contribui para as negociações e terá um efeito negativo.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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