Mané
Garrincha, Vovó Maria Conga e a Copa do Mundo
Na
mesma semana em que a Seleção Brasileira de futebol masculino foi eliminada
pela Noruega na Copa do Mundo, denúncias sobre ataques a terreiros de umbanda
circularam nas redes e jornais e foi detida na Bahia uma suspeita de ter
pichado, em janeiro, o terreiro de candomblé Nzo Mutá Lombô Ye Kayongo Toma
Kwiza com as palavras “assassinos” e “Jesus”.
Os
encapsulados em padrões eurocêntricos, ou os que acham que uma coisa não tem
relação com a outra, não vão gostar, mas informo que Mané Garrincha e Vovó
Maria Conga, preta velha das nossas umbandas, são heróis civilizadores do
Brasil. Por aqui, o futebol representou algo parecido com as umbandas no
processo de formação da cultura brasileira.
Introduzido
por descendentes de europeus no final do século XIX, o futebol praticado no
Brasil começou a se definir por outros modos de jogar bola. O esporte britânico
praticado nos espaços de lazer de jovens das camadas dominantes e nas fábricas
com trabalhadores ingleses, foi reencantado pelas camadas dominadas, ganhando
múltiplos significados. Nós garrinchamos o jogo.
O
gramado/terreiro em que no início só dançavam na gira do jogo jovens das elites
e trabalhadores europeus passou a ser ocupado pelos descendentes de
escravizados e pelos subalternizados no violento processo de formação do
estado-nação brasileiro. Garrincha, por exemplo, era descendente de indígenas
da etnia fulni-ô.
Estudiosos
da história das umbandas, sou um deles, chamam a atenção para o fato de que ela
é fruto do amálgama dos ritos de ancestralidade bantos, dos calundus,
pajelanças, encantarias, cristianismo popular e espiritismo kardecista. Há quem
ache que esses encruzilhamentos representam a cristianização dos ritos
africanos, e há quem ache que expressam a africanização do cristianismo. As
duas hipóteses não se excluem e definem complexamente nossos modos, inclusive,
de cultuar e interagir com os mortos.
Ao
mesmo tempo que o futebol se popularizava, um embate se desenvolvia nos
terreiros. O jogo nesse caso era entre uma perspectiva umbandista de base
kardecista cristã, que apostava na evolução cármica espiritual dos espíritos
menos desenvolvidos, e uma umbanda de fundamentos africanos, macumbada,
protagonizada pelos caboclos brasileiros, pretas e pretos velhos da Aruanda,
trabalhadores das ruas, malandros, pombagiras e exus que não buscavam evolução
nenhuma, até porque não eram involuídos. Esse tensionamento dizia muito (ainda
diz) sobre os espantos, violências, contradições e belezas que marcam de
originalidade a experiência brasileira.
Maria
Conga veio de Angola, viveu em um quilombo em Magé, no Rio de Janeiro, e depois
de morrer continuou vivendo em novos quilombos: terreiros de macumba de todo o
Brasil. Ocupou soberanamente um espaço, em um país marcado por violências
coloniais baseadas nas tecnologias da catequese, que não deveria ser o dela.
Mas é!
Mané
Garrincha jamais se enquadraria naquele jeito de jogar bola inventado por
ingleses e escoceses no século XIX. As pernas tortas não o indicariam de forma
alguma para a prática de um esporte marcado pelo enfrentamento direto entre os
corpos.
O
futebol de Garrincha, todavia, subverteu o jogo europeu e se desdobrou a partir
de um princípio muito simples: ao invés de bater de frente com o marcador e se
livrar de qualquer jeito da bola, dê ao adversário a impressão de que ele está
soberano no lance e, subitamente, ocupe – corpo e bola – o espaço vazio. Sempre
tem uma brecha para Mané passar. O segredo é brincar no vazio, sempre. Essa é
uma maneira de continuar, mais do que jogando, vivendo.
Em um
momento em que o Brasil abraça o desencanto, o futebol se elitiza e terreiros
são depredados, falemos da nossa história e tentemos entender quem somos e o
que poderemos ser.
A atual
Copa do Mundo coloca questões pertinentes para o Brasil do século XXI. É
possível ainda se pensar em povo brasileiro ou essa categoria já foi para
cucuia? Há algum resquício do modo brasileiro de jogar bola como síntese
original e alternativa ao esporte europeu nos dias de hoje? A seleção ainda
representa, no território mítico da produção de identidades, o símbolo de
pertencimento que representou um dia?
No meu
país, o gramado foi uma das sete encruzilhadas percorridas pelo caboclo
macumbeiro de pernas tortas; aquele que não encontra caminhos fechados em seus
anseios de beleza, liberdade e gol. No meu país, Vovó Maria Conga encontrou a
brecha para curar na fumaça do cachimbo e nas rezas com arruda, guiné e
fedegoso. Temperando o rosário de Maria com o azeite de dendê, Vovó dribla
ainda, o tempo todo, os zagueiros do desencanto, da intolerância e do racismo
religioso. O sorriso aparentemente cândido de Vovó é uma declaração de guerra.
Pensar
em questões aparentemente circunscritas ao território do futebol e das
umbandas, mas que vão muito mais longe, impõe o desafio dos nossos dias: o que
está em jogo é o enfrentamento dos dilemas sobre a possibilidade de construir o
Brasil como uma comunidade imaginada e um projeto minimamente original de
alternativa para o mundo.
É sobre
o país como viabilidade ou como comunidade esfacelada inviável, mais do que
sobre a Seleção Brasileira ou o ataque cotidiano a algum terreiro, que essas
questões ressoam sem tambores e gritam sem gols. Eis o sintoma de desencanto de
um país erigido entre os gritos de olé após um drible de Garrincha e o rufar
dos tambores que chamam Vovó para curar seu povo.
Fonte:
Por Luíz Antonio Simas, em ICL Notícias

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