Sem
regulação, mercados de predições viram desafio no Brasil
Fora
das atenções que focam em publicidades de bets e regulamentações, os chamados
"mercados de predição", que cresceram globalmente nos últimos anos,
se tornaram um desafio para as autoridades brasileiras.
Em
abril, o governo bloqueou 27 plataformas que faziam previsões sobre os mais
diferentes temas, como as americanas Kalshi e Polymarket, para evitar a
consolidação de um modelo de apostas sem controle e que não segue a legislação
do país.
O
mercado preditivo funciona como uma espécie de "bolsa de apostas"
sobre eventos futuros. Nele, as pessoas compram e vendem contratos baseados em
perguntas simples como "Vai acontecer ou não?", relacionados aos mais
diversos eventos, como guerras, mudanças climáticas ou eleições.
Se o
evento acontecer, como a vitória deu um político nas urnas ou de um vencedor em
um reality show, quem apostou ganha dinheiro. Se não acontecer, perde. A
diferença em relação às apostas tradicionais é que, nas bets, a empresa define
as regras e paga os prêmios. Já nos mercados preditivos, os próprios usuários
negociam entre si. Esses contratos são tratados como derivativos, tipo de
investimento que depende do valor futuro de algo.
Apesar
de proibidos, usuários brasileiros encontram lacunas para acessar a esses
conteúdos. Além do uso de VPNs para driblar os bloqueios, a forma de pagamento
nestes sites é outra dificuldade. Enquanto no caso de casas de apostas ilegais
o governo vem intensificando verificações sobre transações com o Pix, os
mercados de predição operam, sobretudo, usando criptomoedas.
A DW
encontrou quatro plataformas operando neste sistema de forma irregular no país.
Além disso, ao longo das últimas semanas, outras chegaram a oferecer anúncios
no Instagram. A reportagem encontrou ainda publicidade de casas de apostas
clandestinas convencionais na plataforma.
Questionada,
a Meta apontou que "anunciantes que desejam promover jogos de azar ou
jogos online precisam solicitar permissão por escrito e fornecer provas de que
as suas atividades estão licenciadas por um regulador ou estabelecidas como
legítimas nos territórios nos quais desejam veicular esses conteúdos". A
empresa destacou que órgãos governamentais podem pedir a restrição de conteúdos
que violam as leis.
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Popularidade em alta na Copa
Os
mercados de predições ganharam enorme tração nas eleições americanas em 2024
após uma disputa jurídica permitir ao Kalshi ofertar palpites nos vencedores
daquele pleito. Desde então, eles vêm acumulando restrições, polêmicas e
bilhões de dólares movimentados.
Neste
ano, altos volumes apostados associados às ações dos Estados Unidos no Irã e na
Venezuela reforçaram os temores de que agentes com informações privilegiadas
lucraram com os eventos nestas plataformas. Além disso, uma aposta sobre o uso
de armas nucleares em 2026 saiu do ar após polêmica.
Na
Copa, as plataformas oferecem apostas convencionais, como palpites no
artilheiro do campeonato e o vencedor do torneio, assim como as bets
tradicionais. No entanto, há mercados mais personalizados, como um que permitia
apostar se Neymar entraria ou não em campo.
Em
possibilidades ainda mais alternativas, apostava se também nas chances de
Cristiano Ronaldo chorar em público durante a competição. No começo do torneio,
a casa de análises Bernstein previu uma movimentação de 10 bilhões de dólares
em apostas nestes mercados ligadas à Copa.
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Bets x predições
As
diferenças no funcionamento das predições para as casas de apostas geram
discussões regulatórias. Entusiastas do primeiro modelo frequentemente alegam
que as características são mais próximas do mercado financeiro do que de uma
bet. Uma das principais defesas é a de que a aposta ocorre contra outros
usuários, e não contra a casa, como na outra modalidade.
Mercados
preditivos funcionam com base na compra e venda de contratos futuros. Por
exemplo, na Copa, a aposta no campeão será liquidada logo depois da final. O
valor de um palpite varia de acordo com a oferta e a demanda. Quanto mais
pessoas palpitarem sobre um aspecto, este contrato se valoriza. Neste modelo, o
lucro da plataforma vem através de uma comissão a cada negociação.
Ou
seja, o resultado final é indiferente para as receitas da operação. Maiores
ganhos para a plataforma vêm através de um maior volume negociado. No caso do
campeão da Copa, no começo de julho, apenas o Kalshi já tinha movimentado cerca
de 850 milhões de dólares.
No caso
das casas de apostas tradicionais, cada uma oferece um retorno de acordo com as
probabilidades avaliadas de que um evento ocorra, as chamadas "odds".
Neste modelo, é calculado, normalmente usando algoritmos, quanto se pode pagar
a cada usuário vencedor por um resultado de forma que a casa ainda obtenha
lucro, normalmente de 5%.
Apesar
das diferenças, estudos apontam que, assim como nas bets, a maioria dos
usuários tende a ter perdas nos mercados de predição. Um estudo recente sobre o
Polymarket mostrou que os ganhos são altamente concentrados, com 1% dos
usuários detendo 76,5% dos lucros.
À DW,
Charles Martineau, um dos autores da pesquisa e professor da Universidade de
Toronto resumiu a lógica deste mercado para a grande maioria. " É muito
difícil de ganhar dinheiro apostando em esportes. É possível lucrar com algumas
sequências de apostas, mas para a pessoa comum, apostar muitas vezes resultará
em prejuízo."
"Em
plataformas como Kalshi e Polymarket, onde as apostas esportivas têm um alto
volume de negociações, constatamos que os preços são tão eficientes que é
praticamente impossível lucrar", aponta Martineau. Além disso, ele
acrescenta: "uma coisa é certa: a introdução dos mercados de previsão
levará algumas pessoas a desenvolver uma crescente dependência de jogos de
azar".
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Necessidade de regulamentação
Na
visão da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), a oferta destas plataformas de
apostas em eventos esportivos no país demandaria licenças específicas, assim
como ocorre com as casas que vem operando de forma regular desde o último ano.
Na ausência de uma regulamentação, o acesso a estes sites deve ser barrado no
território nacional.
"Estava
havendo ofertas inclusive de mercados ilegais, como eleições. O governo agiu
rápido em excelente momento, antes que o tema escalasse", avalia Plínio
Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), ao
comentar a decisão do governo de bloquear os sites.
Para
Leonardo Henrique Roscoe Bessa, sócio do Betlaw e consultor do Conselho Federal
da OAB, o cenário atual foi uma "resposta rápida", especialmente
visando limitar as apostas em eleições, que são proibidas no caso das bets. Por
sua vez, passado o período eleitoral e com a atual popularidade, a
regulamentação destes mercados deve voltar à tona, projeta.
Bessa
aponta que o uso de informações privilegiadas tende a ser uma dificuldade
regulatória a mais, algo que é mais controlado no caso das bets. A legislação
atual do setor aponta que potenciais envolvidos em partidas, como árbitros,
jogadores e comissão técnica, não podem apostar. No caso das predições, a
atuação de agentes ligados aos eventos é menos controlada. "Quem tem
informações, sai na frente", resume.
Fonte:
DW Brasil

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