IA
ameaça vida digna e impacto social da tecnologia vai ser cobrado nas urnas, diz
Karen Hao
Um ano
se passou desde que a jornalista estadunidense Karen Hao colocou no mundo
“Empire of AI”, um livro-reportagem com uma investigação minuciosa sobre a
OpenAI, criadora do ChatGPT, e sobre a indústria de tecnologia que sustenta
hoje o desenvolvimento de inteligência artificial.
Apesar
do curto período, muita coisa mudou. Nos Estados Unidos, a resistência aos data
centers cresceu e se espalhou a ponto de data centers virarem uma questão
eleitoral. Elon Musk, um dos co-fundadores da OpenAI, processou o CEO da
empresa, Sam Altman, e perdeu. Os executivos que lideram a corrida da IA se
aproximaram ainda mais do presidente Donald Trump. As big techs se integraram
de tal maneira à máquina de guerra dos Estados Unidos que data centers passaram
a ser alvos militares na guerra do Pentágono contra o Irã.
“Estamos,
sem dúvida, chegando a um ponto de virada. Acho notável como, nos Estados
Unidos, a narrativa e a percepção pública sobre a IA mudaram completamente em
relação a quando comecei a trabalhar no livro”, disse Hao em entrevista ao
Intercept Brasil em São Paulo. A jornalista, que já trabalhou em veículos como
The Atlantic e MIT Technology Review, esteve no Brasil para lançar a versão
brasileira de “O Império da IA”, pela Editora Rocco, com tradução de Ananda
Alves e André Sequeira.
O livro
chega ao Brasil no momento em que o país se torna palco dessa corrida global.
Atraídas pela promessa de energia limpa e abundante, empresas de tecnologia têm
buscado se instalar por aqui enquanto o governo federal tenta emplacar uma
política nacional de incentivo a investimentos em data centers.
Às
vésperas das eleições, a IA se impõe como uma questão política no Brasil. Nos
Estados Unidos, a oposição à tecnologia e a exigência por regulação formam um
dos poucos temas que unem a população, explica a autora.
“O que
acontece nos EUA deve ser visto como um sinal claro de que a IA ganhou uma
importância tamanha que as pessoas estão dispostas a votar com base nessa
questão — e a tirar do poder qualquer autoridade que não queira proteger os
interesses do cidadão comum e da comunidade diante da forma como essa indústria
está devorando os próprios fundamentos de uma vida digna.”
Leia a
entrevista abaixo:
• Muita coisa aconteceu desde que “Empire
of AI” foi publicado em maio do ano passado. Vimos a indústria de IA se alinhar
ainda mais a Trump e a resistência aos data centers crescer nos Estados Unidos.
Estamos chegando a um ponto de virada? O que mudou neste ano?
Sem
dúvida, estamos chegando a um ponto de virada. É notável como a narrativa e a
percepção pública nos Estados Unidos sobre a IA mudaram completamente em
relação a quando comecei a trabalhar no livro. Antes, havia um enorme hype e a
crença de que a IA seria a próxima revolução a entregar tudo o que as empresas
de tecnologia prometiam. Agora, as pessoas percebem que se trata de uma
indústria profundamente exploratória e extrativista, que, na verdade, está
desapropriando e prejudicando muitas pessoas ao redor do mundo.
Quanto
aos sinais desse ponto de virada, o que vemos, em primeiro lugar, é que agora
existem consequências políticas reais para quem está no poder e se alia à
indústria de IA.
Há
autoridades eleitas perdendo seus cargos ao tentarem ajudar a perpetuar as
práticas da indústria de IA. Há estudantes vaiando executivos em cerimônias de
formatura quando a IA é mencionada. Crescem relatos de pessoas que trabalham
para a indústria de IA — como eletricistas que lucram com o boom dos data
centers — que sofrem exclusão social ao mencionar que participam do suporte ao
desenvolvimento da IA.
Todos
esses são sinais diferentes de que veremos uma mudança bastante drástica na
forma como a indústria de IA continua avançando e em como governos e outras
forças de fiscalização se posicionarão em relação a ela.
• Os impactos da IA – alertados há tempos
por especialistas, jornalistas e ativistas – tornaram-se mais visíveis para o
público em geral?
Sim,
acho que há algumas razões para esses impactos terem se tornado mais visíveis.
Uma delas é que há muito mais conscientização pública acontecendo agora; há
mais jornalistas cobrindo essas histórias e mais educadores falando sobre o
assunto em sala de aula.
Outra
questão é que a IA se tornou cada vez mais difundida, e seu desenvolvimento e
implementação agora afetam diretamente a vida das pessoas. Elas não precisam
mais aprender sobre o impacto dessas tecnologias apenas lendo jornais, porque
estão aprendendo isso agora apenas observando o que as cercam.
E essa
é parte da razão pela qual essa percepção mudou radicalmente: os mitos da
indústria de IA prosperam quando há um vácuo de informações, e esse vácuo está
sendo preenchido agora pela realidade.
• ‘Os mitos da indústria de IA prosperam
quando há um vácuo de informações, e esse vácuo está sendo preenchido agora
pela realidade’.A indústria de tecnologia, com a ajuda da grande mídia, tem
promovido com sucesso a narrativa de que a IA é inevitável. Vemos isso no
próprio jornalismo, com a adoção de ferramentas de IA nas redações e acordos
para treinar modelos com conteúdo jornalístico. Como retomar o controle sobre
isso e mostrar às pessoas que não é algo inevitável?
Bem, há
alguns pontos. Acho que o primeiro é que os jornalistas precisam continuar
fazendo o que sempre fizemos diante de forças poderosas: cobrar
responsabilidade desse poder.
E isso
envolve investir mais em jornalismo investigativo e mostrar como o dinheiro
circula no sistema, como ideologias alimentam a expansão dessas indústrias e
como o setor se alinha a outros centros de poder na sociedade — o que inclui a
própria mídia. Outra coisa que precisamos fazer, como jornalistas, é ter uma
visão muito clara de qual é, de fato, nossa relação com essas tecnologias e
empresas. Como jornalistas, somos defensores da democracia.
Nunca
devemos participar de nada que enfraqueça a democracia. Isso também
comprometeria nosso próprio propósito como o “quarto poder”. Por isso, acredito
que as empresas de mídia não devem, de forma alguma, firmar parcerias com essas
companhias.
Ao
fazer parcerias e fornecer conteúdo para a próxima geração de seus modelos, ou
ao utilizar tecnologias que enraízam seus tentáculos em nossa capacidade de
operar e realizar nosso trabalho, acabamos perpetuando ainda mais esse império.
Validamos e viabilizamos a continuidade de sua exploração e extração de
recursos. Minamos nossa própria independência para contestá-los quando abusam
do poder.
Para os
jornalistas que não são executivos de mídia, acredito que parte do que
precisamos fazer é considerar a organização como trabalhadores do setor,
cobrando responsabilidade de nossos próprios executivos para evitar que fechem
esses acordos.
Ao
mesmo tempo, surge a questão: como jornalistas, podemos nos beneficiar das
tecnologias de IA. Então, como tirar proveito delas sem apoiar a expansão desse
império? Isso envolve, então, investir em mais tipos de modelos de IA que sejam
alternativas ao que os impérios oferecem. Isso inclui soluções de código
aberto.
• Teremos eleições gerais em outubro no
Brasil, e o debate sobre IA costuma focar no uso de deepfakes e propagandas
pelas campanhas. Mas há outro aspecto: a IA se tornar, por si só, uma questão
política. Nos Estados Unidos, por exemplo, candidatos já se posicionam contra
data centers por ser um tema polêmico e o setor de IA injeta dinheiro em
campanhas para influenciar resultados eleitorais. Como você vê esse cenário se
desenrolar? Para onde devemos olhar?
Concordo
plenamente que a IA se tornou um tema extremamente sensível e debatido nos EUA
— algo, honestamente, bastante extraordinário. Se pensarmos em todas as
questões que geram conflito entre os americanos, é notável que a IA tenha
assumido um papel central em meio a tantos outros assuntos em pauta, como
direitos reprodutivos, guerras e economia. De alguma forma, a IA ganhou
destaque e, ao mesmo tempo, uniu os estadunidenses.
Hoje,
80% dos estadunidenses compartilham a mesma opinião sobre a IA: estão
preocupados com a tecnologia e querem que o setor seja responsabilizado. Não me
lembro da última vez que 80% da população concordou com algo. Acredito que o
mesmo acontecerá em outros países, caso não levem a sério o que está ocorrendo
nos Estados Unidos como um alerta.
No
Brasil, na União Europeia e em outros lugares, se os formuladores de políticas
ignorarem a ameaça que esse setor representa para a qualidade de vida, a
economia e o pensamento crítico das próximas gerações, enfrentarão uma mudança
na opinião pública contra si. Eles perderão seus cargos nas urnas. Serão
responsabilizados da mesma forma por não refletirem, de fato, a vontade da
população ao elaborar políticas públicas.
Acredito
que o que acontece nos Estados Unidos deve ser visto como um sinal claro de que
a IA ganhou uma importância tamanha que as pessoas estão dispostas a votar com
base nessa questão. Inclusive, a tirar do poder qualquer autoridade que não
queira proteger os interesses do cidadão comum e da comunidade diante da forma
como essa indústria está devorando os próprios fundamentos de uma vida digna.
• A energia virou a principal barreira
para a expansão da indústria de IA. Em muitos países, a rede elétrica é incapaz
de absorver a demanda dos mega data centers, o que significa recorrer a
combustíveis fósseis para abastecê-los. O Brasil é um caso à parte: temos uma
matriz renovável e o governo tenta agora oferecer o excedente elétrico do país
para atrair essa indústria. Com isso, as empresas de tecnologia começam a
vender a imagem de que suas operações por aqui são sustentáveis. A narrativa do
data center limpo seria uma forma de greenwashing – ou seja, uma maneira de
vender a ilusão de sustentabilidade?
O
Intercept Brasil produziu reportagens incríveis sobre essa questão específica.
Portanto, vou apenas repetir o que aprendi com elas: trata-se, sem dúvida, de
uma estratégia de greenwashing. A questão da energia é que existe uma
quantidade finita disponível. Mesmo que a indústria utilize energia
hidrelétrica, essa é uma energia que deixa de ser usada por outro setor — para
produzir alimentos, por exemplo, ou outros itens de que realmente necessitamos.
Esse é um aspecto do problema.
Outra
questão é que o impacto dos data centers vai muito além da energia. As
reportagens do Intercept também me mostraram como a indústria mapeia as
comunidades atingidas ou devastadas por crises climáticas — como inundações e
secas — para oferecer uma solução ou “salvação” econômica, quando, na verdade,
o objetivo é aprofundar a exploração dos recursos dessas comunidades.
Não se
trata apenas de energia. Há muitos desafios interconectados que os data centers
aceleram e alimentam. Esse é um ponto que, a meu ver, comunidades e
formuladores de políticas precisam manter em destaque.
Os data
centers estão na intersecção de várias dimensões da policrise. Precisamos ter
uma visão muito clara e realista do que isso representa.
• Qual é a mensagem mais importante que
você espera que os leitores brasileiros tirem de “O Império da IA”?
Acredito
que há duas coisas principais que espero que as pessoas extraiam deste livro. A
primeira é que a IA é um conjunto de tecnologias. Portanto, quando discutimos
que tipo de IA queremos usar, há uma enorme margem de escolha envolvida nessa
questão. Da mesma forma que falamos sobre a transição do nosso sistema de
transporte — deixando de priorizar os combustíveis fósseis para focar em modais
mais sustentáveis e coletivos —, deveríamos abordar a IA sob essa mesma ótica.
Como queremos conceber e selecionar o conjunto adequado de tecnologias de IA
para que elas, em última análise, ajudem a promover uma abordagem social mais
sustentável, democrática e voltada para a comunidade?
E, em
segundo lugar, uma vez reconhecida a existência de uma margem significativa de
escolha, espero que as pessoas percebam que isso significa ter voz ativa na
definição de quais tipos de tecnologias de IA vamos desenvolver e implementar
no nosso futuro.
Não
importa se você trabalha na indústria de tecnologia ou não, ou se é pesquisador
de IA ou não. Independentemente de onde você esteja na sociedade, pode
participar da definição da trajetória futura dessa tecnologia e,
consequentemente, do nosso futuro coletivo.
• Qual foi um acontecimento na indústria
de IA no último ano que você não previu? Por quê?
A
velocidade com que as pessoas começaram a se organizar em movimentos de base
para resistir à indústria de IA tem sido notável para mim. Eu imaginava que
haveria resistência à indústria, mas não esperava que isso acontecesse tão
rapidamente e que viesse de tantos segmentos diferentes da sociedade ao redor
do mundo. Isso tem sido realmente lindo e me traz muita esperança.
Fonte:
Por Laís Martins, Samantha Prado e Rafaela Soli, em The Intercept

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