sábado, 11 de julho de 2026

Movimento de 1932 foi contrarrevolução da elite paulista contra direitos dos trabalhadores, diz historiadora

O feriado de 9 de julho marca a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, quando a oligarquia paulista decidiu se insurgir contra Getúlio Vargas. Houve luta armada e esse processo, que deixou 2.100 mortos, é reverberado pela memória de muitos como ato heroico.

Contudo, outras camadas dessa história mostram, na verdade, que o movimento foi uma contrarrevolução por parte das elites paulistas contra a ampliação de direitos mínimos aos trabalhadores e trabalhadoras. A historiadora Jullyana Luporini de Souza destrincha estes aspectos no livro Revolução e Contra-Revolução: a burguesia industrial paulista e o governo Vargas (Maria Antonia Edições, 2025).

O movimento contrarrevolucionário começa, na realidade, com a deposição de Washington Luís em 1930 – que sepulta de vez a República Oligárquica, representada pela elite cafeeira de São Paulo e Minas Gerais – e a nomeação de Getúlio Vargas como líder do governo provisório.

Vargas começa um processo de centralização do poder. Uma das decisões é criar o Ministério do Trabalho, que passaria a ser responsável por mediar as relações entre empregador e empregado.

É justamente a elite agrícola paulista que, dois anos depois, se alia à burguesia industrial de São Paulo para tentar retomar esse domínio. Em conversa com o BdF Entrevista, Souza explica que, apesar das origens distintas, os dois blocos vão se unir contra o novo “inimigo comum”: as camadas populares.

“A gente vê uma heterogeneidade nessa formação dessa burguesia industrial paulista, que faz com que eles até tenham uma dificuldade de se posicionar ideologicamente. Só que daí, em momentos de grande tensão, em 1932, eles assumem um discurso exatamente igual ao discurso e à posição da burguesia cafeicultora, dos importadores, dos comerciantes com dinheiro. O que une todos eles é a aversão a qualquer tipo de mobilização da classe trabalhadora que possa trazer uma democracia mais ampliada”, explica, adicionando que este tipo de união das elites “é uma constante na história do Brasil”.

Os primeiros anos de Vargas no poder são marcados por grande ebulição social. “Existe uma tentativa de entender que esses operários fabris, essa classe operária, estão no cenário político e precisam ser representados. É uma ideia que não tem anteriormente. E daí, nesse momento, obviamente, é uma boa conjuntura para as pessoas se mobilizarem. Então a gente tem o avanço de greves. A classe operária percebe que tem a possibilidade de negociar, e isso para a burguesia é inconcebível”, avalia.

Por isso, a historiadora define o levante de 1932 como uma contrarrevolução. “A gente está vivendo um período de modificações muito importantes, inclusive nessa relação entre capital e trabalho. O governo Vargas, principalmente nesse período do governo provisório, não é um governo popular; enfim, ele tem os interesses próprios dele. É uma disputa de poder, uma disputa de hegemonia que está ocorrendo ali”, explica.

<><> ‘Cara do sistema’

Nesse sentido, Jullyana Luporini de Souza também reflete sobre o epíteto que Getúlio Vargas acabou carregando de “pai dos pobres”. Embora ostente em seu currículo ações práticas na direção dos trabalhadores, como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a verdade, como aponta a historiadora, é que Vargas era um “cara do sistema” e que, desde o governo provisório, trabalhou no sentido de se articular e realizar mediação com as elites.

Souza também analisa um possível paralelo entre os movimentos de 1932, o golpe civil-militar que instaurou a ditadura em 1964, e o golpe institucional em 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff: em todos esses momentos, houve protagonismo das elites e da manutenção do discurso reacionário. No caso do contexto paulista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) aparece em todos esses momentos históricos.

“É muito interessante, porque a gente vê que as pautas, às vezes, continuam as mesmas. Mesmo nessa questão do fim da escala 6×1, você vai ver o empresariado, não só o paulista, outras associações. Mas eu acho que a Fiesp tem um papel também bastante crucial, porque ela realmente é uma federação que tem uma importância histórica, pelo tamanho da indústria em São Paulo. Só que são os mesmos discursos, não muda muito”, pondera.

•        Saiba por que via da Zona Leste de SP homenageia líder socialista que combateu fascismo. Por Raissa Neves

Quem transita pela atual Avenida Marechal Tito, uma das mais movimentadas da Zona Leste de São Paulo, não imagina as histórias por trás dessa via, e como ela acabou ganhando o nome de um importante líder socialista, combatente antifascista e herói da Segunda Guerra Mundial.

Em 8 de setembro de 1980, a antiga Estrada Velha São Paulo–Rio foi oficialmente renomeada como Avenida Marechal Tito, em homenagem a Josip Broz Tito, líder político e militar da antiga Iugoslávia.

A decisão de mudar o nome da avenida foi tomada pela  Prefeitura de São Paulo por meio do Decreto nº 16.880, de 9 de agosto de 1980, durante a gestão do prefeito Reynaldo Emygdio de Barros.

<><> Líder da Iugoslávia

Nascido em 7 de maio de 1892, na atual Croácia, Tito ganhou destaque durante a Segunda Guerra Mundial ao liderar a resistência iugoslava contra a ocupação nazista.

Após esse período, e devido ao seu papel na luta contra os invasores, ele assumiu a Presidência da Iugoslávia e permaneceu no poder por mais de três décadas, até a sua morte, em maio de 1980, tornando-se uma das principais lideranças políticas do século 20.

Ele é lembrado por manter a unidade da Iugoslávia apesar das diferenças étnicas e regionais entre seus povos. Seu falecimento marcou o início de um processo de enfraquecimento do país, que anos depois acabaria se fragmentando.

<><> Trajeto

Atualmente, a Avenida Marechal Tito tem início na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra e é um dos principais corredores de comércio, transporte e circulação da Zona Leste.

O percurso acompanha a própria expansão da cidade de São Paulo, preservando marcas de diferentes períodos da história brasileira, desde os caminhos coloniais até a formação da metrópole contemporânea.

Em outros tempos, esse trajeto passava por regiões como São Miguel Paulista, Itaim Paulista e seguia até Jacareí.

Antes de receber o nome atual, em 1980, a via era conhecida como Estrada Velha São Paulo–Rio, tem origem em antigos caminhos utilizados desde o período colonial para ligar a capital paulista ao Rio de Janeiro e desempenhou papel importante na integração entre as duas cidades.

O apelido surgiu porque a rodovia aproveitava rotas históricas utilizadas por viajantes durante o período imperial. Ademais, registros históricos indicam que Dom Pedro I também percorreu esse caminho.

A história da estrada está ligada ao projeto de modernização das rodovias paulistas iniciado pelo então governador Washington Luís. Em 1920, foram iniciadas obras para melhorar a ligação terrestre entre São Paulo e Rio de Janeiro, culminando na inauguração da Estrada São Paulo–Rio, em 1928.

Mapas produzidos pela empresa SARA Brasil, em 1928, demonstram a relevância da estrada para a ocupação e o desenvolvimento da zona leste da capital. Ao longo das décadas, a via se consolidou como um importante eixo de circulação e crescimento urbano da região.

Além de sua relevância histórica, a Avenida Marechal Tito desempenhou papel fundamental no desenvolvimento urbano do extremo leste da capital paulista.

Ao longo das décadas, a via se consolidou como o principal eixo de circulação do Itaim Paulista, conectando bairros, serviços e equipamentos públicos em uma região marcada pelo rápido crescimento populacional e pela expansão de loteamentos residenciais.

Estudos urbanísticos apontam que a avenida também se tornou um importante corredor comercial e de transporte, concentrando atividades econômicas e facilitando o acesso da população à estação da CPTM, escolas, unidades de saúde e centros de compras.

Sua importância é tamanha que o Plano Regional Estratégico da região prevê a integração da Marechal Tito a projetos de mobilidade, áreas verdes e parques lineares, reforçando seu papel como uma das principais artérias da Zona Leste paulistana.

 

Fonte: Por Lucas Estanislau e Maria Teresa Cruz, em Brasil de Fato/Opera Mundi

 

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