Transfobia:
Uma análise para além do moralismo
Por
trás das campanhas contra as vidas trans não há um preconceito difuso, mas
atores poderosos — mídia, igrejas reacionárias, think tanks de direita,
ditaduras — que fabricam medo para defender privilégios e forjar bodes
expiatórios. É a mesma maré que ataca o conhecimento crítico e empurra o mundo
rumo ao autoritarismo. Diante dela, adverte Raewyn Connell, o intelectual não
pode se refugiar na neutralidade: precisa tomar partido — da humanidade, da
democracia, da solidariedade.
Poucos
nomes pesam tanto na sociologia contemporânea quanto o de Raewyn Connell.
Nascida em Sydney, em 1944, graduou-se com honras em história pela Universidade
de Melbourne e doutorou-se em sociologia, em 1970, pela Universidade de Sydney.
Foi
professora-fundadora de sociologia na Universidade Macquarie — uma das pessoas
mais jovens a ocupar uma cátedra na Austrália —, professora de Estudos
Australianos em Harvard e professora de sociologia na Universidade da
Califórnia em Santa Cruz, antes de retornar a Sydney, primeiro numa cátedra de
educação e, em 2004, como University Professor, posto de que se aposentou em
2014 e em que hoje é professora emérita.
Em
2023, recebeu o título de doutora honoris causa pela Universitat Pompeu Fabra,
de Barcelona. Sua é a fundação dos estudos sobre masculinidades e sua a
formulação de conceitos que reorganizaram as ciências sociais — a
“masculinidade hegemônica”, o “dividendo patriarcal” —, além da obra que abriu
o cânone às teorias do Sul, em livros como Masculinities e Southern Theory.
A
propósito de seu novo livro, Trans Lives: Social Realities Across the Globe
(Polity, 2026) — em que, ela própria uma mulher trans, parte de histórias de
base de grupos em sete países para deslocar o debate da identidade para a vida
concreta.
Da
inadequação do conceito de “transfobia” à ofensiva contra o conhecimento
crítico, do futuro das universidades à resiliência do patriarcado e ao dever do
intelectual em tempos de policrise: são esses os temas que percorre a seguir.
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Eis a entrevista.
• Em Trans Lives, você trabalha a partir
de histórias de base de grupos em transição em sete países. Como essa
abordagem, que você descreve como um mapeamento de “realidades sociais”, serve
como um contraponto metodológico e político às narrativas abstratas e
frequentemente difamatórias que dominam o debate público sobre vidas trans no
Norte global?
Meu
novo livro, Trans Lives, parte de relatos de perto de grupos trans em sete
países, além da internet. Um dos meus propósitos, nele, é deslocar a discussão
para além das questões de identidade, sobre as quais já ouvimos tanto, em
direção às questões da vida cotidiana, dos contextos sociais, da corporeidade,
do lado prático e espinhoso das transições e da organização coletiva. Para
isso, não posso me apoiar apenas em instantâneos etnográficos. Recorro também à
pesquisa médica, a estudos sobre instituições, a análises econômicas, a relatos
de movimentos políticos e a estudos históricos.
Sim, os
discursos dominantes sobre as questões trans vêm, em sua maioria, do Norte
global. Nos últimos anos, os mais influentes têm sido (a) as discussões sobre
identidades individuais e a subversão das normas de gênero, ou (b) as
narrativas hostis, destinadas a desacreditar a existência trans e a justificar
a repressão. Os discursos da “identidade” costumam apoiar os direitos das
pessoas trans, mas pouco dizem sobre as questões práticas. Do outro lado, os
ideólogos antitrans não têm a menor serventia para o conhecimento rigoroso. Seu
propósito é mais bem servido pela fabricação de mitos, hoje habitual na direita
política.
• O atual ciclo de avanço da
extrema-direita, simbolizado pela reeleição de Trump em 2025, tem como um de
seus pilares um ataque feroz aos estudos de gênero e à própria legitimidade do
conhecimento crítico. Como você vê a conexão entre a crise do conhecimento que
descreve em Southern Theory e a ofensiva política contra a teoria de gênero?
Penso
que as campanhas virulentas contra as pessoas trans e a crise do conhecimento
discutida pelas teorias pós-colonial, decolonial e do Sul têm raízes distintas
— ainda que haja, agora, uma convergência inquietante.
Em
Trans Lives, examino diferentes campanhas antitrans e defendo que a ideia de
“transfobia”, ao sugerir um preconceito popular difuso, é insuficiente. Nos
últimos dez ou quinze anos, houve inúmeras ações deliberadas de atores
poderosos — os grandes meios de comunicação, igrejas reacionárias, think tanks
e partidos de direita, ditaduras — para demonizar os grupos trans. Seus
objetivos são defender padrões estabelecidos de privilégio, mobilizar apoio
fabricando medos em torno da sexualidade e do gênero, e criar distrações e
encontrar novos bodes expiatórios.
As
desigualdades da economia global do conhecimento são reconhecidas e contestadas
há mais tempo, sobretudo por intelectuais do Sul global. Recentemente, essa
crítica ganhou nova visibilidade, pressionando universidades, museus e outras
instituições do Norte global a revisar seus currículos e a reconhecer múltiplas
epistemes.
Ocorre,
porém, que movimentos populistas de direita e indústrias poluidoras passaram a
atacar, para seus próprios fins, o conhecimento baseado em pesquisa. Essas
pressões cruzadas somam-se às consequências tóxicas da privatização e do
gerencialismo nas universidades. Os efeitos se fazem sentir nas humanidades e
nas ciências sociais, e também nas ciências do clima e da saúde.
A
solução é defender o conhecimento organizado democratizando-o — em escala
mundial. A história do ensino superior é rica em projetos experimentais,
democráticos e anticoloniais, como mostro em The Good University. Temos uma
riqueza de experiências sobre a qual construir!
• Em sua palestra “Deveríamos abolir as
universidades?”, você levanta uma questão radical. Observando a América Latina,
onde a universidade pública é um pilar da mobilidade social e da resistência
intelectual, como essa provocação se traduz? Não seria o apelo não pela
abolição, mas por uma reinvenção radical baseada em epistemologias do Sul?
Meu
título “Deveríamos abolir as universidades?” é uma pergunta, não uma conclusão.
Sugiro que levemos a sério os argumentos abolicionistas, pois eles dramatizam
fragilidades reais, toxicidades reais, das universidades de hoje. Mas concordo
que, no meu país como no seu, a estratégia prática será a da reinvenção.
Na
reinvenção dos currículos universitários, da pesquisa e dos quadros de
trabalhadores, as perspectivas e iniciativas do Sul serão imensamente
importantes. No entanto, sou reticente em enfatizar as “epistemologias do Sul”.
Essa expressão sugere que já dispomos de sistemas de conhecimento alternativos,
bem formados, que poderiam ser facilmente importados para as universidades.
Penso
que a situação é mais difícil, mais fragmentada, do que isso. O tremendo
impacto da conquista colonial e da economia global — ao longo de quatro ou
cinco séculos — estilhaçou a maior parte das formações de conhecimento
indígenas e dos universalismos alternativos. Parte desse conhecimento
persistiu, mas precisou ser reimaginada e reconstruída. Um novo pensamento
surgiu por todo o Sul global sob condições coloniais e pós-coloniais (como
tentei mostrar em Southern Theory). Temos muitos recursos para a reinvenção,
mas a tarefa é enorme, e precisaremos de todos os recursos que pudermos
encontrar.
• O conceito de “dividendo patriarcal” foi
central em seu trabalho sobre masculinidades. Décadas depois, diante de
fenômenos como a “manosfera” digital e o ressurgimento do discurso abertamente
misógino, como você avalia a evolução e a resiliência dos mecanismos que
recompensam os homens, incluindo aqueles que não se encaixam no modelo
hegemônico?
O
“dividendo patriarcal” não é um termo muito usado, embora a ideia de fundo seja
bastante conhecida. Na maior parte do mundo, hoje, as mulheres, como grupo, em
comparação com os homens, como grupo, têm salários mais baixos, menos controle
sobre a riqueza corporativa, menos autoridade religiosa, menos poder político.
As pesquisadoras feministas documentaram exaustivamente o “fosso salarial”, o
“teto de vidro” e outras desigualdades.
Se
invertermos os termos, podemos falar do dividendo que os homens, coletivamente,
obtêm por viver numa ordem de gênero patriarcal. Podemos inclusive medi-lo, ou
medir grande parte dele. Alguns homens recebem mais desse dividendo do que
outros; alguns recebem pouco ou nada; e o dividendo total muda ao longo da
história. Uma complexa política das masculinidades envolve tudo isso.
Impressiona-me
o quanto o dividendo patriarcal tem se mostrado persistente. Quando refleti
pela primeira vez sobre o porquê, enfatizei a simples inércia das instituições
que distribuíam o privilégio: as igrejas, as burocracias, o parentesco e
outras. Hoje há uma hostilidade mais aberta ao feminismo, afirmações explícitas
da supremacia masculina, celebrações da força e da agressividade viris, ataques
aos estudos de gênero e ao próprio conceito de gênero, e o alarmismo em torno
do poder das mulheres. Isso foi além de uma simples “reação” ao avanço das
mulheres. São passos rumo a uma sociedade mais autoritária e violenta.
• Vivemos um momento de policrise —
climática, política e epistêmica. Em sua opinião, qual é o papel mais urgente
do intelectual público hoje? Como equilibrar a complexidade da análise teórica
com a necessidade premente de ação e comunicação em meio ao ruído digital?
Há cem
anos, em 1927, o romancista francês Julien Benda publicou um ensaio célebre, A
Traição dos Intelectuais. Ele argumentava que os ideais universais de verdade,
beleza e bondade estavam sendo corrompidos pelo engajamento político dos
intelectuais, sobretudo pelo envolvimento nas causas divisivas da nação e da
raça. Muitos acadêmicos ainda adotam uma doutrina vagamente mediana de
desengajamento, talvez supondo que a neutralidade política os protegerá na
busca pela verdade e pela compreensão.
Reconheço
o fascínio da cidade do conhecimento a brilhar sobre uma colina. Mas não creio
que seja um ideal pertinente hoje. Nasci em 1944; em 1945, lançaram bombas
atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Cresci sob a sombra do suicídio coletivo
pela guerra nuclear. Agora enfrentamos outro fim plausível para a sociedade
humana, pela catástrofe climática. E parecemos estar tornando ambos esses
desfechos mais prováveis, à medida que adentramos o vale sombrio do
autoritarismo do século XXI.
A busca
pela verdade e pela compreensão só pode prosseguir se suas condições sociais
sobreviverem. No nosso mundo, os intelectuais precisam tomar partido — da
humanidade, da democracia, da solidariedade. E, mais importante, precisam se
envolver na construção de um mundo em que seja possível sobreviver. As tensões
entre a complexidade teórica e as exigências prementes de ação só podem se
resolver por meio de uma prática compartilhada.
Fonte:
Por Thiago Gama, em Outras Palavras

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