Um
alvo fácil: como Orbán transformou a destruição do Arquivo Lukács em modelo
para a extrema direita
Tudo
começou como um ataque editorial no Magyar Nemzet [Nação
Húngara], o principal jornal de direita da Hungria, e terminou anos depois da
maneira que Viktor Orbán desejava: com o fechamento de um arquivo dedicado ao
filósofo de esquerda mais famoso da Hungria.
Na
esteira da histórica derrota de Orbán após 16 anos no poder, a Hungria pode
começar a reconstruir o que foi destruído durante o reinado autoritário do
primeiro-ministro e iniciar a construção de um novo futuro.
À
medida que esse processo se desenrola, estuda-se — em um tom ligeiramente
dissonante, porém — como o autoritarismo de Orbán funcionava e como suas
vítimas o combatiam: esse estudo relembra a saga de como o governo lentamente
estrangulou um arquivo e centro de pesquisa localizado no antigo apartamento de
György Lukács, um filósofo marxista mundialmente conhecido, em Budapeste.
“O
episódio ficou conhecido como ‘a questão dos filósofos’: a primeira grande
campanha anti-intelectual de Orbán e sua mídia”, disse László Szücs, filósofo e
arquivista da Fundação Internacional Arquivo Lukács, um grupo que trabalha para
reabrir o apartamento ao público.
“As
políticas de Orbán fizeram muitas e diversas vítimas”, disse Szücs. “Os
filósofos foram os primeiros alvos da ‘guerra cultural’ de Orbán.”
Ao
longo de seus 16 anos no poder, Orbán travou uma campanha implacável contra
seus oponentes “liberais de esquerda”: seu regime forçou a Universidade da
Europa Central a se mudar para Viena porque era financiada pelo filantropo
liberal George Soros; tirou do ar a Klubrádió, uma estação de rádio
independente; excluiu jornalistas críticos das coletivas de imprensa; assumiu o
controle da Universidade de Teatro e Artes Cinematográficas de Budapeste para
domar um “bastião liberal”; retirou poderes e cortou financiamento dos governos
locais de que não gostava; aprovou leis visando organizações não
governamentais.
“Era
muito popular nos círculos de direita reivindicar o fechamento do Arquivo
Lukács como uma vitória, porque ele era um ‘terrível líder comunista’, entre
outras coisas”, disse Szücs, falando logo após a derrota de Orbán em 12 de
abril.
Enquanto
balançava a cabeça, Szücs disse que fechar o Arquivo e a Biblioteca Lukács era
tão simbólico quanto um governo alemão aplicar pressão ideológica para fechar
instituições que preservam o legado acadêmico de Theodor Adorno ou Martin
Heidegger, famosos filósofos alemães — um marxista, o outro simpatizante
nazista.
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“Moral e legalmente questionável”
O
estrangulamento começou em 8 de janeiro de 2011, quando o Magyar Nemzet publicou
um editorial calunioso acusando um grupo de eminentes filósofos húngaros —
muitos deles associados a Lukács e críticos ferozes de Orbán — de receber
financiamento “moral e legalmente questionável” no valor de cerca de 2 milhões
de dólares quando a Hungria esteve sob o governo liberal-socialista anterior.
Na verdade, os fundos não foram diretamente para os eminentes filósofos, mas
cobriram o trabalho de grupos de pesquisa, de inúmeros filósofos e estudantes
de doutorado, financiando também publicações de livros e conferências.
Na
época, o Magyar Nemzet serviu como porta-voz do recém-eleito
governo Orbán.
Assim
começou a “questão dos filósofos” — um dos primeiros e mais importantes fios a
seguir para entender como a “revolução iliberal” de Orbán transformou a Hungria
em modelo para a extrema direita europeia.
Apenas
oito meses antes desse editorial, Orbán e seu partido de direita Fidesz haviam
derrotado o Partido Socialista Húngaro, de centro-esquerda, e conquistado uma
poderosa supermaioria no Parlamento. Com poder praticamente irrestrito, Orbán
começou a moldar a Hungria em um feudo onde os oponentes liberais de esquerda
não eram tolerados.
O
Arquivo Lukács era um alvo fácil.
Antes
de falecer aos 86 anos, em 1971, Lukács legou seus documentos, manuscritos,
cartas e biblioteca à Academia Húngara de Ciências. Isso não foi pouca coisa:
Lukács era uma figura importante na Europa tanto por suas atividades políticas
quanto pelas intelectuais.
Ele
desempenhou papéis nos breves governos revolucionários da Hungria de 1919 e
1956; manteve correspondência com intelectuais de todo o mundo, inclusive o
romancista alemão Thomas Mann, de quem foi amigo; e suas obras filosóficas
lançaram as bases para o marxismo ocidental e a teoria crítica.
Após
sua morte, foi homenageado pelo Estado húngaro, então comunista, que
transformou seu apartamento em um arquivo para esses documentos e contratou uma
pequena equipe de bibliotecários e pesquisadores para cuidar do acervo e
continuar o trabalho de Lukács.
Durante
sua vida, Lukács, crítico do comunismo de estilo soviético e defensor de um
“socialismo humanista”, recebeu muitos colegas intelectuais em seu apartamento
às margens do Danúbio para discutir ideias e escritos. O círculo de pensadores
que o orbitava ficou conhecido como a “Escola de Budapeste” da filosofia
marxista, uma versão da “Escola de Frankfurt” de Adorno, na Alemanha.
O
arquivo perdurou mesmo quando muitos dos alunos e colegas de Lukács — que
compunham a Escola de Budapeste — foram perseguidos pelo governo húngaro pró
soviético, que forçou muitos ao exílio.
Com o
passar dos anos, o arquivo funcionou como um farol intelectual para os
dissidentes em Budapeste e, após o fim do comunismo, para a intelectualidade de
esquerda da Hungria. Seu espaço aumentou com a incorporação de outro
apartamento, no andar de cima, tornando-se local de seminários regulares,
leituras de livros e reuniões. Além do arquivo de Lukács, o centro também
começou a publicar trabalhos de intelectuais associados à Escola de Budapeste.
Eis
que, em 2010, Orbán assume o poder.
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Um ataque coordenado aos “liberais“
O
editorial do Magyar Nemzet foi mordaz em seu ataque aos
filósofos liberais de esquerda. Seu principal alvo foi Ágnes Heller, de 82
anos, discípula de Lukács e eminente filósofa que ocupou a cátedra Hannah
Arendt na New School, em Nova York.
De
acordo com o Magyar Nemzet, seu pecado era serem “liberais” que
“não se contentaram em ficar na Torre de Marfim” e almejavam “compartilhar seus
pontos de vista e pensamentos com um público mais amplo além da arena
acadêmica”.
Em
outras palavras, esses filósofos — Heller, Mihály Vajda, Sándor Radnóti e
outros — ultrapassaram suas posições tornando-se críticos declarados de Orbán e
sua política.
Pouco
depois do editorial aparecer, Gyula Budai, comissário anticorrupção do governo
Orbán, iniciou uma investigação sobre as bolsas de filosofia “suspeitas”. A
investigação foi, então, entregue à polícia.
O
jornal Magyar Nemzet intensificou seu trabalho sujo e chamou o
ocorrido de um “escândalo” que demonstrava como a filosofia havia atingido um
“baixo nível moral”. Outros meios de comunicação de direita se juntaram à
investida.
Para
muitos, a campanha de difamação invocava a repulsiva história de antissemitismo
da Hungria — Lukács, Heller e Vajda vieram de famílias judias — com seus
ataques a “liberais” e “cosmopolitas” usados como senha para atacar judeus.
Houve
fortes comparações com o ocorrido após a fracassada revolução comunista de Béla
Kun em 1919, durante a qual Lukács foi nomeado Comissário do Povo para Educação
e Cultura.
O então
governo húngaro ultraconservador de Miklós Horthy tinha como alvo os judeus,
chamando-os de perigosos radicais comunistas, e o país viu uma onda de pogroms.
Em
1920, Horthy aprovou a primeira lei antissemita que limitava o número de judeus
nas universidades. As leis subsequentes barraram os judeus do serviço público,
do judiciário e dos governos locais e, quando a Hungria entrou em guerra ao
lado da Alemanha nazista, a propriedade judaica foi expropriada. Durante a
guerra, judeus húngaros foram executados nas margens do Danúbio e enviados em
massa para campos de concentração.
Em
janeiro de 2011, Heller prontamente revidou, chamando a investigação de “uma
inquisição” contra subsídios concedidos legalmente. Ela disse que o dinheiro
foi gasto com jovens pesquisadores e que ela e outros filósofos eminentes não
receberam nenhum financiamento.
“[Os
filósofos] foram todos acusados de liberalismo e esquerdismo”, disse ela em
entrevista à época, “e essa era a questão principal, porque toda a questão
financeira era apenas um disfarce para o assédio político”.
Ela
alegou que era Orbán quem estava “por trás do assédio” midiático a filósofos,
compositores, artistas e escritores húngaros conhecidos por falar contra seu
governo de direita. O primeiro-ministro estava incomodado porque ela denunciava
suas “inclinações ditatoriais”, disse a filósofa.
Ao
mesmo tempo, Jürgen Habermas, um dos filósofos mais venerados da Europa e amigo
de Heller, condenou os líderes europeus por seu notável silêncio, mesmo quando
a Hungria, membro da União Europeia desde 2004, violou os “princípios
fundamentais de uma ordem constitucional liberal”.
“Na
China, a observância dos direitos humanos é justamente exigida”, escreveram Habermas e um
colega. “Mas em casa, eles não olham com tanta atenção para suas próprias
ações. Esse é o escândalo dentro do escândalo.”
Habermas
advertiu: “A imprensa pró-governo está travando uma campanha contra um ‘círculo
de filósofos liberais’ indefinido… o termo ‘liberal’ mais uma vez carrega a
conotação de visões antipatrióticas e cosmopolitas de intelectuais judeus.”
Ele
disse que foi um ataque flagrante a “filósofos politicamente indesejáveis” e a
“uma disciplina que, desde seus primórdios na Atenas clássica, tem se
preocupado em particular com a constituição da comunidade política”.
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O estreitamento da mente
A
princípio, parecia que a “questão dos filósofos” passaria em branco depois que
a polícia não encontrou nenhuma irregularidade nas concessões de financiamento.
Enquanto
isso, os filósofos entraram com ações contra o Magyar Nemzet por
difamação, e a campanha difamatória foi interrompida. Em uma grande vitória, um
tribunal de apelação da cidade de Budapeste em 2016 acabou determinando que o
jornal era culpado.
Mas o
assunto estava longe de se encerrar.
Depois
de assumir o cargo, Orbán também começou a reestruturar a Academia Húngara de
Ciências para adequar a instituição aos seus propósitos e colocar a cultura e a
pesquisa sob o controle do governo.
Ao
ameaçar cortar fundos, ele forçou vários institutos independentes a romper
vínculos com da Academia e, assim, a submeteu aos seus caprichos. Aliados foram
colocados em posições de destaque e o financiamento de programas apoiados por
governos liberais de esquerda anteriores foi cortado. O governo também começou
a cortar fundos para programas de arte pública, acusados de “desperdiçar” os
impostos dos contribuintes.
Em
2016, a Academia Húngara de Ciências anunciou que transferiria os documentos de
Lukács para sua biblioteca e fecharia o apartamento, citando os altos custos
operacionais do arquivo.
Enquanto
isso, o governo da cidade de Budapeste, nas mãos dos aliados de Orbán,
juntou-se ao ataque a Lukács e removeu uma escultura do filósofo de um parque
central da cidade. Atualmente, a obra está abrigada no Museu de História de
Budapeste e não há planos de devolvê-lo ao Parque Santo Estevão, disseram
autoridades municipais.
Esses
ataques novamente provocaram um clamor entre os intelectuais europeus.
Cerca
de 2.000 estudiosos, incluindo Habermas e os filósofos de esquerda
norte-americanos Nancy Fraser e Fredric Jameson, assinaram uma carta de
protesto. Outra petição semelhante recebeu 8.000 assinaturas1.
Intelectuais
foram a Budapeste para se manifestar contra o fechamento do arquivo e
pesquisadores húngaros estabeleceram uma fundação para defendê-lo. Orhan Pamuk,
romancista turco vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, visitou Budapeste para
saudar Lukács por inspirá-lo a escrever.
Mas
nada disso dissuadiu o governo.
Em
2018, todos os funcionários do arquivo haviam se aposentado ou sido
transferidos. A Academia Húngara de Ciências substituiu as fechaduras e
encerrou as atividades do arquivo em 24 de maio de 2018. Promessas vagas de
reforma do apartamento e reabertura do arquivo foram feitas, mas não se
cumpriram. Em vez disso, parecia mais provável que o apartamento, com sua
localização privilegiada, fosse vendido.
A
volumosa coleção de documentos de Lukács — cartas, manuscritos, notas,
fotografias — foi transferida para a biblioteca da Academia Húngara de
Ciências.
O
apartamento de Lukács, localizado no quinto andar do nº 2 do Belgrád Rakpart
(Cais de Belgrado), fechou suas portas ao público e a poeira passou a se
acumular no escritório e na biblioteca do filósofo, onde seu acervo de livros,
cheios de marginálias, permaneceu.
“Depois
disso, pesquisar a obra de Lukács tornou-se muito difícil, ou muito
complicado”, disse Szücs.
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Uma segunda chance para Lukács
Em
2019, Budapeste elegeu um novo prefeito — e depois de anos de governo
conservador, um liberal de esquerda estava de volta ao poder na capital.
O novo
gabinete do prefeito assumiu a causa de Lukács e decidiu fazer algo a respeito
do apartamento abandonado do filósofo.
Este
ano, a cidade irá financiar uma reforma e depois reabrir o apartamento como um
espaço para “conferências, seminários, discussões, exposições e oficinas de
educação arquivística sobre filosofia, arte e história”, afirmou o gabinete do
prefeito. A biblioteca de Lukács também será disponibilizada para uso
novamente.
O
apartamento foi arrendado aos Arquivos da Cidade de Budapeste, que
administrarão o arquivo reaberto em colaboração com a Fundação Lukács.
Os
preciosos documentos de Lukács não serão trazidos de volta ao apartamento, pois
a Academia Húngara de Ciências rejeitou os pedidos de devolução. Questionada
pela reportagem, a instituição não respondeu.
Enquanto
isso, sob um governo liberal de esquerda, a cidade de Budapeste apoiou um
projeto para preservar o legado da Escola de Budapeste, uma vez que o
patrimônio de Heller foi transferido para os Arquivos da Cidade de Budapeste
após sua morte, em 2019. Szücs supervisiona esse projeto.
Dentro
de seu escritório nos Arquivos da Cidade de Budapeste, Szücs abre uma caixa
contendo cartas que Heller escreveu para Habermas e outros.
“Sinto
que é minha missão — não que eu seja o único”, disse ele. “Há muitas pessoas
que estão tentando preservar várias coisas relacionadas ao legado de Lukács ou
ao legado de seus alunos, seus discípulos.”
Por
enquanto, Szücs disse que se daria por satisfeito se o novo governo da Hungria,
comandado pelo primeiro-ministro Péter Magyar, deixasse os estudiosos
continuarem seu trabalho.
“Espero
que o novo governo não pressione os pesquisadores, como fez o regime de Orbán”,
disse ele. “Hoje em dia, isso já basta — ter mais espaço para fazer nossa
pesquisa.”
Fonte:
Por Cain Burdeau (tradução de Marco Aurélio Palu – para o Blog da Boitempo)

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