A
Copa dos pênaltis perdidos — a 'paradinha' virou um problema?
Independentemente
da campanha da França terminar
ou não com o título mundial, poucos vão se lembrar do pênalti desperdiçado por
Kylian Mbappé na vitória
por 2 a 0 sobre o Marrocos, pelas quartas de final da Copa do Mundo
2026.
O jogo,
disputado em Massachussets, nos Estados Unidos, ainda estava empatado sem gols
quando Mbappé sofreu pênalti cometido por Noussair Mazraoui.
Na
cobrança, o capitão francês fez a tradicional "paradinha", olhou para
o goleiro Yassine Bounou e bateu fraco, facilitando a defesa do marroquino.
O
atacante, porém, se redimiu aos 15 minutos do segundo tempo, quando marcou um
belo gol em chute colocado que finalmente rompeu a defesa marroquina. Seis
minutos depois, Ousmane Dembélé ampliou o placar e garantiu a classificação
francesa para a semifinal.
Ainda
assim, o erro de Mbappé — algo incomum para um dos artilheiros da Copa —
reacendeu um velho debate no futebol: chegou a hora dos jogadores abandonarem a
"paradinha" nas cobranças de pênalti?
Na
lista das coisas que os defensores do futebol tradicional mais detestam no jogo
moderno, a "paradinha" nas cobranças de pênalti ocupa lugar de
destaque, ao lado das luvas usadas com camisas de manga curta, das simulações
e, claro, do árbitro de vídeo (VAR).
Embora
não exista uma definição rígida do que caracteriza uma "paradinha",
as regras da Fifa permitem que o cobrador desacelere ou faça uma finta durante
a corrida, desde que não pare completamente antes de chutar.
A
técnica está longe de ser novidade. Nomes como John Aldridge, o mexicano Hugo
Sánchez e Pelé já recorreram ao recurso para tentar ganhar vantagem sobre o
goleiro.
Mas a
estratégia também pode dar muito errado quando o goleiro resiste à tentativa de
ser enganado e espera até o último instante para escolher em qual canto pular.
Na Copa
do Mundo de 2026, Mbappé juntou-se a Bruno Guimarães, Jørgen Strand Larsen,
Lionel Messi e Harry Kane — embora o inglês tenha convertido na repetição do
pênalti contra a Croácia, desta vez sem interromper a corrida — na lista de
estrelas que desperdiçaram cobranças após recorrerem à "paradinha".
Dos 26
pênaltis cobrados com "paradinha" neste Mundial — incluindo disputas
por pênaltis — apenas 15 terminaram em gol. Os outros 11 foram desperdiçados, o
que representa um aproveitamento de apenas 57%.
Entre
os 35 pênaltis cobrados sem "paradinha", 24 terminaram em gol, um
aproveitamento de 68%.
"Essa
cobrança com paradinha parece ter sido decifrada. Os goleiros parecem ter
encontrado uma forma de neutralizá-la", afirmou o ex-jogador inglês Ian
Wright, em comentário à ITV.
Nem
todos, porém, fracassaram com a estratégia. Marko Arnautovic, Raúl Jiménez,
Neymar, Cristiano Ronaldo, Yoane Wissa, Kai Havertz e o próprio Mbappé
conseguiram marcar utilizando a técnica.
De
forma geral, esta tem sido uma Copa do Mundo ruim para os cobradores de
pênalti.
Ao
todo, 30% dos pênaltis marcados durante o tempo normal ou a prorrogação foram
desperdiçados, o segundo maior índice desde o início da série histórica, em
1966.
Quando
as disputas por pênaltis também entram na conta, o percentual de erros sobe
para 35%, o pior já registrado em uma Copa do Mundo desde 1966.
"Sem
dúvida, é mais difícil converter um pênalti hoje em dia. O motivo é que os
goleiros estão maiores e mais atléticos", disse o ex-ponta escocês Pat
Nevin à BBC Radio 5 Live.
"Se
o goleiro pula para o lado certo, você precisa colocar a bola no canto com
muita precisão e força — e, mesmo assim, ela ainda pode ser defendida."
"Um
pênalti muito bem batido já não é mais garantia de gol. Por isso, os jogadores
precisam repensar a estratégia. A ideia da paradinha é justamente fazer o
goleiro cair para o lado errado."
"Além
disso, os goleiros têm acesso a muitos dados. Eles sabem como praticamente
todos os cobradores costumam bater. Não há mais como esconder sua preferência.
É uma batalha constante para descobrir quem consegue obter vantagem."
Esta
foi apenas a segunda cobrança de pênalti desperdiçada por Mbappé com a camisa
da França. Ao todo, o atacante converteu 14 das 16 penalidades que cobrou pela
seleção.
No
futebol de clubes, seu aproveitamento é um pouco inferior: são 50 gols em 62
cobranças.
Do
outro lado, porém, estava um especialista. O goleiro marroquino Yassine Bounou
só sofreu gol em duas das nove cobranças de pênalti que enfrentou em Copas do
Mundo — incluindo disputas por pênaltis. Durante esse período, defendeu quatro
cobranças e viu outras três serem desperdiçadas.
Na
partida desta quinta-feira, Mbappé pode ter sido prejudicado pela longa espera
antes da cobrança. Uma checagem do VAR fez com que 3 minutos e 12 segundos se
passassem entre a marcação do pênalti pelo árbrito e a defesa de Bounou.
O
jornalista francês Julien Laurens afirmou à BBC Radio 5 Live que o erro do
atacante foi consequência da "quebra de sua rotina habitual".
"Foi
um pênalti horrível. A rotina é muito importante no futebol. Aquela espera
claramente desconcentrou Mbappé. Achei que, quando recebeu autorização para
cobrar, ele bateu rápido demais.
Laurens
ainda elogiou o goleiro marroquino. "Foi um chute fraco, fácil para Bounou
defender. Ele é o melhor goleiro do mundo quando o assunto é defender
pênaltis."
O
ex-volante irlandês Roy Keane também criticou a demora provocada pela revisão
do VAR.
"É
injusto um jogador ter de esperar mais de três minutos para cobrar um pênalti.
Eu sei que estamos falando de atletas de elite, mas é uma situação de enorme
pressão. Por que ele precisa esperar tanto?"
Segundo
Keane, o tempo acaba favorecendo quem está no gol.
"O
tempo é o inimigo do atacante. A vantagem acaba voltando para o goleiro e para
o time que sofreu o pênalti."
Ian
Wright concorda e acrescenta: "Quanto mais tempo você tem de esperar para
cobrar um pênalti, mais começa a duvidar do que vai fazer."
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Haaland: nascido na Inglaterra, artilheiro da Noruega
está prestes a ver 'seus mundos colidirem'
Na
última vez em que a Noruega disputou uma Copa do Mundo,
Erling Haaland não havia sequer nascido.
Haaland
ajudou seu país a chegar às quartas de
final da sua primeira Copa do Mundo desde 1998, na França.
Com
isso, ele não só atingiu uma marca pessoal, como também completou uma missão
que carregava nos ombros há anos.
Agora,
quem surge à frente da seleção norueguesa é a Inglaterra, onde ele nasceu.
O jovem
de 25 anos marcou 16 gols nas oito partidas de uma marcante campanha nas
eliminatórias e mais sete em
quatro jogos da fase final da Copa do Mundo
de 2026 — incluindo os dois contra o Brasil.
Mas a
nação escandinava começou a depositar suas esperanças no jovem de 25 anos muito
antes disso. Tudo começou ainda antes que ele se tornasse o temido atacante do
Manchester City, da Inglaterra.
A
esperança norueguesa por Haaland provavelmente vem do início da sua
adolescência, quando o clube norueguês Bryne identificou o seu talento e o
levou rapidamente para suas equipes inferiores.
Desde
então, seu talento promissor só cresceu, durante uma carreira cuidadosamente
planejada para atender ao progresso de Haaland. E, agora, depois de vencer tudo
o que havia para conquistar em um clube de futebol no City, ele cumpre seu
destino pela seleção do seu país.
Mas
tudo poderia ter sido diferente. Afinal, Haaland nasceu em Yorkshire, no norte
da Inglaterra, e poderia jogar pela seleção inglesa.
A
afinidade com seu país de origem reduziu as possibilidades de que isso
acontecesse, mesmo com as poucas chances de conquistar títulos internacionais
(e, até mesmo, de se classificar para os torneios principais regularmente),
jogando pela Noruega.
A opção
pelo país escandinavo poderia ter resultado em uma carreira que nenhum
superastro deseja, eliminando suas possibilidades de disputar uma Copa do
Mundo. Mas Haaland evitou este destino.
E,
depois de marcar duas vezes contra o Brasil nas oitavas de final, ele pretende
pôr fim às expectativas inglesas de repetir o título de 1966. A Noruega
enfrenta a Inglaterra em Miami, nos Estados Unidos, neste sábado (11/7) às 18
horas (de Brasília).
Mas
como é ser um nome conhecido mundialmente em um país com apenas 5,5 milhões de
habitantes? E Haaland é realmente o único fator que separa a Inglaterra das
semifinais?
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Três Leões e um viking?
Questionado
em 2020 se havia alguma chance de Haaland jogar pela seleção inglesa, o então
técnico da Inglaterra, Gareth Southgate, fechou rapidamente a questão.
"No
caso deste tipo de jogador, eles deixam muito claro onde querem jogar",
respondeu Southgate. "Ele está comprometido com o país para o qual está
jogando agora e é preciso sempre respeitar muito isso."
Haaland
nasceu em Leeds, no condado inglês de Yorkshire, no ano 2000. Era ali que ainda
morava seu pai, Alf-Inge, outro jogador de futebol, que havia acabado de trocar
o Leeds United pelo Manchester City.
Três
anos depois, a família se mudou para Bryne, na Noruega, quando seu pai se
aposentou do futebol após uma lesão.
O
talento do jovem Haaland foi identificado cedo. Ele passou rapidamente pelas
categorias inferiores do Bryne, até assinar contrato em 2017 com o Molde, do
técnico Ole Gunnar Solskjaer.
Ele
ajudou a transformar Haaland em uma força no ataque. Solskjaer costuma falar
muito bem do seu ex-jogador, lamentando não ter podido contratá-lo quando
passou a ser técnico do Manchester United.
O jovem
atacante chamou a atenção durante sua passagem pelo Red Bull Salzburg, da
Áustria, até chegar ao Borussia Dortmund, da Alemanha, que o levou realmente ao
cenário mundial. Lá, ele foi amigo próximo do inglês Jude Bellingham.
Sua
transferência para o Manchester City veio em 2022, algo que muitos acreditavam
ser inevitável, considerando o histórico do seu pai e sua paixão pelo futebol
inglês.
Mesmo
com sua rápida ascensão ao estrelato, Haaland continua a visitar a Noruega com
frequência, onde possui diversos imóveis.
"Apesar
do prestígio de Haaland como superastro global, ele permanece exatamente a
mesma pessoa", declarou à BBC Sport o jornalista esportivo norueguês
Andreas Korssund.
"Ele
sabe exatamente de onde vem e visita regularmente sua pequena cidade em
Rogaland [oeste da Noruega]", ele conta. "Ele tem um orgulho incrível
das suas raízes e está sempre disponível para a imprensa norueguesa quando
representa o seu país."
Haaland
já discutiu seu desejo de administrar uma fazenda na Noruega quando se
aposentar. Ele pode ser visto frequentemente passeando pela capital norueguesa,
Oslo, onde tem um apartamento.
Ele
adotou a história dos vikings noruegueses e tem imenso orgulho de representar o
seu país, como mostrou sua imagem comandando os colegas de seleção durante a
remada viking, após a vitória contra o Brasil.
Esta
afinidade com suas origens também o levou a adotar o nome completo Braut
Haaland nas costas da sua camisa na seleção nacional. Braut é o nome de
solteira da sua mãe, ao lado do sobrenome do seu pai, seguindo uma tradição
norueguesa.
Para
Korssund, "Haaland significa tudo para a Noruega. Ele se tornou um
superastro sem precedentes no maior esporte do mundo."
"Para
uma nação de pouco mais de 5,5 milhões de pessoas, produzir um dos maiores
jogadores de futebol do planeta é um imenso feito."
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Missão de 28 anos
Haaland
marcou dois gols no jogo de estreia da Noruega em Foxborough, nos Estados
Unidos. Os noruegueses venceram a seleção do Iraque por 4x1.
Além do
peso de todo um país, ele também carregava os sonhos combinados de todos os
jogadores que não conseguiram disputar uma Copa do Mundo.
Depois
de se classificar para duas Copas em seguida (1994 e 1998), a Noruega amargou
um longo período de ausência da competição. Sua última participação em um
torneio importante ocorreu na Eurocopa 2000, na Bélgica e na Holanda, quando
não passou da fase de grupos.
Com
isso, sobreveio uma longa lista de talentosos jogadores noruegueses que não
conseguiram disputar a Copa do Mundo, como Morten Gamst Pedersen, John Carew,
Brede Hangeland e John Arne Riise, apenas para citar alguns.
Muitos
consideram a a atual seleção norueguesa como a geração de ouro do país.
As
estatísticas podem sugerir que se trate de um time de um jogador só. Mas, na
verdade, ele não é o único responsável pela classificação da Noruega para a
Copa do Mundo.
O
capitão norueguês, Martin Odegaard, chegou aos Estados Unidos logo após
conquistar a Premier League pelo Arsenal. Seu desempenho no meio-campo tem sido
impressionante, com três assistências na Copa.
Nomes
como Alexander Sorloth, Jorgen Strand Larsen e Oscar Bobb também são jogadores
de alto nível estabelecidos. Já Patrick Berg, Sander Berge e Antonio Nusa,
inesperadamente, também se tornaram protagonistas.
"Observamos
um fenômeno parecido com o que ocorreu com a geração de ouro da Bélgica, alguns
anos atrás", explica Korssund. "Uma nação relativamente pequena que
simplesmente exala futebol."
A
Noruega pode ter qualidade nas suas fileiras, mas ninguém transcende mais o
esporte do que Haaland. Sua fama se aproxima à de Lionel Messi e Cristiano
Ronaldo e a Noruega nunca teve um jogador como ele.
É fácil
imaginar uma história diferente, associando Haaland a nomes como George Best na
Irlanda do Norte, Ryan Giggs no País de Gales ou George Weah, da Libéria,
vencedor da Bola de Ouro. Nenhum deles chegou a disputar a Copa do Mundo.
Mas
Haaland teve outro destino e entrou na corrida pela artilharia da Copa, ao lado
dos superastros Messi e Kylian Mbappé, com oito gols, além do inglês Harry
Kane, com seis. O norueguês está no meio deles, com sete gols.
Depois
de repetir a participação do seu pai na Copa do Mundo de 1994, Haaland espera
levar a Noruega a um nível de sucesso antes impensável.
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O fator celebridade
Com
1m95 de altura e seus longos cabelos loiros esvoaçantes, Haaland se tornou um
rostos mais conhecidos entre os jogadores de futebol em todo o mundo.
Seu
carisma começou a brilhar no Manchester City. Seu humor (às vezes, muito
inglês) o aproximou dos torcedores.
Ele
grava vídeos do seu dia a dia para seu canal no YouTube, que conta com mais de
2,8 milhões de inscritos.
Um vlog
de uma saída para compras improvisada em Dallas, nos Estados Unidos, para
comprar chapéus e botas de caubói, atingiu mais de cinco milhões de
visualizações em quatro dias. A Noruega havia acabado de vencer a Costa do
Marfim por 2x1, com um gol decisivo de Haaland no final do jogo.
Haaland
também deve a aparecer na animação ViQueens dando a voz a um
personagem viking chamado, é claro, Haaland.
Mas ele
não é um herói norueguês padrão.
"Acho
que Erling, de certa forma, não é um norueguês totalmente típico", segundo
o jornalista norueguês Lars Sivertsen.
"Ele
é confiante e pode ser um pouco arrojado. Ele sabe do seu valor, conhece sua
qualidade e acredita em si mesmo."
"A
Escandinávia tem uma cultura que valoriza mais a humildade", prossegue o
jornalista.
"Erling
reclamava quando ficava no banco. Por isso, acho que ele não é um exemplo
típico dos noruegueses."
"Isso
faz dele um herói interessante para nós, pois haverá momentos de repercussão
negativa", explica Sivertsen.
Mas o
talento de Haaland é inegável. E, com ele, vem tudo aquilo que é associado a um
superastro, como vendas de camisas, aumento do interesse durante a Copa do
Mundo e a inspiração que ele gera entre os mais jovens.
"Agora,
ele está simplesmente em um nível de estrelato diferente do que estávamos
acostumados para os nossos heróis esportivos, segundo Sivertsen.
"Mas
acho que, se você observar pelo país, existe um senso extraordinário de orgulho
ao ver um jogador fazendo o que ele faz na Noruega."
Fonte:
BBC Sport

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