sexta-feira, 10 de julho de 2026


 

Governo Trump reage à decisão do Brasil que permite retorno de suposto espião à Rússia

O governo do presidente Donald Trump reagiu à decisão do Brasil de permitir que Sergey Vladimirovich Cherkasov — apontado pelos Estados Unidos como espião russo — deixe o país e possa retornar à Rússia.

Em nota enviada à BBC News Brasil nesta quarta-feira (8/7), um porta-voz do Departamento de Estado americano afirmou que os EUA estão "profundamente preocupados" com a medida e que ela enfraquece o compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras.

"Os Estados Unidos estão profundamente preocupados com a decisão do Brasil de permitir que um indivíduo com vínculos conhecidos com a inteligência russa deixe o país. Essa decisão enfraquece nosso compromisso conjunto de combater interferências estrangeiras e proteger a integridade de nossas instituições democráticas", afirmou o Departamento de Estado.

O governo americano também pediu que o Brasil considere o precedente que será criado pela decisão e trabalhe em conjunto com Washington para responsabilizar pessoas que, segundo os EUA, "ameaçam nossa segurança coletiva".

A decisão brasileira foi publicada na segunda-feira (6/7) no Diário Oficial da União. O governo determinou a expulsão de Cherkasov do país e abriu caminho para seu envio à Rússia.

A medida, porém, só poderá ser cumprida após o fim da pena à qual ele foi condenado no Brasil ou caso haja uma liberação antecipada pelo Poder Judiciário. Ainda não há previsão de quando a decisão será executada.

Sergey Cherkasov está preso desde 2022 em uma penitenciária federal de Brasília. Ele cumpre pena de cinco anos de prisão por falsidade ideológica.

Ele é apontado pela Polícia Federal e pelo FBI (a polícia federal americana) como um agente de inteligência russo que usava uma identidade falsa brasileira para atuar no exterior. Ele viveu por 12 anos como brasileiro.

No entanto, os investigadores não encontraram evidências de que Cherkasov atuou como espião contra o Brasil. Seu alvo seriam os Estados Unidos e países europeus.

Ele nega, até hoje, ser um espião a serviço do governo russo.

Desde que Cherkasov foi preso, americanos e russos entraram uma disputa diplomática pelo seu destino. Tanto Moscou quanto Washington chegaram a apresentar pedidos de extradição ao governo brasileiro, mas com versões opostas sobre a identidade e a atuação do acusado.

Com a decisão brasileira, encerra-se um capitulo inusitado das relações entre Brasil, Rússia e Estados Unidos.

<><> A batalha pelo espião russo

A disputa envolvendo Cherkasov começou oficialmente em agosto de 2022, quando a Rússia solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) sua extradição. Moscou alegava que ele era procurado no país por tráfico de drogas.

A versão, no entanto, passou a ser contestada pelos Estados Unidos e por autoridades brasileiras, que afirmavam que a acusação poderia ser uma tentativa russa de repatriar um suposto espião.

Em março de 2023, o caso ganhou novos capítulos. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentou uma acusação criminal contra Cherkasov, afirmando que ele era um agente do serviço de inteligência militar russo, o GRU.

Segundo os EUA, Cherkasov teria usado a identidade falsa de Victor Muller Ferreira para atuar em território americano e se infiltrar em instituições acadêmicas e políticas. Washington afirmou que ele faria parte do grupo conhecido como "ilegais", formado por agentes russos de inteligência enviados ao exterior com identidades falsas.

No mesmo mês, o ministro do STF Luiz Edson Fachin, relator do caso, autorizou a extradição de Cherkasov para a Rússia. A entrega, porém, não poderia ocorrer imediatamente, pois Fachin condicionou a saída do país à conclusão das investigações brasileiras sobre a atuação do suposto agente em território nacional.

Em abril de 2023, os Estados Unidos também apresentaram formalmente um pedido de extradição ao Brasil. Washington acusava Cherkasov de atuar como agente estrangeiro em solo americano, além de envolvimento em fraudes financeiras e irregularidades relacionadas à obtenção de vistos.

Em julho de 2023, o Ministério da Justiça brasileiro negou o pedido de extradição dos Estados Unidos. A pasta argumentou que a solicitação americana era improcedente porque já havia um pedido de extradição da Rússia homologado pelo STF.

Apesar disso, a entrega de Cherkasov permaneceu suspensa devido às investigações e pendências judiciais no Brasil.

No fim do ano passado, a Justiça Federal e o Ministério Público Federal (MPF) informaram que Cherkasov não teria mais nenhuma pendência jurídica que o impedisse de ser extraditado.

A decisão, então, dependia da Presidência da República, já que as entregas em casos de extradição precisam ser deliberadas pela chefia do Poder Executivo ou pelo órgão indicado por ela. Neste caso, o processo de Cherkasov está sendo conduzido pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

A BBC News Brasil apurou que a situação vinha sendo discutida internamente no ministério junto com a defesa do suposto espião e diplomatas russos.

A defesa irá encaminhar a decisão do MJ ao STF para que delibere sobre a expulsão. A expectativa é de que caso o STF determine a execução da decisão do MJ, ele retorne imediatamente para a Rússia.

<><> Como funcionava a rede de espiões

A suspeita de que o Brasil estava sendo usado como uma espécie de "berçário" de espiões russos voltou à tona no ano passado após a publicação de uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times.

Segundo o jornal, uma investigação liderada pela Polícia Federal brasileira identificou pelo menos nove supostos espiões russos que usaram documentos brasileiros como parte dos seus disfarces. A informação foi confirmada na época pela BBC News Brasil.

Parte deste caso foi revelado pela BBC News Brasil em reportagens entre os anos de 2022 e 2024.

Com base em documentos e depoimentos colhidos ao longo de meses, a BBC News Brasil revelou, por exemplo, como a Rússia orquestrou uma operação diplomática para tentar retirar um dos seus supostos espiões da prisão e levá-lo de volta ao seu país natal.

Fontes ligadas à investigação disseram à BBC News Brasil que, dos nove supostos espiões russos identificados até o ano passado, apenas um continua em solo brasileiro: Sergey Cherkasov. E foi com ele que essa intrincada rede de disfarces veio à tona e começou a ruir.

Uma rede que, segundo as investigações, utilizava disfarces inusitados. Um dos supostos espiões teria atuado como dono de uma joalheira em Brasília, outro teria sido um estudante apaixonado por forró enquanto uma outra teria atuado como modelo.

<><> A descoberta

Em abril de 2022, Sergey Cherkasov foi detido em Amsterdã, na Holanda, quando tentava entrar no país e mandado de volta ao Brasil.

Ele se apresentava como o brasileiro Victor Muller Ferreira e havia sido aprovado em um programa de estágio no Tribunal Penal Internacional, em Haia.

As investigações conduzidas por holandeses, americanos e brasileiros apontam que Cherkasov era um agente do GRU, um dos serviços de inteligência das Forças Armadas russas.

Devolvido ao Brasil, Cherkasov foi preso, processado e condenado a 15 anos de prisão no Brasil por uso de documento falso. Sua pena, no entanto, foi reduzida para cinco anos.

No Brasil, ele chegou a ser investigado por espionagem, mas o inquérito foi arquivado.

Ele hoje se encontra preso em uma penitenciária federal, em Brasília. No processo, ele admitiu ter se passado por brasileiro, mas sempre negou ser um espião.

Poucos meses depois, em novembro de 2022, a polícia norueguesa prendeu outro "brasileiro".

Seu nome era José de Assis Giammaria, mas as autoridades do país europeu afirmam que ele se chamava, na verdade, Mikhail Mikushin e seria um espião russo infiltrado em uma universidade na região do Ártico, na fronteira entre Noruega e Rússia.

O terceiro caso surgiu pouco depois, no final de 2022, quando uma brasileira reportou o desaparecimento de seu namorado, o também "brasileiro" Gerhard Daniel Campos.

As autoridades, no entanto, alegaram que Campos, seria na realidade outro espião russo chamado Artem Shmyrev. Ele deixou o Brasil pouco antes de a Polícia Federal deflagrar uma operação para prendê-lo e nunca mais foi visto.

A reportagem do The New York Times do ano passado listava outras seis pessoas que teriam usado documentos brasileiros como parte de seus disfarces: Yekaterina Leonidovna Danilova, Vladimir Aleksandrovich Danilov, Olga Igorevna Tyutereva, Aleksandr Andreyevich Utekhin, Irina Alekseyevna Antonova e Roman Olegovich Koval.

Utekhin, por exemplo, segundo as investigações, se disfarçava em Brasília como empresário do ramo de joias.

Outra suposta espiã, cujo nome brasileiro seria Maria Isabel Moresco Garcia atuaria como modelo.

De acordo com as investigações da Polícia Federal, nenhum dos supostos espiões identificados até agora colhiam informações sobre o Brasil.

A passagem pelo país, segundo o que se apurou, fazia parte de uma estratégia de criar um disfarce sólido o suficiente para não chamar atenção nos países onde, de fato, os agentes deveriam realizar as suas missões.

Cherkasov, por exemplo, passou pelo Brasil, mas também morou na Irlanda e nos Estados Unidos, onde chegou a morar a poucos quilômetros da sede da Agência Central de Inteligência (CIA).

Em março de 2023, a BBC News Brasil revelou como Cherkasov teria, segundo as investigações, "esquentado" documentos brasileiros com o auxílio de uma funcionária de um cartório.

De acordo com os documentos obtidos pela BBC News Brasil, Cherkasov teria oferecido um colar de US$ 400 para que a funcionária o ajudasse. Não havia indícios, no entanto, de que ela soubesse que Cherkasov seria um espião a serviço do governo russo.

Ao longo dos últimos anos, a Embaixada da Rússia no Brasil nunca atendeu os pedidos de resposta feito pela BBC News Brasil sobre o caso.

O mais próximo que o governo russo chegou de admitir que alguém desse grupo de nove pessoas era, de fato, um espião foi quando Mikhail Mikushin foi incluído em um acordo de troca de prisioneiros entre a Rússia e os Estados Unidos, em agosto de 2024.

ENTENDA A DECISÃO BRASILEIRA

O Brasil decidiu expulsar do país Sergey Vladimirovich Cherkasov — um suposto espião russo que está preso em Brasília desde 2022 — e enviá-lo de volta à Rússia, segundo decisão publicada na segunda-feira (6/7) no Diário Oficial da União.

A medida, contudo, só será cumprida após o fim da pena à qual ele foi condenado no Brasil ou mediante liberação pelo Poder Judiciário. Ainda não há previsão sobre quando a decisão será executada.

A suspeita de que o Brasil estava sendo usado como uma espécie de "berçário" de espiões russos voltou à tona no ano passado após a publicação de uma reportagem do jornal norte-americano The New York Times.

Segundo o jornal, uma investigação liderada pela Polícia Federal brasileira identificou pelo menos nove supostos espiões russos que usaram documentos brasileiros como parte dos seus disfarces. A informação foi confirmada na época pela BBC News Brasil.

Parte deste caso foi revelado pela BBC News Brasil em reportagens entre os anos de 2022 e 2024.

Com base em documentos e depoimentos colhidos ao longo de meses, a BBC News Brasil revelou, por exemplo, como a Rússia orquestrou uma operação diplomática para tentar retirar um dos seus supostos espiões da prisão e levá-lo de volta ao seu país natal.

Fontes ligadas à investigação disseram à BBC News Brasil que, dos nove supostos espiões russos identificados até o ano passado, apenas um continua em solo brasileiro: Sergey Cherkasov. E foi com ele que essa intrincada rede de disfarces veio à tona e começou a ruir.

Uma rede que, segundo as investigações, utilizava disfarces inusitados. Um dos supostos espiões teria atuado como dono de uma joalheira em Brasília, outro teria sido um estudante apaixonado por forró enquanto uma outra teria atuado como modelo.

<><> Os 'ilegais'

Sergey Cherkasov, Mikhail Mikushin, Artem Shmyrev e outros seis identificados pela PF brasileira seriam, suspeita-se, parte de um grupo de agentes secretos infiltrados adotado pela Rússia desde que o país ainda fazia parte da União Soviética e celebrizado pela teledramaturgia, como no seriado The Americans. Eles são conhecidos como "ilegais".

Eles não apenas mudam de nome, mas adotam novas nacionalidades, profissões, personalidades, hobbies e interesses e até mesmo criam laços familiares e de amizades ao longo de anos ou mesmo décadas.

É comum que eles formem casais durante o treinamento. O processo de trabalhar no exterior por décadas sob disfarce pode causar imensa tensão e, portanto, ter um parceiro que conhece seu trabalho costuma ser visto como uma vantagem.

Centenas de diplomatas russos foram expulsos desde a invasão da Ucrânia, muitos considerados espiões.

Nos casos detectados no Brasil, as investigações até o momento apontam como os supostos espiões teriam tentado se manter acima de qualquer suspeita.

Cherkasov, por exemplo, chegou a fazer aulas de forró enquanto morou em São Paulo, de acordo com as investigações brasileiras.

Além disso, segundo o FBI, Cherkasov chegou a pedir permissão aos seus superiores para se casar com uma mulher que não tinha treinamento como oficial de inteligência.

"Eu disse que se eu não me casar neste ano, nós estaremos com certeza acabados. A mulher não pôde suportar mais", teria afirmado Cherkasov em uma conversa encontrada pelos investigadores.

Ainda de acordo com o FBI, o fato de que seria preciso Cherkasov pedir permissão para casar mostraria o nível de controle que seus superiores teriam sobre sua vida pessoal.

Shmyrev, por sua vez, teria mantido um relacionamento com uma brasileira até pouco antes de desaparecer, em janeiro de 2023.

No Rio de Janeiro, segundo os investigadores, ele seria conhecido por ter uma empresa de impressão em 3D que teria realizado serviços para órgãos públicos como os comandos do Exército, da Marinha e para o Ministério da Cultura.

Segundo esses relatos, apesar do relacionamento com sua namorada brasileira, ele seria casado com outra suposta espiã russa chamada Irina Romanova, que viveria na Grécia sob o nome falso de Maria Tsalla e que também teria mantido um relacionamento amoroso no país. Ela também desapareceu, e as suspeitas são de que os dois teriam fugido juntos.

O parceiro de "Maria" em Atenas aparentemente foi informado por ela por uma mensagem de texto que ela estava saindo.

Acredita-se que Irina tenha sido chamada de volta pelo SVR por medo de ter sido identificada. Acredita-se que as autoridades gregas a estivessem observando ou investigando.

Ela partiu deixando sua loja e seu gato para trás o que pode indicar a pressa com que se desligou.

Nos últimos anos, oficiais de inteligência acreditam que a GRU se tornou mais ativa - e agressiva.

A GRU é suspeita de ter enviado uma equipe de agentes sob identidade falsa para matar Sergei Skripal em 2018, em Salisbury, no Reino Unido. A Rússia, no entanto, nega seu envolvimento neste caso.

O principal trabalho dos agentes, no entanto, é coletar informações e realizar atividades de apoio às Forças Armadas da Rússia.

Normalmente, quando são pegos, o governo russo trabalha para levá-los de volta à Rússia por meio de algum tipo de acordo - geralmente uma troca de espiões.

Foi o que aconteceu com um grupo de russos presos nos EUA em 2010, que foram trocados por agentes detidos em prisões russas por espionagem.

<><> Mas por que o Brasil?

Integrantes da comunidade de inteligência brasileira, investigadores e pessoas que conhecem o sistema de registro cartorial no Brasil pontuam três motivos que talvez tenham levado o Brasil a ser um dos países escolhidos pela Rússia como "berçário" para seus espiões.

        fragilidades dos sistemas de emissão e controle de documentos no Brasil;

        histórico de não envolvimento do país em conflitos internacionais;

        população miscigenada

No caso de Cherkasov, sua certidão teria sido expedida em abril de 1989 em um cartório do Rio de Janeiro.

Foi a partir dessa certidão, segundo as investigações, que teria conseguido obter carteira de identidade, carteira nacional de habilitação, passaporte e até o cartão do Sistema Único de Saúde (SUS).

No caso de Mikushin, sua certidão de nascimento foi emitida em um cartório da cidade de Padre Bernardo, no interior de Goiás, município com pouco mais de 35 mil habitantes.

Com o documento em mãos, ele teria conseguido se passar por um estudante universitário brasileiro e concluído a graduação e o mestrado em duas universidades canadenses diferentes, antes de partir para sua última missão: atuar junto a um grupo de pesquisadores noruegueses que estudam ameaças e guerras híbridas.

"Quando soubemos do caso, nós fomos aos livros do cartório e verificamos que a certidão é original e que ela está na ordem exata de emissão. Não conseguimos descobrir como é que ela foi parar nas mãos dessa pessoa e como ele conseguiu, depois, todos os outros documentos", disse à BBC News Brasil a oficial do cartório de registro civil de Padre Bernardo, Eloália Nunes Ferreira, em maio de 2023.

Um integrante da comunidade de inteligência brasileiro disse à reportagem em caráter reservado que as certidões usadas pelos dois supostos espiões identificados até agora são, de fato, materialmente verdadeiras.

Isso quer dizer que elas não foram forjadas, rasuradas ou submetidas a algum tipo de adulteração.

Segundo essa fonte, isso indicaria que essas certidões foram, efetivamente, emitidas pelos cartórios ou tabelionatos brasileiros, mas ainda não se sabe exatamente como os russos conseguiram obtê-las.

 

Fonte: BBC News Brasil


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