Melancolia
e crítica à ditadura em Cazuza
Não é
possível separar a trajetória de Cazuza e o processo de transição da ditadura,
na década de 1980. Suas letras expressam as esperanças e, posteriormente, as
frustrações que marcaram o processo que redundou na construção da chamada Nova
República. Se em 1985 o artista era o rosto de uma juventude ainda esperançosa
pela possibilidade de mudança, ao fim de sua vida, em 1990, sua obra havia se
transformado em uma das críticas mais ferozes e lúcidas aos limites dessa
transição.
Sua
trajetória artística começa em 1981, como vocalista da banda Barão Vermelho.
Foram três álbuns com a banda, com letras em um tom mais leve, como “Bete
balanço e “Pro dia nascer feliz”. O Barão Vermelho e seu principal letrista,
Cazuza, não tinham “a inquietação política da brasiliense Legião Urbana e
privilegiava dramas da intimidade de jovens urbanos”. Depois de sua saída da
Barão Vermelho, Cazuza, em sua carreira solo, se torna uma espécie de porta-voz
da decepção com a transição da ditadura.
O ano
de 1985 marca o ponto de inflexão na percepção de Cazuza sobre o processo
político e social pelo qual passava o país. Com o fim da ditadura e a vitória
de Tancredo Neves no Colégio Eleitoral, o Brasil vivia um clima de expectativa
pela volta da democracia plena e das eleições diretas. Contudo,
contraditoriamente, depois de enterrada a emenda Dante de Oliveira, aquela
eleição ainda foi realizada de forma indireta.
Nesse
cenário ocorreu o primeiro Rock in Rio, onde Cazuza, ainda como vocalista do
Barão Vermelho, encerrou o show enrolado na bandeira brasileira, cantando a
música “Pro dia nascer feliz”. Contudo, o entusiasmo inicial foi rapidamente
confrontado pela realidade política. Com a morte de Tancredo Neves e a posse de
seu vice, José Sarney – que havia sido um colaborado da ditadura –
sinalizava-se que a mudança não seria tão profunda quanto o esperado.
Escrevendo em 1990, e fazendo um balanço desses anos, o sociólogo Florestan
Fernandes dizia:
“O
último quinquênio representou um amplo deslocamento histórico e abriu promessas
autênticas de transformação profunda da sociedade civil, da cultura e do
Estado. Porém, marchamos em ziguezague e sob o guante da burguesia associada
(nacional e estrangeira), dentro de limites estritos, impostos abertamente pela
tutela militar até hoje”.
Essa
mudança se expressou nas letras de Cazuza, que, do tom até mesmo alegre dos
primeiros anos do Barão Vermelho, passou para o pessimismo. Sua decepção com a
transição da ditadura pode ser entendida como uma possível expressão dos
limites do processo. Florestan Fernandes, ainda no começo da década de 1980,
afirmava que “as pressões do tope da sociedade conferem, portanto, um amplo
espaço política à ditadura, no qual ela pode movimentar-se, defender-se e até
ganhar elasticidade para parecer ser o que não é”. Nesse processo, a ditadura
“se despoja de alguns de seus traços e funções, mas incorpora outros e, o que é
deveras relevante, pode preservar quase intocável seu núcleo de poder”.
Cazuza
captou essa essência em suas letras. Sua transição para a carreira solo
coincide com uma paulatina mudança de percepção em relação à realidade. O
otimismo em relação ao dia que poderia nascer feliz vai abrindo passagem a uma
certa melancolia, como se percebe na música “Mal nenhum”, de 1985, no álbum que
ficou conhecido como Exagerado. Nessa música, canta Cazuza:
Nunca
viram ninguém triste?
Por que
não me deixam em paz?
As
guerras são tão tristes
E não
têm nada de mais
Em
1987, no álbum seguinte, Só se for a dois, percebe-se a persistente melancolia.
Na música “Ritual”, o poeta assim canta:
Pra que
buscar o paraíso
Se até
o poeta fecha o livro
Sente o
perfume de uma flor no lixo
E
fuxica
Fuxica
Contudo,
o avanço da situação política parece também influenciar no amadurecimento de
Cazuza como crítico social. O contexto é o das disputas em torno da nova
Constituição, promulgada em 1988, processo contraditório, em que, a despeito da
incorporação das reivindicações dos trabalhadores, as classes dominantes
conseguiram garantir seus interesses na manutenção do poder do Estado.
Em
1988, Cazuza lançou três de suas canções mais emblemáticas: “Ideologia”,
“Brasil” e “O tempo não para”. Essas músicas revelam suas frustrações sociais,
políticas e econômicas, se constituindo no que o próprio Cazuza definiu como
“uma trilogia de Sarney ao PT no poder”. Essas músicas mostram um Cazuza
decepcionado com a transição da ditadura e os rumos que tomava a Nova
República.
Em
“Ideologia”, registra o vazio de propósitos de uma geração que cresceu sob a
ditadura e que na, na abertura política, viu seus sonhos se esvanecerem. Cazuza
canta sobre a desesperança diante das velhas estruturas mantidas na Nova
República. O garoto do passado assim olha para a realidade:
Pois
aquele garoto que ia mudar o mundo
Mudar o
mundo
Agora
assiste a tudo em cima do muro
Em cima
do muro
Essa
desesperança também tem relação com as referências políticas de uma geração,
que parecem ter ficado no passado. O pessimismo de Cazuza “vinha de alguém que
lamentava que os amigos de juventude não tinham levado seus projetos adiante”.
Em meio ao que entendia como conformismo daquela geração, os poderosos seguiam
controlando a sociedade, como canta nessa passagem Cazuza:
Meus
heróis
Morreram
de overdose, é
Meus
inimigos
Estão
no poder
Em
“Brasil”, Cazuza faz um ousado convite para que o país “mostre sua cara”,
denunciando a corrupção e o caráter predatório das classes dominantes, se
remetendo à corrupção, entre outros temas. Na letra, refere-se a uma festa em
que os trabalhadores não estavam sendo convidados, assim cantando Cazuza:
Não me
ofereceram
Nem um
cigarro
Fiquei
na porta
Estacionando
os carros
Não me
elegeram
Chefe
de nada
Gravada
quando Cazuza já enfrentava a debilidade causada pela AIDS, “O tempo não para”
pode ser visto como um manifesto contra o comodismo, anos antes da difusão da
fajuta ideia de “fim de história”. Cazuza expressa a frustração com uma
transição política que trocou o nome do regime, fez mudanças em sua aparência,
mas permaneceu com a mesma estrutura e até mesmo governada por algumas das
mesmas pessoas. Evidencia-se a crítica de Cazuza em passagens como esta da
música:
Eu vejo
o futuro repetir o passado
Eu vejo
um museu de grandes novidades
O tempo
não para
Não
para, não, não para
Em suas
últimas obras, Cazuza, especialmente no álbum Burguesia, de 1989, parece
mostrar em definitivo o fim de suas ilusões com a Nova República. O músico
utiliza o termo “burguesia” para designar não apenas a classe econômica
detentora dos meios de produção, mas um comportamento ético mesquinho e uma
posição política de direita. No refrão da música “Burguesia”, canta Cazuza:
A
burguesia fede
A
burguesia quer ficar rica
Enquanto
houver burguesia
Não vai
haver poesia
Sua
obra mostra como as classes dominantes procuraram barrar as transformações
sociais reivindicadas pelos trabalhadores mobilizados na década de 1970. Em
1990, diante da consolidação do processo de transição, Florestan Fernandes
dizia que “a ditadura militar encontrou vários meandros para continuar viva e
atuante”. Cazuza, o poeta, tentou mostrar isso em imagens, metáforas, símbolos,
como uma forma de resistência à essa permanência do passado no controle das
instituições.
Por
meio de suas letras, Cazuza imortalizou a sensação de que o Brasil, apesar de
ter mudado de regime político, continuava a ser um país onde uma minoria seguia
explorando os trabalhadores. Décadas depois, a atualidade de suas canções
mostra que muitos dos limites daquela transição – a corrupção, a desigualdade e
autoritarismo nem tão disfarçado – ainda persistem na sociedade brasileira.
Relembrando Cazuza, podemos fazer de sua “metralhadora cheia de mágoas” uma
arma de crítica ainda necessária.
Fonte:
Por Michel Goulart da Silva, em Outras Palavras

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