Movimento
de 1932 foi contrarrevolução da elite paulista contra direitos dos
trabalhadores, diz historiadora
O
feriado de 9 de julho marca a chamada Revolução Constitucionalista de 1932,
quando a oligarquia paulista decidiu se insurgir contra Getúlio Vargas. Houve
luta armada e esse processo, que deixou 2.100 mortos, é reverberado pela
memória de muitos como ato heroico.
Contudo,
outras camadas dessa história mostram, na verdade, que o movimento foi uma
contrarrevolução por parte das elites paulistas contra a ampliação de direitos
mínimos aos trabalhadores e trabalhadoras. A historiadora Jullyana Luporini de
Souza destrincha estes aspectos no livro Revolução e Contra-Revolução: a
burguesia industrial paulista e o governo Vargas (Maria Antonia Edições, 2025).
O
movimento contrarrevolucionário começa, na realidade, com a deposição de
Washington Luís em 1930 – que sepulta de vez a República Oligárquica,
representada pela elite cafeeira de São Paulo e Minas Gerais – e a nomeação de
Getúlio Vargas como líder do governo provisório.
Vargas
começa um processo de centralização do poder. Uma das decisões é criar o
Ministério do Trabalho, que passaria a ser responsável por mediar as relações
entre empregador e empregado.
É
justamente a elite agrícola paulista que, dois anos depois, se alia à burguesia
industrial de São Paulo para tentar retomar esse domínio. Em conversa com o BdF
Entrevista, Souza explica que, apesar das origens distintas, os dois blocos vão
se unir contra o novo “inimigo comum”: as camadas populares.
“A
gente vê uma heterogeneidade nessa formação dessa burguesia industrial
paulista, que faz com que eles até tenham uma dificuldade de se posicionar
ideologicamente. Só que daí, em momentos de grande tensão, em 1932, eles
assumem um discurso exatamente igual ao discurso e à posição da burguesia
cafeicultora, dos importadores, dos comerciantes com dinheiro. O que une todos
eles é a aversão a qualquer tipo de mobilização da classe trabalhadora que
possa trazer uma democracia mais ampliada”, explica, adicionando que este tipo
de união das elites “é uma constante na história do Brasil”.
Os
primeiros anos de Vargas no poder são marcados por grande ebulição social.
“Existe uma tentativa de entender que esses operários fabris, essa classe
operária, estão no cenário político e precisam ser representados. É uma ideia
que não tem anteriormente. E daí, nesse momento, obviamente, é uma boa
conjuntura para as pessoas se mobilizarem. Então a gente tem o avanço de
greves. A classe operária percebe que tem a possibilidade de negociar, e isso
para a burguesia é inconcebível”, avalia.
Por
isso, a historiadora define o levante de 1932 como uma contrarrevolução. “A
gente está vivendo um período de modificações muito importantes, inclusive
nessa relação entre capital e trabalho. O governo Vargas, principalmente nesse
período do governo provisório, não é um governo popular; enfim, ele tem os
interesses próprios dele. É uma disputa de poder, uma disputa de hegemonia que
está ocorrendo ali”, explica.
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‘Cara do sistema’
Nesse
sentido, Jullyana Luporini de Souza também reflete sobre o epíteto que Getúlio
Vargas acabou carregando de “pai dos pobres”. Embora ostente em seu currículo
ações práticas na direção dos trabalhadores, como a Consolidação das Leis
Trabalhistas (CLT), a verdade, como aponta a historiadora, é que Vargas era um
“cara do sistema” e que, desde o governo provisório, trabalhou no sentido de se
articular e realizar mediação com as elites.
Souza
também analisa um possível paralelo entre os movimentos de 1932, o golpe
civil-militar que instaurou a ditadura em 1964, e o golpe institucional em 2016
contra a presidenta Dilma Rousseff: em todos esses momentos, houve protagonismo
das elites e da manutenção do discurso reacionário. No caso do contexto
paulista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) aparece em
todos esses momentos históricos.
“É
muito interessante, porque a gente vê que as pautas, às vezes, continuam as
mesmas. Mesmo nessa questão do fim da escala 6×1, você vai ver o empresariado,
não só o paulista, outras associações. Mas eu acho que a Fiesp tem um papel
também bastante crucial, porque ela realmente é uma federação que tem uma
importância histórica, pelo tamanho da indústria em São Paulo. Só que são os
mesmos discursos, não muda muito”, pondera.
• Saiba por que via da Zona Leste de SP
homenageia líder socialista que combateu fascismo. Por Raissa Neves
Quem
transita pela atual Avenida Marechal Tito, uma das mais movimentadas da Zona
Leste de São Paulo, não imagina as histórias por trás dessa via, e como ela
acabou ganhando o nome de um importante líder socialista, combatente
antifascista e herói da Segunda Guerra Mundial.
Em 8 de
setembro de 1980, a antiga Estrada Velha São Paulo–Rio foi oficialmente
renomeada como Avenida Marechal Tito, em homenagem a Josip Broz Tito, líder
político e militar da antiga Iugoslávia.
A
decisão de mudar o nome da avenida foi tomada pela Prefeitura de São Paulo por meio do Decreto
nº 16.880, de 9 de agosto de 1980, durante a gestão do prefeito Reynaldo
Emygdio de Barros.
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Líder da Iugoslávia
Nascido
em 7 de maio de 1892, na atual Croácia, Tito ganhou destaque durante a Segunda
Guerra Mundial ao liderar a resistência iugoslava contra a ocupação nazista.
Após
esse período, e devido ao seu papel na luta contra os invasores, ele assumiu a
Presidência da Iugoslávia e permaneceu no poder por mais de três décadas, até a
sua morte, em maio de 1980, tornando-se uma das principais lideranças políticas
do século 20.
Ele é
lembrado por manter a unidade da Iugoslávia apesar das diferenças étnicas e
regionais entre seus povos. Seu falecimento marcou o início de um processo de
enfraquecimento do país, que anos depois acabaria se fragmentando.
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Trajeto
Atualmente,
a Avenida Marechal Tito tem início na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra e é um
dos principais corredores de comércio, transporte e circulação da Zona Leste.
O
percurso acompanha a própria expansão da cidade de São Paulo, preservando
marcas de diferentes períodos da história brasileira, desde os caminhos
coloniais até a formação da metrópole contemporânea.
Em
outros tempos, esse trajeto passava por regiões como São Miguel Paulista, Itaim
Paulista e seguia até Jacareí.
Antes
de receber o nome atual, em 1980, a via era conhecida como Estrada Velha São
Paulo–Rio, tem origem em antigos caminhos utilizados desde o período colonial
para ligar a capital paulista ao Rio de Janeiro e desempenhou papel importante
na integração entre as duas cidades.
O
apelido surgiu porque a rodovia aproveitava rotas históricas utilizadas por
viajantes durante o período imperial. Ademais, registros históricos indicam que
Dom Pedro I também percorreu esse caminho.
A
história da estrada está ligada ao projeto de modernização das rodovias
paulistas iniciado pelo então governador Washington Luís. Em 1920, foram
iniciadas obras para melhorar a ligação terrestre entre São Paulo e Rio de
Janeiro, culminando na inauguração da Estrada São Paulo–Rio, em 1928.
Mapas
produzidos pela empresa SARA Brasil, em 1928, demonstram a relevância da
estrada para a ocupação e o desenvolvimento da zona leste da capital. Ao longo
das décadas, a via se consolidou como um importante eixo de circulação e
crescimento urbano da região.
Além de
sua relevância histórica, a Avenida Marechal Tito desempenhou papel fundamental
no desenvolvimento urbano do extremo leste da capital paulista.
Ao
longo das décadas, a via se consolidou como o principal eixo de circulação do
Itaim Paulista, conectando bairros, serviços e equipamentos públicos em uma
região marcada pelo rápido crescimento populacional e pela expansão de
loteamentos residenciais.
Estudos
urbanísticos apontam que a avenida também se tornou um importante corredor
comercial e de transporte, concentrando atividades econômicas e facilitando o
acesso da população à estação da CPTM, escolas, unidades de saúde e centros de
compras.
Sua
importância é tamanha que o Plano Regional Estratégico da região prevê a
integração da Marechal Tito a projetos de mobilidade, áreas verdes e parques
lineares, reforçando seu papel como uma das principais artérias da Zona Leste
paulistana.
Fonte:
Por Lucas Estanislau e Maria Teresa Cruz, em Brasil de Fato/Opera Mundi

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