Produtora
de filme sobre Bolsonaro funcionava em casa de sócio em subúrbio dos Estados
Unidos
A sede
da Go Up Entertainment LLC, produtora de Dark Horse,
cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), funcionava até o
dia 2 de junho em uma casa de dois andares nos subúrbios da cidade de Raleigh,
capital da Carolina do Norte, nos Estados
Unidos, no mesmo local onde mora um dos seus sócios, o produtor
Michael Brian Davis.
A
reportagem da BBC News Brasil esteve no local no dia 29 de maio e foi recebida
por Davis, que não quis dar entrevista. Cinco dias depois, em 3 de junho, seus
sócios mudaram o endereço da produtora para um prédio comercial na mesma
cidade.
Produtores
de cinema ouvidos
pela reportagem em caráter reservado afirmaram que não é comum que produtoras
envolvidas em projetos com orçamentos milionários, como é o caso de Dark
Horse, funcionem em imóveis residenciais. Segundo seus próprios produtores,
o filme consumiu até o mês retrasado ao menos US$ 13,3 milhões, o equivalente a
aproximadamente R$ 75 milhões.
O
financiamento do longa-metragem passou a ser alvo de investigações da Polícia
Federal depois que o site The Intercept
Brasil revelou que o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por
suspeita de crimes contra o sistema financeiro nacional, repassou ao menos US$
12 milhões para a produção.
O site
também revelou áudios e mensagens em que Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), senador e pré-candidato à Presidência da República,
pedia US$ 24 milhões a Vorcaro.
Em sua
defesa, Flávio negou ter praticado qualquer irregularidade e disse que a
relação com dono do Banco Master era
meramente comercial. Segundo o parlamentar, ele estaria
apenas cobrando parcelas atrasadas de um pagamento prometido
pelo banqueiro ao filme.
O caso
chamou também chamou atenção porque, segundo o The Intercept Brasil e membros
da família Bolsonaro, o dinheiro foi repassado da empresa Entre Investimentos e
Participações para o fundo de investimentos Havengate Development Fund LP,
sediado nos Estados Unidos e ligado a um advogado que atua para o
ex-deputado Eduardo
Bolsonaro.
O
site The Intercept Brasil revelou também que Eduardo assinou
um contrato como produtor do filme, no qual teria responsabilidades sobre a
gestão financeira do projeto.
As
suspeitas fizeram com que a Polícia Federal passasse a investigar a
possibilidade de que os repasses de Vorcaro possam ter tido o objetivo de
financiar a permanência de Eduardo nos Estados Unidos.
Após
negar essa ligação, Eduardo
gravou um vídeo admitindo ter assinado o contrato e investido
R$ 350 mil no filme, mas acrescentou que teria recebido o dinheiro de volta
após a obra ter obtido outros patrocinadores.
"Quem
fala que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro de Vorcaro é mentiroso. Quem fala
que Eduardo Bolsonaro recebeu dinheiro desse fundo que foi criado nos EUA está
mentindo", disse, em vídeo publicado em suas redes sociais.
A BBC
News Brasil enviou perguntas para Flávio, Eduardo, Karina Ferreira Gama e
Michael Brian Davis — os donos da produtora Go Up — e para o deputado federal
Mário Frias (PL-SP), produtor e roteirista do filme.
Em
nota, Davis disse que, nos Estados Unidos, "é comum que empresas
produtoras, holdings criativas, desenvolvedoras de projetos e produtoras
independentes tenham estruturas administrativas enxutas" e que "o
tamanho físico de uma sede administrativa não reflete, necessariamente, a
dimensão de uma produção cinematográfica".
A nota
não mencionou a mudança de endereço após o início das investigações e da visita
da reportagem da BBC News Brasil ao local.
A nota
diz ainda que a empresa administrou o orçamento da produção
"integralmente", mas que não teve contato com Vorcaro ou empresas
ligadas a ele e que não sabia a origem dos recursos.
Em
nota, a defesa de Flávio disse que "o patrocínio ao filme Dark
Horse ocorreu dentro de uma relação privada entre particulares, sem
utilização de recursos públicos" e que "a participação do senador foi
limitada a essa tentativa de captação de recursos para viabilidade da produção
cinematográfica".
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Mudança repentina de endereço
O
endereço registrado como "local de negócios" da Go UP Entertainment
LLC até junho era uma residência típica de subúrbio norte-americano: uma casa
branca de dois andares, com garagem para dois automóveis e uma área de gramado
cercada por pinheiros.
Na
manhã do dia 29 de maio, a reportagem da BBC News Brasil foi recebida por Davis
na antessala da residência. No local, foi possível identificar ao menos duas
estações de edição de vídeo, em meio a móveis, livros, objetos pessoais e dois
cachorros.
Na
frente da casa, havia uma picape cuja placa tinha o nome de outra empresa de
produção audiovisual da qual Davis é sócio, com sede no mesmo endereço.
Exceto
pela picape, não havia outra indicação, letreiro ou cartaz indicando que,
naquele local, funciona uma produtora de vídeo. Davis, além de negar dar
entrevista, pediu que nada fosse filmado durante o encontro com a reportagem.
Posteriormente,
a BBC News Brasil enviou perguntas por escrito para o produtor. Em nota, Davis
respondeu à maioria delas.
Documentos
obtidos pela reportagem mostram que a história da Go Up Entertainment LLC
começou em 2021, ano em que a empresa foi criada e registrada, em Miami, na
Flórida.
Os
documentos, àquela época, já apontavam que a Go Up tinha ambos Davis e Karina
como sócios. Em nota, Davis disse, sem especificar nenhum projeto, que "o
relacionamento com Karina é desde 2014 e surgiu no contexto de projetos
culturais e audiovisuais, a partir de agendas profissionais ligadas ao
desenvolvimento de iniciativas com times internacionais".
Ainda
em 2021, no Brasil, Davis se tornou sócio do marido de Karina, Wemerson
Marinho, em uma empresa de proteção de propriedade intelectual com sede em São
Paulo, segundo documentos obtidos pela reportagem na Junta Comercial do Estado.
Também
em 2021, Karina abriu na capital paulista uma produtora audiovisual com o mesmo
nome, Go Up Entertainment, da qual ela é a única sócia. Na ocasião, era
desconhecida do grande público brasileiro e começava sua atuação como
empresária ligada a políticos de direita no Brasil.
Davis,
por sua vez, seguia sua atuação como produtor de cinema especializado em filmes
ligados ao universo cristão, como Três Histórias, Um Destino,
inspirado no livro de mesmo título escrito pelo pastor brasileiro R. R. Soares.
Em
2022, o endereço da Go Up foi alterado para a casa onde Davis vive desde, ao
menos, 2020. É o mesmo local onde funciona a outra empresa em nome do produtor,
a Uptone Pictures Inc.
O
endereço da Go Up permaneceu o mesmo de 2022 até o dia 3 de junho de 2026,
cinco dias depois de a reportagem da BBC News Brasil contactar e ser recebida
por Davis no local e em meio ao crescimento das suspeitas sobre o financiamento
de Dark Horse.
Naquele
3 de junho, segundo documentos da Divisão de Corporações da Flórida, o endereço
da produtora foi alterado para um prédio comercial a três quilômetros da casa
da Davis. A reportagem o questionou sobre o motivo da mudança, mas não obteve
resposta.
Em
conversas com fontes ligadas ao setor e a partir das redes sociais de Davis, a
BBC News Brasil apurou que o produtor tem nacionalidade brasileira e viveu no
Brasil durante parte dos anos 1980, após seu pai ser transferido a trabalho.
Foi
nessa época que ele aprendeu português e se apaixonou por futebol, em especial
pelo clube São Paulo. Em suas redes, é possível ver diversas postagens sobre
sua proximidade com ex-jogadores do clube, entre eles o ex-jogador da seleção
brasileira Silas, de quem é amigo.
Ainda
nos anos 1980, ele se mudou para os Estados Unidos para fazer faculdade e fixou
residência no país. Nos anos seguintes, deu início à carreira de produtor,
realizando filmes e comerciais.
Além do
filme inspirado no livro de R. R. Soares, Davis participou da produção de
filmes como Little Angels e A Promessa de Paulo,
ambos com o ator Dean Cain, que ficou famoso por interpretar Super-Homem em uma
série de TV exibida nos anos 1990.
A BBC
News Brasil apurou que Davis foi um dos principais responsáveis pelo contato
entre Mário Frias e o diretor de Dark Horse, Mark Nowrasteh. Ele
também teria sido um dos responsáveis por atrair o ator Jim Caviezel, que
interpretou Jair Bolsonaro, para o elenco do filme.
Já
Karina viu seus negócios se expandirem nos últimos cinco anos. Além da Go Up,
ela é sócia de outras empresas e presidente das organizações não governamentais
Instituto Conhecer Brasil (ICB) e Academia Nacional de Cultura (ANC), que
receberam emendas parlamentares para executar projetos culturais e que também
firmaram contratos no valor de R$ 108 milhões para o fornecimento de internet
sem fio na cidade de São Paulo, serviço que está sob investigação pelas
autoridades paulistas.
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Sede em local incomum
A
produção de um filme não exige que todos os envolvidos trabalhem no mesmo
lugar.
Não é
raro que uma mesma cena passe pelas mãos de profissionais e empresas espalhados
por diferentes cidades, às vezes até por países distintos, motivo pelo qual o
endereço de uma produtora nem sempre corresponde à imagem que muitos associam à
indústria cinematográfica.
Isso
não significa, porém, que qualquer arranjo seja considerado usual.
Produtores
e diretores de cinema ouvidos pela BBC News Brasil sob anonimato afirmam que
uma produtora funcionando a partir da garagem de uma residência, como a
reportagem observou no antigo endereço da Go Up nos Estados Unidos, destoa do
que se vê em projetos com orçamentos como os de Dark Horse.
Embora
o orçamento da produção permaneça incerto, já que Flávio Bolsonaro teria pedido
US$ 24 milhões a Daniel Vorcaro e o banqueiro, que está preso, não se
pronunciou sobre o assunto nem confirmou se fez a doação, Karina Ferreira da
Gama, principal nome por trás da Go Up, afirmou à emissora de televisão
GloboNews que o projeto já consumiu US$ 12 milhões.
Para
fins de comparação, mesmo essa cifra — equivalente à metade do valor que Flávio
teria solicitado a Vorcaro — supera não apenas o orçamento de sucessos
brasileiros recentes como Ainda Estou
Aqui e O Agente
Secreto, que chegaram ao Oscar,
mas também o de produções internacionais que conquistaram a premiação,
como Valor
Sentimental, produzido com US$ 7,8 milhões.
Segundo
os especialistas ouvidos pela reportagem, uma estrutura semelhante à da Go Up
seria mais facilmente associada a produtoras de pequeno porte dedicadas a
curtas-metragens de baixo orçamento — que, nos Estados Unidos, costumam
movimentar cifras muito inferiores às atribuídas a Dark Horse, abaixo
de US$ 1 milhão — ou a empresas que produzem vídeos publicitários para pequenas
marcas.
Há
setores da indústria do entretenimento em que estruturas informais são mais
comuns. Na música, por exemplo, artistas que movimentam milhões de reais em
cachês se reúnem em casas e chácaras para compor. Não por acaso, a ideia da
"banda de garagem" se tornou um dos clichês mais conhecidos da
cultura pop.
É assim
que funcionam os polos de composição nos arredores de Goiânia,
que abastecem o repertório de estrelas do sertanejo como Gusttavo Lima.
Algo semelhante ocorre no funk paulista, onde produtoras como Love Funk, NVI e
SpaceFunk operam em imóveis adaptados na periferia de São Paulo.
Mas no
cinema, dizem os entrevistados, a lógica costuma ser outra. Enquanto uma canção
pode nascer de um encontro entre poucos compositores munidos apenas de um
violão, de papel e caneta, um longa-metragem envolve centenas de profissionais.
É essa diferença que faz com que a estrutura observada pela reportagem provoque
estranhamento.
Outro
fator que contribui para essa percepção é o histórico da própria empresa. Nem a
Go Up nem sua representante brasileira parecem ter trajetória conhecida em
produções audiovisuais. O nome de Karina Ferreira da Gama, por exemplo, não
aparece associado a filmes ou séries no IMDb, principal banco de dados usado
pela indústria para registrar créditos de produções.
Esse
histórico contrasta com a forma como os envolvidos têm apresentado o projeto. O
deputado Mário Frias, que também é roteirista do filme, já afirmou que Dark
Horse segue os moldes das produções de Hollywood,
com elenco majoritariamente americano e gravações realizadas nos Estados
Unidos.
Davis
rebate o argumento de que o funcionamento de sua produtora na casa em Raleigh
seja incomum.
"Essa
percepção não corresponde à realidade operacional do setor audiovisual. Grandes
produções são realizadas por meio de redes de contratação, equipes temporárias,
fornecedores especializados, locações, sets, produtoras associadas, prestadores
internacionais e estruturas montadas especificamente para cada etapa. A sede
administrativa de uma empresa não representa sozinha a estrutura total
mobilizada para um filme", disse, por meio de nota.
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Financiamento sob investigação
O
financiamento do filme Dark Horse deve ser alvo de pelo menos
três frentes de investigação, segundo o site G1.
A PF
avalia abrir inquéritos para apurar suspeitas envolvendo a origem, a destinação
e o possível uso de recursos públicos e privados ligados à produção do longa.
A
primeira frente deve tratar dos repasses de R$ 61 milhões atribuídos ao
ex-banqueiro Daniel Vorcaro feitos a pedido de Flávio Bolsonaro. A PF pretende
confirmar a quantia e esclarecer o caminho do dinheiro até o fundo responsável
pelo financiamento do filme nos Estados Unidos.
A
investigação também deverá apurar se os repasses foram feitos em troca de algum
favor prestado por Flávio ou por integrantes de seu grupo político, suspeita
rebatida pelo senador.
Essa
apuração ficará sob relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo
Tribunal Federal (STF), que também conduz outros inquéritos
relacionados ao caso Master.
A
segunda frente de investigações envolve a suspeita de que parte dos recursos
enviados ao projeto possa ter sido usada para bancar a permanência de Eduardo
Bolsonaro nos Estados Unidos.
Essa
hipótese chegou a dar início a uma dúvida sobre quem seria o relator dessa
investigação. Havia um pedido para que ela ficasse sob a relatoria de Alexandre
de Moraes, que é relator de uma ação penal relacionada à autuação de Eduardo no
exterior. Mas na última quinta-feira (25/6) o presidente do STF, Edson Fachin,
decidiu que a relatoria ficará com Mendonça.
A
terceira frente mira a indicação de emendas parlamentares para entidades
ligadas à produtora do filme, a Go Up, comandada pela empresária Karina da
Gama.
A
suspeita é de que parlamentares do PL repassaram recursos públicos a entidades
vinculadas à produtora, como a Academia Nacional de Cultura, para financiar
indiretamente o longa.
Essa
frente de investigações ficará sob relatoria do ministro Flávio Dino, que já
conduz inquéritos relacionados à destinação de emendas parlamentares.
Karina
não respondeu aos questionamentos da reportagem sobre essa suspeita.
Fonte:
BBC News Brasil

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