sexta-feira, 10 de julho de 2026

Neonazismo no Brasil: origens do movimento supremacista que cresce cada vez mais no país

O nazismo foi um dos movimentos ideológicos mais devastadores e influentes do século XX. Embora a Alemanha nazista tenha sido derrotada na Segunda Guerra Mundial, a ideologia persistiu, ressurgindo de diferentes formas em várias partes do mundo — ...

nazismo foi um dos movimentos ideológicos mais devastadores e influentes do século XX. Embora a Alemanha nazista tenha sido derrotada na Segunda Guerra Mundial, a ideologia persistiu, ressurgindo de diferentes formas em várias partes do mundo — inclusive no Brasil.

Pouco conhecido por muitos, o Brasil abrigou a maior célula nazista fora da Alemanha durante o período anterior à Segunda Guerra. E, atualmente, enfrenta uma preocupante onda de crescimento do neonazismo. Entenda a seguir como essa ideologia chegou ao país, como se manifestou historicamente e por que está voltando a ganhar espaço no século XXI.

<><> A presença do nazismo no Brasil

Durante os anos 1930, com a ascensão de Adolf Hitler na Alemanha, muitos imigrantes alemães que viviam no Brasil passaram a simpatizar com o regime nazista. Com uma comunidade germânica forte, especialmente nos estados do Sul (como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná), o Partido Nazista chegou a formar uma base considerável de apoio no país.

De acordo com registros históricos, o Brasil teve a maior seção do Partido Nazista fora da Alemanha, com aproximadamente 2.900 filiados oficialmente registrados — todos eles cidadãos alemães. A sede principal do partido no Brasil ficava em São Paulo, mas havia núcleos em diversas cidades brasileiras com alta presença de imigrantes germânicos.

Importante destacar: somente alemães natos podiam se filiar ao partido, não brasileiros descendentes. O partido promovia encontros, atividades culturais e até propagandas alinhadas à ideologia nazista, mas tudo isso foi dissolvido oficialmente após o Brasil romper relações diplomáticas com o Eixo e entrar na guerra ao lado dos Aliados em 1942.

Após a derrota da Alemanha nazista, o Partido Nazista foi banido, e suas atividades no Brasil foram encerradas. No entanto, muitos nazistas fugitivos encontraram abrigo em países da América do Sul, incluindo o Brasil, Argentina e Paraguai. Casos como o do médico Josef Mengele, conhecido como o “Anjo da Morte”, que viveu clandestinamente no Brasil, revelam como o país foi usado como esconderijo por criminosos de guerra nazistas.

<><> O surgimento do neonazismo no Brasil

Com o avanço da internet e das redes sociais, grupos extremistas começaram a se reorganizar no Brasil a partir dos anos 2000, influenciados por ideias racistas, xenofóbicas, antissemitas e autoritárias.

O neonazismo brasileiro é caracterizado por:

  • Grupos organizados em fóruns e redes sociais;
  • Uso de simbologia nazista adaptada ou disfarçada;
  • Discurso de ódio contra judeus, negros, indígenas, LGBTQIA+, migrantes e imigrantes;
  • Práticas violentas e ataques a escolas, universidades e espaços públicos

<><> A ameaça atual: neonazismo no século XXI

Nos últimos anos, o Brasil tem registrado um crescimento expressivo de grupos neonazistas. Segundo levantamentos feitos por pesquisadores e órgãos de segurança, há mais de 500 células neonazistas ativas no país, especialmente nas regiões Sul e Sudeste.

Casos de violência associada ao neonazismo se multiplicaram. Alguns ataques recentes a escolas e eventos culturais revelaram conexões diretas com grupos extremistas online. A retórica extremista, muitas vezes disfarçada de “liberdade de expressão” ou “patriotismo”, também passou a circular com mais força em ambientes políticos.

O Brasil tem uma história complexa com o nazismo — desde a existência da maior célula fora da Alemanha até o atual crescimento do neonazismo no país, com movimentos políticos nacionalistas misturados com a religião. Hoje, principalmente homens jovens estão se voltando para essa ideologia; eles encontram uma comunidade em algumas redes sociais, que não monitoram os conteúdos compartilhados, ou até, são coniventes. Cada vez mais, a necessidade da monitoração se torna essencial.

¨      Adolescente com suástica nazista agride mulher trans em Alagoas e filma crime

Um adolescente de 16 anos foi apreendido na quinta-feira (9) em São Miguel dos Campos, no interior de Alagoas, suspeito de agredir uma mulher trans de 43 anos em uma praça pública. O ataque aconteceu à noite, quando a vítima voltava para a casa da mãe, e foi gravado por um segundo rapaz que acompanhava o agressor. O jovem, que tem uma suástica tatuada no braço, foi autuado por ato infracional equivalente a lesão corporal e discriminação, enquanto a Polícia Civil apura sua possível conexão com grupos neonazistas.

<><> Agressão e apreensão

A mulher trans voltava para a casa da mãe entre 22h e 23h quando foi surpreendida pelo adolescente, que vestiu o capuz de um casaco antes de iniciar o ataque. Segundo o boletim de ocorrência registrado na delegacia, o agressor desferiu socos e chutes na vítima, que sofreu lesões nos joelhos e nos braços. Um segundo rapaz filmou toda a ação, e o vídeo foi compartilhado nas redes sociais.

A vítima relatou à polícia acreditar que foi atacada por causa de sua identidade de gênero. Ela também declarou que o suspeito já havia perseguido outras pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ anteriormente. O adolescente foi autuado em flagrante e responderá por ato infracional equivalente a lesão corporal e discriminação, de acordo com a Polícia Civil.

<><> Investigação e indícios de radicalização

O adolescente tem uma suástica tatuada no braço, e a Polícia Civil investiga sua possível relação com grupos de supremacia branca e ideologia nazista. O delegado Bruno Fernandes, responsável pelo caso na 6ª Delegacia Regional de Polícia, informou que o jovem já possui registros anteriores de atos de violência. O celular do suspeito foi apreendido e será submetido à perícia.

A polícia identificou indícios de que o adolescente participava de grupos de ideologia nazista e publicava vídeos sobre o tema nas redes sociais. O amigo que filmou a agressão também prestou depoimento, alegando não saber que o colega atacaria a vítima. A combinação entre os símbolos exibidos pelo agressor, o histórico de violência e o material encontrado nas redes aponta para um perfil de radicalização que a investigação ainda precisa dimensionar com precisão, especialmente após a análise do celular apreendido.

<><> Repercussão e contexto da transfobia em AL

A Secretaria Municipal da Mulher e dos Direitos Humanos de São Miguel dos Campos repudiou o episódio em nota, afirmando que “nada justifica qualquer ato de agressão ou violência, especialmente contra pessoas em situação de vulnerabilidade”, e cobrou a punição dos envolvidos na forma da lei. O caso ocorre em um estado onde os registros de violência contra a população LGBTQIAPN+ são persistentes e crescentes.

Dados da Secretaria de Estado da Segurança Pública de Alagoas (SSP-AL) mostram que o estado registrou 42 casos de homofobia no ano anterior, sendo nove classificados como transfobia. Nos cinco primeiros meses do ano corrente, já foram notificados 23 episódios, incluindo sete de transfobia. Na capital Maceió, foram contabilizados 28 casos no ano anterior, sete deles de transfobia, e 14 ocorrências nos primeiros cinco meses deste ano, com três de transfobia. Os dados da SSP-AL apontam ainda sete homicídios de pessoas LGBTQIAPN+ no estado no ano anterior e quatro assassinatos confirmados até o momento no ano atual. A transfobia, definida como discriminação, preconceito ou violência contra pessoas transgênero, travestis ou transexuais em razão de sua identidade de gênero, é criminalizada no Brasil e equiparada ao racismo por decisão do Supremo Tribunal Federal.

¨      O enfrentamento ao ódio como política de Estado

Completando três anos de trabalhos investigativos sobre o crescimento do discurso de ódio, o extremismo e o neonazismo no Brasil, o Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) chega no estado do Pará, propriamente em Belém, para fechar o circuito das cinco regiões do país, trazendo na Relatoria Especial que foi instaurada em junho de 2023, um conjunto de achados e desafios.

O Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH), órgão público de controle e promoção das políticas de direitos humanos no Brasil existe desde 1964 sendo reordenado em 2014 através da lei nº 12.986/2014 e dentro de suas atribuições acolheu uma denúncia formulada pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) que apontou a existência de um crescimento das manifestações neonazistas no Brasil, saltando de 72 células em 2015 para 1.117 em 2022.

Desde então, o CNDH tem se dedicado a investigar a existência do discurso de ódio, extremismo e neonazismo no Brasil, não só em variados episódios que vão se alastrando pela sociedade e instituições do poder público, mas também como uma vertente internacional, que não só ataca grupos em situação de vulnerabilidades como os povos originários e comunidades tradicionais, mas também a democracia como valor do Estado de direito.

Importante registrar que a Organização das Nações Unidas (ONU) atualmente se dedica a esta temática através da Relatoria Especial sobre Formas Contemporâneas de Racismo, coordenada por Ashwini K.P. que tem submetido anualmente ao Conselho de Direitos Humanos um relatório, apontando o crescimento acentuado no mundo de células neonazistas encarnadas no discurso de ódio contra minorias, como os povos indígenas e comunidades tradicionais.

Estar na Região Norte do Brasil, no estado do Pará entre os dias 07 e 10 de julho de 2026, traduz-se como um esforço institucional da agenda do CNDH para certificar que este problema não é uma patologia social de uma região ou estado, mas um problema nacional, maior ou menor em determinados locais, que precisa ser enfrentado com um conjunto de políticas públicas no campo social e da segurança pública.

Após três anos de trabalho da Relatoria Especial de Enfrentamento ao Discurso de Ódio, extremismo e neonazismo do CNDH, o principal achado no mergulho empírico da realidade nacional é que o Brasil não conta com uma Política Nacional para o tema que possa articular os entes federados, especialmente no campo da segurança pública. Atualmente, as respostas se dão de forma dispersa e fragmentada de órgão a órgão.

É possível também afirmar que atualmente o Brasil não conta com uma legislação que seja capaz de dar as respostas adequadas de responsabilização, seja na esfera criminal ou mesmo administrativa e civil. Trata-se de um problema mundial, para além das fronteiras e que precisa ser tratado como crime de competência federal.

O recente episódio envolvendo uma rádio de ampla repercussão em Belém, em março de 2026, na qual um programa veiculava discurso de ódio, preconceito e xenofobia contra etnia Varão da Venezuela e que levou a uma intervenção do Ministério Público Federal, constitui uma importante medida que deixa evidente que o direito à liberdade de expressão não pode se confundir como uma senha para as violações de direitos humanos.

Hoje, de acordo com os parâmetros da ONU, o neonazismo é uma violência que se dá por ataques e atos de violência contra a comunidade judaica e também aos grupos minoritários e vulneráveis, como as representações étnicas-raciais do movimento negro, povos indígenas, comunidades quilombolas, dos grupos LGBTI+, PCD-Pessoas com Deficiência, Ciganos, entre outros.

É preciso também abrir as janelas da educação e da cultura para que este enfrentamento entre e ganhe a sociedade através de uma política pública de Estado, com formação e prevenção no território, instituindo-se efetivamente, sob o prisma dos direitos humanos, como a resposta civilizatória de todos nós, do Pará e da Amazônia em favor da democracia e do respeito à dignidade humana.

 

Fonte: Fórum

 

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