Jeffrey
Sachs: Os EUA aos 250 anos - é hora de retornar à sabedoria dos fundadores
No
último sábado, 4 de julho, os Estados Unidos marcaram o 250º aniversário de sua
Declaração de Independência. A ocasião merece reflexão — não apenas sobre o que
os EUA se tornaram, mas sobre os princípios fundadores que tantas vezes
esqueceram. Três desses princípios, estabelecidos pelos próprios fundadores, se
fossem lembrados hoje, transformariam a condução da política externa dos EUA e
melhorariam as perspectivas para a paz mundial.
O
primeiro está contido na abertura da Declaração de Independência. Os colonos
americanos explicaram sua decisão de se separar da Grã-Bretanha apelando para
“um devido respeito às opiniões da humanidade”. Essa foi uma formulação
notável. O Congresso Continental reivindicou legitimidade por meio de um
argumento racional dirigido à comunidade humana mais ampla, cujas opiniões
mereciam respeito. A nova república, ao anunciar-se ao mundo, o fez como membro
da família humana, e não como seu pretendido senhor. Ser digno do respeito dos
outros — em vez de exigir sua submissão — foi apresentado como o fundamento da
identidade política americana.
O
segundo princípio é o conselho do presidente George Washington em seu Discurso
de Despedida de 1796. Frustrado com o apego partidário de seus compatriotas à
Grã-Bretanha ou à França, o primeiro presidente defendeu um caminho diferente:
“Nossa verdadeira política é evitar alianças permanentes com qualquer parte do
mundo estrangeiro”. Cinco anos depois, em seu primeiro discurso de posse,
Thomas Jefferson condensou essa mesma sabedoria na frase que ecoa desde então:
“Paz, comércio e amizade honesta com todas as nações; alianças comprometedoras
com nenhuma”. Uma jovem república nada ganhava, e muito arriscava, ao vincular
seu destino às rivalidades das potências estrangeiras.
O
terceiro princípio é o mais mal compreendido atualmente. A Doutrina Monroe,
proclamada na mensagem anual do presidente James Monroe ao Congresso em 2 de
dezembro de 1823, é hoje invocada — tanto por amigos quanto por críticos dos
EUA — como uma carta fundadora da ambição hegemônica americana nas Américas.
O texto
real é algo bastante diferente. Monroe não afirmou nenhuma supremacia dos EUA
sobre a América Latina. Em vez disso, advertiu as potências europeias de que as
recém-independentes repúblicas das Américas eram “doravante não devendo ser
consideradas como sujeitas a futura colonização por quaisquer potências
europeias”.
Em
contrapartida, Monroe comprometeu-se a que os EUA permaneceriam fora dos
assuntos europeus, especialmente das guerras europeias: “Nas guerras das
potências europeias, em assuntos relacionados a elas próprias, jamais tomamos
parte, nem isso está de acordo com nossa política.”
A
Doutrina Monroe original era uma doutrina de não intervenção mútua e respeito
mútuo: a Europa deveria permanecer fora das Américas, e os EUA deveriam
permanecer fora da Europa. Foi apenas mais tarde, com o “Corolário” de Theodore
Roosevelt, em 1904, que a doutrina foi transformada em uma reivindicação do
poder policial dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental.
Esses
três princípios — uma política digna do respeito dos outros, uma política
externa livre de alianças comprometedoras e uma postura de não intervenção
mútua entre as grandes regiões do mundo — formavam uma visão coerente de como
uma nação deveria conduzir-se no mundo: com razão, com moderação e com a
consciência de que as opiniões ponderadas da humanidade são a medida adequada
da legitimidade.
No
entanto, desde o início, os EUA também perseguiram um impulso oposto: o impulso
imperial. Mesmo enquanto líderes americanos citavam Washington e Jefferson,
exércitos americanos travavam um século de guerra contra os povos indígenas da
América do Norte, despojando-os de suas terras em nome do “Destino Manifesto”.
No século XX, o impulso imperial dos EUA estendeu-se pelo Pacífico até as
Filipinas, atravessou o Estreito da Flórida até Cuba e prosseguiu na longa
sequência de intervenções da Guerra Fria na Coreia, Vietnã, Irã, Guatemala,
Chile, Congo e Indonésia. No século XXI, continuou pelo Afeganistão, Iraque,
Líbia, Síria, Iêmen e Ucrânia. E, no fim de fevereiro, os EUA se juntaram a
Israel em uma flagrante guerra de agressão contra o Irã, atacando uma nação
soberana em desafio ao direito internacional e à Carta das Nações Unidas.
Os EUA
passaram dois séculos e meio oscilando entre sua melhor versão e sua tentação
imperial. A tentação imperial, em nosso tempo, frequentemente prevaleceu e,
muitas vezes, levou a resultados desastrosos. O 250º aniversário é a ocasião
para que os EUA façam novamente sua escolha. O mundo de hoje não é um palco no
qual uma única superpotência possa agir com impunidade. Ele é, e deve ser, uma
comunidade de nações que deve viver em conjunto com respeito mútuo e em
condições de igualdade. O caminho de volta à sabedoria dos fundadores é também
o caminho para a paz, um caminho que os EUA deveriam trilhar com a China, a
Rússia, o Irã, o grupo BRICS e os países emergentes e em desenvolvimento de
todas as regiões. Os EUA não deveriam intimidar o mundo, mas reintegrar-se a
ele como um amigo e parceiro valorizado em prol do bem comum. Isso, aos 250
anos, demonstraria o mais digno respeito aos fundadores e à comunidade de
nações à qual eles buscaram se unir.
¨
250 anos dos EUA: uma democracia não morre de um golpe,
mas por dentro. Por Washington Araújo
No dia
3 de julho, diante das quatro caras de presidentes esculpidas na pedra do Monte
Rushmore, Donald Trump avisou aos americanos que os 250 anos de independência
abrem uma “era de ouro”. É a fala de sempre dos homens fortes: o futuro
glorioso, a nação escolhida, o chefe que encarna o destino do povo. Desconfie
de toda potência que troca a sobriedade de uma república pela liturgia de um
regime. Porque a data que Trump comemorava naquele palco foi criada para
impedir justamente o que ele encenava ali: o poder inteiro na mão de um homem
só, livre da lei. O retrato mais honesto do aniversário não está nos fogos.
Está no fato, pouco festivo, de que duas vezes em dezoito meses a Suprema Corte
dos Estados Unidos precisou dizer ao presidente da República o que deveria ser
desnecessário: a Constituição ainda vale. E nem a festa é uma só. O governo
toca a sua Freedom 250, de tom religioso e militar, criada por decreto em 2025,
enquanto a America250, montada pelo Congresso ainda em 2016 para chegar às
escolas e aos museus, sobrevive à sombra. Duas comemorações para a mesma data,
num país que já não concorda nem sobre o que está comemorando.
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A engrenagem contra o rei
A
independência americana costuma ser contada como a fuga de treze colônias de um
império. A invenção que importa foi outra: prender o poder a um papel que nem o
mais forte dos homens pudesse rasgar sozinho. Primeiro veio o texto; depois
vieram o território, o exército e a potência, todos amarrados a ele. E foram
três os documentos que montaram a máquina — vale lembrá-los, porque fora dos
Estados Unidos quase ninguém os separa. A Declaração de 1776, escrita por
Thomas Jefferson, disse por que a ruptura era justa: os homens nascem iguais,
carregam direitos que não se vendem nem se cedem, e nenhuma autoridade vale sem
o consentimento de quem é governado. A Constituição de 1787 disse como impedir
que o poder recém-solto virasse tirania: partiu-o em três — Congresso,
Presidência e Suprema Corte. A Bill of Rights, em 1791, fixou o que nenhum
governante poderia arrancar do cidadão. Não foi obra de sonhadores. Foi obra de
homens que tinham acabado de derrubar um rei e morriam de medo de fabricar
outro. James Madison escreveu, nos artigos federalistas, que a ambição precisa
conter a ambição — cada poder vigiando o vizinho, porque nenhum ser humano é
santo o bastante para governar sem freio. Somados, os três textos são uma
desconfiança organizada contra o homem que manda. É essa desconfiança que hoje
atravanca quem manda.
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Dois assaltos à Constituição
Duas
vezes, em dezoito meses, o presidente tentou governar por cima da Constituição.
Duas vezes a Suprema Corte o segurou.
Primeiro,
o dinheiro. A Constituição deu só ao Congresso o poder de criar impostos e
tarifas — os constituintes temiam o tributo baixado por decreto tanto quanto
haviam temido a coroa britânica. Trump passou por cima da regra logo no início
do segundo mandato: invocou uma lei de emergência de 1977, a IEEPA, e tarifou
quase o mundo inteiro, o Brasil junto. Em fevereiro de 2026, por seis votos a
três, a Corte derrubou a manobra, em ação movida por empresas importadoras e
por uma coalizão de estados. A lei de emergência, escreveu o presidente do
tribunal, John Roberts, não dava ao governante o poder de taxar o planeta à
vontade, na alíquota que quisesse, pelo tempo que lhe conviesse. Quando a
decisão saiu, o Tesouro americano já havia recolhido mais de 160 bilhões de
dólares sob um poder que os juízes declararam que nunca existiu.
Depois,
o sangue. Uma ordem executiva assinada no primeiro dia de mandato tentou rasgar
a Décima Quarta Emenda e negar cidadania a bebês nascidos em solo americano,
filhos de imigrantes sem documento. Essa emenda foi cravada na Constituição em
1868 para enterrar a vergonha da decisão Dred Scott, que havia negado
existência jurídica aos descendentes de escravizados. Ela é direta: quem nasce
no país e está sujeito às suas leis é cidadão. Em 30 de junho de 2026, de novo
por seis a três, a Corte anulou a ordem, e Roberts lembrou que a cidadania é o
primeiro dos direitos, o direito a ter direitos. O mais grave não foi a derrota
do presidente. Foi a ousadia da tentativa: reescrever, com a caneta de um homem
só, uma cláusula que custou ao país uma guerra civil e o voto de três quartos
dos estados.
Há
ainda a promessa de origem, que os 250 anos não podem maquiar. A mão que
escreveu que todos os homens são iguais era a de um dono de escravos, e a
igualdade de 1776 conviveu com o cativeiro por quase um século e com a
segregação por mais um. Mas a palavra escrita tem uma justiça própria: não
esquece. Fica registrada e volta, geração após geração, para cobrar a distância
entre o que se jurou e o que se fez. Foi ela que armou a luta pelos direitos
civis; é ela que arma, agora, quem se recusa a ver encolher a definição de
americano.
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A morte por dentro
Não é o
gesto isolado que assusta. É o método. Uma democracia raramente é destruída
pela porta da frente, com tanque na rua e decreto de exceção. Ela é desmontada
por dentro, devagar, com linguagem técnica e cara de normalidade. Basta ver a
reação do governo à derrota nas tarifas: poucas horas depois de perder, a Casa
Branca relançou as mesmas cobranças por outras portas — as Seções 122, 232 e
301 da lei de comércio —, várias delas capazes de dispensar o Congresso.
Fechada uma porta pela Constituição, o poder arrombou três ao lado.
Hannah
Arendt já avisava que as democracias não caem só de um golpe: morrem quando a
palavra perde precisão, quando a responsabilidade se dilui e quando obedecer
custa menos do que perguntar. É o método preferido do autoritarismo deste
século, que prefere esvaziar as instituições a fechá-las. Não se revoga o
princípio — isso exigiria emenda e maioria de dois terços. Esvazia-se em
silêncio, exceção após exceção, até a letra ficar de pé sem o sentido que a
sustentava. Uma Constituição pode morrer sem que se risque uma só linha. E por
isso a cena de 2026 precisa ser dita sem rodeio: desmontar uma democracia não é
fatalidade. É escolha. Alguém escolhe, todo santo dia, driblar o texto em vez
de honrá-lo, impor em vez de convencer, tratar a cidadania como favor pessoal,
cancelável conforme o humor.
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O espelho brasileiro
O
Brasil assiste a tudo de fora e devia se olhar no espelho. Por que não temos um
texto fundador que o cidadão comum saiba de cor e cobre? Porque a nossa
independência foi encenada, e a deles, escrita. Lá, um documento no princípio
de tudo. Aqui, um grito à beira de um riacho, um decreto e a coroação de um
imperador. Trocamos de constituição sete vezes desde 1824 sem que o povo
guardasse uma linha. O americano na rua ainda repete que nasceu igual e traz
direitos que ninguém lhe tira; o brasileiro mal se lembra da Constituição de
1988, a mais generosa que já tivemos. A diferença é de instrumento, não de
instrução. O que aconteceu nos Estados Unidos neste ano — pequenos
importadores, entidades civis e governos estaduais levando o presidente ao
tribunal e ganhando — só é possível onde o povo conhece o próprio texto e o usa
como arma. Onde o povo conhece a lei, o poder encontra freio; onde a ignora,
encontra súditos. Texto sabido de cor é escudo; esquecido, é enfeite na parede
do Estado.
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O império impaciente
Falta a
parte que mais interessa ao Brasil, e nasce da mesma doença. Toda potência que
se acha eterna começa a envelhecer no dia em que para de dar satisfação ao
mundo. Em 1776, os Estados Unidos falavam às outras nações com o que chamavam
de “devido respeito às opiniões da humanidade”: ainda em construção, sentiam-se
obrigados a explicar seus atos. O império de hoje dispensou a gentileza.
Enquanto solta os fogos do aniversário, o Escritório de Comércio dos Estados
Unidos, o USTR, conclui uma investigação que recomenda tarifa de 25% sobre
produtos brasileiros, com decisão marcada para 15 de julho, sob acusações que
vão da suposta censura digital ao funcionamento do Pix — pretextos que dizem
menos do Brasil do que do costume de castigar quem não abaixa a cabeça. No ano
passado, o mesmo governo brandiu 50%, e só recolheu as garras quando a inflação
americana doeu no próprio bolso. É o mesmo poder, visto por dentro e por fora:
atropela a Constituição em casa e decreta castigo sem argumento lá fora.
Governar sem explicar não é força. É a impaciência de quem já não convence e,
por isso, prefere mandar.
Volto
ao Rushmore. Diante daquela pedra, um presidente prometeu uma era de ouro;
duzentos e cinquenta anos antes, um punhado de homens com pavor de reis
prometeu algo mais difícil e mais durável — que nenhum indivíduo ficasse acima
da lei escrita. Das duas promessas, a que fundou o país é a segunda, e é ela
que agora se defende no tribunal, cláusula por cláusula. Que a defesa tenha
vindo, duas vezes seguidas, de uma Suprema Corte de maioria conservadora,
obrigando o presidente a engolir o que preferia ignorar, é alívio e é alarme: o
texto aguentou, mas já precisa ser defendido. A república americana ainda
respira porque seu povo empunha o próprio texto contra quem governa. Que o
Brasil aprenda a lição antes de precisar dela: só é livre o povo que conhece, cita
e cobra o documento que o fundou. Onde a lei escrita é lembrança viva, existe
cidadão. Onde virou peça de museu, existe só quem obedece — de mão estendida,
esperando que o poderoso se lembre de explicar.
¨
EUA chegam aos 250 anos com a Constituição sob ataque.
Por Washington Araújo
20 de
fevereiro e 30 de junho de 2026. Guardei essas duas datas porque elas dizem
mais sobre os Estados Unidos de hoje do que qualquer desfile, qualquer
foguetório, qualquer promessa presidencial diante das pedras do Monte Rushmore.
Em menos de cinco meses, a Suprema Corte precisou lembrar ao presidente da
República aquilo que deveria dispensar lembrança: a Constituição ainda manda. O
país que se prepara para festejar 250 anos de independência chega ao
aniversário com uma pergunta atravessada na garganta: o texto de 1787 ainda
obriga quem governa ou virou peça de museu, reverenciada nas cerimônias e
contornada nos gabinetes?
A
história americana costuma ser vendida como epopeia de emancipação: treze
colônias rompem com o império britânico, declaram-se livres e inauguram uma
república. Essa narrativa é verdadeira, mas pequena. O que saiu da Filadélfia
foi mais sério. Os americanos prenderam o poder a um documento escrito.
Disseram ao governante, antes mesmo de saber quem ele seria: há uma linha que
sua vontade não pode atravessar. A Declaração de 1776 explicou por que romper.
A Constituição de 1787 explicou como governar sem fabricar outro rei. A Bill of
Rights, em 1791, disse ao Estado onde suas mãos deveriam parar. Jefferson deu à
ruptura uma linguagem de direitos; Madison e os federalistas tentaram impedir
que a liberdade recém-proclamada terminasse na velha doença do mando pessoal. Os
fundadores conheciam a tentação. O rei não precisa usar coroa. Pode usar faixa
presidencial, decreto, emergência nacional, interpretação conveniente, advogado
criativo e maioria amedrontada. Por isso, repartiram o poder entre Congresso,
Presidência e Suprema Corte. Não por elegância institucional, mas por
desconfiança organizada. Quem conhecia o abuso tratou de colocar trancas na
porta.
A
primeira tranca foi o dinheiro. O Artigo I entregou ao Congresso o poder de
criar impostos e tarifas. Não foi detalhe. Um povo que havia rompido com
Londres também por causa de tributos impostos de cima não deixaria essa matéria
nas mãos de um só homem. Ao iniciar o segundo mandato, Donald Trump invocou a
IEEPA, uma lei de emergência de 1977, para taxar quase o planeta inteiro,
Brasil incluído. Em 20 de fevereiro, por seis votos a três, a Suprema Corte
barrou a manobra. A lei não dava ao presidente licença para tributar o mundo, a
qualquer alíquota, pelo prazo que lhe parecesse útil. Quando a decisão saiu, o
Tesouro americano já havia arrecadado mais de 160 bilhões de dólares com
tarifas sustentadas por uma autoridade que os juízes declararam inexistente. O
número importa porque mostra o tamanho do fato consumado. Em democracia, o abuso
raramente pede licença; ele arrecada primeiro, litiga depois e, se perder,
troca de caminho. Foi exatamente o que ocorreu. Horas depois da derrota, o
governo relançou tarifas por outras bases legais, como as Seções 122, 232 e
301. A porta fechada pela Suprema Corte não encerrou a tentativa. Apenas
obrigou o poder a procurar outra passagem. Esse é o truque moderno: não rasgar
a Constituição em praça pública, mas tratá-la como obstáculo administrativo.
O
segundo golpe mirou algo mais profundo que o dinheiro: quem pertence à nação.
No primeiro dia do novo mandato, uma ordem executiva tentou restringir a
cidadania de filhos de imigrantes indocumentados ou temporários nascidos em
solo americano. A ordem mirava a Décima Quarta Emenda, ratificada em 1868 para
enterrar a infâmia de Dred Scott, decisão que negara existência jurídica plena
aos descendentes de escravizados. A emenda diz, com a secura das grandes
frases, que todos os nascidos nos Estados Unidos e sujeitos à sua jurisdição
são cidadãos. Em 30 de junho, novamente por seis votos a três, a Suprema Corte
derrubou a ordem. John Roberts escreveu o voto da maioria. A cidadania de
nascimento, afirmou a Corte em substância, não cabe na gaveta das conveniências
de um presidente.
A
derrota judicial de Trump pesa menos que sua tentativa. Um homem quis
reescrever, com a caneta do Executivo, uma cláusula nascida de guerra civil,
sangue, emenda constitucional e ratificação pelos estados. A promessa de 1776 —
todos nascem iguais — foi traída pela escravidão durante quase um século e pela
segregação durante outro. Ainda assim, por estar escrita, voltou a cobrar os
vivos. Cobrou Lincoln. Cobrou a Reconstrução. Cobrou Rosa Parks, Martin Luther
King, os tribunais, as ruas, as escolas, os ônibus, as urnas.
Promessa
escrita tem uma vantagem terrível para quem a assina: sobrevive ao cinismo de
seus herdeiros. Fica ali, esperando a geração seguinte. Pode ser insultada,
adiada, torcida, abandonada por algum tempo. Mas não desaparece enquanto houver
cidadão capaz de recitá-la em voz alta e juiz disposto a aplicá-la contra o
governante.
É nesse
ponto que o Brasil deve prestar atenção. Nossa independência entrou no
imaginário como gesto, não como texto. Um grito, um riacho, um príncipe, uma
espada, uma pintura encomendada para dar solenidade ao episódio. Os Estados
Unidos começaram por uma declaração que qualquer criança aprende a reconhecer.
Nós começamos por uma cena que quase ninguém sabe explicar sem recorrer ao
quadro de Pedro Américo.
Desde
1824, tivemos sete constituições. O brasileiro comum não guarda uma frase de
nenhuma delas. Nem mesmo a de 1988, a mais generosa e mais democrática de nossa
história, entrou na boca do povo. Falamos em direitos como quem pede favor.
Invocamos a Constituição quando advogados a mencionam, políticos a disputam ou
ministros a interpretam. Raramente a tratamos como patrimônio pessoal do
cidadão.
A
diferença aparece no chão da vida pública. Nos Estados Unidos, pequenos
importadores, entidades civis, famílias atingidas, estados e organizações foram
ao Judiciário contra o presidente — e venceram. Isso só acontece quando o texto
constitucional não pertence apenas aos ministros da Suprema Corte. Um povo que
conhece a própria Constituição pode erguê-la contra o poder. Um povo que a
esquece entrega ao Estado o monopólio de dizer o que ela significa. Há ainda a
face externa dessa crise, e é ela que toca o Brasil mais de perto. Toda
potência envelhece politicamente quando para de dar satisfação. A Declaração de
1776 dizia que os americanos deviam respeito às opiniões da humanidade. A
república nascente ainda se sentia obrigada a explicar seus atos ao mundo. O
império maduro prefere punir.
Enquanto
prepara os fogos dos 250 anos, Washington conduz uma investigação contra o
Brasil sob a Seção 301. A proposta é impor 25% de tarifa sobre produtos
brasileiros, com decisão prevista para 15 de julho. As acusações misturam
comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, funcionamento do Pix,
tarifas, propriedade intelectual, etanol e desmatamento. Muita coisa no mesmo
saco costuma indicar menos rigor do que vontade de pressão.
O Pix
virou alvo porque deu certo. Um sistema público, rápido, barato e massivo
incomoda quem se habituou a cobrar pedágio sobre cada movimento do dinheiro
alheio. Quando uma inovação brasileira reduz a dependência de cartões e
intermediários financeiros, Washington chama de barreira. Quando os Estados
Unidos protegem suas empresas, chamam de interesse nacional. No ano passado,
Trump ameaçou impor tarifa de 50% contra produtos brasileiros, usando o
comércio exterior como instrumento de pressão política sobre assunto interno do
Brasil. Agora, a forma muda, mas o vício permanece. O mesmo poder que tenta
governar acima da Constituição dentro de casa também se permite, fora dela,
impor tarifas como recado geopolítico.
Volto
às duas datas. Em 20 de fevereiro, a Suprema Corte disse que o presidente não
podia inventar tarifa mundial com uma lei de emergência. Em 30 de junho, disse
que ele não podia rebaixar a cidadania de nascimento por decreto. Foram
vitórias da Constituição. Também foram sinais de febre. Quando um texto precisa
ser defendido duas vezes em cinco meses contra o próprio chefe do Executivo, a
república ainda respira, mas já não dorme tranquila. A grandeza de 1776 esteve
em amarrar o poder a palavras que o poder sozinho não pudesse apagar. Aos 250
anos, os Estados Unidos descobriram que uma Constituição não se conserva em
redoma. Ela só vive quando incomoda quem governa. Para o Brasil, sobra a
pergunta sem anestesia: de que serve fundar um país sobre promessas se o povo
não aprende a dizê-las, defendê-las e cobrá-las antes que outro governante
descubra como transformá-las em enfeite?
Fonte:
Brasil 247

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