A
sangrenta imagem de 1770 que alimentou a Independência dos EUA
A neve
cobria os campos na noite de 5 de março de 1770, em Boston, no Estado americano
de Massachusetts.
Um
único sentinela britânico montava guarda em frente à alfândega local. Sua
respiração formava nuvens de névoa branca no ar congelante.
Saindo
da escuridão, um adolescente começou a insultá-lo e atirar neve contra ele. E
logo chegou uma multidão cada vez maior para acompanhá-lo.
Os
soldados foram chamados para vir em auxílio do sentinela, causando a escalada
do confronto.
A
multidão atirava conchas de ostras, carvão e pedaços de gelo contra os
soldados, até que o distúrbio se tornou devastador. Os britânicos abriram fogo,
matando três homens e deixando outros dois mortalmente feridos.
No
Reino Unido, o evento ficou eufemisticamente conhecido como "o incidente
de King Street". Mas, nas colônias, ele recebeu o nome de "Massacre
de Boston".
O caso
se tornou um importante catalisador da independência dos Estados Unidos, que
comemora 250 anos neste dia 4 de julho e é comemorado por instituições
culturais em todo o país.
Três
semanas depois do massacre, uma gravura em chapa de cobre, produzida pelo
renomado ourives Paul Revere (1735-1818), apareceu para venda nos jornais de
Boston. Seu título era "O Massacre Sangrento perpetrado em King Street,
Boston, em 5 de março de 1770, por um grupo do 29° Regimento".
Sua
sangrenta ilustração dos nacionalistas caídos, banhados em sangue, sendo
alvejados por uma linha de soldados sorridentes, despertou o sentimento
antibritânico e alimentou a chama da rebelião.
Uma das
29 impressões existentes da gravação está guardada no Museu de Arte de Wichita
Falls, no Estado americano do Texas.
O museu
comemora o aniversário da assinatura da Declaração de Independência dos Estados
Unidos com a exposição intitulada Printing the American Revolution
("Imprimindo a Revolução Americana, em tradução livre). Ela examina a
participação da imprensa escrita na Independência dos Estados Unidos.
"A
ilustração do Massacre de Boston por Revere foi um poderoso instrumento de
propaganda, especialmente em um mundo onde os índices de analfabetismo variavam
entre as regiões e as populações", explica a professora de história Mary
Draper, da Universidade Estadual Midwestern, nos Estados Unidos, e uma das
curadoras da exposição.
"Ao
dispor os soldados britânicos em uma linha ordenada e retratar o caos dos
colonos desarmados, ele transmitiu uma mensagem clara sobre quem estava errado
e quem eram as vítimas. A gravura convocou os colonos a resistir ao domínio
britânico."
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Mensagens ocultas
O
trabalho também contém mensagens ocultas indicando quem está no lado errado da
história.
Uma
placa com os dizeres "Açougue" ergue-se sobre os soldados britânicos,
enquanto um cachorro (símbolo de lealdade) aparece em posição proeminente entre
os colonos.
"Esta
imagem foi obviamente destinada a incitar o ódio no observador em relação à
cena, pois exibe cidadãos indefesos sendo alvejados por soldados", explica
à BBC Constance McPhee, uma das curadoras da exposição Revolution!
("Revolução!"), em cartaz no Museu Metropolitano de Arte de Nova
York, nos Estados Unidos.
A
gravura é um dos destaques da exposição, que reúne obras de arte que indicam as
origens da Revolução Americana e dos eventos que se seguiram.
A
imagem insinuava que os britânicos não eram mais "uma força amiga e
paternal", mas sim uma "força opressora", segundo ela. "Ela
começou a mudar a opinião das pessoas."
Para os
alfabetizados, a inscrição inflamada incluída sob a imagem deixa muito clara a
brutalidade dos britânicos, descritos como "bárbaros ferozes", que
agiam com "rancor assassino".
Ela
também convoca os nacionalistas a "apaziguar os queixosos Fantasmas das
Vítimas", relacionas abaixo no texto.
Em um
ensaio de 2022 sobre a gravura, o historiador Steven L. Danver indica que a
obra "desempenhou papel fundamental para definir a postura das colônias em
relação ao domínio britânico" e "conseguiu unir os colonos por uma
causa comum e promover um senso de urgência pela independência".
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Momento crucial
O
momento da publicação da gravura foi fundamental.
As
tensões estavam aumentando entre os colonos americanos, desgostosos com a
crescente presença militar britânica, redução das liberdades civis e por uma
série de políticas fiscais indesejadas, que levavam os americanos a financiar a
dívida nacional britânica.
O
incidente no lado de fora da alfândega de Boston, o grande símbolo dos impostos
abusivos, era uma oportunidade boa demais para ser perdida.
Revere
era membro do grupo de resistência Filhos da Liberdade. Ele foi posteriormente
considerado herói nacional americano, devido à sua "cavalgada da
meia-noite", em 1775.
Na
ocasião, ele ajudou a vencer o exército britânico, correndo para alertar os
nacionalistas sobre os seus avanços. Diversos outros cavaleiros também
participaram desta missão.
Revere
aproveitou o massacre de Boston para fortalecer o apoio ao objetivo do grupo,
capitalizando as emoções exacerbadas.
Ele
plagiou outro desenho do evento, de autoria de Henry Pelham (c.1748-1806), e
correu para comercializar sua gravura. Ele não deu crédito nem remunerou
Pelham, que enviaria a Revere uma carta amargurada, lamentando suas "ações
desonrosas".
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'Alimentou a fúria'
Parte
do impacto da obra de arte é consequência da sua raridade. "É uma das
poucas feitas por um impressor americano", conta McPhee.
Ela
destaca que sua distribuição ampla e rápida "indicava a importância
atribuída" à gravura pelas pessoas.
Segundo
McPhee, "não há outra obra com tantas cópias criadas" naquela época.
E, ao divulgar a notícia do massacre, a gravura alimentava a fúria popular.
Folhetos
com a gravura eram exibidos em lojas e tavernas, ou vendidos para levantar
dinheiro para os Filhos da Liberdade. Antes clandestino, o grupo cresceu
exponencialmente e passou a ser o principal porta-voz da causa nacionalista.
Paralelamente,
circulavam plágios da gravura, como a versão de Jonathan Mulliken (1746-1782).
De um lado, elas forneciam a Revere uma dose do seu próprio remédio, mas também
repercutiam sua convocação popular.
A
gravura de Revere também se tornou o frontispício do panfleto A Short Narrative
of the Horrid Massacre in Boston ("História resumida do horrível massacre
em Boston", em tradução livre), de 1770.
A peça
de propaganda viajou por milhares de quilômetros, até que o panfleto e versões
da gravura foram impressos em Londres. Com isso, o horror e a injustiça do
massacre de Boston passaram a confrontar o povo britânico na sua própria terra.
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'O fervor do nosso entusiasmo'
Para
transmitir uma mensagem forte para as pessoas, a imagem incluiu diversos
exageros e falsidades.
Ela
ambienta o evento à luz do dia e omite todas as evidências de agressão dos
nacionalistas. Até a neve atirada contra os soldados como provocação derreteu
sem deixar traços.
O mais
importante, como as testemunhas declarariam posteriormente à Justiça, é que ela
ilustra incorretamente os britânicos como tendo iniciado o conflito, com o
capitão Thomas Preston (c.1722-c.1798), à direita, dando o comando para que os
soldados disparassem contra a multidão indefesa.
Preston
negou ter dado a ordem e foi absolvido desta acusação. Alguns relataram terem
ouvido a palavra "fogo", mas da boca dos nacionalistas, desafiando os
soldados a atirar.
No seu
pronunciamento de abertura do julgamento, o advogado de defesa, Josiah Quincy
(1744-1775), pareceu alertar o júri sobre o poder de influência da gravura, que
poderia induzir as pessoas a erro.
"As
impressões exibidas nas nossas casas deram asas à fantasia", declarou ele.
"E, no fervor do nosso entusiasmo, a razão corre o risco de ser
perdida."
O
efeito da propaganda oferecida pela gravura permaneceu na consciência pública
por muito tempo depois da sua criação.
No
primeiro aniversário do massacre, Revere a incorporou em uma enorme tela
iluminada na janela da sua casa. Milhares de espectadores se aglomeraram para
observar a ilustração.
Um
século depois, retratos do evento por artistas como W. L. Champney e Alonzo
Chappel (1828-1887) realizaram ajustes factuais, mas mantiveram viva a
narrativa principal.
O
Instituto Gilder Lehrman de História Americana afirma que "a histórica
gravura de Paul Revere... provavelmente foi a obra de propaganda de guerra mais
eficaz da história dos Estados Unidos".
Certamente,
esta é uma das imagens mais conhecidas da Revolução Americana e seus efeitos
são sentidos até hoje.
"Apesar
das suas pequenas dimensões, a obra ainda evoca emoções entre os
observadores", segundo Mary Draper.
"Parte
do seu poder reside na sua contínua relevância. Cada geração pode interpretar
esta obra de formas que refletem suas próprias ideias sobre autoridade,
violência e protestos."
A
gravura também é "um marcante lembrete de que o passado é simplesmente tão
contestado quanto o presente", conclui a professora.
Fonte:
BBC Culture

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