Gustavo
Tapioca: O fogo amigo e a velha crise da direita brasileira
“Flávio
Bolsonaro desserve o Brasil.”
A frase
não saiu de um dirigente do PT, de um parlamentar governista ou de um
articulista identificado com a esquerda. É o título do editorial publicado
nesta quinta-feira, 9 de julho, por O Estado de S. Paulo.
Mais
dura ainda é a conclusão destacada pelo próprio jornal e repercutida
intensamente na imprensa: Flávio
Bolsonaro seria “indigno da confiança do setor produtivo nacional”.
A
notícia, portanto, já não é apenas a crítica a um senador. É o sinal de que
setores influentes da direita econômica começam a duvidar publicamente do
candidato que, até ontem, era apresentado como principal alternativa a Lula.
Não
porque Flávio tenha deixado de ser competitivo. Mas porque parte da própria
direita começou a discutir, em público, se ele é realmente o nome mais capaz de
enfrentar o presidente Lula.
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O zigue-zague do tarifaço
A crise
não surgiu do nada. Ela foi sendo construída ao longo de um ano.
Quando
Donald Trump anunciou, em julho de 2025, tarifas de 50% sobre produtos
brasileiros, Flávio Bolsonaro comemorou a decisão. Eduardo Bolsonaro afirmou
que havia atuado para que as medidas fossem adotadas.
Meses
depois, já sob o impacto econômico e político das sanções, Flávio mudou de
posição. Em maio deste ano, afirmou ter pedido pessoalmente a Trump o fim das
tarifas.
Em
junho, diante do desgaste captado pelas pesquisas, enviou carta ao secretário
de Estado Marco Rubio pedindo que a aplicação das tarifas fosse adiada até
depois das eleições brasileiras. Na mesma carta, prometeu criar, se eleito, um
grupo de transição com representantes do governo americano e assumiu
compromissos legislativos relacionados ao Pix.
Nesta
semana, durante audiência pública do USTR, em Washington, afirmou que novas
tarifas acabariam beneficiando eleitoralmente Lula. A sequência produziu a
imagem de um político que ajusta sua posição conforme muda o custo eleitoral da
crise.
Quando
as tarifas pareciam enfraquecer o governo brasileiro, eram comemoradas. Quando
passaram a desgastar o próprio bolsonarismo, passaram a ser tratadas como
problema.
Foi
esse percurso que Maria Hermínia Tavares resumiu, na Folha, como o “patético
zigue-zague” de Flávio Bolsonaro diante do tarifaço.
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As críticas já não vêm apenas da oposição
O
aspecto mais importante da semana talvez seja este: as críticas deixaram de
partir apenas dos adversários do bolsonarismo. Vieram também de ambientes
tradicionalmente situados no campo liberal-conservador.
A Faria
Lima reagiu negativamente à atuação do senador. O setor privado, segundo
reportagem do Estadão, avaliou a participação de Flávio na audiência nos
Estados Unidos como deslocada do debate e constrangedora. No Valor Econômico,
Maria Cristina Fernandes descreveu o momento como caso de “fogo amigo” dentro
do próprio bolsonarismo. Na Folha, Maria Hermínia Tavares apontou a contradição
central: a politização de conflitos com os Estados Unidos, com exclusivo
propósito eleitoral, não interessa ao país.
Vistos
isoladamente, esses episódios poderiam parecer circunstanciais. Em conjunto,
sugerem algo maior. Flávio Bolsonaro já não constrange apenas seus adversários.
Começa a constranger também setores que deveriam formar sua retaguarda
política, empresarial e econômica.
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O Estadão atravessa a linha
Por
isso, o editorial do Estadão tem peso especial. Não se trata de uma crítica
qualquer. É a posição institucional de um jornal que historicamente fala para
parcelas importantes do empresariado, do mercado, do agronegócio, da direita
liberal e do setor produtivo nacional.
Quando
esse jornal afirma que Flávio Bolsonaro “desserve o Brasil” e é “indigno da
confiança do setor produtivo nacional”, a crítica deixa de ser apenas
eleitoral. Torna-se política, econômica e simbólica.
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Caiado rompe o silêncio
As
críticas a Flávio Bolsonaro já não partem apenas da imprensa ou de analistas
políticos. Elas chegaram também ao campo dos presidenciáveis. Nesta semana, o
ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), pré-candidato à Presidência da
República, fez o ataque mais direto até agora à candidatura do senador.
“Quem
votar no Flávio vai reeleger o Lula”, afirmou durante evento promovido pela
Confederação Nacional do Comércio, em Brasília. Caiado também classificou como
“inaceitável” a postura de Flávio ao pedir, nos Estados Unidos, o adiamento das
tarifas para depois das eleições brasileiras.
A
declaração de Caiado tem peso político. Não veio de um adversário do campo
conservador.
Veio de
um concorrente que disputa o mesmo eleitorado e que procura apresentar-se como
alternativa para unificar a direita em torno de uma candidatura considerada
mais competitiva.
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As pesquisas ajudam a entender o momento
As
pesquisas recentes mostram um quadro mais complexo do que a simples queda de um
candidato. Lula segue liderando os principais cenários de primeiro e segundo
turno. Flávio Bolsonaro, porém, ainda permanece competitivo.
Ao
mesmo tempo, Michelle Bolsonaro preserva espaço no eleitorado bolsonarista, e
nomes como Ronaldo Caiado aparecem, em algumas simulações, com desempenho de
segundo turno muito superior ao que obtêm no primeiro.
É
exatamente aí que nasce a crise. Flávio pode ainda ser o nome formal do
bolsonarismo. Mas já não parece ser, para todos os setores da direita, o
candidato mais seguro para enfrentar Lula.
Daí as
especulações sobre uma eventual recomposição do campo conservador, articulando
a direita tradicional e a extrema-direita em torno de outra chapa. Caiado com
Michelle.
Michelle
como herdeira direta do espólio eleitoral de Jair. Ou a permanência de Flávio
por falta de alternativa. Nada disso está decidido. Mas o simples fato de essas
hipóteses circularem revela que a candidatura de Flávio deixou de ser tratada
como inevitável.
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A velha pergunta da direita
Talvez
seja esse o verdadeiro significado político dos acontecimentos desta semana.
Desde a primeira vitória de Lula, em 2002, a direita brasileira procura um
candidato capaz de derrotá-lo.
Ao
longo desses 24 anos, diferentes personagens foram apresentados como solução
definitiva. José Serra, Geraldo Alckmin, Aécio Neves, Luciano Huck, Joaquim
Barbosa, Sergio Moro, João Doria. Para a eleição de 2026 surgiram Tarcísio de
Freitas, Romeu Zema, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Flávio Bolsonaro. Agora, é
possível incluir nesta lista o nome de Michelle Bolsonaro.
Cada
um, em determinado momento, foi tratado como possível nome de convergência
entre mercado, empresariado, conservadores, bolsonaristas e setores do centro.
Nenhum
conseguiu consolidar, de forma duradoura, esse papel. A direita brasileira não
tem apenas dificuldade de derrotar Lula. Tem dificuldade de encontrar alguém
capaz de reunir a própria direita para derrotá-lo.
As
pesquisas mais recentes do Meio/Idea não sinalizam que Flávio Bolsonaro está
fora da disputa nem que o bolsonarismo tenha desaparecido. O que ela sugere,
segundo análise de Pedro Dória, é algo mais profundo: uma erosão gradual da
base do radicalismo de direita na sociedade brasileira.
Essa
mudança começaria justamente em segmentos que tiveram papel decisivo na
ascensão do bolsonarismo: parte do eleitorado evangélico, das periferias
urbanas e das mulheres conservadoras.
Se essa
hipótese vier a ser confirmada pelas próximas pesquisas, ela ajuda a
compreender por que empresários, mercado financeiro e parte da imprensa
conservadora passaram a olhar a candidatura de Flávio Bolsonaro com crescente
preocupação.
Talvez
não estejam produzindo a crise. Talvez estejam percebendo antes de muitos que a
sociedade brasileira começa a mudar. É cedo para saber se essa percepção se
confirmará. Mas uma coisa parece evidente.
A
principal disputa política de 2026 já não ocorre apenas entre Lula e a
oposição. Ela acontece também dentro da própria direita.
Passados
24 anos da primeira vitória de Lula, em 2002, a velha pergunta continua sem
resposta. Quem será que vai tentar dessa vez derrotá-lo?
Este
nome tem que aparecer até às 19 horas do dia 15 de agosto – daqui a 35 dias –
quando os partidos políticos e coligações devem registar os candidatos a
presidente para as eleições de 2026.
O PSD
de Gilberto Kassab parece que vai registrar Ronaldo Caiado como o candidato
preferido.
Será
que, finalmente, a direita conseguiu um candidato com força suficiente para
impedir Lula de ganhar também em 2026?
Em
outubro – e, se houver segundo turno, em novembro – essa pergunta será
respondida.
• Faria Lima critica participação de
Flávio Bolsonaro em audiência sobre tarifaço nos EUA
A
atuação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em audiência sobre tarifa dos Estados
Unidos foi avaliada como inócua e frustrante por empresários, gestores e
analistas do mercado financeiro, que esperavam uma defesa mais técnica dos
interesses comerciais brasileiros diante da ameaça de novas sobretaxas de 25%
sobre produtos importados do Brasil, segundo informou o jornal O Globo.
A
participação do senador e pré-candidato à Presidência na audiência pública do
governo norte-americano, realizada no âmbito do Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), decepcionou setores
privados que aguardavam argumentos econômicos mais consistentes contra o
chamado ‘tarifaço’.
A
expectativa entre empresários e representantes de segmentos afetados era que
Flávio apresentasse dados sobre comércio bilateral, impactos sobre cadeias
produtivas, custos para consumidores e eventuais prejuízos a empresas dos
próprios Estados Unidos. Segundo relatos feitos ao jornal, porém, o discurso
acabou assumindo tom mais político do que técnico.
Empresários
ouvidos sob condição de anonimato classificaram a fala como “ruim” e afirmaram
que o senador abordou o tema das tarifas de maneira superficial. Em cerca de
cinco minutos de manifestação, Flávio Bolsonaro mencionou temas como corrupção
no Brasil, o sistema de pagamentos Pix e o uso de cartões de crédito. O Pix
está entre os pontos questionados pelo governo norte-americano, sob o argumento
de que o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos afetaria empresas de
bandeiras de cartões dos Estados Unidos.
Ao
tratar das tarifas, o senador argumentou que o momento seria inadequado para a
adoção da medida, citando o calendário eleitoral brasileiro. Segundo ele, o
país terá eleições presidenciais em outubro e o quadro político poderá se
alterar em 90 dias. “Impor agora uma tarifa que seria difícil de reverter —
premiando aqueles que são responsáveis pelas ações em questão e punindo aqueles
que suportaram suas consequências — seria o pior momento possível para agir”,
afirmou Flávio Bolsonaro.
No
mercado, a leitura predominante foi a de que o argumento eleitoral dificilmente
terá peso relevante em uma decisão do USTR, órgão responsável por formular e
coordenar a política comercial dos Estados Unidos. A avaliação é que, apesar de
eventuais erros nos dados usados pelo governo norte-americano, a tramitação tem
caráter técnico e tende a considerar principalmente informações apresentadas
por empresas, associações setoriais e especialistas.
Daniel
Teles, sócio da Valor Investimentos, afirmou que o rito da audiência permite a
participação de diferentes interessados, incluindo associações empresariais,
técnicos, companhias e representantes políticos. Para ele, Flávio tentou
aproveitar o calendário eleitoral para se colocar como interlocutor com
Washington.
“Ele
sinaliza que ter um bom relacionamento com o governo americano pode ser bom
para o Brasil, caso ele ganhe as eleições. Mas acho que o impacto da
participação é pequeno. Não acredito que ele vai persuadir o USTR mais do que
empresas, que estão levando dados e fatos. Mas também não atrapalha. Eu diria
que é neutra a participação”, avaliou.
Paulo
Bittencourt, estrategista-chefe da MZM Wealth, também classificou como neutro o
efeito institucional da fala do senador no processo comercial. Para ele, a
pressão exercida por empresas norte-americanas tende a ter mais peso do que a
intervenção política de um parlamentar brasileiro.
“Nem
ajuda, nem prejudica, considerando o âmbito da sessão 301. Surte mais efeito a
pressão que as empresas americanas estão fazendo para não taxar o país. Mas o
impacto para a candidatura de Flávio é péssimo”, afirmou o analista.
Bittencourt
disse ainda que Flávio Bolsonaro assumiu para si a responsabilidade de tentar
resolver um tema complexo e acabou produzindo material que poderá ser explorado
por adversários na disputa presidencial.
“Se não
havia certeza que um ato dele poderia se converter num benefício político para
a campanha, então que não fizesse. Isso vai acabar sendo usado contra. Tenho
ouvido na Faria Lima avaliações, diante disso, que a candidatura de Flávio pode
não crescer entre novos eleitores”, declarou.
O
economista e ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega também minimizou a
capacidade de influência da participação de Flávio Bolsonaro sobre a decisão do
USTR. Para ele, o órgão não deve rever uma medida comercial apenas com base no
argumento de que o Brasil terá eleições em breve.
“Não
tem impacto a participação dele. A proposta do Flávio, que é o adiamento das
tarifas, não deve ser acolhida pelo USTR, que é um órgão técnico, que se baseou
num estudo, ainda que com erros, para impor essas tarifas ao Brasil. Esse órgão
não vai tomar uma decisão de comércio importante apenas porque vai acontecer
uma eleição no Brasil”, disse Maílson.
O
ex-ministro ponderou, no entanto, que o governo do presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump, tem histórico de imprevisibilidade e citou que ele “até
na Copa do Mundo interferiu”. Ainda assim, Maílson avaliou que a movimentação
pode se transformar em um problema político para Flávio, caso as tarifas sejam
efetivamente aplicadas.
A
preocupação entre interlocutores do mercado é que, se o tarifaço for associado
a um embate político interno do Brasil, o governo Lula poderá reforçar o
discurso de defesa da soberania comercial e dos setores produtivos nacionais.
Nesse cenário, a oposição — e especialmente Flávio Bolsonaro — poderia ser
responsabilizada politicamente por eventuais danos a exportadores, empregos e
preços.
Fonte:
Brasil 247

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