sábado, 11 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro descumpre promessa e não apresenta prestação de contas de “Dark Horse”

 A prestação de contas dos recursos empregados na produção do filme “Dark Horse”, prometida pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), ainda não foi divulgada, apesar de o prazo anunciado ter terminado em 19 de junho. Procurada pelo jornal O Globo, a pré-campanha do parlamentar transferiu a responsabilidade pelo relatório à produtora do longa, que não respondeu aos questionamentos.

Flávio havia anunciado em 19 de maio que a empresa responsável pela cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL) teria 30 dias para apresentar um documento detalhado sobre a aplicação dos recursos. A promessa foi feita em meio ao desgaste político provocado pela divulgação de informações sobre a relação do senador com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

“Solicitei à produtora do filme que apresente, dentro de um prazo de 30 dias, um relatório detalhado sobre a utilização e o destino dos recursos empregados na produção do longa-metragem”, declarou Flávio na ocasião.

Quase um mês depois do encerramento do prazo, porém, o relatório não havia sido apresentado publicamente. Ao ser questionada, a equipe da pré-campanha afirmou que o assunto deveria ser tratado diretamente com a produtora e que a prestação de contas não teria “nada a ver com a pré-campanha ou Flávio”.

A Go Up Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, também foi procurada, mas não respondeu aos contatos até a publicação do texto.

O compromisso de tornar públicos os gastos do longa foi anunciado como uma medida destinada a dar transparência ao financiamento da produção e reduzir a repercussão negativa das revelações envolvendo Vorcaro.

A promessa ocorreu após uma reunião de Flávio com deputados e senadores do PL. O encontro foi convocado para que o pré-candidato explicasse sua aproximação com o ex-banqueiro e respondesse a dúvidas sobre mensagens e áudios nos quais aparecia solicitando recursos para a conclusão do filme.

Durante a entrevista concedida após a reunião, o senador afirmou que havia pedido à produtora uma organização completa das despesas relacionadas ao projeto. “Pedi à produtora para que se organizassem para fazer uma prestação de contas das despesas de todo mundo, de forma transparente”, afirmou.

Flávio também declarou que os valores correspondentes ao investimento de Vorcaro deveriam ser separados caso o filme obtivesse retorno financeiro. Segundo o senador, os recursos ficariam disponíveis para uma eventual decisão das autoridades. “Outro pedido é que, assim que o filme der resultado, o valor aplicado pelo Daniel Vorcaro vai ser destacado e ficará à disposição das autoridades para resolverem o que vão fazer”, declarou.

Ao justificar os contatos com o ex-banqueiro, Flávio sustentou que as conversas tiveram como único objetivo garantir a conclusão da produção cinematográfica sobre Jair Bolsonaro. “Qualquer contato meu com esta pessoa foi única e exclusivamente para tratar do filme do meu pai, que está ali faltando os últimos detalhes para ser concluído”, disse.

As negociações entre Flávio e Vorcaro para financiar o longa foram reveladas inicialmente pelo site The Intercept Brasil, que publicou mensagens e documentos relacionados às tratativas. Desde então, o senador afirma que sua relação com o ex-controlador do Banco Master ficou restrita à busca por recursos para a cinebiografia.

Apesar das promessas de transparência feitas em maio, não há, até o momento, uma nova data para a apresentação do relatório, nem informações públicas detalhadas sobre a origem, o montante e a destinação dos recursos usados na produção de “Dark Horse”.

•        ‘Desgastado, Flávio Bolsonaro representa o darwinismo social, e é refém tanto dos EUA como do antipetismo’, analisa Mayra Goulart

Professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a cientista política Mayra Goulart afirmou nesta semana, em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV 247, que a pré-candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) atravessa um momento de desgaste crescente, pressionada por investigações, pela relação com os Estados Unidos e por dificuldades na construção de palanques estaduais.

Conforme a analista, a extrema direita brasileira, se for eleita para o Planalto, vai “cada vez mais alimentar uma ideia de darwinismo social”. Mayra disse que a pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro representa interesses dos mais ricos no Brasil.

“Não é apenas sobre Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, elites políticas cada vez mais amalucadas e de extrema direita, mas é sobre uma sociedade em que a gente tá perdendo a batalha dos valores. O reflexo disso é a gente não conseguir olhar mais para o outro com empatia”, pontuou.

<><> Darwinismo

O termo usado pela cientista política se refere ao conceito usado pelo biólogo e naturalista britânico Charles Darwin (1809-1882). Pela teoria dele, existe uma espécie de seleção natural das espécies no planeta, em que alguns seres têm melhor adaptação às mudanças na Terra e, por consequência, mais chances de sobrevivência.

O alerta de Mayra, na entrevista à TV 247, foi no sentido de que, se Flávio Bolsonaro for eleito, vai prevalecer a lei do “cada um por si, Deus por todos”, um paradigma em que os bolsonaristas defendem a atuação individual como verdadeiro motor para o desenvolvimento de um país, negligenciando na aplicação de investimentos públicos e os direitos socioambientais.

<><> Perigo: bolsonarismo vê trumpismo como fator de força

Na avaliação feita por Mayra Goulart, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto pode atravessar novos desgastes, mas sem perder força de modo imediato por causa de fatores como o apoio do presidente dos EUA, Donald Trump.

Candidatos de direita podem explorar a promessa de reconhecimento político dos EUA como fator de força, complementou Mayra na entrevista ao 247. O trumpismo “vai te reconhecer e vai te manter ali, te estruturar ali”, disse ela em referência ao apoio de Trump à pré-candidatura de Flávio Bolsonaro. “É uma variável grave e que é mobilizada retoricamente por eles”, pontuou Mayra.

Ao discutir o Brasil, a cientista política observou que o senador da extrema direita também mobiliza esse tipo de ameaça no debate político interno. “Se Flávio Bolsonaro, num Brasil continental, mobilizou retoricamente falando o seguinte: ‘Olha, se o Lula vencer a eleição, os Estados Unidos não vão reconhecer’. Imagina o que que isso representa pros países menores da América Latina”, continuou.

<><> Eleições

Apesar do alerta, Mayra prevê que Flávio Bolsonaro “vai conseguir chegar no segundo turno e vai fazer uma campanha acirradíssima com o presidente Lula”, disse a analista em referência ao parlamentar da extrema direita.

A cientista política sustentou que Flávio Bolsonaro usa espaços empresariais e informais como vitrine eleitoral. Conforme destacou a analista, o filho de Jair Bolsonaro tenta se mostrar próximo a Trump e atua como defensor de um alinhamento automático com Washington.

“Diferenciando dessa postura revista de Flávio Bolsonaro de se utilizar espaços informais, espaços de especialistas, né, da sociedade civil, empresários, para fazer eh plataforma política”, afirmou.

<><> Alerta ao campo progressista e a pesquisa Datafolha

As forças aliadas do atual governo precisam estar atentas ao antipetismo ainda forte na sociedade, observou a analista. “Sobrevive porque o principal motor dessa candidatura, assim como de todos os candidatos de oposição ao PT desde 94, é o antipetismo”, afirmou Mayra.

A analista também dedicou parte da entrevista à pesquisa Datafolha sobre valores políticos no Brasil. Mayra disse que os números mostram uma recuperação da direita e uma queda no campo progressista. “Essa pesquisa saiu domingo. É uma pesquisa que me parece ser muito relevante para que todos nós do campo progressista saibamos do que estamos tratando”, disse.

Em seu comentário, Mayra citou o aumento do grupo que se declara de direita ou centro-direita e a redução dos que se identificam como esquerda ou centro-esquerda. “Há uma recuperação da direita, eh, e sua eh, respectiva, inter, ela se interioriza, se capilariza, se apresenta cada vez mais como algo que é consolidado nas expectativas dos cidadãos brasileiros”, avaliou.

Conforme pesquisa Datafolha divulgada em 3 de julho, 44% dos entrevistados afirmaram pertencer ao campo da direita ou da centro-direita, e 39% ficaram na esquerda ou centro-esquerda. Outros 17% dos brasileiros aparecem no centro.

<><> Elogio à atuação de Lula

A analista política afirmou que o presidente Lula (PT) busca marcar uma diferença entre a diplomacia de Estado e a instrumentalização eleitoral da relação com os EUA. “A postura do presidente brasileiro é completamente diferente dessa, se colocando como um estadista em face de um outro estadista”, disse na TV 247.

Ela acrescentou que o governo brasileiro recupera uma tradição diplomática contrária à subordinação automática a potências estrangeiras. “Um outro campo que recupera que é portador de toda uma tradição da diplomacia brasileira desde a década de 50, com o movimento dos não alinhados, de se colocar como contrária a qualquer tipo de alinhamento automático na esfera internacional que prejudique a postura do Brasil enquanto nação soberana”, afirmou.

<><> Flávio Bolsonaro: mansões, Dark Horse e agressões à soberania brasileira

Novas controvérsias ligadas ao senador Flávio Bolsonaro vieram à tona nos últimos meses e ampliaram a repercussão em torno de seu nome. Uma delas diz respeito à aquisição de uma mansão avaliada em R$ 14,5 milhões no Lago Sul, uma das regiões mais valorizadas de Brasília. O imóvel teria sido registrado em nome de José Vicente Santini, advogado e coordenador da pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República.

A transação teria sido estruturada com pagamento inicial de R$ 4 milhões e financiamento de R$ 10,5 milhões pelo Banco de Brasília (BRB). A instituição financeira foi alvo da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para investigar um suposto esquema de fraudes financeiras envolvendo o Banco Master, com movimentações estimadas em pelo menos R$ 12 bilhões.

Outro episódio associado ao nome do senador envolve uma propriedade avaliada em R$ 10 milhões na Ilha Comprida, em Angra dos Reis, no litoral do Rio de Janeiro. O caso ganhou maior visibilidade após uma manifestação pública do atacante Richarlison nas redes sociais. O jogador, atualmente no Tottenham, da Inglaterra, também integrou a seleção brasileira na Copa do Mundo de 2022.

Ao comentar um vídeo sobre o imóvel, Richarlison afirmou ter desembolsado “em torno de 10 milhões de reais” pela propriedade e declarou que “simplesmente me tomaram”. Em seguida, o atleta marcou Flávio Bolsonaro em sua publicação.

No âmbito judicial, Richarlison e Flávio Bolsonaro não aparecem formalmente em polos opostos da disputa. O processo envolve a Sport 70, empresa vinculada ao jogador e ao então empresário dele, Renato Rocha Velasco, contra a WT Administração, empresa pertencente ao advogado Willer Tomaz, amigo do parlamentar. O episódio foi revelado em setembro de 2022 pelo Metrópoles, em reportagem assinada pelo colunista Guilherme Amado.

A situação de Flávio Bolsonaro também se agravou politicamente em meio aos desdobramentos envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O senador negociou com o empresário um financiamento de R$ 134 milhões para investir em Dark Horse, filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. Desse montante, R$ 61 milhões teriam sido repassados.

O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou que Flávio Bolsonaro se reuniu com o ex-banqueiro. Vorcaro está preso após ter sido alvo da Operação Compliance Zero.

Outra controvérsia envolvendo o senador foi provocada por um documento encaminhado por ele ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Na manifestação, Flávio Bolsonaro defendeu maior abertura para empresas estrangeiras, em especial norte-americanas, no mercado brasileiro de cartões de crédito.

No mesmo documento, o parlamentar se posicionou a favor de acordos comerciais fora do Mercosul e sugeriu que o Pix não fosse integrado aos sistemas de pagamento dos BRICS, bloco sediado na China e considerado uma das principais articulações internacionais de contestação à hegemonia dos EUA.

 

Fonte: Brasil 247

 

Nenhum comentário: