Mineração
legal em terras indígenas ainda divide lideranças e especialistas
Ao
longo dos anos, um argumento surge com frequência no debate sobre a mineração
em terras indígenas (TIs): muitos políticos e especialistas defendem que a
regulamentação da atividade poderia auxiliar o poder público no combate ao
garimpo ilegal — um vetor de crises socioambientais em diferentes territórios
originários no Brasil.
Em
março, a senadora Tereza Cristina declarou, em audiência no Senado Federal, que
a mineração em TIs “precisa estar garantida pela lei”. Segundo a parlamentar e
ex-ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento durante o governo de Jair
Bolsonaro (2019-2022), isso faria com que “a gente não tenha o [problema] que
hoje temos de mineração ilegal, com danos ao meio ambiente e aos povos
indígenas”.
A tese,
no entanto, passa longe de ser consenso, abrindo caminho para discussões em
diferentes círculos do poder e da ciência. Conforme previsto na Constituição
Federal, a pesquisa e a mineração de riquezas minerais em terras indígenas
devem ser autorizadas pelo Congresso Nacional. O texto também cita a exigência
de ouvir as comunidades afetadas e de assegurar a elas “participação nos
resultados da lavra, na forma da lei”.
Apesar
disso, o Legislativo ainda não aprovou uma lei geral com a definição de regras
para a atividade. E, de acordo com analistas, esse cenário pode gerar
incertezas e um vácuo jurídico.
A
demora em legislar sobre o assunto, somada à ameaça do garimpo ilegal em áreas
indígenas, foi foco de uma recente decisão do ministro do Supremo Tribunal
Federal (STF), Flávio Dino. Em fevereiro, o magistrado determinou um prazo de
24 meses para que o Congresso edite uma lei que regulamente a prática.
Na
decisão, Dino disse que a mineração já ocorre “de modo ilegal, clandestino,
violento e sem respeito às normas ambientais”.
O
despacho menciona especificamente um pedido de representantes da Terra Indígena
Cinta Larga, cujas comunidades estão localizadas entre Mato Grosso e Rondônia —
e sofrem há décadas com o assédio do garimpo ilegal. Mas, ao mesmo tempo em que
buscam combater a atividade ilícita, os Cinta Larga também defendem que a falta
de regulamentação os impede de explorar o minério em suas terras e de receber
eventuais participações nos resultados da lavra.
Em
junho, o STF informou que o processo de consulta à comunidade indígena “sobre a
possibilidade de mineração no entorno de seu território” havia dado mais um
passo.
Ainda
que a decisão de fevereiro não determine expressamente a exploração de minerais
em terras indígenas, o precedente aberto por ela deu tração ao antigo debate,
trazendo novos alertas de ambientalistas e de outros representantes indígenas.
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Diferentes visões sobre o tema
July
Nery, diretor do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), organização privada
que representa o setor mineral, defende que a legalização da atividade em TIs
pode ajudar a combater estruturas clandestinas. “Quando você ocupa a área com
uma atividade legal, a ilegal fica sem espaço para trabalhar”, disse. “É algo
que a gente tem que resolver por estar na Constituição.”
Dinamam
Tuxá, coordenador-executivo da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil
(Apib), por outro lado, entende que a estratégia poderia aumentar os riscos que
já existem. “Nas áreas onde [se] flexibiliza a atividade econômica, nunca chega
só aquela atividade que está em discussão — no caso, a mineração. Todas as
infraestruturas para a instalação de um grande empreendimento podem ser
utilizadas pelo garimpo ilegal”, disse à Mongabay.
Alguns
especialistas acompanham o raciocínio de Dinaman Tuxá. Para Luiz Jardim de
Moraes Wanderley, professor do Departamento de Geografia da Universidade
Federal Fluminense (UFF), a regulamentação não vai acabar com o garimpo ilegal.
“Já há vários lugares onde o garimpo é permitido fora das terras indígenas — e
não é por isso que você não tem o garimpo ilegal [nessas áreas]”, disse.
Segundo
Wanderley, ainda que seja raro observar grandes corporações atuando em áreas
onde redes de garimpo ilegal são muito ativas — uma vez que sua presença
costuma levar violência a pontos mais afetados — , isso não garante que essas
empresas afastem a atividade ilícita a ponto de eliminá-la.
O
professor também cita casos que testam os limites entre a legalidade e a
ilegalidade. Ele destaca um episódio envolvendo a mineradora Nexa Resources: em
2020, por intermédio da Companhia Mato-grossense de Mineração (Metamat), a
firma chegou a um acordo com garimpeiros locais, encerrando uma série de
disputas pelas terras da região de Aripuanã (MT).
A
tratativa definiu que milhares de garimpeiros poderiam passar a extrair ouro de
forma legal em 516 hectares em Aripuanã, segundo nota oficial da Secretaria de
Estado de Desenvolvimento Econômico de Mato Grosso (Sedec-MT).
Já de
acordo com Pedro Gustavo Andrade, professor do Departamento de Direito, Meio
Ambiente e Amazônia da Universidade Federal de Roraima (UFRR), além de
existirem outras propostas “mais relevantes” para enfrentar o problema da
ilegalidade na mineração — ele menciona “o controle das rotas de extração de
ouro e operações de fiscalização” —, a regulamentação também poderia gerar
problemas adicionais.
Segundo
Andrade, ao mesmo tempo em que medidas regulatórias não necessariamente
acabariam com a atividade ilegal, poderiam facilitar o caminho do dinheiro
ilícito que surge dela. Ele destaca um caso de 2025 na Serra do Curral (MG), em
que a Polícia Federal (PF) descobriu um esquema de fraudes em licenças
ambientais no setor de mineração.
Chamada
de Operação Rejeito, a missão deflagrada pela PF chegou à segunda fase em junho
de 2026 e revelou um esquema de corrupção mais amplo. “Então, se isso acontece
no Sudeste, com certeza vai acontecer no Norte [região brasileira mais afetada
pelo garimpo]”, disse o professor.
Em
2020, segundo um relatório do World Resources Institute (WRI), mesmo países
amazônicos que já possuem marcos legais que regulamentam a mineração comercial
em territórios ancestrais — como Colômbia, Equador e Peru — ainda sofrem com
ilegalidades e problemas residuais relacionados.
Em toda
a Amazônia, diz o estudo, concessões de mineração e o garimpo ilegal
“sobrepõem-se a 450 mil km² (mais de 20%) de terras indígenas”.
O
documento conclui que “as legislações nacionais conferem aos povos indígenas
alguns direitos sobre a terra, mas poucos direitos em relação aos minerais nela
existentes” e ainda afirma que “na prática, a lei não é devidamente
implementada pelas empresas de mineração nem fiscalizada pelos governos”.
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Como é possível acabar com o garimpo ilegal?
Wanderley,
da UFF, explica que o surgimento e o fortalecimento do garimpo ilegal envolvem
múltiplos fatores, incluindo aspectos socioeconômicos. “Falamos de um país cuja
população vive com salários muito precarizados. Para muitos, o garimpo é a
única oportunidade”, disse.
Na
visão do especialista, a erradicação da prática ilícita passa por políticas
públicas de desenvolvimento em regiões onde os moradores ainda dependem dos
ganhos da exploração.
Um
navio-patrulha da Marinha do Brasil percorre um rio durante uma operação de
combate ao garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami (RR). Foto: Marinha do
Brasil.
Dinaman
Tuxá, da Apib, pede que o desmantelamento da mineração ilegal em TIs ocorra com
a presença permanente do Estado.
Para
isso, segundo ele, é necessário fortalecer os órgãos de proteção e
fiscalização, demarcar e regularizar as terras indígenas, além de implementar
ações de proteção territorial — com monitoramento contínuo e capacitação dos
povos indígenas que cuidam de suas terras.
• Desmatamento cai na Amazônia, mas ‘super
El Niño’ pode virar o jogo
A cada
ano, especialistas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, utilizam
dados para avaliar os níveis de perda florestal em todo o mundo. As informações
são coletadas a partir de imagens de satélite da Nasa e da Agência Espacial
Europeia e podem orientar ambientalistas e autoridades na tomada de decisões
sobre conservação na Amazônia.
Os
números de 2025 foram publicados no final de abril. Em junho, o Projeto de
Monitoramento da Amazônia Andina (Maap, na sigla em inglês) lançou seu
relatório anual, no qual apresenta uma análise abrangente com base nesses
dados, destacando as tendências anuais e os pontos críticos da perda de
floresta amazônica.
Embora
os dados indiquem que as métricas da perda florestal tenham caído em relação
aos anos anteriores, o patamar permanece elevado e preocupante. Segundo a
análise, atividades como agricultura, pecuária e mineração se mantêm como
vetores de destruição de centenas de milhares de hectares de floresta primária.
Em muitos casos, isso ocorre em unidades de conservação e em territórios
indígenas.
“É
difícil dizer que as notícias são boas se o desmatamento for menor do que em
anos anteriores, mas ainda assim atingir um milhão [de hectares]”, disse Matt
Finer, diretor do Maap. De acordo com o especialista, o desmatamento zero,
necessário para a sobrevivência da Amazônia, ainda segue distante.
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Análise dos dados
Para
compreender o que ocorre na Amazônia, os pesquisadores costumam separar a perda
florestal causada por incêndios daquela provocada por fatores não diretamente
relacionados ao fogo, como a criação de gado e a mineração.
Há um
motivo para os incêndios aparecerem separados nos registros: embora as
queimadas sejam frequentemente provocadas por ação humana, grande parte da
terra afetada nesses casos é degradada, mas não totalmente suprimida —
portanto, ainda pode ser recuperada.
Em
2025, os incêndios causaram a perda de 1,5 milhão de hectares na Amazônia — uma
queda em relação aos 2,8 milhões de hectares perdidos em 2024, quando o clima
seco, impulsionado pelo El Niño, agravou as queimadas.
Segundo
os pesquisadores, ainda que não representem uma perda florestal “completa”, os
números preocupam. Eles explicam que os incêndios não fazem parte do
ecossistema natural das florestas tropicais e que a recuperação pode levar
muito mais tempo. O quadro se agrava em meio às mudanças climáticas e à
reincidência de queimadas nessas mesmas áreas.
“Sabemos
que, quando as florestas queimam uma vez, ficam suscetíveis a queimar
novamente”, disse Elizabeth Goldman, codiretora da Global Forest Watch,
organização que também monitora o desmatamento. “E, se os incêndios continuarem
a impactar a floresta repetidamente, é possível que ela não se recupere de
fato.”
A outra
parte dos dados, classificada como perda florestal “não relacionada ao fogo”,
por sua vez, é um indicador que esmiúça o desmatamento causado pela ação
humana. De acordo com o levantamento, 2025 registrou um dos números mais baixos
de perda florestal não ocasionada por incêndios em uma década — é o quinto
índice mais baixo desde 2002. A perda total foi de pouco mais de 1 milhão de
hectares.
Em anos
anteriores, o valor era quase duas vezes maior: após atingir 1,47 milhão de
hectares em 2018, os dados de desmatamento subiram para quase 2 milhões de
hectares em 2022. Para os especialistas, a queda é positiva — mas ainda
representa uma perda significativa e digna de atenção.
“Devemos
tirar lições desse sucesso. Mas, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda não é o
suficiente”, disse Goldman.
Deslizamentos
de terra, tempestades de vento e rios sinuosos, entre outros eventos, são
frequentemente registrados por engano como perda de floresta primária. Este
ano, a análise do Maap forneceu estimativas mais precisas de desmatamento ao
remover alguns desses fatores.
O
estudo estima o desmatamento de 2025 em 736.484 hectares — 94,6% decorrente da
agricultura e 5,3% da extração de commodities sólidas, como a mineração de ouro
(que costuma ser um vetor de violência). Os outros 0,1% estão relacionados à
construção de estradas, entre outras obras de infraestrutura.
Mais
ainda, a investigação revela que quase 132 mil hectares desse total foram
desmatados ilegalmente, com registros de degradação florestal em áreas
protegidas e territórios indígenas.
Finer,
do Maap, também enfatizou a relevância das estradas nessa equação, embora elas
sejam ofuscadas pelos números da agricultura nos dados. As rodovias removem
apenas uma parte da mata, mas abrem caminho para o agronegócio e outras
atividades, como explicou a Mongabay em reportagem.
O papel
da mineração também parece pequeno nos dados. No entanto, a atividade tem um
impacto desproporcional em áreas protegidas, onde responde por 11% do
desmatamento.
Com o
maior território entre os países da Amazônia, o Brasil lidera quase todas as
métricas: segundo o Maap, mais da metade do desmatamento ocorreu em território
brasileiro (cerca de 560 mil hectares), seguido pelo Peru, pela Bolívia e pela
Colômbia.
No
entanto, em termos proporcionais, a Bolívia lidera em perda florestal causada
pelo fogo e na redução de floresta primária não relacionada a incêndios,
sobretudo devido à expansão da soja no departamento de Santa Cruz. “A Bolívia
realmente começa a surgir como o local com as maiores taxas de desmatamento e
de incêndios por área”, disse Finer.
Apesar
de alguns números em queda registrados em 2025, pesquisadores alertam que os
dados de perda de floresta em 2026 podem mudar, à medida que o novo ‘super El
Niño’ continua a criar condições favoráveis às queimadas. Para Goldman, a
solução para esses eventos climáticos extremos é criar melhores políticas de
enfrentamento.
Ela
também defende a importância de ter os líderes certos no poder. Isso inclui não
apenas os países com floresta, como o Brasil, mas também outras nações ao redor
do mundo. “A forma de promovermos mudanças no futuro é pela eleição de líderes
que se preocupem com a floresta e com o meio ambiente”, disse.
Fonte:
Mongabay

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