Projeto
que regulamenta homeschooling subverte as bases da educação
O
projeto de lei que autoriza o chamado homeschooling no Brasil pode ser votado
às pressas no plenário do Senado Federal sem ao menos ser debatido na Comissão
de Educação. Já há assinaturas de senadores em número suficiente para o regime
de urgência do PL nº 1338/2022, que insere dispositivos na Lei de Diretrizes e
Bases da Educação (LDB) para estabelecer a possibilidade de oferta domiciliar
de ensino básico. Somos contrários à proposta por diversos motivos.
Na
prática, o ensino domiciliar desloca o centro da ação educacional da escola
para o ambiente privado da família. O projeto já nasce contraditório quando
vemos que a própria LDB define que o ensino deve ser baseado no pluralismo de
ideias e de concepções pedagógicas. Isso será impossível de alcançar caso
crianças e adolescentes só tenham acesso aos conteúdos e recursos de
aprendizagem que seus pais ou responsáveis estiverem dispostos a oferecer.
A mesma
LDB, com base na Constituição Federal, estabelece que a educação tem por
finalidade o pleno desenvolvimento do educando, o seu preparo para o exercício
da cidadania e a sua qualificação para o trabalho. Como falar em pleno
desenvolvimento de crianças e adolescentes sem considerar a sua necessidade de
interação social? Como falar em formação cidadã sem o seu contato com a
diversidade?
O
homeschooling também esconde riscos que ultrapassam as questões de
aprendizagem: dificuldade do Estado em fiscalizar a qualidade do ensino
ofertado, ausência de educação inclusiva e sobrecarga de tarefas,
principalmente para as mulheres. Paralelamente, poderá gerar vínculos de
trabalho precários para os professores particulares contratados pelas famílias,
além de ensejar a criação de um mercado paralelo de venda de “soluções”
pedagógicas.
Tão
grave quanto isso é o possível impacto no financiamento do ensino público, já
que o fundo constitucional destinado a este fim tem como um dos parâmetros para
a transferência de recursos o número de alunos matriculados na educação básica.
Ou seja, o ensino domiciliar pode atingir diretamente a educação pública ao
interferir no montante do FUNDEB a ser destinado aos sistemas de ensino de
estados e municípios.
Por
trás do discurso que defende autonomia na educação dos filhos, há o DNA da
extrema direita, que é contra a liberdade de cátedra, pedagógica, e quer impor
um pensamento único a crianças e adolescentes. A pauta é uma de suas bandeiras
e se sustenta no argumento falacioso de defesa dos valores familiares diante de
uma suposta “educação ideologizada” nas escolas.
Na
verdade, ideológica é a proposta que exclui crianças e adolescentes do convívio
com a diversidade e com a liberdade de pensamento. Pesquisas mostram que a
maioria da população é contrária a retirá-los da escola para que sejam educados
em casa. É o caso do levantamento nacional Educação, Valores e Direitos
(Cenpec, 2022), segundo o qual oito em cada dez brasileiros não querem a
legalização do ensino domiciliar. Não podemos deixar que uma minoria barulhenta
e autoritária paute as decisões do Poder Legislativo.
É
direito de toda criança e adolescente frequentar a escola, que é o ambiente
necessário para a aprendizagem, socialização e desenvolvimento integral, além
de espaço de proteção e segurança alimentar nos casos de vulnerabilidade.
A
escola também cumpre uma função insubstituível de proteção à infância. É muitas
vezes na relação cotidiana com professores, orientadores e demais profissionais
da educação que surgem os primeiros sinais de violência doméstica, abuso
sexual, negligência ou outras violações de direitos sofridas por crianças e
adolescentes. Ao identificar esses indícios, a escola aciona a rede de proteção
e o poder público, contribuindo para interromper ciclos de violência e garantir
acolhimento às vítimas.
Isolar
crianças no ambiente doméstico significa, em muitos casos, reduzir as
possibilidades de que esses crimes sejam percebidos e enfrentados. Por isso,
defender a escola é também defender o direito de cada criança de ser vista,
ouvida, protegida e amparada pelo Estado.
O
debate sobre o homeschooling não diz respeito apenas ao modelo de ensino, mas
ao projeto de país que queremos construir. De um lado, uma visão que transforma
a educação em escolha privada e restringe o contato com a diversidade; de
outro, a defesa da escola como patrimônio público, espaço de liberdade, ciência
e formação cidadã. Cabe ao Senado decidir se fortalecerá a educação como
direito universal ou abrirá caminho para o seu enfraquecimento.
• PL do homeschooling: bancada
conservadora pressiona por votação no Senado. Por Mariama Corrêia
Senadores
da bancada conservadora no Senado, entre eles Magno Malta (PL-ES), Eduardo
Girão (Novo-CE) e Damares Alves (Republicanos-DF), fazem pressão para votar, no
plenário da Casa, ainda esta semana, o projeto de lei que regulamenta o ensino
domiciliar, também conhecido como homeschooling. Assim, eles pretendem pular a
etapa de tramitação na Comissão de Educação e Cultura, presidida atualmente
pela petista e atual líder do governo, Teresa Leitão.
Na
terça-feira passada, 30 de junho, os senadores apresentaram um pedido de
urgência, com 25 assinaturas, para que o projeto seja apreciado imediatamente.
“Esse protelamento causa insegurança jurídica, desespero em jovens,
adolescentes e crianças, famílias vivendo em insegurança”, disse Malta, autor
do pedido de urgência.
O PL
1.338/22 foi aprovado na Câmara dos Deputados e está parado no Senado desde
2022. A proposta de regulamentação do ensino domiciliar é vista com preocupação
por entidades que defendem o direito à educação, como o Unicef, que alerta para
os riscos e impactos negativos dessa modalidade de ensino.
Em
2022, a Agência Pública revelou, em reportagem com a OpenDemocracy, que a
principal associação promotora do ensino domiciliar no Brasil distribuía
materiais que defendiam explicitamente a violência física contra crianças como
ferramenta educativa. Castigos físicos na educação são proibidos por lei no
Brasil. A reportagem também mostrou como atuava a rede que promovia lobby pela
regulamentação do homeschooling no Congresso e como defensores do ensino
domiciliar utilizavam argumentos religiosos e versículos da Bíblia para
justificar violência contra crianças na educação domiciliar.
Renato
Godoy, gerente de relações governamentais do Instituto Alana, que atua pelo
direito das crianças, é contrário à medida. Ele aponta algumas questões que não
ficam claras na proposta como, por exemplo, quais serão as fontes de
financiamento, uma vez que a proposta prevê etapas de fiscalização e
acompanhamento da aprendizagem dos estudantes em modalidade domiciliar, o que
pode, segundo ele, “gerar um grande
custo para estados e municípios, que já têm os cofres limitados”.
Em um
país como o Brasil, o ensino domiciliar é um “debate anacrônico, que serve ao
interesse de poucas pessoas”, segundo Godoy, porque a maioria dos familiares
depende da escola para poder trabalhar. “A escola é um espaço de acesso a
inúmeros direitos, não apenas à educação, como também à alimentação adequada e
saudável, à diversão. Várias violações de direitos de crianças e adolescentes,
incluindo abuso sexual e doméstico, muitas vezes, só são identificadas na rede
educacional presencial”, explica.
Para
ele, a defesa do homeschooling estabelece uma falsa dicotomia entre o direito à
educação e o direito das famílias de escolher a educação dos seus filhos. “A
educação brasileira já prevê o direito de escolha das famílias, de escolherem
entre educação privada ou pública, por exemplo, religiosa ou não”, diz.
“Ao
decidir por uma educação no ambiente domiciliar, a família priva a criança do
direito de convivência comunitária, em sociedade, o que é fundamental para a
formação de cidadãos”, diz. “Sem contar que o PL fala que o pai ou a mãe deve
ter algum tipo de formação universitária, relegando a um segundo plano a
importância da Pedagogia”, acrescenta.
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Risco de maior exposição a telas
Além
das várias consequências negativas apontadas, Godoy acrescenta que o ensino
domiciliar pode deixar as crianças e adolescentes mais expostos às telas.
“Houve um ganho grande de qualidade de atenção com a proibição do uso do
celular nas escolas”, considera.
No
primeiro ano de implementação da Lei 15.100/2025, que restringe o uso de
aparelhos eletrônicos portáteis pessoais para fins não pedagógicos, uma
pesquisa nacional com gestores das escolas públicas e privadas, conduzida pelo
Ministério da Educação (MEC) mostrou que 95% dos respondentes concordaram que a
proibição contribuiu para uma maior concentração dos estudantes. Outros 95%
concordaram que a medida estimulou a socialização presencial entre os
estudantes e 88% relataram que ela contribuiu para redução de conflitos,
agressões digitais e cyberbullying.
Fonte: Por Tarcisio Mota, no Le Monde/Agencia
Pública

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