Pais
procuram os adolescentes que ensaiavam para formatura quando ocorreram os
terremotos na Venezuela
Houve
um momento em que María Lourdes Pérez sentiu um desejo arrebatador. Ela queria
ter mais um filho.
E
conseguiu, aos 41 anos de idade. Cinco anos depois que ela teve Santiago,
nasceu Gonzalo.
"O
mais velho era meu braço direito. Ele me ajudava em absolutamente tudo",
conta ela, sobre seu filho de 21 anos.
"O
menor era muito amistoso", em referência ao jovem de 16. "Ele queria
estar em todas."
Ao lado
de um grupo de colegas de escola, ele preparava o ato de formatura. Gonzalo
iria interpretar Michael Jackson (1958-2009).
Pérez
mandou fazer um traje no estilo do cantor, com lantejoulas, jaqueta brilhante e
luvas.
Para
evitar que a roupa sofresse danos ou ficasse suja, ela pedia que ninguém a
vestisse. Após anos de bailes escolares, esta era a "dinâmica"
definida para cuidar das prendas até o dia da apresentação.
No dia
24 de junho, a poucos dias da apresentação, Gonzalo foi ensaiar a coreografia
com suas colegas.
"Desta
vez, ele levou o traje escondido."
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'Queriam impressionar'
Pérez
estava familiarizada com os ensaios. Eles se reuniam frequentemente no seu
apartamento para ensaiar.
"Na
minha casa, eles tinham a cenografia, tinham tudo, queriam impressionar",
relembra ela.
A
escola era o Colégio La Merced de Caraballeda, no Estado venezuelano de La Guaira.
Mas aquela quarta-feira (24/6) era feriado no país. Por isso, ela estava
fechada.
Eles
decidiram ensaiar em uma área entre o salão de festas e a piscina, em um
edifício no loteamento de Tanaguarena, também em La Guaira.
Não se
sabe exatamente quantas meninas compareceram ao ensaio. Acredita-se que podem
ter sido cerca de 15.
"Aos
16 anos, elas dizem: 'mamãe, vou com Pedro e com María'. Mas, depois, surgem
Miguel, Raúl e Ramón."
Mas
Pérez acredita que, naquele dia, talvez o grupo estivesse reduzido, pois elas
"queriam fazer um baile surpresa".
Gonzalo
não gostava só de dançar. Ele também tocava teclado e adorava jogar futebol,
voleibol e correr maratona.
"No
colégio, ele era muito querido porque, além de ser academicamente muito bom,
ele colaborava, apitava jogos de kickball [uma mistura de baseball e futebol] e
voleibol, nunca parava quieto", relembra Pérez.
"Se
houvesse uma atividade social, ele ia. Não ficava em casa um único
minuto."
"Ele
ia se formar bacharel. Na verdade, esta era a razão do baile. Ele tinha uma
vaga para entrar na Universidade Católica Andrés Bello, para estudar engenharia
mecatrônica."
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O filho mais velho
Naquele
dia 24 de junho, Santiago, o filho mais velho, ficou em casa.
"Minhas
amigas o chamavam de Bambam", conta Pérez. "Ele media 1,81 m, pesava
94 kg e calçava 45."
Santiago
ia se formar como administrador de transporte na Universidade Simón Bolívar, na
Venezuela.
Mas,
naquele dia, às 18h04 (hora local), dois terremotos, com 39 segundos de
diferença, sacudiram principalmente o norte da Venezuela.
Foram
dois tremores de 7,2 e 7,5 graus de magnitude que deixaram, segundo as
informações oficiais de domingo passado (5/7), 3.342 mortos e 16.740 feridos.
Outras
fontes calculam que há dezenas de milhares de desaparecidos neste terremoto que
foi o mais mortal a atingir a Venezuela no último século. Mas não se tem
certeza a respeito.
Uma das
regiões mais devastadas é Tanaguarena, de onde María Lourdes Pérez conversa por
chamada de vídeo com a BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC.
"O
mais triste é que encontrei meu filho com vida", ela conta. "Eu
estava no mesmo apartamento que ele."
"Tentamos
retirá-lo, o pai dele, um colega de trabalho do papai, dois amigos meus, por 10
horas. Eu dei água para ele por um canudinho."
Pérez
relembra que os bombeiros tentaram ajudar.
"Eles
não ficaram nem três minutos. O túnel onde estava meu filho estava livre de
terra, eles martelaram toda aquela área, que se encheu de pó e, é claro, meu
filho se foi."
"A
via crucis não acabou ali", prossegue Pérez. "Passamos 16 horas para
tentar retirar o corpo, a mesma equipe outra vez: o papai, amigos dele, amigos
meus, com as ferramentas que tínhamos em casa."
"Quando
finalmente retiramos o corpo do meu filho, seu pai e seu tio o levaram [para a
assistência social], já que aqui não há um serviço que estenda a mão."
"Aqui,
há cadáveres que permanecem por 10, 12, 14 horas e são protegidos pelos
vizinhos."
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Outra via crucis
Assim
que pôde, Pérez correu para a região onde sabia que seu outro filho, Gonzalo,
estava ensaiando com suas amigas.
Sua
casa e aquele local ficam ambos na rua La Playa, a cerca de 150 metros de
distância.
Pérez
conta que, nos minutos que se seguiram aos terremotos, cinco meninas
conseguiram sair do local, sem ferimentos graves.
"Outra
menina saiu depois de 36 horas, pela parte de cima do edifício", ela
conta.
"Encontramos
o corpo de uma amiguinha que fazia parte do grupo e também outra menina, que
conseguimos manter viva por 10 horas."
"Seu
pai saiu e me disse: 'Mary, tenho Isabella com 80% do corpo fora, só me falta
uma parte.' As pessoas, os amigos e nós mesmos ajudamos e não veio ninguém
ajudar."
"A
mesma história se repete centenas de vezes. Ninguém do Estado veio colaborar
conosco", lamenta ela.
"Sabe
quem foram os socorristas nestes lugares? Nós mesmos."
"As
pessoas não sabem ser socorristas, não sabem como entrar nos escombros, mas eu
também fiz isso."
Pérez
destaca que as equipes de resgate chegaram àquela região no quinto dia após a
tragédia.
"Algumas
delegações, mexicana, colombiana, americana, estiveram por aqui, mas é muito
pouco", ela conta.
"Eles
não podem com tudo, são todos os edifícios, são muitas pessoas, a tragédia é
muito grande."
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'Tudo se deslocou'
O
desespero de María Lourdes Pérez, como de tantos outros pais e mães nesta
tragédia, é indescritível.
"Eu
me ofereci para alugar uma máquina. Todos os dias, de madrugada, paro para
tentar alugar máquinas."
Na
quinta-feira (2/7), chegou uma máquina alugada por ela própria.
"É
uma Jumbo, uma máquina grande com várias funções, um gancho, uma broca, é como
uma retroescavadora."
"Fizemos
alguns movimentos e abrimos alguns espaços, como galerias", ela conta.
Pérez
relembra que os socorristas internacionais disseram que "ainda sentiam
calor, que há possibilidades de vida".
Ela
pede ajuda e explica como é complexo o processo de retirar escombros naquela
região.
"É
que tudo se deslocou, tudo se moveu, estamos escavando absolutamente todo o
edifício."
O
Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) calculou, com base em
avaliações preliminares, que os terremotos geraram cerca de 1,2 milhão de
toneladas de escombros nas regiões mais atingidas de La Guaira.
A Nasa
publicou um mapa preliminar, indicando que "é provável que 58.870
edifícios tenham sido danificados ou destruídos na região atingida". Mas a
agência alerta que esta é uma projeção de referência, com dados que não foram
validados no terreno.
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'Foram crianças felizes'
Ao
longo da entrevista, María Lourdes Pérez tem a voz embargada, chora, toma
fôlego e prossegue.
"Queira
Deus que esta entrevista sirva de aprendizado. Não quero que outra mãe passe
pelo que estou vivendo."
Ela
conta que não se esquece de algo que seus filhos lhe diziam.
"Sobretudo
o menor porque, como saía tanto e se inscrevia em tantas coisas, ele me dizia:
'Mamãe, você é forte.' E estou fazendo jus a isso que ele sempre me
falava."
"Mamãe,
você é forte", repete ela.
"Eu
me sinto tranquila porque eles foram crianças felizes, muito felizes. Agora,
penso que Deus me concedeu dois anjos, um com 21 anos e outro, com 16."
"Não
vou sair daqui até encontrar as amigas do meu filho porque, se ele estivesse
aqui, estaria comigo sem descanso."
"Ele
era muito amigo dos seus amigos e também preciso fazer isso, é um compromisso
que tenho com ele", conta Pérez. "Tomara que Deus me permita
encontrá-lo."
"Infelizmente,
os pais de uma das meninas que está aqui faleceram e, agora, alguns familiares
estão em contato conosco. A situação é muito complicada."
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'Amor que não se parece com nada'
A
região mais devastada pelos terremotos foi sempre o lar de María Lourdes Pérez.
"Sou
de La Guaira, por toda a vida", ela conta.
"Vivi
a tragédia de Vargas de 1999, o deslizamento", que matou entre 10 mil e 30
mil pessoas. "Naquela vez, perdemos absolutamente tudo o que era material,
mas a família estava completa."
"Conseguimos
nos recuperar do zero. Havíamos ficado sem casa, sem carro, sem trabalho e sem
negócio."
"Acreditei
ter aprendido a lição", ela conta. "Não pensei que fosse possível
viver duas tragédias na vida, mas eu estava errada."
"Você
sabe que o amor que temos pelos filhos não se parece com nada e eu perdi meus
dois filhos. Fiquei sem razão de viver, eles eram tudo para mim."
"Agora,
não sei o que vou fazer", lamenta Pérez. "Imagino que tenho forças
porque tenho o compromisso de encontrar o mais novo."
"Eu
estava tentando formar homens de bem, úteis, estudiosos, bons com a sua
comunidade, bons amigos, bons filhos, sobrinhos, era o que eu fazia."
"Como
fui mãe mais velha, eu os orientava o melhor que podia, pois sempre apostei no
seu sucesso. E estava tranquila porque sentia que estava conseguindo."
"De
um só golpe, eu os perdi", prossegue ela.
"Por
isso, gostaria de fazer um pedido. Eu aproveitei os meus filhos, mas gostaria
que as pessoas que não estão desfrutando ao máximo, que o façam, que não percam
tempo."
"A
vida muda em um minuto. Se você tiver filhos, não deixe de abraçá-los, de
agradá-los, e permita que eles o agradem."
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'As pessoas sentem muita dor'
María
Lourdes Pérez também perdeu sua mãe, que era espanhola.
"Perdi
tudo", ela conta. "Se tivesse meus filhos, não teria nenhum problema
para começar a fazer minha vida nova."
"Mas,
aqui, não há ajuda nenhuma. Os psicólogos deveriam estar aqui aos montes,
ajudando todo mundo."
"As
pessoas têm muita dor. Há quem chore, quem o manifesta, quem se contém. Todos
nós precisamos de psicólogos."
Na
quarta-feira (1/7), Pérez conseguiu um médico para examinar suas feridas.
"Onde estou ficando, não há luz, o sinal [de celular] vai e vem."
"Finalmente
conseguimos alguém que pode nos fornecer internet, pois não temos nesta parte
leste do Estado", disse ela, assim que começamos a conversar.
De
fato, a nossa comunicação foi interrompida várias vezes.
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'Professora, perdi minha mãe'
Consegui
conversar com a irmã mercedária Neyda Rojas quando ela regressou de Caraballeda
para a casa provincial em Caracas, para buscar insumos e doações recebidas.
Ela
pertence à Ordem de Nossa Senhora das Mercês — mais precisamente, à missão das
religiosas que fundou o Colégio La Merced (a escola de Gonzalo), em 1955.
Quando
ocorreram os terremotos, Rojas estava em Mérida, no oeste do país. Ao saber do
ocorrido, ela se dirigiu a Caraballeda.
Ela
levou mais tempo que o planejado para chegar àquela região. No trajeto, Rojas
encontrou estradas rachadas e obstruídas.
A via
aérea não estava disponível. No dia dos terremotos, o aeroporto mais próximo
foi fechado, devido a graves danos causados à sua infraestrutura.
"Tudo
está destruído", ela conta. "O pouco que ficou de pé, ficou revirado.
Grande parte do nosso pessoal faleceu, há crianças desaparecidas."
"A
diretora do colégio presenciou enterros de alunos, de famílias inteiras. E,
quando ela está nos funerais, vêm outras crianças e dizem: 'Professora, perdi
minha mãe', 'Professora, não sei onde está o meu pai.' Tudo isso, sem falar no
que você já carrega dentro da sua própria família."
"Existe
muito medo das réplicas, as pessoas ficam muito assustadas", prossegue
Rojas. "Nem toda a ajuda conseguiu chegar a Caraballeda. Falta muita água,
você chega lá e todos querem água."
"Existem
idosos que conseguiram descer para as praças, para as ruas. E, quando alguém
passa, eles não querem que lhes deem coisas, mas sim, eles abraçam, pedem a
bênção."
Para
Rojas e outras religiosas, não é fundamental apenas levar alimentos, água,
insumos básicos, mas também tentar ajudar na parte espiritual. "Acompanhar
com a fé, a esperança de que Deus nos dê forças para seguirmos adiante."
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As palavras são insuficientes
A irmã
Rojas conta sobre os jovens que ensaiavam para o seu baile de formatura e da
angústia de mães como María Lourdes Pérez e muitíssimas outras que procuram
seus filhos.
"É
muito difícil porque você não tem palavras neste momento, as palavras são
insuficientes. É preciso estar ali só pela presença, para que elas sintam que
não estão sozinhas, que nós as sustentamos, que estamos vivendo a dor como
elas."
Por
tudo isso, a religiosa se deparou várias vezes com as mesmas perguntas: Por que
isso? O que fizemos? Por que outra vez conosco?
Apesar
do tempo decorrido, Rojas não quer perder a esperança de que possam ser
encontradas outras pessoas com vida.
"Nós
caminhamos sobre escombros, mas sabemos que existe vida ali embaixo. Existem
edifícios que podem ter vida no porão, pois eles caíram para um dos
lados."
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'Ensinamento'
Em
entrevista coletiva no dia 2 de julho, a presidente em exercício da Venezuela,
Delcy Rodríguez, defendeu a reação do seu governo à catástrofe.
"Ativamos
imediatamente o Estado venezuelano como um todo", afirmou ela.
"Nossa
primeira ação, poucas horas depois do ocorrido, foi emitir um decreto para
atender a esta situação de emergência e deslocamos imediatamente o sistema de
proteção civil, o sistema de defesa pública."
A elas
se uniram os grupos de socorristas internacionais.
Mas os
enviados especiais da BBC à Venezuela puderam comprovar cada vez mais denúncias
de muitos venezuelanos sobre o que eles qualificam de reação insuficiente por
parte das autoridades.
Para
María Lourdes Pérez, é fundamental que, "de tudo isso", se tire
"uma lição".
"Um
ensinamento para as pessoas do governo, para algum organismo que mude e pense
que estes cenários podem se apresentar a qualquer momento e é preciso estar
preparado."
Ela
conta situações denunciadas por outros cidadãos.
"Enquanto
eu tentava retirar o corpo do meu filho mais velho, entraram quatro grupos de
ladrões no edifício onde eu estava."
Ela
pede "dignidade para os mortos" e seus parentes.
"Para
reconhecer seu familiar, na melhor das hipóteses, você precisa levantar os
lençóis de pessoas que estão destruídas, porque chegaram ali, pelo menos, 10,
12, 14, 16 horas depois de ficarem jogados na rua."
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Refúgio
Pérez
conta que procura refúgio nas recordações que ela tem dos seus filhos.
"Eu
me sinto orgulhosa porque muita gente gostava deles", ela conta.
O mais
velho tinha déficit de atenção e hiperatividade. Ele adorava matemática.
"Sabe
como eles o chamavam?", pergunta ela, olhando-me nos olhos.
"NotiSantiago, pois se inteirava de absolutamente todas as notícias."
"Devido
à sua hiperatividade, eles o chamavam para perguntar sobre trajetos e linhas
aéreas. Era amigo de muita gente."
"Ele
me ajudava em absolutamente tudo, movimentava as contas bancárias, me ajudava a
fazer compras."
"Como
estas crianças têm uma memória espetacular, concentração incrível, quando eu
precisava procurar algo, não precisava mover um dedo porque ele encontrava
tudo."
Gonzalo
tinha dias muito atarefados pela frente.
Na
jornada conhecida no seu colégio como "manhã esportiva", ele iria
apresentar o baile ao lado das colegas. Depois, ele defenderia seu trabalho de
conclusão de curso e, no dia 30 de julho, seria sua formatura.
"Era
um menino cheio de sonhos, um grande sonhador", conta sua mãe.
Sua
foto circula na internet, em um cartaz destacando que ele estava no edifício
Marianamar: "GONZALO JOSÉ MÁRQUEZ PÉREZ. 16 ANOS. PROCURA-SE".
Sobre a
roupa de Michael Jackson que ela mandou fazer, María Lourdes Pérez responde:
"Acho
que ele conseguiu usar."
Fonte:
BBC News Mundo

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