sábado, 11 de julho de 2026


 

A Copa dos pênaltis perdidos — a 'paradinha' virou um problema?

Independentemente da campanha da França terminar ou não com o título mundial, poucos vão se lembrar do pênalti desperdiçado por Kylian Mbappé na vitória por 2 a 0 sobre o Marrocos, pelas quartas de final da Copa do Mundo 2026.

O jogo, disputado em Massachussets, nos Estados Unidos, ainda estava empatado sem gols quando Mbappé sofreu pênalti cometido por Noussair Mazraoui.

Na cobrança, o capitão francês fez a tradicional "paradinha", olhou para o goleiro Yassine Bounou e bateu fraco, facilitando a defesa do marroquino.

O atacante, porém, se redimiu aos 15 minutos do segundo tempo, quando marcou um belo gol em chute colocado que finalmente rompeu a defesa marroquina. Seis minutos depois, Ousmane Dembélé ampliou o placar e garantiu a classificação francesa para a semifinal.

Ainda assim, o erro de Mbappé — algo incomum para um dos artilheiros da Copa — reacendeu um velho debate no futebol: chegou a hora dos jogadores abandonarem a "paradinha" nas cobranças de pênalti?

Na lista das coisas que os defensores do futebol tradicional mais detestam no jogo moderno, a "paradinha" nas cobranças de pênalti ocupa lugar de destaque, ao lado das luvas usadas com camisas de manga curta, das simulações e, claro, do árbitro de vídeo (VAR).

Embora não exista uma definição rígida do que caracteriza uma "paradinha", as regras da Fifa permitem que o cobrador desacelere ou faça uma finta durante a corrida, desde que não pare completamente antes de chutar.

A técnica está longe de ser novidade. Nomes como John Aldridge, o mexicano Hugo Sánchez e Pelé já recorreram ao recurso para tentar ganhar vantagem sobre o goleiro.

Mas a estratégia também pode dar muito errado quando o goleiro resiste à tentativa de ser enganado e espera até o último instante para escolher em qual canto pular.

Na Copa do Mundo de 2026, Mbappé juntou-se a Bruno Guimarães, Jørgen Strand Larsen, Lionel Messi e Harry Kane — embora o inglês tenha convertido na repetição do pênalti contra a Croácia, desta vez sem interromper a corrida — na lista de estrelas que desperdiçaram cobranças após recorrerem à "paradinha".

Dos 26 pênaltis cobrados com "paradinha" neste Mundial — incluindo disputas por pênaltis — apenas 15 terminaram em gol. Os outros 11 foram desperdiçados, o que representa um aproveitamento de apenas 57%.

Entre os 35 pênaltis cobrados sem "paradinha", 24 terminaram em gol, um aproveitamento de 68%.

"Essa cobrança com paradinha parece ter sido decifrada. Os goleiros parecem ter encontrado uma forma de neutralizá-la", afirmou o ex-jogador inglês Ian Wright, em comentário à ITV.

Nem todos, porém, fracassaram com a estratégia. Marko Arnautovic, Raúl Jiménez, Neymar, Cristiano Ronaldo, Yoane Wissa, Kai Havertz e o próprio Mbappé conseguiram marcar utilizando a técnica.

De forma geral, esta tem sido uma Copa do Mundo ruim para os cobradores de pênalti.

Ao todo, 30% dos pênaltis marcados durante o tempo normal ou a prorrogação foram desperdiçados, o segundo maior índice desde o início da série histórica, em 1966.

Quando as disputas por pênaltis também entram na conta, o percentual de erros sobe para 35%, o pior já registrado em uma Copa do Mundo desde 1966.

"Sem dúvida, é mais difícil converter um pênalti hoje em dia. O motivo é que os goleiros estão maiores e mais atléticos", disse o ex-ponta escocês Pat Nevin à BBC Radio 5 Live.

"Se o goleiro pula para o lado certo, você precisa colocar a bola no canto com muita precisão e força — e, mesmo assim, ela ainda pode ser defendida."

"Um pênalti muito bem batido já não é mais garantia de gol. Por isso, os jogadores precisam repensar a estratégia. A ideia da paradinha é justamente fazer o goleiro cair para o lado errado."

"Além disso, os goleiros têm acesso a muitos dados. Eles sabem como praticamente todos os cobradores costumam bater. Não há mais como esconder sua preferência. É uma batalha constante para descobrir quem consegue obter vantagem."

Esta foi apenas a segunda cobrança de pênalti desperdiçada por Mbappé com a camisa da França. Ao todo, o atacante converteu 14 das 16 penalidades que cobrou pela seleção.

No futebol de clubes, seu aproveitamento é um pouco inferior: são 50 gols em 62 cobranças.

Do outro lado, porém, estava um especialista. O goleiro marroquino Yassine Bounou só sofreu gol em duas das nove cobranças de pênalti que enfrentou em Copas do Mundo — incluindo disputas por pênaltis. Durante esse período, defendeu quatro cobranças e viu outras três serem desperdiçadas.

Na partida desta quinta-feira, Mbappé pode ter sido prejudicado pela longa espera antes da cobrança. Uma checagem do VAR fez com que 3 minutos e 12 segundos se passassem entre a marcação do pênalti pelo árbrito e a defesa de Bounou.

O jornalista francês Julien Laurens afirmou à BBC Radio 5 Live que o erro do atacante foi consequência da "quebra de sua rotina habitual".

"Foi um pênalti horrível. A rotina é muito importante no futebol. Aquela espera claramente desconcentrou Mbappé. Achei que, quando recebeu autorização para cobrar, ele bateu rápido demais.

Laurens ainda elogiou o goleiro marroquino. "Foi um chute fraco, fácil para Bounou defender. Ele é o melhor goleiro do mundo quando o assunto é defender pênaltis."

O ex-volante irlandês Roy Keane também criticou a demora provocada pela revisão do VAR.

"É injusto um jogador ter de esperar mais de três minutos para cobrar um pênalti. Eu sei que estamos falando de atletas de elite, mas é uma situação de enorme pressão. Por que ele precisa esperar tanto?"

Segundo Keane, o tempo acaba favorecendo quem está no gol.

"O tempo é o inimigo do atacante. A vantagem acaba voltando para o goleiro e para o time que sofreu o pênalti."

Ian Wright concorda e acrescenta: "Quanto mais tempo você tem de esperar para cobrar um pênalti, mais começa a duvidar do que vai fazer."

¨       Haaland: nascido na Inglaterra, artilheiro da Noruega está prestes a ver 'seus mundos colidirem'

Na última vez em que a Noruega disputou uma Copa do Mundo, Erling Haaland não havia sequer nascido.

Haaland ajudou seu país a chegar às quartas de final da sua primeira Copa do Mundo desde 1998, na França.

Com isso, ele não só atingiu uma marca pessoal, como também completou uma missão que carregava nos ombros há anos.

Agora, quem surge à frente da seleção norueguesa é a Inglaterra, onde ele nasceu.

O jovem de 25 anos marcou 16 gols nas oito partidas de uma marcante campanha nas eliminatórias e mais sete em quatro jogos da fase final da Copa do Mundo de 2026 — incluindo os dois contra o Brasil.

Mas a nação escandinava começou a depositar suas esperanças no jovem de 25 anos muito antes disso. Tudo começou ainda antes que ele se tornasse o temido atacante do Manchester City, da Inglaterra.

A esperança norueguesa por Haaland provavelmente vem do início da sua adolescência, quando o clube norueguês Bryne identificou o seu talento e o levou rapidamente para suas equipes inferiores.

Desde então, seu talento promissor só cresceu, durante uma carreira cuidadosamente planejada para atender ao progresso de Haaland. E, agora, depois de vencer tudo o que havia para conquistar em um clube de futebol no City, ele cumpre seu destino pela seleção do seu país.

Mas tudo poderia ter sido diferente. Afinal, Haaland nasceu em Yorkshire, no norte da Inglaterra, e poderia jogar pela seleção inglesa.

A afinidade com seu país de origem reduziu as possibilidades de que isso acontecesse, mesmo com as poucas chances de conquistar títulos internacionais (e, até mesmo, de se classificar para os torneios principais regularmente), jogando pela Noruega.

A opção pelo país escandinavo poderia ter resultado em uma carreira que nenhum superastro deseja, eliminando suas possibilidades de disputar uma Copa do Mundo. Mas Haaland evitou este destino.

E, depois de marcar duas vezes contra o Brasil nas oitavas de final, ele pretende pôr fim às expectativas inglesas de repetir o título de 1966. A Noruega enfrenta a Inglaterra em Miami, nos Estados Unidos, neste sábado (11/7) às 18 horas (de Brasília).

Mas como é ser um nome conhecido mundialmente em um país com apenas 5,5 milhões de habitantes? E Haaland é realmente o único fator que separa a Inglaterra das semifinais?

<><> Três Leões e um viking?

Questionado em 2020 se havia alguma chance de Haaland jogar pela seleção inglesa, o então técnico da Inglaterra, Gareth Southgate, fechou rapidamente a questão.

"No caso deste tipo de jogador, eles deixam muito claro onde querem jogar", respondeu Southgate. "Ele está comprometido com o país para o qual está jogando agora e é preciso sempre respeitar muito isso."

Haaland nasceu em Leeds, no condado inglês de Yorkshire, no ano 2000. Era ali que ainda morava seu pai, Alf-Inge, outro jogador de futebol, que havia acabado de trocar o Leeds United pelo Manchester City.

Três anos depois, a família se mudou para Bryne, na Noruega, quando seu pai se aposentou do futebol após uma lesão.

O talento do jovem Haaland foi identificado cedo. Ele passou rapidamente pelas categorias inferiores do Bryne, até assinar contrato em 2017 com o Molde, do técnico Ole Gunnar Solskjaer.

Ele ajudou a transformar Haaland em uma força no ataque. Solskjaer costuma falar muito bem do seu ex-jogador, lamentando não ter podido contratá-lo quando passou a ser técnico do Manchester United.

O jovem atacante chamou a atenção durante sua passagem pelo Red Bull Salzburg, da Áustria, até chegar ao Borussia Dortmund, da Alemanha, que o levou realmente ao cenário mundial. Lá, ele foi amigo próximo do inglês Jude Bellingham.

Sua transferência para o Manchester City veio em 2022, algo que muitos acreditavam ser inevitável, considerando o histórico do seu pai e sua paixão pelo futebol inglês.

Mesmo com sua rápida ascensão ao estrelato, Haaland continua a visitar a Noruega com frequência, onde possui diversos imóveis.

"Apesar do prestígio de Haaland como superastro global, ele permanece exatamente a mesma pessoa", declarou à BBC Sport o jornalista esportivo norueguês Andreas Korssund.

"Ele sabe exatamente de onde vem e visita regularmente sua pequena cidade em Rogaland [oeste da Noruega]", ele conta. "Ele tem um orgulho incrível das suas raízes e está sempre disponível para a imprensa norueguesa quando representa o seu país."

Haaland já discutiu seu desejo de administrar uma fazenda na Noruega quando se aposentar. Ele pode ser visto frequentemente passeando pela capital norueguesa, Oslo, onde tem um apartamento.

Ele adotou a história dos vikings noruegueses e tem imenso orgulho de representar o seu país, como mostrou sua imagem comandando os colegas de seleção durante a remada viking, após a vitória contra o Brasil.

Esta afinidade com suas origens também o levou a adotar o nome completo Braut Haaland nas costas da sua camisa na seleção nacional. Braut é o nome de solteira da sua mãe, ao lado do sobrenome do seu pai, seguindo uma tradição norueguesa.

Para Korssund, "Haaland significa tudo para a Noruega. Ele se tornou um superastro sem precedentes no maior esporte do mundo."

"Para uma nação de pouco mais de 5,5 milhões de pessoas, produzir um dos maiores jogadores de futebol do planeta é um imenso feito."

<><> Missão de 28 anos

Haaland marcou dois gols no jogo de estreia da Noruega em Foxborough, nos Estados Unidos. Os noruegueses venceram a seleção do Iraque por 4x1.

Além do peso de todo um país, ele também carregava os sonhos combinados de todos os jogadores que não conseguiram disputar uma Copa do Mundo.

Depois de se classificar para duas Copas em seguida (1994 e 1998), a Noruega amargou um longo período de ausência da competição. Sua última participação em um torneio importante ocorreu na Eurocopa 2000, na Bélgica e na Holanda, quando não passou da fase de grupos.

Com isso, sobreveio uma longa lista de talentosos jogadores noruegueses que não conseguiram disputar a Copa do Mundo, como Morten Gamst Pedersen, John Carew, Brede Hangeland e John Arne Riise, apenas para citar alguns.

Muitos consideram a a atual seleção norueguesa como a geração de ouro do país.

As estatísticas podem sugerir que se trate de um time de um jogador só. Mas, na verdade, ele não é o único responsável pela classificação da Noruega para a Copa do Mundo.

O capitão norueguês, Martin Odegaard, chegou aos Estados Unidos logo após conquistar a Premier League pelo Arsenal. Seu desempenho no meio-campo tem sido impressionante, com três assistências na Copa.

Nomes como Alexander Sorloth, Jorgen Strand Larsen e Oscar Bobb também são jogadores de alto nível estabelecidos. Já Patrick Berg, Sander Berge e Antonio Nusa, inesperadamente, também se tornaram protagonistas.

"Observamos um fenômeno parecido com o que ocorreu com a geração de ouro da Bélgica, alguns anos atrás", explica Korssund. "Uma nação relativamente pequena que simplesmente exala futebol."

A Noruega pode ter qualidade nas suas fileiras, mas ninguém transcende mais o esporte do que Haaland. Sua fama se aproxima à de Lionel Messi e Cristiano Ronaldo e a Noruega nunca teve um jogador como ele.

É fácil imaginar uma história diferente, associando Haaland a nomes como George Best na Irlanda do Norte, Ryan Giggs no País de Gales ou George Weah, da Libéria, vencedor da Bola de Ouro. Nenhum deles chegou a disputar a Copa do Mundo.

Mas Haaland teve outro destino e entrou na corrida pela artilharia da Copa, ao lado dos superastros Messi e Kylian Mbappé, com oito gols, além do inglês Harry Kane, com seis. O norueguês está no meio deles, com sete gols.

Depois de repetir a participação do seu pai na Copa do Mundo de 1994, Haaland espera levar a Noruega a um nível de sucesso antes impensável.

<><> O fator celebridade

Com 1m95 de altura e seus longos cabelos loiros esvoaçantes, Haaland se tornou um rostos mais conhecidos entre os jogadores de futebol em todo o mundo.

Seu carisma começou a brilhar no Manchester City. Seu humor (às vezes, muito inglês) o aproximou dos torcedores.

Ele grava vídeos do seu dia a dia para seu canal no YouTube, que conta com mais de 2,8 milhões de inscritos.

Um vlog de uma saída para compras improvisada em Dallas, nos Estados Unidos, para comprar chapéus e botas de caubói, atingiu mais de cinco milhões de visualizações em quatro dias. A Noruega havia acabado de vencer a Costa do Marfim por 2x1, com um gol decisivo de Haaland no final do jogo.

Haaland também deve a aparecer na animação ViQueens dando a voz a um personagem viking chamado, é claro, Haaland.

Mas ele não é um herói norueguês padrão.

"Acho que Erling, de certa forma, não é um norueguês totalmente típico", segundo o jornalista norueguês Lars Sivertsen.

"Ele é confiante e pode ser um pouco arrojado. Ele sabe do seu valor, conhece sua qualidade e acredita em si mesmo."

"A Escandinávia tem uma cultura que valoriza mais a humildade", prossegue o jornalista.

"Erling reclamava quando ficava no banco. Por isso, acho que ele não é um exemplo típico dos noruegueses."

"Isso faz dele um herói interessante para nós, pois haverá momentos de repercussão negativa", explica Sivertsen.

Mas o talento de Haaland é inegável. E, com ele, vem tudo aquilo que é associado a um superastro, como vendas de camisas, aumento do interesse durante a Copa do Mundo e a inspiração que ele gera entre os mais jovens.

"Agora, ele está simplesmente em um nível de estrelato diferente do que estávamos acostumados para os nossos heróis esportivos, segundo Sivertsen.

"Mas acho que, se você observar pelo país, existe um senso extraordinário de orgulho ao ver um jogador fazendo o que ele faz na Noruega."

 

Fonte: BBC Sport

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