sexta-feira, 10 de julho de 2026

Marcelo Zero: Pobre Europa, pobre Otan

A Europa é lenta. Tarda em entender os cenários cambiantes.

Demorou a entender o fenômeno Trump.

Só agora começa a entender que o “America First” é, na realidade, o “American Only”.

Trump não tem aliados verdadeiros. Vê as relações internacionais como um jogo de soma zero. Para que ele ganhe alguma coisa, alguém tem de perder.

Todos os países têm de perder alguma coisa para que os EUA ganhem. Isso se aplica tanto a antigos aliados quanto a adversários ou supostos adversários.

Trump também possui imenso desprezo por instituições plurilaterais e multilaterais de um modo geral. As enxerga como escolhos para uma atuação mais livre dos EUA no cenário planetário, e também como sorvedouros inúteis de dinheiro e recursos de Washington.

Para ele, as regras internacionais previamente acordadas e o direito internacional público não possuem valor algum. Simplesmente não se aplicam aos EUA, ao American Only.

Por isso, a sua estratégia é a de “bilatelarizar” as relações internacionais dos EUA, buscando sempre, em relações assimétricas, impor seus interesses. Vivemos, com Trump, o auge de relações mundiais hobbesianas, baseadas exclusivamente na força (financeira, militar, geopolítica etc.).

Trump, que sempre detestou a Otan, não voltará atrás em sua decisão de não apoiar a Ucrânia, de forma substantiva. Sabe que é algo inútil. Ainda mais agora, em que sua prioridade é conseguir sair do Irã, sem reconhecer sua derrota.

A Ucrânia não tem condições demográficas, econômicas e militares de ganhar a guerra contra a Rússia.

Kiev controla, hoje, apenas cerca de 28 milhões de habitantes, e trata-se de uma população bastante envelhecida, já que as taxas de natalidade das mulheres ucranianas estão, há décadas, entre as menores do mundo. Daí o desespero para recrutar mercenários.

Também há a questão econômica desastrosa da Ucrânia.

A economia da Ucrânia permanece cerca de 20% menor do que seu nível pré-guerra. Após contrações iniciais massivas, o PIB cresceu 1,8% em 2025, mas o PIB real encolheu 0,5% no primeiro trimestre de 2026 devido aos extensos ataques russos à infraestrutura energética.

As perdas econômicas totais desde a invasão de 2022 ultrapassam US$ 1,7 trilhão.

O Banco Nacional da Ucrânia revisou para baixo sua previsão de crescimento do PIB para 2026 para 1,3%, abaixo das estimativas anteriores, devido à contínua escassez de energia.

Apenas cerca de 60 % da demanda por energia da Ucrânia é atendida, inclusive na capital, Kiev.

Evidentemente, um país, nessas condições, não tem condições de crescer economicamente e, muito menos, de sustentar uma guerra de atrito, mesmo recebendo auxílio de países europeus.

Esse auxílio europeu, com base em drones, permite à Ucrânia, no máximo, atrasar o avanço da Rússia no leste do país e até mesmo provocar alguns ataques em solo russo. Mas isso está longe de fazer a guerra pender para o lado ucraniano.

A Rússia tem muito mais homens, força aérea, artilharia e mísseis balísticos hipersônicos do que a Ucrânia, armas capazes de destruir esse país, se quisesse.

Mas a Rússia não quer destruir a Ucrânia. Nem ocupá-la. São países estreitamente vinculados por traços culturais e históricos. Isso é delírio europeu.

A pretensão da Rússia sempre foi a de proteger a população russófona da Ucrânia e a de assegurar a neutralidade do seu território.

Outro delírio europeu é a ideia de que a Ucrânia é apenas um primeiro passo para que Putin possa “invadir” países do Leste Europeu, de modo a recriar a antiga glória do Império Russo. Isso não tem qualquer base fática.

Na realidade, no início deste século, Putin manifestou o desejo de ingressar na Otan e de se integrar à Europa. Foi rejeitado.

E, em 2008, a Otan tomou a fatídica decisão de incorporar, em um momento futuro, a Ucrânia em suas hostes.

Pavimentando, assim, a guerra futura, pois todos sabiam que a Ucrânia na Otan é uma questão existencial para todas as forças políticas russas, não apenas para Putin.

O fato é que a Europa e a Otan não obterão, nessa reunião na Turquia, mísseis Patriots americanos para combater os mísseis russos. Trump quer os seus Patriots para voltar a usá-los no Irã, se necessário.

A Rússia continuará a ter prevalência no campo de batalha.

A única coisa que a Europa e a Otan estão conseguindo com essa teimosia estratégica é aproximar o mundo de uma terceira guerra mundial.

É cegueira estratégica somada ao desperdício de recursos. Recursos cada vez mais escassos.

Mas a Europa, repetimos, é lenta, percebe os fatos tarde demais. Não entende mais o mundo. Vive de mitos arcaicos.

A Otan europeia está condenada ao fracasso.

¨     Quando a OTAN vira palco. Por Maria Luiza Falcão

A leitura do artigo “Drama e espetáculo marcam a entrada de Trump na OTAN”, publicado pelo The New York Times e assinado pelos correspondentes da Casa Branca Shawn McCreesh e Tyler Pager, oferece um retrato revelador da mais recente participação de Donald Trump em uma cúpula da OTAN. Mais do que narrar um episódio diplomático, a reportagem evidencia como a presença do presidente norte-americano tende a deslocar o foco das instituições para sua própria figura, transformando encontros multilaterais em grandes espetáculos políticos.

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A cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), realizada na terça-feira (07/07) em Ancara, na Turquia, deveria estar concentrada em alguns dos temas mais delicados da política internacional contemporânea: a guerra entre Rússia e Ucrânia, a escalada militar envolvendo Irã e Israel, os novos desafios tecnológicos para a defesa coletiva e a redefinição do papel da aliança em um mundo cada vez mais multipolar.

Mas bastou Donald Trump desembarcar na capital turca para que o centro das atenções deixasse de ser a própria OTAN. Como observaram McCreesh e Pager, “o centro de gravidade da cúpula deslocou-se exatamente para onde Trump mais gosta: para ele mesmo”. A frase resume com precisão uma das características mais marcantes da política externa de Trump: a substituição da diplomacia pelo espetáculo.

Enquanto os líderes da OTAN chegavam a Ancara, para sua cúpula anual, Trump criticava os aliados por não ajudarem os Estados Unidos em sua guerra contra o Irã. “A Itália nos rejeitou, a Alemanha nos rejeitou e a França nos rejeitou”, disse ele. Na manhã de quarta-feira, continuou seus insultos, referindo-se à Espanha de forma jocosa como nação “sem esperança”.

A recepção preparada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, parecia cuidadosamente desenhada para alimentar essa lógica de endeusamento da figura do presidente estadunidense. Banda militar, salvas de canhão, aviões de combate cruzando o céu e uma cerimônia reservada exclusivamente ao presidente norte-americano produziram uma imagem mais próxima da celebração de um monarca do que do encontro entre chefes de Estado de uma aliança baseada, ao menos formalmente, na cooperação entre países soberanos.

Não foi um detalhe protocolar.

Foi uma demonstração de como líderes experientes aprenderam a lidar com Trump: compreendem que sua necessidade permanente de reconhecimento pessoal pode ser utilizada como instrumento de aproximação política.

O problema é que essa dinâmica desloca completamente a natureza das relações internacionais.

Durante décadas, a força da liderança americana repousava menos sobre a personalidade de seus presidentes do que sobre a previsibilidade de suas instituições. Mudavam os ocupantes da Casa Branca, mas permaneciam relativamente constantes os compromissos assumidos pelos Estados Unidos perante seus aliados.

Era justamente essa estabilidade institucional que permitia à OTAN funcionar.

Trump inverte essa lógica. Em vez de representar uma potência institucional, procura apresentar-se como o verdadeiro centro do sistema internacional.

Os acontecimentos da própria cúpula ilustram esse comportamento.

Antes mesmo das discussões sobre segurança coletiva, Trump voltou a reivindicar a Groenlândia, criticou a Dinamarca, cobrou publicamente Reino Unido, França e Itália pelo que considera insuficiente apoio militar aos Estados Unidos, reacendeu seu conflito com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e ainda misturou questões relativas à Copa do Mundo com temas estratégicos da aliança atlântica.

Nada parece escapar à necessidade permanente de transformar qualquer reunião internacional em palco para sua própria atuação.

Essa característica não constitui mera excentricidade.

Ela produz consequências concretas para o funcionamento da diplomacia.

A política externa deixa de ser conduzida por canais institucionais previsíveis e passa a depender do humor, das preferências pessoais e dos impulsos do presidente. Os aliados deixam de negociar com os Estados Unidos enquanto Estado e passam, frequentemente, a tentar administrar as reações de um único indivíduo.

É uma diferença profunda.

Mais do que representar seu país, Trump frequentemente parece representar a si mesmo.

Essa personalização da política internacional produz outro efeito igualmente preocupante: aproxima Trump de líderes que compartilham uma visão fortemente centralizadora do poder.

Sua relação cordial com Erdogan não constitui exceção.

Ao longo de sua trajetória política, Trump demonstrou repetidas vezes maior afinidade com governantes que concentram poder pessoal do que com dirigentes de democracias liberais tradicionais. Não se trata necessariamente de identidade ideológica completa. Trata-se de uma concepção semelhante da política: instituições aparecem como obstáculos; lideranças fortes aparecem como solução.

É uma inversão histórica particularmente simbólica quando ocorre justamente dentro da OTAN. A aliança, criada em 1949, não nasceu apenas como uma organização militar destinada a conter a expansão soviética. Ela também expressava um compromisso político entre democracias constitucionais. Sua força derivava da existência de regras compartilhadas, consultas permanentes e decisões coletivas.

Trump frequentemente parece enxergar tudo isso como burocracia desnecessária. Sua preferência é por relações diretas entre líderes, negociações personalizadas e demonstrações públicas de força.

A consequência inevitável é o enfraquecimento das próprias instituições que durante décadas sustentaram a influência internacional dos Estados Unidos.

Talvez por isso, um dos momentos mais significativos da cúpula não tenha ocorrido durante as reuniões oficiais. Veio das palavras da senadora democrata Jeanne Shaheen ao lembrar que os fundadores da República norte-americana estruturaram sua Constituição porque “não queriam um rei”.

A observação possui enorme densidade histórica.

Os Estados Unidos nasceram justamente da rejeição ao poder absoluto.

Toda sua arquitetura constitucional foi construída para impedir que um único indivíduo pudesse se sobrepor às instituições.

O sistema de freios e contrapesos, a separação entre os Poderes e o controle recíproco entre Executivo, Legislativo e Judiciário nasceram exatamente para limitar personalismos.

É esse princípio que hoje parece permanentemente tensionado.

Trump frequentemente governa como se sua legitimidade eleitoral lhe conferisse autoridade para subordinar instituições, tratados, alianças internacionais e até organismos multilaterais à sua própria vontade.

O resultado é uma crescente confusão entre Estado e governo.

Mais ainda: entre governo e governante.

Essa transformação produz efeitos que ultrapassam as fronteiras americanas.

Quando o principal líder da maior potência militar do planeta converte reuniões diplomáticas em espetáculos pessoais, toda a previsibilidade da ordem internacional se enfraquece. Aliados passam a agir com cautela. Adversários testam limites. Parceiros procuram diversificar suas relações internacionais. A confiança, elemento central de qualquer aliança estratégica, começa lentamente a se deteriorar.

Paradoxalmente, Trump acredita fortalecer a posição americana ao projetar uma imagem de força pessoal.

O efeito pode ser exatamente o contrário.

Quanto mais a política externa dos Estados Unidos depende da personalidade de um presidente, menos confiável ela se torna para seus próprios aliados. E, quanto menor a confiança, menor também a capacidade de liderança internacional de Washington.

A cena descrita pelo New York Times talvez permaneça como uma das imagens mais simbólicas deste momento histórico. Enquanto bandas tocavam, aviões riscavam o céu e canhões saudavam sua chegada, a OTAN desaparecia atrás do personagem principal.

Quando uma aliança militar criada para defender instituições democráticas passa a servir de cenário para a exaltação de um único líder, o espetáculo pode impressionar as câmeras. Mas revela, ao mesmo tempo, algo muito mais profundo: a crescente dificuldade dos Estados Unidos em distinguir a autoridade das instituições do brilho efêmero de uma personalidade política.

Talvez resida aí a maior fragilidade da liderança americana contemporânea. Não na redução de seu poder militar, que permanece incomparável, mas na progressiva substituição da força das instituições pela centralidade do indivíduo.

Na verdade, impérios raramente entram em declínio apenas porque outros se fortalecem. Frequentemente, começam a enfraquecer quando deixam de confiar nas próprias instituições e passam a acreditar que seu destino pode ser encarnado por um único homem. É justamente essa impressão que Donald Trump oferece hoje ao mundo.

¨      Segmento europeu da OTAN inicia preparativos para guerra contra a Rússia em 2030, diz analista

A Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Ancara demonstrou a orientação prática do segmento europeu da aliança no sentido de se preparar para uma guerra contra a Rússia em 2030, declarou à Sputnik Igor Korotchenko, analista militar russo.

Korotchenko destacou que a preparação da OTAN para uma guerra contra a Rússia é evidenciada por programas que preveem a rápida obtenção dos recursos financeiros necessários e o início de uma produção em larga escala na Europa, com base nas instalações do complexo militar-industrial regional.

"Os resultados concretos da última cúpula da OTAN, realizada em Ancara, indicam que os países da aliança, especialmente os europeus, adotaram um rumo voltado para a preparação prática de mecanismos de guerra contra a Rússia, com a perspectiva de um confronto militar direto em 2030", ressaltou.

Segundo o analista, os europeus preveem o desenvolvimento de sistemas de armamento, como drones de longo alcance, mísseis de cruzeiro de todos os tipos de lançamento e mísseis balísticos de médio alcance.

Nesse contexto, o complexo militar-industrial e as Forças Armadas da Ucrânia têm um papel importante, devido à sua experiência em operações militares contra a Rússia, observou.

De acordo com os planos dos estrategistas da OTAN, a Ucrânia deverá continuar a conduzir operações militares contra a Rússia nos próximos 3 a 4 anos, contando com o apoio político, financeiro e técnico-militar dos países ocidentais.

Korotchenko apontou que é importante também a alocação dos recursos financeiros necessários para manter o regime do atual líder ucraniano Vladimir Zelensky à tona. Isso diz respeito tanto ao financiamento corrente quanto à liberação de parcelas específicas de recursos para a aquisição de armamentos e à continuação das operações de combate.

"A aliança finalmente tirou a máscara e declara abertamente seu objetivo principal: o enfraquecimento máximo da Rússia pelas mãos da Ucrânia nos próximos 3 a 4 anos. Para isso, está se preparando ativamente e já demonstrando força", acrescentou.

A ideia é mobilizar exércitos em massa, incluindo recrutas, após passarem por rearmamento e concentrarem grupos de tropas de ataque, bem como a infraestrutura de comando necessária, diretamente nas fronteiras russas. O objetivo é estarem prontos para um ataque em grande escala à Rússia.

Na primeira fase, a OTAN realizaria ataques o mais eficazes possível contra alvos da infraestrutura militar, industrial e energética. A ideia é forçar Moscou, conforme imaginam os estrategistas ocidentais, a reconhecer as realidades existentes e a assinar, de fato, condições de encerramento do conflito na Ucrânia que são manifestamente inaceitáveis. para a Rússia, concluiu.

Após a cúpula em Ancara, os líderes dos países da OTAN aprovaram uma das declarações conjuntas mais curtas da história da aliança, composta por cinco seções temáticas.

O documento enfatiza principalmente os gastos militares, o desenvolvimento da indústria de defesa e o apoio contínuo à Ucrânia. A OTAN também declarara a intenção de desenvolver capacidades para ataques profundos e de alta precisão, sistemas integrados de defesa aérea e antimísseis, sistemas não tripulados, inteligência artificial e capacidades de inteligência.

 

Fonte: Viomundo/Brasil 247/Sputnik Brasil

 

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