Psicanalistas
de classe
Este
texto apresenta uma leitura sobre qual é a posição de psicanalistas dentro do
conflito distributivo, como as decisões de gestão macroeconômica afetam as
possibilidades de renda da nossa categoria e com isso tentar apontar quais
posições nos convém enquanto trabalhadores e trabalhadoras em busca de superar
a situação de precarização na qual nos encontramos.
Afirmar
que somos proletários é absolutamente central para pensar nossa atuação
política enquanto categoria. Por mais que no sentido estrito do termo a nossa
categoria não apresente o elemento de assalariamento, a estrutura econômica
neoliberal faz com que a precarização através da generalização do trabalho
informal, da plataformização e a financeirização cada vez mais crescente
reconfigurem a relação entre burguesia e proletariado, acabando por reunir na
exata mesma posição quanto ao conflito distributivo tanto aquelas e aqueles que
vendem a sua força de trabalho de maneira estrita quanto os extratos mais
rebaixados da pequena-burguesia.
Seja no
controle de preço da força de trabalho, seja no controle de preço dos insumos,
a expropriação de valor ocorre hoje primeiramente através da apropriação do
fundo público pelo mercado financeiro e disso decorrem todas as
disfuncionalidades na circulação e no acesso à riqueza socialmente produzida.
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Determinantes macroeconômicos da prática clínica
Os
rendimentos da prática clínica, assim como qualquer outro serviço, é
economicamente determinado pelos custos e pela massa salarial que pode vir a
comprar os nossos serviços.
Do lado
dos custos temos: formação, aluguel, análise, supervisão, transporte,
alimentação, aparelho celular, internet, dentre outros. A correlação entre
crescimento do salário mínimo e a inflação acumulada em um mesmo período seria
uma métrica relevante para medir indiretamente nossa capacidade de arcar com
estes custos, pois mesmo que nossa condição não seja de assalariamento, nossa
renda média é limitada pelos limites gerais do poder de compra dos nossos
compradores, principalmente e cada vez mais em um mercado de psicanalistas e
psicólogos que aumenta em oferta, forçando a redução do valor da sessão.
Sendo
assim, poderíamos ter uma perspectiva positiva pois até 2018 temos um saldo
positivo de 57% de ganho real do salário mínimo (que vem aumentando nos últimos
anos, apesar da interrupção no governo de Jair Bolsonaro).
Contudo,
graças à política de juros e o sempre crescente aumento da informalidade, que
aumenta o risco de ganhos restritos a patamares inferiores ao salário mínimo,
temos aquele que julgo ser o dado que melhor exemplifica e dimensiona as
possibilidades econômicas da nossa categoria, pois demonstra tanto os limites
em termos de renda (dado, como dito, que nossa renda média é sempre próxima
daquela dos assalariados) quanto os limites da massa salarial disponível para
comprar nossos serviços: renda das famílias após gastos básicos e dívidas vem
reduzindo e chegou no mais baixo patamar de apenas 21%.
Não é
por outro motivo que não as escolhas de gestão da macroeconomia que quase 20%
dos brasileiros já desistiram de terapia por falta de dinheiro. A manutenção da
Lei Kandir, a prioridade ao agronegócio e à mineração como impulsionadores do
PIB e a adesão ao modelo de submissão ao imperialismo através do tripé
macroeconômico nos legaram um mercado interno no qual se aumenta o acesso ao
ensino superior ao mesmo tempo que avança na reprimarização da economia,
produzindo uma diminuição da renda média de pessoas com ensino superior, o que
nos mostra tanto nossa condição comum com as demais categorias, quanto o
encolhimento do mercado sobre o qual atuamos, formado com destaque por pessoas
cursando ou que concluíram o ensino superior.
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A clínica como fenômeno econômico
A
natureza crítica da nossa teoria a coloca como um operador sempre incidente no
nosso debate político e organizativo. Contudo, para que possamos agir nas
condições materiais sob as quais exercemos a nossa profissão, é fundamental não
estender nossa teoria para o que ela não se propõe, ou seja, para agir sobre as
condições econômicas da nossa categoria é preciso pensar a clínica
psicanalítica como fenômeno econômico através da economia.
Partindo
do entendimento de que no exercício da crítica da economia política devemos ter
a psicanálise não como operador central, mas como arcabouço de advertências,
podemos então olhar para a relação entre analista e paciente sem reticências
como uma relação comercial comum. Fazendo a ponderação de que na prática
clínica é a dimensão econômica que comparece como advertência, abordando o
fenômeno da clínica na sua dimensão de circulação de valor monetário, podemos
entender que o que ocorre ali é estritamente a venda de um serviço.
Por
mais que nossa teoria tome a noção de demanda desde a hipótese do inconsciente,
apontando que o atendimento da demanda do paciente para que ocupemos uma
posição no seu arranjo fantasioso impedirá o andamento do tratamento, na
economia a noção de demanda não se refere ao mesmo fenômeno.
Enquanto
na psicanálise a demanda diz respeito a algo do manejo clínico, na Economia a
demanda é estritamente o que se constata pela efetivação de uma relação
material de troca. Para tanto, é suficiente um entendimento do tipo: uma pessoa
procura um psicanalista porque outra pessoa disse que fazer análise é bom
justamente porque teve sua demanda, a demanda da diminuição da intensidade do
sofrimento, suficientemente atendida. Para a economia, se uma pessoa paga a
sessão, o que há ali é uma relação de oferta e demanda.
Tratar
do impacto do serviço que oferecemos na dinâmica econômica nacional é hoje
ainda um exercício sobretudo especulativo. Não há pesquisas sobre os efeitos
específicos da clínica psicanalítica sobre indicadores econômicos. Contudo, não
é despropositado entendermos que a circulação social da psicanálise coloca a
clínica, e mesmo a transmissão da teoria, minimamente como um pronunciado
mitigador dos efeitos adoecedores que o funcionamento regular da sociedade
impõe aos indivíduos.
Se
mensurar o impacto econômico da prática clínica pela sua presença é algo que
ainda não temos meios para fazer, é possível fazer um exercício imaginativo que
pode ter um impacto não ignorável para a evidenciação da nossa função
econômica. Imagine que toda a categoria fizesse greve. Que não houvesse por um
determinado período nenhuma sessão de análise, nenhuma supervisão, nenhuma
conferência, produção de conteúdo e nenhuma aula de psicanálise no Brasil. Não
é absurdo pensar que o prejuízo sobre a produtividade do trabalho (aumento do
absenteísmo, afastamentos e até suicídios) seguido de um consequente arranhão
no PIB faria-se notar.
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A clínica psicanalítica e o mercado monopolista
Se
psicanalista é trabalhadora e trabalhador, psicanalista produz valor. Se
psicanalista produz valor e está precarizada e precarizado, então sofre
expropriação. Aquelas e aqueles que trabalham por conta própria auferem renda
sem relação de assalariamento (não me refiro aqui a trabalhadores
plataformizados que, apesar da recusa do reconhecimento, são trabalhadores
assalariados por pagamento variável) ocupando franjas do mercado ainda não
dominadas pelo capital monopolista.
Mesmo
levando em conta o enorme aumento de serviços destinados à saúde, que vão desde
a saúde preventiva até o mercado do bem-estar (wellness), há uma absoluta
hegemonia da indústria farmacêutica no atendimento às demandas de mercado sobre
o qual atuamos.
Uma das
maneiras como sofremos expropriação de valor enquanto trabalhadoras e
trabalhadores por conta própria acontece justamente pela ação econômica do
capital monopolista, que recorre a práticas anticoncorrenciais para a
assimilação sempre cada vez maior do capital circulante em um determinado
mercado. Naquilo que concerne ao mercado no qual atuamos, o mercado da saúde
mental, a ação monopolista da indústria farmacêutica se dá fundamentalmente
pela sua capacidade de influenciar a tomada de decisão tanto no Estado quanto
no mercado através da manipulação de informações, de pesquisas, um pesado
investimento em propaganda e mesmo a franca corrupção de agentes públicos e
privados.
Não se
trata aqui de negar os efeitos neurofisiológicos das medicações, mas de
reafirmar, como repetimos há décadas, que a generalização do uso, a predileção
por este método de tratamento das afecções psíquicas, não se deu exclusivamente
pelos seus efeitos ou seu custo reduzido frente à psicanálise e as
psicoterapias mas sim principalmente por um pesado lobby junto à categoria da
medicina, que por sua vez goza de autoridade frente à população para legitimar
tratamentos e naturalizar uma nosografia específica que estabeleça a
centralidade do consumo dos produtos da indústria farmacêutica.
Em um
movimento mais recente temos a “Psicologia baseada em evidências” que busca se
vincular à burguesia da indústria farmacêutica submetendo a clínica psicológica
como um todo às metodologias que por sua vez se submetem à nosografia
conveniente ao uso de medicamentos como aspecto inquestionável de qualquer
tratamento.
Essa
atuação não encontra respaldo nem mesmo na epistemologia das ciências naturais,
mas é antes efeito da fratricida disputa de mercado dentro do campo da
intervenção em saúde mental imposta pela precarização gerada pela ideologia
neoliberal da austeridade que gera um inflacionamento do campo pela entrada
cada vez maior de profissionais sem que com isso haja um correspondente e
proporcional aumento de extratos de renda capazes de arcar com os custos de
intervenções não padronizáveis; ao mesmo tempo que naturaliza as práticas
anticoncorrenciais da burguesia farmacêutica contra nós.
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Da categoria à classe
A
afirmação da condição de trabalhadores e trabalhadoras é um avanço sem igual na
história da organização da nossa categoria profissional. Bem sabemos que
aquelas e aqueles que se serviam do estado na condição de burguesia,
expropriando a nossa classe ao ponto de possibilitar que a prática clínica não
fosse para eles uma fonte de renda relevante, foram as pioneiras e pioneiros da
psicanálise no Brasil.
Bem
sabemos também que afirmar a condição proletária da nossa categoria
profissional é consequência de uma série de acúmulos que foram construídos nos
últimos anos a partir do questionamento de quem pode ou não ter acesso ao
tratamento psicanalítico e quem pode ou não arcar com os custos de se fazer
reconhecer como psicanalista.
Por
mais que do ponto de vista da economia a relação entre analista e paciente
sempre tenha sido uma relação mercantil ordinária de compra e venda de um
serviço, o reconhecimento de que é pela venda deste serviço que psicanalistas
tornam possível sua sobrevivência e por consequência tornam possível a
circulação da própria Psicanálise, foi até então uma dimensão praticamente
ignorada.
Em
virtude desse atraso, a nossa categoria, apesar do alto grau de escolarização,
tem um profundo desconhecimento sobre o seu lugar na dinâmica econômica
nacional. As razões desse atraso certamente podem ser remetidas à origem
ideologizada que tornou as instituições estruturalmente reativas à incidência
da concretude radical das condições de sobrevivência no momento das suas
auto-reflexões.
Mas não
podemos nos excetuar do contexto geral de degradação da crítica econômica nas
fileiras mesmas da militância revolucionária. A pena da crítica da economia
política por décadas flanou e até muito recentemente não havia tocado o chão da
crítica das políticas econômicas
Cientes
de que a condição proletária nos liga economicamente às demais categorias da
nossa classe social, é urgente compor o coro com aquelas e aqueles que
denunciam que a nossa precarização é resultado da apropriação do fundo público
pela burguesia nacional associada à burguesia monopolista internacional e que
hoje no Brasil esta dinâmica tem como operadores fundamentais a manutenção de
altas taxas de juros e o impedimento formal da devida incidência do Estado na
economia através do Novo Arcabouço Fiscal.
Não
destacar a luta pela consciência político-econômica da nossa categoria é nos
omitir da luta da classe trabalhadora e cancelar a possibilidade de superação
da condição de precarização na qual nos afundamos cada vez mais.
Estando
cientes da centralidade da economia para a superação da condição de
precarização crônica na qual nos encontramos e advertidos e advertidas de que
professar uma suposta excepcionalidade frente ao Estado é uma hipocrisia que se
pode dar ao luxo apenas quem já se beneficia do Estado, o que se impõe à nossa
categoria é o debate sobre de que maneira podemos operar a relação com o
Estado, a instância de gerência de toda a economia política nacional, para que
seja possível nos afastarmos da precarização.
O
debate recente sobre a criação das graduações em Psicanálise deu visibilidade à
cisão interna na categoria entre quem pode prescindir de mecanismos
redistributivos, tais como FIES (pesada sua função abjeta de conformação de
monopólios e o desinvestimento na educação pública) para acessar uma formação
em psicanálise, e quem jamais teria condições de pagar a mensalidade de uma
escola tradicional.
Também
o debate sobre o controle social do exercício da profissão se força sobre nós
com as recentes denúncias de assédios dentro do campo psicanalítico e a ainda
mais recente decisão do Sistema Conselhos de iniciar um grupo de trabalho com a
finalidade de regulamentar as psicoterapias, o que certamente deve recair sobre
a prática da psicanálise; isso sem falar da necessidade de proteger a população
do mau exercício da clínica.
A
pressão de grupos econômicos justamente em busca de se apropriarem do fundo
público, como é o caso de faculdades privadas criarem cursos de psicanálise em
busca de um alargamento tanto da clientela quanto dos subsídios governamentais,
dado o prosseguimento da austeridade que inevitavelmente reduzirá a capacidade
de pagamento da classe trabalhadora, exigindo dos grupos econômicos a busca do
estado como garantidor dos pagamentos (tal como é o Programa Desenrola 2) faz
com que, em virtude do sempre crescente poder político desta fatia da
burguesia, a regulamentação da profissão seja eventualmente inevitável.
Avançar
no convencimento da nossa categoria de que não existe nenhum aspecto da
dinâmica econômica que fuja ao Estado, de que precisamos ter estratégias
próprias de atuação no conflito distributivo com a burguesia atuante no mercado
no qual estamos inseridos, é uma necessidade incontornável. Sem caminharmos
neste sentido jamais alcançaremos qualquer ganho enquanto categoria.
A
construção de um programa político-econômico para psicanalistas do Brasil não é
uma escolha tática relegada a preferências e particularismos. Trata-se da
construção de um horizonte concreto no qual queremos chegar com o nosso
trabalho militante. Sem o estabelecimento deste horizonte o que tende a ocorrer
é um fluxo inconstante de mobilizações erráticas ou fugazes centradas mormente
em grandes centros urbanos de maior adensamento de contradições e mais larga
tradição crítica, onde a intensidade da circulação de debates é facilmente
confundida com elevação de consciência.
Fonte:
Por Leojorge Panegalli, em A Terra é Redonda

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