Marcelo
Zero: Pobre Europa, pobre Otan
A
Europa é lenta. Tarda em entender os cenários cambiantes.
Demorou
a entender o fenômeno Trump.
Só
agora começa a entender que o “America First” é, na realidade, o “American
Only”.
Trump
não tem aliados verdadeiros. Vê as relações internacionais como um jogo de soma
zero. Para que ele ganhe alguma coisa, alguém tem de perder.
Todos
os países têm de perder alguma coisa para que os EUA ganhem. Isso se aplica
tanto a antigos aliados quanto a adversários ou supostos adversários.
Trump
também possui imenso desprezo por instituições plurilaterais e multilaterais de
um modo geral. As enxerga como escolhos para uma atuação mais livre dos EUA no
cenário planetário, e também como sorvedouros inúteis de dinheiro e recursos de
Washington.
Para
ele, as regras internacionais previamente acordadas e o direito internacional
público não possuem valor algum. Simplesmente não se aplicam aos EUA, ao American
Only.
Por
isso, a sua estratégia é a de “bilatelarizar” as relações internacionais dos
EUA, buscando sempre, em relações assimétricas, impor seus interesses. Vivemos,
com Trump, o auge de relações mundiais hobbesianas, baseadas exclusivamente na
força (financeira, militar, geopolítica etc.).
Trump,
que sempre detestou a Otan, não voltará atrás em sua decisão de não apoiar a
Ucrânia, de forma substantiva. Sabe que é algo inútil. Ainda mais agora, em que
sua prioridade é conseguir sair do Irã, sem reconhecer sua derrota.
A
Ucrânia não tem condições demográficas, econômicas e militares de ganhar a
guerra contra a Rússia.
Kiev
controla, hoje, apenas cerca de 28 milhões de habitantes, e trata-se de uma
população bastante envelhecida, já que as taxas de natalidade das mulheres
ucranianas estão, há décadas, entre as menores do mundo. Daí o desespero para
recrutar mercenários.
Também
há a questão econômica desastrosa da Ucrânia.
A
economia da Ucrânia permanece cerca de 20% menor do que seu nível pré-guerra.
Após contrações iniciais massivas, o PIB cresceu 1,8% em 2025, mas o PIB real
encolheu 0,5% no primeiro trimestre de 2026 devido aos extensos ataques russos
à infraestrutura energética.
As
perdas econômicas totais desde a invasão de 2022 ultrapassam US$ 1,7 trilhão.
O Banco
Nacional da Ucrânia revisou para baixo sua previsão de crescimento do PIB para
2026 para 1,3%, abaixo das estimativas anteriores, devido à contínua escassez
de energia.
Apenas
cerca de 60 % da demanda por energia da Ucrânia é atendida, inclusive na
capital, Kiev.
Evidentemente,
um país, nessas condições, não tem condições de crescer economicamente e, muito
menos, de sustentar uma guerra de atrito, mesmo recebendo auxílio de países
europeus.
Esse
auxílio europeu, com base em drones, permite à Ucrânia, no máximo,
atrasar o avanço da Rússia no leste do país e até mesmo provocar alguns ataques
em solo russo. Mas isso está longe de fazer a guerra pender para o lado
ucraniano.
A
Rússia tem muito mais homens, força aérea, artilharia e mísseis balísticos
hipersônicos do que a Ucrânia, armas capazes de destruir esse país, se
quisesse.
Mas a
Rússia não quer destruir a Ucrânia. Nem ocupá-la. São países estreitamente
vinculados por traços culturais e históricos. Isso é delírio europeu.
A
pretensão da Rússia sempre foi a de proteger a população russófona da Ucrânia e
a de assegurar a neutralidade do seu território.
Outro
delírio europeu é a ideia de que a Ucrânia é apenas um primeiro passo para que
Putin possa “invadir” países do Leste Europeu, de modo a recriar a antiga
glória do Império Russo. Isso não tem qualquer base fática.
Na
realidade, no início deste século, Putin manifestou o desejo de ingressar na
Otan e de se integrar à Europa. Foi rejeitado.
E, em
2008, a Otan tomou a fatídica decisão de incorporar, em um momento futuro, a
Ucrânia em suas hostes.
Pavimentando,
assim, a guerra futura, pois todos sabiam que a Ucrânia na Otan é uma questão
existencial para todas as forças políticas russas, não apenas para Putin.
O fato
é que a Europa e a Otan não obterão, nessa reunião na Turquia, mísseis Patriots americanos
para combater os mísseis russos. Trump quer os seus Patriots para
voltar a usá-los no Irã, se necessário.
A
Rússia continuará a ter prevalência no campo de batalha.
A única
coisa que a Europa e a Otan estão conseguindo com essa teimosia estratégica é
aproximar o mundo de uma terceira guerra mundial.
É
cegueira estratégica somada ao desperdício de recursos. Recursos cada vez mais
escassos.
Mas a
Europa, repetimos, é lenta, percebe os fatos tarde demais. Não entende mais o
mundo. Vive de mitos arcaicos.
A Otan
europeia está condenada ao fracasso.
¨ Quando a OTAN vira
palco. Por Maria Luiza Falcão
A
leitura do artigo “Drama e espetáculo marcam a entrada de Trump na OTAN”,
publicado pelo The New York Times e assinado pelos correspondentes da Casa
Branca Shawn McCreesh e Tyler Pager, oferece um retrato revelador da mais
recente participação de Donald Trump em uma cúpula da OTAN. Mais do que narrar
um episódio diplomático, a reportagem evidencia como a presença do presidente
norte-americano tende a deslocar o foco das instituições para sua própria
figura, transformando encontros multilaterais em grandes espetáculos políticos.
Play
Video
A
cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), realizada na
terça-feira (07/07) em Ancara, na Turquia, deveria estar concentrada em alguns
dos temas mais delicados da política internacional contemporânea: a guerra
entre Rússia e Ucrânia, a escalada militar envolvendo Irã e Israel, os novos
desafios tecnológicos para a defesa coletiva e a redefinição do papel da
aliança em um mundo cada vez mais multipolar.
Mas
bastou Donald Trump desembarcar na capital turca para que o centro das atenções
deixasse de ser a própria OTAN. Como observaram McCreesh e Pager, “o centro de
gravidade da cúpula deslocou-se exatamente para onde Trump mais gosta: para ele
mesmo”. A frase resume com precisão uma das características mais marcantes da
política externa de Trump: a substituição da diplomacia pelo espetáculo.
Enquanto
os líderes da OTAN chegavam a Ancara, para sua cúpula anual, Trump criticava os
aliados por não ajudarem os Estados Unidos em sua guerra contra o Irã. “A
Itália nos rejeitou, a Alemanha nos rejeitou e a França nos rejeitou”, disse
ele. Na manhã de quarta-feira, continuou seus insultos, referindo-se à Espanha
de forma jocosa como nação “sem esperança”.
A
recepção preparada pelo presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, parecia
cuidadosamente desenhada para alimentar essa lógica de endeusamento da figura
do presidente estadunidense. Banda militar, salvas de canhão, aviões de combate
cruzando o céu e uma cerimônia reservada exclusivamente ao presidente
norte-americano produziram uma imagem mais próxima da celebração de um monarca
do que do encontro entre chefes de Estado de uma aliança baseada, ao menos
formalmente, na cooperação entre países soberanos.
Não foi
um detalhe protocolar.
Foi uma
demonstração de como líderes experientes aprenderam a lidar com Trump:
compreendem que sua necessidade permanente de reconhecimento pessoal pode ser
utilizada como instrumento de aproximação política.
O
problema é que essa dinâmica desloca completamente a natureza das relações
internacionais.
Durante
décadas, a força da liderança americana repousava menos sobre a personalidade
de seus presidentes do que sobre a previsibilidade de suas instituições.
Mudavam os ocupantes da Casa Branca, mas permaneciam relativamente constantes
os compromissos assumidos pelos Estados Unidos perante seus aliados.
Era
justamente essa estabilidade institucional que permitia à OTAN funcionar.
Trump
inverte essa lógica. Em vez de representar uma potência institucional, procura
apresentar-se como o verdadeiro centro do sistema internacional.
Os
acontecimentos da própria cúpula ilustram esse comportamento.
Antes
mesmo das discussões sobre segurança coletiva, Trump voltou a reivindicar a
Groenlândia, criticou a Dinamarca, cobrou publicamente Reino Unido, França e
Itália pelo que considera insuficiente apoio militar aos Estados Unidos,
reacendeu seu conflito com a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e ainda
misturou questões relativas à Copa do Mundo com temas estratégicos da aliança
atlântica.
Nada
parece escapar à necessidade permanente de transformar qualquer reunião
internacional em palco para sua própria atuação.
Essa
característica não constitui mera excentricidade.
Ela
produz consequências concretas para o funcionamento da diplomacia.
A
política externa deixa de ser conduzida por canais institucionais previsíveis e
passa a depender do humor, das preferências pessoais e dos impulsos do
presidente. Os aliados deixam de negociar com os Estados Unidos enquanto Estado
e passam, frequentemente, a tentar administrar as reações de um único
indivíduo.
É uma
diferença profunda.
Mais do
que representar seu país, Trump frequentemente parece representar a si mesmo.
Essa
personalização da política internacional produz outro efeito igualmente
preocupante: aproxima Trump de líderes que compartilham uma visão fortemente
centralizadora do poder.
Sua
relação cordial com Erdogan não constitui exceção.
Ao
longo de sua trajetória política, Trump demonstrou repetidas vezes maior
afinidade com governantes que concentram poder pessoal do que com dirigentes de
democracias liberais tradicionais. Não se trata necessariamente de identidade
ideológica completa. Trata-se de uma concepção semelhante da política:
instituições aparecem como obstáculos; lideranças fortes aparecem como solução.
É uma
inversão histórica particularmente simbólica quando ocorre justamente dentro da
OTAN. A aliança, criada em 1949, não nasceu apenas como uma organização militar
destinada a conter a expansão soviética. Ela também expressava um compromisso
político entre democracias constitucionais. Sua força derivava da existência de
regras compartilhadas, consultas permanentes e decisões coletivas.
Trump
frequentemente parece enxergar tudo isso como burocracia desnecessária. Sua
preferência é por relações diretas entre líderes, negociações personalizadas e
demonstrações públicas de força.
A
consequência inevitável é o enfraquecimento das próprias instituições que
durante décadas sustentaram a influência internacional dos Estados Unidos.
Talvez
por isso, um dos momentos mais significativos da cúpula não tenha ocorrido
durante as reuniões oficiais. Veio das palavras da senadora democrata Jeanne
Shaheen ao lembrar que os fundadores da República norte-americana estruturaram
sua Constituição porque “não queriam um rei”.
A
observação possui enorme densidade histórica.
Os
Estados Unidos nasceram justamente da rejeição ao poder absoluto.
Toda
sua arquitetura constitucional foi construída para impedir que um único
indivíduo pudesse se sobrepor às instituições.
O
sistema de freios e contrapesos, a separação entre os Poderes e o controle
recíproco entre Executivo, Legislativo e Judiciário nasceram exatamente para
limitar personalismos.
É esse
princípio que hoje parece permanentemente tensionado.
Trump
frequentemente governa como se sua legitimidade eleitoral lhe conferisse
autoridade para subordinar instituições, tratados, alianças internacionais e
até organismos multilaterais à sua própria vontade.
O
resultado é uma crescente confusão entre Estado e governo.
Mais
ainda: entre governo e governante.
Essa
transformação produz efeitos que ultrapassam as fronteiras americanas.
Quando
o principal líder da maior potência militar do planeta converte reuniões
diplomáticas em espetáculos pessoais, toda a previsibilidade da ordem
internacional se enfraquece. Aliados passam a agir com cautela. Adversários
testam limites. Parceiros procuram diversificar suas relações internacionais. A
confiança, elemento central de qualquer aliança estratégica, começa lentamente
a se deteriorar.
Paradoxalmente,
Trump acredita fortalecer a posição americana ao projetar uma imagem de força
pessoal.
O
efeito pode ser exatamente o contrário.
Quanto
mais a política externa dos Estados Unidos depende da personalidade de um
presidente, menos confiável ela se torna para seus próprios aliados. E, quanto
menor a confiança, menor também a capacidade de liderança internacional de
Washington.
A cena
descrita pelo New York Times talvez permaneça como uma das imagens mais
simbólicas deste momento histórico. Enquanto bandas tocavam, aviões riscavam o
céu e canhões saudavam sua chegada, a OTAN desaparecia atrás do personagem
principal.
Quando
uma aliança militar criada para defender instituições democráticas passa a
servir de cenário para a exaltação de um único líder, o espetáculo pode
impressionar as câmeras. Mas revela, ao mesmo tempo, algo muito mais profundo:
a crescente dificuldade dos Estados Unidos em distinguir a autoridade das
instituições do brilho efêmero de uma personalidade política.
Talvez
resida aí a maior fragilidade da liderança americana contemporânea. Não na
redução de seu poder militar, que permanece incomparável, mas na progressiva
substituição da força das instituições pela centralidade do indivíduo.
Na
verdade, impérios raramente entram em declínio apenas porque outros se
fortalecem. Frequentemente, começam a enfraquecer quando deixam de confiar nas
próprias instituições e passam a acreditar que seu destino pode ser encarnado
por um único homem. É justamente essa impressão que Donald Trump oferece hoje
ao mundo.
¨
Segmento europeu da OTAN inicia preparativos para guerra
contra a Rússia em 2030, diz analista
A
Cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Ancara demonstrou
a orientação prática do segmento europeu da aliança no sentido de se preparar
para uma guerra contra a Rússia em 2030, declarou à Sputnik Igor Korotchenko,
analista militar russo.
Korotchenko
destacou que a preparação da OTAN para uma guerra contra a
Rússia é
evidenciada por programas que preveem a rápida obtenção dos recursos
financeiros necessários e o início de uma produção em larga escala na
Europa, com base nas instalações do complexo militar-industrial regional.
"Os
resultados concretos da última cúpula da OTAN, realizada em Ancara, indicam que
os países da aliança, especialmente os europeus, adotaram um rumo voltado
para a preparação prática de mecanismos de guerra contra a Rússia, com a
perspectiva de um confronto militar direto em 2030", ressaltou.
Segundo
o analista, os europeus preveem o desenvolvimento de sistemas de
armamento, como drones de longo alcance, mísseis de cruzeiro de todos os tipos
de lançamento e mísseis balísticos de médio alcance.
Nesse
contexto, o complexo militar-industrial e as Forças Armadas da
Ucrânia têm
um papel importante, devido à sua experiência em operações militares contra a
Rússia, observou.
De
acordo com os planos dos estrategistas da OTAN, a Ucrânia deverá continuar
a conduzir operações militares contra a Rússia nos próximos 3 a 4 anos,
contando com o apoio político, financeiro e técnico-militar dos países
ocidentais.
Korotchenko
apontou que é importante também a alocação dos recursos financeiros necessários
para manter o regime do atual líder ucraniano Vladimir Zelensky à tona. Isso
diz respeito tanto ao financiamento corrente quanto à liberação de
parcelas específicas de recursos para a aquisição de armamentos e à
continuação das operações de combate.
"A
aliança finalmente tirou a máscara e declara abertamente seu objetivo
principal: o enfraquecimento máximo da Rússia pelas mãos da Ucrânia nos
próximos 3 a 4 anos. Para isso, está se preparando ativamente e já
demonstrando força", acrescentou.
A ideia
é mobilizar exércitos em massa, incluindo recrutas, após passarem por
rearmamento e concentrarem grupos de tropas de ataque, bem como a
infraestrutura de comando necessária, diretamente nas fronteiras russas. O
objetivo é estarem prontos para um ataque em grande escala à Rússia.
Na
primeira fase, a OTAN realizaria ataques o mais eficazes possível contra
alvos da infraestrutura militar, industrial e energética. A ideia é forçar
Moscou, conforme imaginam os estrategistas ocidentais, a reconhecer as
realidades existentes e a assinar, de fato, condições de encerramento do
conflito na Ucrânia que são manifestamente inaceitáveis. para a Rússia,
concluiu.
Após a
cúpula em Ancara, os líderes dos países da OTAN aprovaram uma
das declarações conjuntas mais curtas da história da aliança, composta por
cinco seções temáticas.
O
documento enfatiza principalmente os gastos militares, o desenvolvimento da
indústria de defesa e o apoio contínuo à Ucrânia. A OTAN também declarara
a intenção de desenvolver capacidades para ataques profundos e de alta
precisão, sistemas integrados de defesa aérea e antimísseis, sistemas não
tripulados, inteligência artificial e capacidades de inteligência.
Fonte:
Viomundo/Brasil 247/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário