sábado, 11 de julho de 2026

Gustavo Tapioca: O fogo amigo e a velha crise da direita brasileira

“Flávio Bolsonaro desserve o Brasil.”

A frase não saiu de um dirigente do PT, de um parlamentar governista ou de um articulista identificado com a esquerda. É o título do editorial publicado nesta quinta-feira, 9 de julho, por O Estado de S. Paulo.

Mais dura ainda é a conclusão destacada pelo próprio jornal e repercutida intensamente na imprensa:  Flávio Bolsonaro seria “indigno da confiança do setor produtivo nacional”.

A notícia, portanto, já não é apenas a crítica a um senador. É o sinal de que setores influentes da direita econômica começam a duvidar publicamente do candidato que, até ontem, era apresentado como principal alternativa a Lula.

Não porque Flávio tenha deixado de ser competitivo. Mas porque parte da própria direita começou a discutir, em público, se ele é realmente o nome mais capaz de enfrentar o presidente Lula.

<><> O zigue-zague do tarifaço

A crise não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo de um ano.

Quando Donald Trump anunciou, em julho de 2025, tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, Flávio Bolsonaro comemorou a decisão. Eduardo Bolsonaro afirmou que havia atuado para que as medidas fossem adotadas.

Meses depois, já sob o impacto econômico e político das sanções, Flávio mudou de posição. Em maio deste ano, afirmou ter pedido pessoalmente a Trump o fim das tarifas.

Em junho, diante do desgaste captado pelas pesquisas, enviou carta ao secretário de Estado Marco Rubio pedindo que a aplicação das tarifas fosse adiada até depois das eleições brasileiras. Na mesma carta, prometeu criar, se eleito, um grupo de transição com representantes do governo americano e assumiu compromissos legislativos relacionados ao Pix.

Nesta semana, durante audiência pública do USTR, em Washington, afirmou que novas tarifas acabariam beneficiando eleitoralmente Lula. A sequência produziu a imagem de um político que ajusta sua posição conforme muda o custo eleitoral da crise.

Quando as tarifas pareciam enfraquecer o governo brasileiro, eram comemoradas. Quando passaram a desgastar o próprio bolsonarismo, passaram a ser tratadas como problema.

Foi esse percurso que Maria Hermínia Tavares resumiu, na Folha, como o “patético zigue-zague” de Flávio Bolsonaro diante do tarifaço.

<><> As críticas já não vêm apenas da oposição

O aspecto mais importante da semana talvez seja este: as críticas deixaram de partir apenas dos adversários do bolsonarismo. Vieram também de ambientes tradicionalmente situados no campo liberal-conservador.

A Faria Lima reagiu negativamente à atuação do senador. O setor privado, segundo reportagem do Estadão, avaliou a participação de Flávio na audiência nos Estados Unidos como deslocada do debate e constrangedora. No Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes descreveu o momento como caso de “fogo amigo” dentro do próprio bolsonarismo. Na Folha, Maria Hermínia Tavares apontou a contradição central: a politização de conflitos com os Estados Unidos, com exclusivo propósito eleitoral, não interessa ao país.

Vistos isoladamente, esses episódios poderiam parecer circunstanciais. Em conjunto, sugerem algo maior. Flávio Bolsonaro já não constrange apenas seus adversários. Começa a constranger também setores que deveriam formar sua retaguarda política, empresarial e econômica.

<><> O Estadão atravessa a linha

Por isso, o editorial do Estadão tem peso especial. Não se trata de uma crítica qualquer. É a posição institucional de um jornal que historicamente fala para parcelas importantes do empresariado, do mercado, do agronegócio, da direita liberal e do setor produtivo nacional.

Quando esse jornal afirma que Flávio Bolsonaro “desserve o Brasil” e é “indigno da confiança do setor produtivo nacional”, a crítica deixa de ser apenas eleitoral. Torna-se política, econômica e simbólica.

<><> Caiado rompe o silêncio

As críticas a Flávio Bolsonaro já não partem apenas da imprensa ou de analistas políticos. Elas chegaram também ao campo dos presidenciáveis. Nesta semana, o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência da República, fez o ataque mais direto até agora à candidatura do senador.

“Quem votar no Flávio vai reeleger o Lula”, afirmou durante evento promovido pela Confederação Nacional do Comércio, em Brasília. Caiado também classificou como “inaceitável” a postura de Flávio ao pedir, nos Estados Unidos, o adiamento das tarifas para depois das eleições brasileiras. 

A declaração de Caiado tem peso político. Não veio de um adversário do campo conservador.

Veio de um concorrente que disputa o mesmo eleitorado e que procura apresentar-se como alternativa para unificar a direita em torno de uma candidatura considerada mais competitiva.

<><> As pesquisas ajudam a entender o momento

As pesquisas recentes mostram um quadro mais complexo do que a simples queda de um candidato. Lula segue liderando os principais cenários de primeiro e segundo turno. Flávio Bolsonaro, porém, ainda permanece competitivo.

Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro preserva espaço no eleitorado bolsonarista, e nomes como Ronaldo Caiado aparecem, em algumas simulações, com desempenho de segundo turno muito superior ao que obtêm no primeiro.

É exatamente aí que nasce a crise. Flávio pode ainda ser o nome formal do bolsonarismo. Mas já não parece ser, para todos os setores da direita, o candidato mais seguro para enfrentar Lula.

Daí as especulações sobre uma eventual recomposição do campo conservador, articulando a direita tradicional e a extrema-direita em torno de outra chapa. Caiado com Michelle.

Michelle como herdeira direta do espólio eleitoral de Jair. Ou a permanência de Flávio por falta de alternativa. Nada disso está decidido. Mas o simples fato de essas hipóteses circularem revela que a candidatura de Flávio deixou de ser tratada como inevitável.

<><> A velha pergunta da direita

Talvez seja esse o verdadeiro significado político dos acontecimentos desta semana. Desde a primeira vitória de Lula, em 2002, a direita brasileira procura um candidato capaz de derrotá-lo.

Ao longo desses 24 anos, diferentes personagens foram apresentados como solução definitiva. José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Luciano Huck, Joaquim Barbosa, Sergio Moro, João Doria. Para a eleição de 2026 surgiram Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Flávio Bolsonaro. Agora, é possível incluir nesta lista o nome de Michelle Bolsonaro.

Cada um, em determinado momento, foi tratado como possível nome de convergência entre mercado, empresariado, conservadores, bolsonaristas e setores do centro.

Nenhum conseguiu consolidar, de forma duradoura, esse papel. A direita brasileira não tem apenas dificuldade de derrotar Lula. Tem dificuldade de encontrar alguém capaz de reunir a própria direita para derrotá-lo.

As pesquisas mais recentes do Meio/Idea não sinalizam que Flávio Bolsonaro está fora da disputa nem que o bolsonarismo tenha desaparecido. O que ela sugere, segundo análise de Pedro Dória, é algo mais profundo: uma erosão gradual da base do radicalismo de direita na sociedade brasileira.

Essa mudança começaria justamente em segmentos que tiveram papel decisivo na ascensão do bolsonarismo: parte do eleitorado evangélico, das periferias urbanas e das mulheres conservadoras.

Se essa hipótese vier a ser confirmada pelas próximas pesquisas, ela ajuda a compreender por que empresários, mercado financeiro e parte da imprensa conservadora passaram a olhar a candidatura de Flávio Bolsonaro com crescente preocupação.

Talvez não estejam produzindo a crise. Talvez estejam percebendo antes de muitos que a sociedade brasileira começa a mudar. É cedo para saber se essa percepção se confirmará. Mas uma coisa parece evidente. 

A principal disputa política de 2026 já não ocorre apenas entre Lula e a oposição. Ela acontece também dentro da própria direita. 

Passados 24 anos da primeira vitória de Lula, em 2002, a velha pergunta continua sem resposta. Quem será que vai tentar dessa vez derrotá-lo? 

Este nome tem que aparecer até às 19 horas do dia 15 de agosto – daqui a 35 dias – quando os partidos políticos e coligações devem registar os candidatos a presidente para as eleições de 2026.

O PSD de Gilberto Kassab parece que vai registrar Ronaldo Caiado como o candidato preferido. 

Será que, finalmente, a direita conseguiu um candidato com força suficiente para impedir Lula de ganhar também em 2026? 

Em outubro – e, se houver segundo turno, em novembro – essa pergunta será respondida.

•        Faria Lima critica participação de Flávio Bolsonaro em audiência sobre tarifaço nos EUA

A atuação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência sobre tarifa dos Estados Unidos foi avaliada como inócua e frustrante por empresários, gestores e analistas do mercado financeiro, que esperavam uma defesa mais técnica dos interesses comerciais brasileiros diante da ameaça de novas sobretaxas de 25% sobre produtos importados do Brasil, segundo informou o jornal O Globo.

A participação do senador e pré-candidato à Presidência na audiência pública do governo norte-americano, realizada no âmbito do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), decepcionou setores privados que aguardavam argumentos econômicos mais consistentes contra o chamado ‘tarifaço’.

A expectativa entre empresários e representantes de segmentos afetados era que Flávio apresentasse dados sobre comércio bilateral, impactos sobre cadeias produtivas, custos para consumidores e eventuais prejuízos a empresas dos próprios Estados Unidos. Segundo relatos feitos ao jornal, porém, o discurso acabou assumindo tom mais político do que técnico.

Empresários ouvidos sob condição de anonimato classificaram a fala como “ruim” e afirmaram que o senador abordou o tema das tarifas de maneira superficial. Em cerca de cinco minutos de manifestação, Flávio Bolsonaro mencionou temas como corrupção no Brasil, o sistema de pagamentos Pix e o uso de cartões de crédito. O Pix está entre os pontos questionados pelo governo norte-americano, sob o argumento de que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos afetaria empresas de bandeiras de cartões dos Estados Unidos.

Ao tratar das tarifas, o senador argumentou que o momento seria inadequado para a adoção da medida, citando o calendário eleitoral brasileiro. Segundo ele, o país terá eleições presidenciais em outubro e o quadro político poderá se alterar em 90 dias. “Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter — premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”, afirmou Flávio Bolsonaro.

No mercado, a leitura predominante foi a de que o argumento eleitoral dificilmente terá peso relevante em uma decisão do USTR, órgão responsável por formular e coordenar a política comercial dos Estados Unidos. A avaliação é que, apesar de eventuais erros nos dados usados pelo governo norte-americano, a tramitação tem caráter técnico e tende a considerar principalmente informações apresentadas por empresas, associações setoriais e especialistas.

Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos, afirmou que o rito da audiência permite a participação de diferentes interessados, incluindo associações empresariais, técnicos, companhias e representantes políticos. Para ele, Flávio tentou aproveitar o calendário eleitoral para se colocar como interlocutor com Washington.

“Ele sinaliza que ter um bom relacionamento com o governo americano pode ser bom para o Brasil, caso ele ganhe as eleições. Mas acho que o impacto da participação é pequeno. Não acredito que ele vai persuadir o USTR mais do que empresas, que estão levando dados e fatos. Mas também não atrapalha. Eu diria que é neutra a participação”, avaliou.

Paulo Bittencourt, estrategista-chefe da MZM Wealth, também classificou como neutro o efeito institucional da fala do senador no processo comercial. Para ele, a pressão exercida por empresas norte-americanas tende a ter mais peso do que a intervenção política de um parlamentar brasileiro.

“Nem ajuda, nem prejudica, considerando o âmbito da sessão 301. Surte mais efeito a pressão que as empresas americanas estão fazendo para não taxar o país. Mas o impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, afirmou o analista.

Bittencourt disse ainda que Flávio Bolsonaro assumiu para si a responsabilidade de tentar resolver um tema complexo e acabou produzindo material que poderá ser explorado por adversários na disputa presidencial.

“Se não havia certeza que um ato dele poderia se converter num benefício político para a campanha, então que não fizesse. Isso vai acabar sendo usado contra. Tenho ouvido na Faria Lima avaliações, diante disso, que a candidatura de Flávio pode não crescer entre novos eleitores”, declarou.

O economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega também minimizou a capacidade de influência da participação de Flávio Bolsonaro sobre a decisão do USTR. Para ele, o órgão não deve rever uma medida comercial apenas com base no argumento de que o Brasil terá eleições em breve.

“Não tem impacto a participação dele. A proposta do Flávio, que é o adiamento das tarifas, não deve ser acolhida pelo USTR, que é um órgão técnico, que se baseou num estudo, ainda que com erros, para impor essas tarifas ao Brasil. Esse órgão não vai tomar uma decisão de comércio importante apenas porque vai acontecer uma eleição no Brasil”, disse Maílson.

O ex-ministro ponderou, no entanto, que o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem histórico de imprevisibilidade e citou que ele “até na Copa do Mundo interferiu”. Ainda assim, Maílson avaliou que a movimentação pode se transformar em um problema político para Flávio, caso as tarifas sejam efetivamente aplicadas.

A preocupação entre interlocutores do mercado é que, se o tarifaço for associado a um embate político interno do Brasil, o governo Lula poderá reforçar o discurso de defesa da soberania comercial e dos setores produtivos nacionais. Nesse cenário, a oposição — e especialmente Flávio Bolsonaro — poderia ser responsabilizada politicamente por eventuais danos a exportadores, empregos e preços.

 

Fonte: Brasil 247

 

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