Bandung: a
luta contra o imperialismo e os limites do nacionalismo
No ano
passado, completaram-se setenta anos da realização da Conferência Afro-Asiática
de Bandung, que ocorreu entre 18 e 24 de abril de 1955, na Indonésia. O
encontro reuniu um conjunto de 29 nações asiáticas e africanas
recém-independentes ou em processo de descolonização, sendo expressão de
décadas de luta anticolonial e de ascensão de movimentos nacionalistas que
buscavam superar a dominação imperialista. Entretanto, ao invés de impulsionar
o verdadeiro combate ao imperialismo, foi mais um freio para a ação
independente e proletária destes povos.
Estiveram
presentes representantes do Afeganistão, Arábia Saudita, Birmânia (atual
Mianmar), Camboja, Ceilão (atual Sri Lanka), China, Costa do Marfim, Costa do
Ouro (atual Gana), Egito, Etiópia, Filipinas, Iêmen, Índia, Indonésia, Irã,
Iraque, Japão, Jordânia, Laos, Líbano, Libéria, Líbia, Nepal, Paquistão, Síria,
Sudão, Tailândia, Vietnã do Norte e Vietnã do Sul. O contexto era o de
dominação política dos Estados Unidos e da União Soviética, no que ficou
conhecido como Guerra Fria. O grupo reunido em Bandung incluía países com
governos nacionalistas, como Egito, e dissidentes do bloco soviético, como a
China. Essa diferença entre os países presentes se mostra também no fato de o
Japão, um país capitalista industrializado, ter participado da conferência.
Os
limites políticos da conferência estão expressos em sua declaração final. Nesse
documento, se destaca haver “problemas de interesse e preocupação comuns para
os países da Ásia e da África”, discutindo “formas e meios pelos quais seus
povos poderiam alcançar uma cooperação econômica, cultural e política mais
completa”. Essa constatação levou a definições como esta por parte da
conferência:
“A
Conferência Asiático-Africana reconheceu a urgência de promover o
desenvolvimento econômico na região Ásia-Africana. Havia um desejo geral de
cooperação econômica entre os países participantes com base no interesse mútuo
e no respeito à soberania nacional. As propostas relativas à cooperação
econômica dentro dos países participantes não excluem a conveniência ou a
necessidade de cooperação com países de fora da região, incluindo o
investimento de capital estrangeiro. Foi ainda reconhecido que a assistência
recebida por certos países participantes de fora da região, por meio de acordos
internacionais ou bilaterais, contribuiu de forma valiosa para a implementação
de seus programas de desenvolvimento.”
Os
países presentes na conferência destacavam o problema do colonialismo, que
mantinha seus povos subjugados à dominação e exploração estrangeiras. Diante
disso, o documento afirmava “que o colonialismo, em todas as suas
manifestações, é um mal que deve ser rapidamente eliminado”. Os presentes
também declararam “seu apoio à causa da liberdade e da independência de todos
esses povos”, apelando “às potências envolvidas para que concedam liberdade e
independência a esses povos”.
Portanto,
a perspectiva estratégica da Conferência de Bandung passava pela cooperação
entre os países com passado colonial e pela defesa de sua autonomia econômica e
política. No âmbito político, constituiu-se em um momento de afirmação do
nacionalismo dos povos oprimidos, buscando construir e fortalecer uma
solidariedade internacional entre essas nações. Contudo, essas ideias se
mostram limitadas e, até mesmo, conciliadoras à dominação imperialista.
Conforme
mostrado há mais de um século pela teoria da revolução permanente, essa
libertação nacional e o desenvolvimento capitalista autônomo são impossíveis
diante da dominação imperialista. Trótski demonstrou que as classes dominantes
dos países dominados, inseridos nas relações econômicas imperialistas, seriam
incapazes de liderar um processo de transformação da sociedade, como havia
feito a burguesia na Europa e nos Estados Unidos nos séculos XVII e XVIII. Em
setembro de 1938, ele afirmava que as ascendentes burguesias dos países
dominados “não podem lançar uma luta séria contra a dominação imperialista e
por uma autêntica independência nacional por temerem desencadear um
movimento de massas dos trabalhadores do país, que por sua vez ameaçariam sua
própria existência social”.
Nos
países dominados, as burguesias se constituíram enquanto classes dominantes no
cenário de desenvolvimento do imperialismo. Esse processo significou a inserção
de uma economia atrasada, em sua maioria baseada na produção e comercialização
de produtos não industrializados, dentro de um cenário de fortalecimento de
monopólios e do capital financeiro centrados em países com um desenvolvimento
econômico muito mais avançado. Portanto, as classes dominantes dos países
dominados se lançavam em um cenário no qual as antigas potências coloniais
davam um salto de qualidade na exploração das riquezas e do trabalho em todo o
planeta, numa nova e superior fase do capitalismo. Essa relação entre os países
dominantes e dominados nos remete a outra formulação teórica de Trótski, o
desenvolvimento desigual e combinado:
“O
desenvolvimento desigual, que é a lei mais geral do processo histórico, não se
revela, em nenhuma parte, com maior evidência e complexidade do que no destino
dos países atrasados. Açoitados pelo chicote das necessidades materiais, os
países atrasados se veem obrigados a avançar aos saltos. Desta lei universal do
desenvolvimento desigual da cultura decorre outra, que, por falta de nomes mais
adequados, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, aludindo à
aproximação das distintas etapas do caminho e à confusão de distintas fases, ao
amálgama de formas arcaicas e modernas.”
Ressaltamos
que esta formulação de Trótski é o desenvolvimento do já apresentado por Marx
na famosa “Introdução de 1857”. Nessa análise, metaforicamente, Marx diz que em
todas as formas de sociedade é uma produção específica que determina, de modo
desigual e combinado, as demais relações produtivas: “É uma iluminação
universal em que todas as demais cores estão imersas e que as modifica em sua
particularidade.”
Diante
dessa particularidade de seu desenvolvimento, a única possibilidade teórica
para a libertação nacional passa pela ruptura com o imperialismo e pela
tentativa de desenvolver suas relações econômicas internas construindo
parcerias com outras nações que tenham perspectivas políticas semelhantes.
Contudo, essa perspectiva é uma ilusão, como mostram os limites de experiências
como as iniciativas da Conferência de Bandung.
Os
governos nacionalistas, ainda que tenham realizado políticas de estatização ou
de investimento em infraestrutura interna, promovendo uma colaboração mútua,
não foram capazes de romper nem a lógica imperialista, nem os limites da
coexistência pacífica. Esse processo, estagnado pela dinâmica econômica em
âmbito mundial, levou à degeneração das direções que encabeçaram os processos
de independência e os governos nacionalistas na África e na Ásia. Como escreveu
Kevin Ochieng Okoth, em África Vermelha, essa elite
governante
“[…]
frequentemente extraía sua legitimidade de um nacionalismo atenuado que tinha
pouca relação com o nacionalismo radical de Bandung. A ideia de coesão social
baseada em semelhanças raciais, culturais ou étnicas voltou ao primeiro plano
da política, ao passo que a solidariedade anti-imperialista, que havia
fornecido a estrutura ideológica para o projeto do Terceiro Mundo, passou para
o segundo plano. Na maior parte dos casos, as realidades pós-coloniais,
marcadas por repressão política, aumentos massivos da dívida nacional,
crescimento das desigualdades e conflitos violentos, davam pouca trégua para a
classe trabalhadora do Terceiro Mundo.”
O
desenvolvimento econômico de qualquer país está necessariamente atrelado aos
interesses do imperialismo, que pode inclusive permitir (ou não) o
desenvolvimento de setores da indústria em algumas regiões de seu interesse. Um
país dominado pode fazer parte da cadeia produtiva em âmbito internacional,
produzindo, por exemplo, peças mecânicas ou componentes elétricos. Contudo,
nunca poderá dominar plenamente a tecnologia empregada e muito menos será o
centro da produção internacional, papel reservado aos países imperialistas.
Nesse
cenário, mostra-se como uma afronta aos monopólios qualquer tentativa da
burguesia dos países dominados, ainda que tímida, de priorizar o
desenvolvimento econômico ao invés dos interesses imperialistas. Na América
Latina, durante a primeira década do século XXI, um conjunto de governos
esboçou tímidas perspectivas nacionalistas, aproveitando em grande medida as
possibilidades econômicas de venda de commodities e se sustentando nas
mobilizações dos trabalhadores. Esses governos expressaram, nos limites da
institucionalidade, as lutas ocorridas em países como Argentina, Bolívia e
Equador, entre 2000 e 2001. Soma-se a esses países as experiências de governos
em países como Brasil, Chile, Uruguai e Venezuela.
Contudo,
nenhum dos governos que assumiram a gestão do capitalismo nesses países colocou
no horizonte a expropriação da propriedade privada ou a superação do
capitalismo. Pelo contrário, procuraram controlar as massas, esvaziando ou
mesmo enfraquecendo suas mobilizações e prometendo que as melhorias nas
condições de vida da população seriam garantidas pelo Estado. Até mesmo essas
modestas medidas, porém, foram combatidas pelo imperialismo, que procurou
cooptar ou mesmo enfraquecer esses governos.
Poucos
desses governos avançaram em medidas que de fato trouxeram algumas melhorias à
vida dos trabalhadores, como o de Chávez na Venezuela, mas que sofreu com a
hostilidade do imperialismo e permanentes tentativas de golpes. Mas ao não
romperem com o capitalismo, esses governos enfraqueceram qualquer possibilidade
de transformação da sociedade, levando seus governos ao colapso ou a crises.
Nesse processo, “em vez de servir como leito para a dinamização de forças
sociais rumo à mudança, o progressismo operou como uma barragem de contenção de
dejetos que nunca deixaram de se acumular e, em alguns momentos,
transbordaram”. Como consequência, “a despeito das intenções e dos desejos
subjetivos de seus líderes, as práticas de contenção da dessocialização neoliberal
não só não suspendem o colapso e as contradições que daí emanam como também as
aceleram”.
Nos
anos recentes, esse debate ganhou novos contornos com o surgimento dos BRICS
(Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), bloco que, desde o início do
século XXI, busca a cooperação econômica. Os BRICS retomam, em parte, o
espírito de Bandung ao propor cooperação entre países chamados de
“periféricos”, “emergentes” ou de outros adjetivos. Contudo, a base dessa
articulação é marcada por interesses nacionais e pela busca de maior inserção
no mercado mundial, não pela superação do sistema capitalista ou contra o
imperialismo. O nacionalismo dos BRICS, assim como o de Bandung, é limitado
enquanto não se propõe a romper com o capitalismo.
A
experiência histórica mostra que a emancipação nacional, para ser efetiva,
exige a luta simultânea contra o imperialismo e contra o capitalismo. O
nacionalismo, quando desvinculado da luta de classes em âmbito mundial, pode
ser cooptado pelas burguesias locais, que buscam apenas melhores condições de
exploração dentro da ordem capitalista. Essa compreensão teórica e o balanço
histórico mostram que as direções burguesas, ainda que apresentem uma retórica
nacionalista, são incapazes de dirigir o processo de transformação da
sociedade. Os raros casos que se dispõem a isso são barrados pelas pressões do
imperialismo.
Essa
realidade aponta para a necessidade da organização independente dos
trabalhadores, fundamental para garantir que qualquer processo de transformação
não se limite ao desenvolvimento do capitalismo ou à melhoria das condições
imediatas. Os trabalhadores, para realmente mudar sua condição concreta de
vida, devem colocar no horizonte a luta pela ruptura com a exploração econômica
e a construção de uma sociedade socialista. Nenhuma burguesia, que por certo
sempre prioriza a manutenção da sua condição de classe, defende a expropriação
da propriedade privada ou mesmo a ruptura de suas relações com o imperialismo.
Nesse sentido, apontava Trótski:
“Para
os países de desenvolvimento burguês retardatário e, em particular, para os
países coloniais e semicoloniais, a teoria da revolução permanente significa
que a solução verdadeira e completa de suas tarefas democráticas e
nacional-libertadoras só é concebível por meio da ditadura do proletariado, que
assume a direção da nação oprimida e, antes de tudo, de suas massas
camponesas.”
Se
experiências como a de Bandung e os BRICS mostram, por um lado, a importância
das articulações entre países dominados, por outro, revelam os limites do
nacionalismo e da ausência de luta contra o capitalismo. O internacionalismo
dos trabalhadores, assumindo o protagonismo das lutas, é a única forma de
superar o imperialismo e derrotar em definitivo o capitalismo.
¨ Rússia está pronta
para ajudar África a reforçar independência econômica, diz Lavrov
O
ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, afirmou nesta
quarta-feira (8) que Moscou já pode ajudar os países africanos a fortalecer sua
independência econômica e a gerir suas próprias riquezas naturais.
Mais
cedo, Lavrov participou da segunda reunião de chanceleres da Rússia e
da Aliança dos Estados do Sahel (AES), na capital do Níger, Niamey, como
parte da sua viagem pelo continente africano.
O
chanceler russo disse que os países africanos estão passando
por um "segundo despertar", à medida que aprendem a gerir seus
próprios recursos naturais "para garantir que não sejam exportados
para outros países, onde a maior parte do valor agregado é produzida e apropriada".
"A
Rússia está pronta para ajudá-los ativamente nisso", disse Lavrov em
coletiva de imprensa após a reunião ministerial em Niamey.
Desde a
época soviética, a Rússia tem
contribuído para
o desenvolvimento industrial e econômico dos Estados africanos, destacou o chanceler.
"Hoje,
à medida que esse tema se torna um foco central para a União Africana e outras
organizações regionais do continente africano, nossas empresas, nosso governo e
nossas instituições econômicas e financeiras estão preparados para ajudar
ativamente nossos amigos africanos a avançar nessa direção."
Lavrov
disse que muito foi alcançado nessa área, mas que ainda há muito a ser
feito.
Fonte:
Por Por Michel Goulart da Silva, no Blog da Boitempo/Sputnik Brasil

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