Julimar
Roberto: O fascismo troca de roupa, mas não de projeto
As
eleições se aproximam e, mais uma vez, a extrema direita começa a se apresentar
com voz mansa, roupa nova e discurso aparentemente simples. Diz que quer ordem.
Diz que quer liberdade. Diz que quer proteger a família, combater o crime,
acabar com a corrupção e devolver ao povo tudo aquilo que eles mesmos teriam
roubado de nós. O truque é antigo. A fantasia muda, mas o personagem continua
sendo o mesmo lobo travestido de cordeiro.
Mas
essa situação não é um privilégio do Brasil. Na América Latina, esse roteiro
tem se repetido com uma regularidade preocupante. Em países marcados pela
desigualdade, pela violência, pela precarização da vida e pelo descrédito nas
instituições, a extrema direita não chega oferecendo um projeto de futuro.
Chega oferecendo um atalho. E todo atalho autoritário começa prometendo
eficiência, coragem e limpeza moral. Foi assim que o fascismo se apresentou em
outros momentos da história — não como barbárie assumida desde o primeiro dia,
mas como promessa de salvação nacional. Primeiro inventa inimigos, depois
transforma o medo em política e, por fim, tenta convencer a sociedade de que a
democracia é lenta demais para resolver seus problemas.
O
problema é que, por trás das palavras fáceis, quase sempre está escondido o
mesmo pacote de menos direitos, mais repressão, menos Estado para proteger os
pobres, mais Estado para vigiar e punir os pobres. Falam em liberdade, mas
atacam professores, artistas, jornalistas, sindicatos, movimentos sociais,
mulheres, povos indígenas, população negra, migrantes e qualquer pessoa que
ouse discordar. Falam em pátria, mas se ajoelham diante dos interesses do
mercado financeiro e de potências estrangeiras. Falam em povo, mas governam
para poucos privilegiados.
A
extrema direita latino-americana entendeu algo perigoso, que a política do medo
dá voto. O medo da violência. O medo do desemprego. O medo da mudança. O medo
do outro. O medo do futuro. Por isso, ela não precisa necessariamente
apresentar soluções reais. Basta transformar angústias legítimas da população
em raiva direcionada contra inimigos fabricados.
Para
eles, quando falta segurança pública, a resposta é sempre mais prisão, mais
arma, mais confronto e menos educação. Quando falta emprego decente, a resposta
é sempre cortar direitos trabalhistas em nome de uma prosperidade que nunca
chega para quem vive de salário. Quando falta confiança nas instituições, a
resposta é atacar o Judiciário, a imprensa, o Congresso, as universidades e
qualquer espaço de mediação democrática. Quando a vida fica mais difícil, a
culpa nunca é da concentração de renda, das disparidades sociais, da exploração
do trabalho ou das elites que lucram com a crise. A culpa é sempre de algum
inimigo conveniente.
É assim
que o autoritarismo tenta se reciclar. Ele já não aparece, necessariamente, com
farda, tanque na rua e discurso assumido contra a democracia. Agora, muitas
vezes, aparece com live, meme, slogan, dancinha, estética jovem, fala indignada
e promessa de “passar o país a limpo”. Mas a essência continua a mesma, reduzir
a complexidade do mundo a uma guerra permanente entre “cidadãos de bem” e
“inimigos internos”.
Essa
divisão interessa a quem não tem compromisso real com a população e o país.
Porque um povo com medo aceita perder direitos em troca de uma falsa sensação
de proteção, de segurança. Um povo exausto pode ser convencido de que o
problema é o vizinho, o imigrante, a mulher feminista, o jovem da periferia, o
sindicato, o professor, o artista ou o ministro do Supremo. Enquanto isso, os
verdadeiros algozes seguem intocados.
A
democracia, com todos os seus limites, incomoda justamente porque abre espaço
para conflito social organizado. Nela, trabalhador e trabalhadora podem
reivindicar. Movimento popular pode ocupar as ruas. Sindicato pode denunciar.
Jornalista pode investigar. Universidade pode produzir pensamento crítico. O
voto pode mudar governos. A praça pode virar assembleia. A palavra pode
circular.
Por
isso, a extrema direita não precisa acabar com a democracia de uma vez. Basta
esvaziá-la por dentro. Basta transformar eleição em guerra santa, adversário em
criminoso, imprensa em inimiga, Justiça em conspiração, direitos humanos em
privilégio e política social em gasto inútil. Quando se percebe, a democracia
continua tendo calendário eleitoral, mas já perdeu parte de sua alma.
A
esquerda brasileira precisa olhar para esse fenômeno sem ingenuidade. Não basta
repetir que a extrema direita é perigosa. É preciso disputar o sentido da vida
concreta. A segurança pública não pode ficar nas mãos de quem só oferece
violência. A família não pode ser usada como discurso por quem nega comida,
moradia, escola, saúde e tempo de convivência. A liberdade não pode ser
sequestrada por quem defende patrão livre para explorar e trabalhador preso à
necessidade. A pátria não pode ser bandeira de quem entrega a soberania do país
e chama submissão de patriotismo.
A
resposta democrática precisa ser firme, popular e enraizada. Firme para não
normalizar golpismo, mentira e violência política. Popular para falar com quem
pega ônibus lotado, paga aluguel caro, teme a violência no bairro, cuida dos
filhos, vive de bico, trabalha seis dias por semana e já não aguenta promessas
vazias. Enraizada porque não se enfrenta o fascismo apenas com nota pública,
postagem bonita ou indignação de ocasião. Enfrenta-se com organização, presença
nos territórios, escuta real e coragem de apresentar um projeto de país.
A
extrema direita cresce quando a esperança desaparece. Cresce quando a política
parece distante. Cresce quando a democracia vira apenas palavra de cerimônia e
deixa de ser percebida como comida na mesa, salário digno, escola funcionando,
posto de saúde aberto, transporte decente, cultura viva, proteção contra a
violência e tempo para viver.
Por
isso, defender a democracia hoje não é defender uma abstração. É defender a
possibilidade do povo decidir seu destino sem medo, sem cabresto, sem
manipulação e sem chantagem. É defender que a segurança pública seja construída
com inteligência, prevenção, justiça social e enfrentamento ao crime
organizado, não com espetáculo de sangue. É defender que desenvolvimento não
seja sinônimo de retirada de direitos, mas de distribuição de oportunidades. É
defender que a liberdade seja para todos, todas e todes, não apenas para os
mais fortes.
As
eleições que se aproximam serão mais do que uma disputa entre nomes. Serão uma
disputa entre projetos de sociedade. De um lado, a política do medo, da
punição, do ressentimento e da submissão ao dinheiro. De outro, a difícil, mas
necessária, tarefa de reconstruir esperança, direitos, soberania e participação
popular.
O lobo
vem aí outra vez. Vem sorrindo. Vem falando em Deus, pátria, família, ordem ou
prosperidade. Vem prometendo soluções rápidas para dores profundas. Mas a
história ensina que quando o autoritarismo bate à porta dizendo que veio trazer
a salvação, é o povo quem primeiro paga a conta.
A
democracia não está garantida. Ela precisa ser defendida antes que seja tarde.
E, sobretudo, precisa voltar a fazer sentido na vida de quem mais precisa dela.
¨ A extrema direita e a
fábrica de cliques falsos. Por Renata Souza
Vivemos
uma disputa política que também acontece nas redes sociais. Um levantamento
recente do Instituto Nexus, divulgado pelo G1, mostra que parlamentares da
direita e da extrema direita concentram mais da metade das interações entre os
15 deputados federais com maior presença digital do Brasil.
É um
dado importante, que revela a força da comunicação digital na política. Mas
também nos obriga a fazer uma pergunta: o que, de fato, está por trás desses
números? Interação não é sinônimo de credibilidade e alcance não é prova de
compromisso com a verdade.
As
redes sociais são organizadas por algoritmos que premiam o conteúdo que provoca
medo, revolta e indignação. E é justamente nesse ambiente que a extrema direita
construiu, ao longo dos últimos anos, uma poderosa máquina de desinformação.
Não se trata apenas de comunicar melhor. Trata-se, muitas vezes, de produzir
mentiras, alimentar discursos de ódio e utilizar estruturas organizadas para
amplificar artificialmente conteúdos por meio das chamadas “fazendas de
cliques” e de redes coordenadas de perfis.
Esse
modelo não fortalece a democracia. Pelo contrário, ele corrói a confiança nas
instituições, ataca a imprensa, desumaniza adversários políticos e transforma a
mentira em ferramenta eleitoral. Não é coincidência que inúmeras investigações
e estudos tenham identificado a extrema direita como protagonista na circulação
sistemática de fake news no Brasil. O objetivo nunca foi ampliar o debate
público, mas manipular percepções e fabricar consensos.
Nós, da
esquerda, não podemos cair na armadilha de disputar esse terreno reproduzindo
os mesmos métodos. Nosso compromisso precisa continuar sendo com a verdade, com
a ética e com a construção de um diálogo que organize o povo para defender seus
direitos. Isso exige ocupar as redes com inteligência, criatividade e linguagem
popular, sem abrir mão dos princípios que nos trouxeram até aqui.
A
democracia não se fortalece quando uma mentira viraliza. Ela se fortalece
quando a população tem acesso à informação de qualidade, consegue formar sua
própria consciência crítica e participa da política de forma livre e informada.
A luta contra a desinformação não é uma disputa de narrativas. É uma defesa da
própria democracia. E essa batalha não pode ser perdida para quem transforma o
ódio, a mentira e a manipulação em estratégia permanente de poder.
¨
Como derrotar os algoritmos neonazistas. Por Jair de
Souza
Há
quase um consenso entre os analistas do panorama político brasileiro de que os
Estados Unidos de Donald Trump vão jogar pesado no próximo pleito eleitoral
brasileiro, de modo a garantir a eleição de um candidato bolsonarista, ou de
algum outro que lhe seja equivalente em entreguismo e subserviência aos
interesses gringos.
As
maiores dúvidas ainda não respondidas referem-se às formas que serão empregadas
neste mais que provável processo de interferência. A respeito desta questão,
vou tecer algumas reflexões, com a esperança de que possam lançar um pouco de
luz na escuridão em que estamos submetidos.
Devido
aos reveses sofridos nas últimas décadas pelo imperialismo estadunidense em
várias esferas de atuação e zonas geográficas, os responsáveis por suas
formulações políticas tomaram a decisão de se aferrar com unhas e dentes a esta
região do planeta que consideram como parte integrante de seu próprio quintal.
E, com isto, estão referindo-se ao Continente Americano, em especial à América
Latina e ao Caribe.
Não
obstante seja verdade que os Estados Unidos tenham sempre interferido nesta
região com vista a fazer valer seus desígnios, na presente administração
neonazista de Donald Trump, foram abandonados todos os pruridos de outrora, e
já não há nenhum receio em escancarar publicamente suas intenções
intervencionistas.
A
confirmação disto pode ser obtida por meio de um breve repasso dos recentes
processos eleitorais que tiveram lugar nesta região, ou seja, os casos
referentes à Argentina, a Honduras, ao Equador, à Bolívia, ao Peru e à
Colômbia. Em todas essas situações, a influência da aparatagem estadunidense
esteve muito presente, contribuindo decisivamente para produzir a vitória de
seus obedientes aliados.
Entretanto,
dentre todas as artimanhas utilizadas pelas hostes pró-imperialistas nessas
contendas, a de maior impacto e relevância parece ter sido a exercida pelos
conglomerados que controlam as redes sociais de comunicação digital, através da
manipulação de seus algoritmos.
Não
podemos nos esquecer que todos os gigantescos conglomerados que exercem o
domínio da comunicação digital via internet em todo o planeta, as conhecidas
Big Techs, estão na primeiríssima linha de frente dos principais propulsores do
imperialismo estadunidense em sua etapa atual. Uma simples olhadinha nas fotos
da cerimônia da assunção de Trump à chefia do governo deixará esta realidade
bem evidenciada.
Como
sabemos, é impossível erradicar uma doença sem que tenhamos ciência do
funcionamento de seus elementos patogênicos. Por isso, só teremos condições de
combater e eliminar os riscos destrutivos da manipulação algorítmica pelos
representantes e agentes do imperialismo, se entendermos suas formas de agir e
contaminar suas vítimas.
Mas,
avanços científicos não implicam necessariamente em maior humanitarismo por
parte de quem deles se utiliza. Há quase um século, as correntes de pensamento
mais retrógradas, monstruosas e malignas têm estado na dianteira quanto ao
emprego prático dos progressos tecnológicos nos meios de comunicação. Tanto
assim que a invenção e consolidação do uso do rádio e, posteriormente, da
televisão serviram para expandir e alastrar a força da mensagem cavernária dos
tele-evangelistas, primeiro nos Estados Unidos e, de lá, no resto do mundo.
Porém,
se os ativistas do campo popular sempre estiveram em inferioridade na disputa
comunicacional contra as classes dominantes, agora, a coisa ficou ainda mais
complicada. É que, na fase em que o rádio e a televisão constituíam os
principais instrumentos de divulgação, nossa grande desvantagem era não dispor
de recursos equivalentes para fazer que nossa mensagem também chegasse ao povo.
No
entanto, diferentemente das expectativas iniciais, com o advento e massificação
da internet, chegamos à conclusão de que não basta poder emitir nossas
mensagens livremente. A questão vital passou a ser de outra índole: a quem elas
serão transmitidas? Ou seja, embora todos possamos nos expressar do jeito que
quisermos, são as corporações controladoras das plataformas, as quais, através
de seus algoritmos, determinarão quem irá ou não ter acesso às mesmas.
Em
razão de seu imenso controle de nossa atividade nas redes, esses conglomerados
sabem quase tudo sobre quase todos (nossos gostos, nossas broncas, nossos
costumes, nossa visão política, etc.). Então, vão enviar a cada qual aquilo que
sabem que pode impactá-lo da maneira que eles desejam que impacte.
Por
exemplo, como sabem que as pessoas detestam a corrupção, procurarão enviar a
elas todas as mensagens que acusam de corruptos aqueles que são desafetos dos
interesses do imperialismo. Por outro lado, evitarão fazer circular os atos
reais de corrupção praticados por gente que consideram aliada.
Como
cada qual recebe as mensagens em conformidade com sua visão de mundo, os
ativistas do campo popular não sabem o que está sendo enviado para a imensa
parcela de nossa população que ainda não participa do debate político. Em
decorrência, como tem acontecido, vez por outra, somos surpreendidos pela vinda
à tona de certas figuras ultrarreacionárias que nos eram completamente
desconhecidas. Que os pablos marçais da vida nos desmintam!
Em
sintonia com o visto no parágrafo anterior, a recente eleição realizada na
Colômbia pode ajudar-nos a entender a dimensão do problema. Ali, o candidato
que acabou sagrando-se vencedor era inteiramente desconhecido no mundo da luta
política até as vésperas do pleito eleitoral. Na verdade, era desconhecido por
aqueles que lutavam pelas causas populares, mas não pelos que haviam sido
mantidos alheios a essa conscientização. E foram essas as vítimas preferenciais
da manipulação algorítmica, que propiciou a vitória do neonazista que defendia
os interesses do grande capital.
Portanto,
o que foi esboçado mais acima tem o propósito de alertar-nos para os grandes
riscos que podemos correr nas vindouras eleições no Brasil. Como não detemos
nem a propriedade nem o controle das grandes plataformas digitais, nossa
dificuldade de operar através das mesmas vai ser sempre muito maior do que a
que os inimigos do povo enfrentam, já que os donos desses conglomerados e as
forças políticas da extrema direita neonazista-bolsonarista são partes de um
todo,
Assim,
além de nos desdobrarmos no indispensável trabalho de comunicação digital,
precisamos ter consciência de que nossa presença pessoal, real e ativa, ao lado
das comunidades às quais queremos servir, torna-se um fator de máxima
relevância. Somente por meio de nossa inserção e multiplicação no seio de nosso
povo nos será possível cortar a cabeça do dragão neonazista que pretende
reescravizar nossa nação.
Fonte:
Brasil 247

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