sábado, 11 de julho de 2026

Ao contrário do que diz Trump, Putin rejeita paz na Ucrânia

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, estaria rejeitando os apelos para negociar a paz com Kiev, disseram à agência de notícias Reuters três fontes próximas ao Kremlin. Segundo elas, os recentes ataques de drones ucranianos contra refinarias e portos russos reforçaram determinação do líder russo de continuar a guerra.

Duas das fontes, sob condição de anonimato, afirmaram que Putin provavelmente optará por uma escalada do conflito, que já entrou em seu quinto ano. Uma delas, que se reúne regularmente com o presidente, descreveu como "alta" a probabilidade de uma escalada nos próximos meses.

A informação foi divulgada nesta quinta-feira (09/07), dia em que drones ucranianos atingiram novas instalações petrolíferas russas e incendiaram dois petroleiros no Mar de Azov.

Os ataques ucranianos contra refinarias e outras infraestruturas em toda a Rússia desencadearam uma ampla crise de combustíveis, com relatos de escassez de gasolina, racionamento de combustível em várias regiões e motoristas aguardando por horas para abastecer seus veículos.

<><> Putin quer conquistar todo o Donbass

As declarações ocorrem após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmar na segunda-feira que Putin gostaria de encerrar a guerra e que uma solução estaria "mais próxima do que as pessoas imaginam".

Uma das fontes familiarizadas com o pensamento de Putin afirmou que ele está decidido a alcançar o objetivo central de conquistar o restante da região de Donbass, no leste da Ucrânia, onde os avanços russos desaceleraram neste ano. A mesma fonte disse que Putin repreendeu recentemente um grupo de assessores que sugeriu um compromisso baseado em um cessar-fogo nas atuais linhas de frente. Já a segunda fonte afirmou que Putin acredita que a Rússia em breve conquistará todo o Donbass.

Em junho, o presidente russo rejeitou publicamente um apelo do presidente ucraniano, Volodimir Zelenski, para realizar uma reunião e estabelecer um cessar-fogo.

"A Rússia está pronta para uma solução pacífica, mas possui capacidade suficiente para agir por conta própria e continuar a operação militar especial", declarou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em resposta a um pedido de comentário da Reuters.

<><> Ataque contra país da Otan?

Questionado sobre o tema, um alto funcionário ucraniano disse que os relatórios de inteligência de Kiev dos últimos meses indicam que Putin está se preparando para novos passos na guerra, e não para a paz, incluindo novas operações militares na Ucrânia ou até um possível ataque a outro país europeu.

Alguns analistas militares ocidentais acreditam que, diante das altas baixas no campo de batalha, a Rússia precisaria convocar compulsoriamente homens em idade de combate para alcançar o objetivo de tomar todo o Donbass. Trata-se de uma medida politicamente impopular, que Putin tem evitado desde os primeiros estágios da guerra.

Especialistas militares russos têm discutido cada vez mais, de forma pública, possibilidades de escalada, incluindo ataques a alvos europeus, como bases da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) nos países bálticos.

Uma medida desse tipo poderia levar a Rússia a um confronto direto com a aliança liderada pelos Estados Unidos, testando o compromisso da Otan de considerar um ataque contra um de seus membros como um ataque contra todos.

Segundo Jack Watling, do centro de estudos britânico Royal United Services Institute (RUSI), Moscou poderia tentar criar divisões dentro da Otan por meio de ataques isolados, semelhantes a um recente ataque de drone russo que atingiu a Romênia.

"Os russos não estariam buscando uma guerra com a Otan. Mas isso poderia ser usado para dividir a aliança sobre como responder", afirmou Watling. Ele acrescentou que o aumento das tensões com a Otan poderia ajudar Putin a justificar politicamente, dentro da Rússia, uma eventual mobilização militar mais ampla.

<><> Custos crescentes da guerra

Ataques repetidos contra refinarias, portos e depósitos de combustível na Rússia e em áreas ocupadas da Ucrânia provocaram sérias dificuldades de abastecimento, fazendo com que os efeitos da guerra sejam sentidos por milhões de russos.

Nesta quinta-feira, o governador interino da região russa de Tver, no oeste do país, Vitaly Korolyov, afirmou que um ataque de drone ucraniano provocou um incêndio em um terminal de petróleo na cidade de Tver.

Na região sul de Stavropol, o governador Vladimir Vladimirov declarou que reservatórios de petróleo foram incendiados por drones ucranianos na localidade de Vyazniki. Segundo ele, as autoridades ordenaram a evacuação dos moradores de vários edifícios residenciais próximos à instalação à medida que o incêndio se expandia.

No Mar de Azov, drones ucranianos incendiaram dois navios-tanque, de acordo com o governador da região de Rostov, Yuri Slusar, que informou que uma das embarcações continuava em chamas e que as tripulações foram evacuadas. O ataque foi o mais recente de uma série de ações contra petroleiros na área nos últimos dias, parte dos esforços da Ucrânia para interromper o fornecimento de combustível à Crimeia ocupada pela Rússia.

Zelenski afirmou que, além dos ataques às instalações petrolíferas em Stavropol e Tver, as forças de defesa da Ucrânia também atingiram um depósito estratégico de combustível localizado a cerca de 800 quilômetros da linha de frente, bem como uma estação de bombeamento de petróleo em Ufa, quase 1.500 quilômetros da fronteira ucraniana.

<><> "Sanções de longo alcance"

O presidente ucraniano acrescentou que também foi atacado um terminal de carregamento de petróleo na região de Rostov, a cerca de 200 quilômetros da linha de frente, embora não esteja claro se se trata do mesmo ataque mencionado por Slusar.

Zelenski classificou as ofensivas como parte da campanha de "sanções de longo alcance" adotada por Kiev em resposta aos ataques russos e à recusa de Moscou em encerrar a guerra. "Há muito tempo propusemos que a Rússia encerrasse esta guerra, e cada dia de atraso deve levar a sensação da guerra para onde tudo começou, ou seja, para a própria Rússia", declarou.

O Ministério da Defesa da Rússia informou que suas defesas aéreas derrubaram 73 drones ucranianos entre a noite de quarta-feira e a manhã de quinta-feira.

Por sua vez, a Força Aérea da Ucrânia afirmou que a Rússia lançou durante a noite 94 drones de ataque de longo alcance e dois mísseis balísticos contra território ucraniano. Segundo a força, 72 drones foram interceptados ou neutralizados por interferência eletrônica, mas 19 drones e os dois mísseis atingiram 13 locais, causando danos.

<><> Putin com popularidade em queda

Embora a aprovação de Putin permaneça elevada, uma pesquisa recente mostrou que ela atingiu seu nível mais baixo desde o início da invasão em larga escala da Ucrânia, em 2022.

Enquanto aliados de Kiev falam em uma mudança de momento no conflito e defendem novas sanções econômicas para pressionar Moscou, uma das fontes afirmou que os sucessos recentes da Ucrânia deixaram Putin mais irritado e ainda mais determinado a responder com dureza.

Nas últimas semanas, as forças russas lançaram grandes ataques com drones e mísseis contra a Ucrânia, incluindo a capital Kiev, matando dezenas de civis. Moscou afirma que os alvos eram instalações militares.

Em declarações televisionadas a comandantes militares na semana passada, Putin afirmou que os ataques ucranianos contra infraestrutura energética justificam a criação de uma "zona de segurança" além de Donbass, com a captura de mais territórios ucranianos próximos à fronteira.

O ex-funcionário do Ministério da Defesa russo Andrei Ilnitsky escreveu em um artigo publicado em 29 de junho no jornal Kommersant que uma escalada poderia começar pela destruição de cerca de 30 grandes instalações industriais da Ucrânia, incluindo uma siderúrgica e o porto de Odessa.

Segundo ele, uma fase posterior poderia incluir ataques contra bases da Otan nos países bálticos e na Romênia, além de instalações na União Europeia que produzem drones e mísseis de longo alcance destinados à Ucrânia.

Questionado sobre o artigo, Peskov afirmou que a Rússia precisa reforçar sua segurança e não pode "fechar os olhos" para o que classificou como militarização da Europa.

<><> Guerra de desgaste no Donbass

As discussões sobre uma eventual escalada ocorrem em um momento em que o avanço russo no campo de batalha tem sido mais lento, aumentando a perspectiva de que a conquista total de Donbass exija mais tempo e mais baixas.

De acordo com uma estimativa recente do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), cerca de 2 milhões de militares foram mortos, feridos ou desapareceram desde o início da invasão em larga escala em 2022, sendo aproximadamente 1,4 milhão russos. Nenhum dos lados divulga dados oficiais completos sobre suas baixas militares.

As tropas russas têm encontrado dificuldades para avançar ao longo da linha de frente de cerca de 1.200 quilômetros, já que os drones ucranianos reduzem a vantagem numérica russa.

Nas últimas semanas, as forças russas intensificaram a pressão sobre a cidade de Kostiantynivka, um dos principais pontos da chamada "cintura de fortalezas" defensiva da Ucrânia na região de Donetsk. Em 3 de julho, Putin afirmou que as forças russas haviam tomado Kostiantynivka. A Ucrânia negou a informação.

No dia seguinte, durante uma conversa com Trump, Putin teria procurado convencê-lo de que a Rússia acabará conquistando a parte restante da região de Donetsk que ainda está sob controle ucraniano. Segundo a fonte que se reúne regularmente com o presidente russo, Putin considera a conquista de toda a região uma questão de princípio. "Ele precisa de algum tipo de vitória", afirmou a fonte.

¨      Impacto de ataques a refinarias russas chega ao Brasil

Pressionado pela crescente escassez de combustíveis provocada por ataques ucranianos à sua indústria petrolífera, o líder da Rússia,Vladimir Putin, suspendeu nesta quarta-feira (08/07) exportações de diesel

A medida, que deve vigorar até 31 de julho, deve atingir em cheio o Brasil, terceiro maior importador da produção russa de diesel. O anúncio ainda fez disparar os preços do barril do diesel em um mercado global já tensionado pela guerra no Irã.

Terceiro maior produtor global de petróleo, atrás apenas dos EUA e Arábia Saudita, a Rússia sofre escassez de combustível e disparadas de preços, consequência direta dos ataques ucranianos nos últimos meses contra refinarias, tanques de armazenamento e linhas de abastecimento.

Motoristas em muitas regiões tem enfrentado filas quilométricas para abastecer, à medida que a intensificação dos ataques ucranianos à infraestrutura energética russa restringe a oferta de diesel e gasolina.

E isso apesar de a Rússia já ter proibido a exportação de gasolina desde abril.

O Financial Times afirma que o país vive sua pior crise de combustíveis desde o colapso da União Soviética.

"Hoje foi introduzida uma proibição das exportações de diesel, e isso permitirá aumentar a oferta para o mercado doméstico", afirmou o vice-primeiro-ministro, Alexander Novak.

Além do veto à exportação de diesel, a Rússia também vai importar mais combustível do exterior. Fontes do setor afirmam que isso já ocorre desde a semana passada, quando a Rússia começou a importar gasolina por via marítima da Índia, segundo a agência de notícias Reuters.

As medidas foram anunciadas em uma reunião de governo televisionada e presidida por Putin.

<><> Alerta para o Brasil

Em 2023, a Rússia se tornou o maior fornecedor de diesel ao Brasil, ultrapassando os Estados Unidos, maior produtor mundial de petróleo. A mudança foi fruto da guerra na Ucrânia, que forçou Moscou a buscar novos mercados para a sua commodity após ser sancionada pela União Europeia.

Como resultado, em 2025 o Brasil foi o terceiro maior importador de diesel russo, segundo dados da Kpler. Mas os números caíram 65% de maio para junho deste ano, em meio ao aumento dos ataques ucranianos à infraestrutura energética russa, informou a Fecombustíveis Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes do Brasil (Fecombustíveis). Ao mesmo tempo, o volume importado dos EUA cresceu 74% entre maio e junho deste ano.

O veto à exportação anunciado pela Rússia, somado à notícia de que o país vai importar combustíveis, deixou analistas preocupados, já que deve desencadear escassez em alguns países e alta de preços.

Os impactos podem ser amplos, já que frotas de caminhões, sistemas ferroviários, agricultura e construção dependem fortemente do diesel, puxando a inflação e prejudicando o crescimento. 

Muitos mercados já enfrentaram um aumento de mais de 50% nos custos do diesel devido à guerra com o Irã.

Para o analista Abhishek Kumar, da Sparta Commodities, a proibição das exportações de diesel pela Rússia vem "quase no pior momento possível".

"A guerra no Irã já havia forçado grandes retiradas de estoques para compensar a interrupção do fornecimento do Oriente Médio, deixando os estoques de diesel em mercados-chave reduzidos", disse à agência Reuters, acrescentando que Rússia e seus compradores agora competirão de forma agressiva com a Europa pelas importações de diesel de outros fornecedores.

As exportações russas de diesel por via marítima já haviam despencado em junho em função da escassez gerada pela guerra, totalizando 1,8 milhão de toneladas, queda de 39% em relação a maio e de 46% em relação às 3,35 milhões de toneladas em junho de 2025.

"Eles [Rússia] basicamente já tinham uma proibição de exportação de fato. Em junho, [as exportações] caíram para 400 mil barris por dia; julho está no caminho para ser ainda mais baixo", disse uma fonte europeia do setor de trading.

As exportações russas de diesel foram de apenas 214 mil barris por dia entre 1º e 8 de julho, segundo dados da consultoria Kpler, em comparação com uma média diária de 793 mil barris em julho de 2025.

A Ucrânia atacou todas as dez maiores refinarias da Rússia desde o final de abril. A maior, em Omsk, distante mais de 2,5 mil quilômetros da fronteira ucraniana, foi forçada a interromper sua produção após um bombardeio no início desta semana.

Falando durante o anúncio das medidas nesta quarta, Putin disse que a Ucrânia está tentando prejudicar a economia russa e "criar um sentimento de ansiedade na sociedade", mas assegurou que esse objetivo é "inalcançável" e que a "resiliência do sistema de energia da Rússia é muito alta",

A Ucrânia afirma que seus ataques a instalações de combustível russas têm como objetivo limitar a capacidade da Rússia de fazer guerra e forçar Moscou a iniciar negociações de paz.

 

Fonte: DW Brasil

 

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