A
guerra começa antes da mina: o lugar que
o Brasil ocupará na reorganização da ordem internacional
A
reportagem parece tratar da corrida pelas terras raras brasileiras. Não trata.
Ao dissecar o artigo da Foreign Policy, este ensaio revela que a primeira
batalha do século XXI acontece muito antes da mineração: ela começa na disputa
pela forma como o Brasil será pensado na reorganização da ordem internacional.
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A pergunta está errada
À
primeira vista, o artigo Everyone Wants in on Brazil’s Rare
Earths. Is Brasília Ready for the Moment? parece tratar apenas
da corrida global pelas terras raras brasileiras. Não trata. Em um cenário
marcado pela competição tecnológica entre Estados Unidos e China, pela
reorganização das cadeias industriais e pela busca de novas fontes de minerais
críticos, o texto parecia seguir um roteiro conhecido: o Brasil possui uma das
maiores reservas do planeta e precisa decidir como responder ao crescente
interesse internacional.
Essa,
porém, é apenas a superfície.
A
principal contribuição do artigo não está nas informações que apresenta, mas na
pergunta que escolhe fazer. Ao questionar se Brasília está pronta para o
momento, o texto desloca o centro do debate. A discussão deixa de ser quem
disputa os recursos brasileiros e passa a ser se o Estado brasileiro possui
capacidade para responder às expectativas produzidas por essa disputa. A
mudança parece sutil. Não é. Ela redefine completamente o problema.
Toda
estratégia começa pela definição das perguntas consideradas legítimas.
Perguntas não organizam apenas respostas. Organizam prioridades, distribuem
atenção, estabelecem critérios de racionalidade e delimitam os horizontes
dentro dos quais governos, empresas e formuladores de políticas passam a
pensar. Antes mesmo de qualquer conclusão, elas já selecionaram o terreno sobre
o qual o debate poderá acontecer.
É
justamente por isso que este ensaio parte de uma hipótese diferente. O artigo
da Foreign Policy não deve ser lido apenas como uma análise
sobre minerais críticos. Ele deve ser compreendido como uma peça de jornalismo
estratégico que participa da construção de um determinado enquadramento sobre o
Brasil em um momento de profunda reorganização da economia política
internacional.
Se o
problema fosse apenas geológico, bastaria medir reservas. Se fosse apenas
econômico, bastaria comparar investimentos. Se fosse apenas tecnológico,
bastaria discutir processamento e cadeias produtivas. Mas nenhuma dessas
dimensões explica por que a pergunta central do artigo não é quem definirá o
futuro desses recursos, e sim se Brasília está preparada para administrá-los.
Talvez
porque a disputa mais importante comece muito antes da mineração. Ela começa
quando se define quais perguntas parecerão naturais e quais deixarão,
silenciosamente, de ser feitas.
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Como se fabrica uma orientação estratégica
A força
de um artigo estratégico raramente está no que ele diz. Ela está na maneira
como organiza o terreno sobre o qual determinadas conclusões passam a parecer
naturais. Antes de persuadir, um texto desse tipo redefine prioridades,
estabelece critérios de relevância e reorganiza a atenção do leitor. É nesse
movimento silencioso que reside sua principal capacidade de influência.
Isso
explica por que determinados conceitos aparecem hoje com tanta frequência em
documentos governamentais, relatórios de organismos multilaterais, centros de
pesquisa, consultorias estratégicas e veículos especializados em política
internacional. Expressões como critical minerals, economic
security, resilient supply chains, de-risking e diversification não
são apenas descrições técnicas. Elas compõem uma gramática comum que reorganiza
a forma como recursos naturais, cadeias produtivas e políticas industriais
passam a ser percebidos. Quando essa linguagem se estabiliza, ela deixa de
parecer uma escolha histórica e passa a funcionar como se fosse a própria
realidade.
A
mudança de vocabulário não elimina o conflito. Apenas muda a forma de
percebê-lo. O conflito geopolítico não desaparece. Apenas muda de vocabulário.
A disputa entre Estados cede espaço à linguagem da governança; a dependência
torna-se problema de resiliência; a competição estratégica converte-se em
diversificação de cadeias; interesses nacionais passam a ser apresentados como
desafios de coordenação. O efeito não é esconder a política, mas reorganizá-la
sob categorias que parecem neutras, universais e inevitáveis.
É nesse
terreno que o jornalismo estratégico opera. Seu objetivo não é apenas informar
acontecimentos, mas participar da construção dos referenciais pelos quais esses
acontecimentos serão interpretados. O poder de um texto não está apenas no que
afirma, mas na capacidade de tornar determinadas perguntas mais plausíveis do
que outras, certos caminhos mais racionais do que alternativas que, pouco a
pouco, deixam de ocupar espaço no debate público.
Essa é
a camada menos visível da disputa contemporânea. Antes que governos decidam
políticas industriais, empresas assinem contratos ou investidores direcionem
bilhões de dólares, ocorre uma disputa muito mais silenciosa: a definição das
categorias que orientarão essas escolhas. Recursos estratégicos não adquirem
significado apenas por suas propriedades físicas ou por seu valor econômico.
Tornam-se estratégicos dentro de uma arquitetura intelectual que define como
deverão ser compreendidos, quais problemas deverão resolver e quais
expectativas passarão a organizar. É nesse terreno que começa a primeira e
talvez mais importante batalha pela soberania.
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Quando o mapa substitui o projeto nacional
Toda
arquitetura intelectual produz consequências materiais. É justamente por isso
que a linguagem estratégica nunca permanece restrita às páginas de revistas
especializadas ou aos relatórios de grandes centros de pesquisa. Ela atravessa
governos, orienta investimentos, reorganiza cadeias produtivas e redefine
prioridades nacionais. A produção de conhecimento e a produção material
caminham juntas.
A
reorganização das cadeias globais de minerais críticos oferece um exemplo
preciso desse movimento. À medida que Estados Unidos, União Europeia, Japão e
outras economias industrializadas passaram a reduzir sua dependência do
processamento chinês, consolidou-se uma nova geografia da competição. O debate
deixou de girar apenas em torno da existência de reservas minerais e passou a
concentrar-se na capacidade de controlar processamento, tecnologia,
financiamento, propriedade intelectual e destinos industriais. Em outras
palavras, a disputa nunca foi simplesmente pelo minério, mas pelo comando da
cadeia que transforma o minério em poder econômico, tecnológico e geopolítico.
É nesse
contexto que casos como o da Serra Verde precisam ser compreendidos. O
empreendimento, frequentemente apresentado como exemplo do potencial mineral
brasileiro, revela algo mais importante do que sua capacidade produtiva. Ele
demonstra como financiamento público estrangeiro, contratos de longo prazo,
garantias de fornecimento e estratégias nacionais de outras potências podem se
articular antes mesmo que o Brasil consolide um projeto próprio para esses
recursos. O caso revela uma lógica que tende a se repetir.
Esse
talvez seja o ponto mais sensível de toda a discussão. Países não disputam
apenas jazidas. Disputam a capacidade de definir o destino econômico,
tecnológico e político dessas jazidas. Reservas minerais, isoladamente, não
produzem soberania. O que produz soberania é a capacidade de decidir onde
processar, quem financiará, quem dominará as tecnologias associadas, quem
agregará valor industrial e quem capturará os benefícios estratégicos dessa
cadeia.
Essa
distinção altera completamente a forma de interpretar o debate contemporâneo.
Quando o mapa geológico passa a ocupar o lugar do projeto nacional, o risco
deixa de ser apenas econômico. Um país pode possuir algumas das maiores
reservas do planeta e, ainda assim, continuar ocupando uma posição subordinada
na divisão internacional do poder. A riqueza permanece no território. O
comando, porém, desloca-se para outro lugar.
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O Brasil como função ou como sujeito
A
partir daqui, a mineração deixa de ser o objeto da discussão. A verdadeira
questão não é saber quem terá acesso às reservas brasileiras, mas qual papel o
Brasil aceitará desempenhar na reorganização da economia política
internacional. Essa talvez seja a pergunta mais importante que o debate
contemporâneo evita formular.
Ao
longo da história, países periféricos raramente foram definidos apenas pela
riqueza de seus territórios. Foram definidos, sobretudo, pela função que lhes
foi atribuída na divisão internacional do trabalho. Exportadores de
matérias-primas, fornecedores de energia, produtores de alimentos ou mercados
consumidores. Hoje, os minerais críticos correm o risco de ocupar o mesmo lugar
histórico que o açúcar, o ouro, a borracha, o café, o minério de ferro e o
petróleo ocuparam em diferentes momentos da formação do capitalismo mundial:
riquezas extraordinárias incorporadas a estratégias concebidas em outros
centros de decisão.
É aqui
que o materialismo histórico e o realismo político encontram um mesmo
diagnóstico. Recursos estratégicos nunca possuem significado em si mesmos. Seu
valor depende da posição que ocupam nas estruturas de poder que organizam a
produção, a tecnologia, o financiamento, o comércio e a capacidade de decisão.
A posse de uma riqueza natural pode ampliar o poder de um Estado, mas também
pode aprofundar sua dependência, caso os principais elos da cadeia permaneçam
sob comando externo.
Essa
distinção torna insuficiente a ideia de que o desafio brasileiro consiste
apenas em aproveitar uma oportunidade aberta pela transição energética ou pela
competição tecnológica entre grandes potências. O verdadeiro desafio consiste
em decidir se o país pretende continuar desempenhando uma função previamente
esperada na reorganização das cadeias globais ou se pretende construir um
projeto capaz de redefinir sua própria posição nessa arquitetura. A primeira
adapta o Brasil às transformações do sistema internacional. A segunda procura
influenciar a forma como esse sistema será reorganizado.
Sob a
perspectiva do Sul Global, essa diferença deixa de ser apenas brasileira. Ela
diz respeito à capacidade de países historicamente posicionados na periferia
ampliarem sua autonomia em um momento em que recursos naturais, tecnologia,
inteligência artificial, energia e infraestrutura voltam a ocupar o centro da
disputa geopolítica. A questão estratégica do século XXI, portanto, não é
apenas quem controlará os recursos críticos do planeta, mas quem terá
legitimidade para definir o papel político que esses recursos desempenharão na
construção da próxima ordem internacional.
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Antes da mina existe uma ideia
Talvez
o maior equívoco do debate contemporâneo seja imaginar que a disputa pelos
recursos estratégicos começa quando máquinas entram em operação ou contratos
são assinados. Nessa altura, uma parte decisiva da batalha já foi travada.
Muito antes da extração, da industrialização ou da circulação do capital,
alguém já definiu quais recursos seriam considerados estratégicos, quais
perguntas pareceriam razoáveis, quais prioridades ocupariam o centro do debate
e quais possibilidades permaneceriam invisíveis.
Essa
constatação modifica profundamente a forma de compreender o próprio conceito de
soberania. Durante muito tempo, ela foi associada ao controle do território,
das fronteiras, das riquezas naturais ou das capacidades militares. Tudo isso
continua indispensável. Mas o século XXI acrescentou uma dimensão anterior a
todas elas: a capacidade de produzir, interpretar e disputar os referenciais
por meio dos quais essas riquezas passam a adquirir significado político.
Nenhum país exerce plenamente sua soberania quando depende de outros para
definir o sentido estratégico de seus próprios recursos.
Foi
essa camada que o artigo da Foreign Policy, involuntariamente,
tornou visível. Ao analisar uma reportagem aparentemente dedicada às terras
raras brasileiras, descobrimos algo muito mais profundo do que uma discussão
sobre mineração. Encontramos um exemplo de como a produção internacional de
conhecimento participa da construção dos horizontes estratégicos que orientam
governos, investidores, instituições e centros de decisão em um período de
reorganização da ordem mundial. O objeto nunca foram apenas os minerais. O
objeto sempre foi a forma de pensar os minerais.
Esse
talvez seja um dos maiores desafios colocados hoje ao Brasil e ao Sul Global.
Não basta disputar investimentos, desenvolver tecnologia, ampliar o
processamento industrial ou fortalecer cadeias produtivas nacionais. Tudo isso
será insuficiente se continuarmos aceitando, como naturais, categorias
produzidas para interpretar interesses que nem sempre coincidem com os nossos.
A autonomia política começa quando uma sociedade recupera a capacidade de
formular suas próprias perguntas, construir seus próprios diagnósticos e
definir, por si mesma, o significado estratégico de suas riquezas.
É por
isso que, antes da mina, existe uma ideia. E é exatamente por isso que a
primeira batalha do século XXI não acontece no subsolo. Ela acontece no terreno
onde se decide como o mundo será pensado.
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Lula discute minerais críticos em meio a negociações com
os EUA sobre tarifaço
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ministros na manhã desta
sexta-feira (10) para discutir a gestão dos minerais críticos brasileiros, em
um momento em que o governo intensifica as negociações com os Estados
Unidos sobre o tarifaço imposto a produtos nacionais. As informações foram
publicadas pelo jornal O Globo.
A
reunião ocorre em meio ao interesse da Casa Branca em estabelecer um acordo
para a exploração de minerais críticos em território brasileiro. O tema ganhou
relevância nas conversas entre Lula e Donald Trump, atual presidente dos
Estados Unidos, durante encontro realizado no início de maio, na Casa Branca,
quando a cooperação no setor mineral esteve entre os assuntos debatidos.
Os
chamados minerais críticos, especialmente os elementos de terras-raras, são
considerados estratégicos para a transição energética e para a produção de
tecnologias de ponta, como baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas,
equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Segundo dados do Serviço
Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui cerca de 21 milhões
de toneladas de reservas de elementos de terras-raras, a segunda maior do
planeta.
Enquanto
conduz as negociações comerciais com Washington, o governo brasileiro também
avança na definição de uma política nacional para fortalecer a exploração
desses recursos. No início deste mês, o Ministério de Minas e Energia
apresentou ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) um plano que
estabelece diretrizes e metas para o setor mineral até 2050.
Entre
os principais objetivos está a ampliação da participação brasileira na produção
mundial de minerais críticos, passando dos atuais 8,3% para 12,2% até
2050. A projeção foi elaborada com base nas estimativas de demanda da Agência
Internacional de Energia (AIE) e no potencial produtivo das reservas conhecidas
no território nacional.
O plano
busca alinhar a expansão da capacidade de produção brasileira ao crescimento
esperado da demanda global por esses insumos, considerados essenciais para a
economia de baixo carbono e para a indústria de alta tecnologia.
O CNPE,
presidido pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, atua como
órgão de assessoramento da Presidência da República na formulação de políticas
públicas para os setores de energia e mineração. O colegiado reúne
representantes de diversos ministérios e coordena as diretrizes estratégicas da
área.
Como
parte dessa estratégia, o governo prepara a publicação do Plano Nacional
de Mineração (PNM) 2050, documento que reúne orientações para investimentos,
regulação, pesquisa mineral e sustentabilidade. A expectativa é que o plano
seja divulgado entre esta sexta-feira e sábado. Após sua publicação, um
documento complementar deverá detalhar as ações necessárias para atingir as
metas estabelecidas, no prazo de até 180 dias.
A
discussão sobre minerais críticos ganhou ainda mais relevância diante da
crescente disputa internacional pelo acesso a esses recursos. Em abril deste
ano, a mineradora Serra Verde, localizada em Goiás e considerada a única
operação fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro principais
elementos magnéticos de terras-raras, foi adquirida pela empresa
americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões.
Lula
tem defendido que o Brasil está disposto a negociar acordos de exploração
mineral com os Estados Unidos, mas mantém a posição de que o país continuará
aberto a investimentos provenientes de outras nações, preservando uma
estratégia de diversificação de parceiros no setor mineral.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

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