Robert
Reich: A cúpula da OTAN expôs a verdadeira fonte do poder de Trump
Logo
após o término da cúpula da OTAN, Trump atacou outros membros
da organização, dizendo estar "muito decepcionado com a OTAN" e
perguntando: "Por que estamos gastando centenas de bilhões de dólares e
eles não estão lá para nós?". Ele reiterou seu desejo de anexar a
Groenlândia, criticou duramente as políticas europeias de energia e
imigração, insultou a Espanha e preocupou os
aliados ao declarar que os conflitos entre Kiev e Moscou "não nos
afetam".
No
entanto, ao longo de todo o processo, Trump foi tratado pelas outras
potências da OTAN com tanta
cortesia e respeito quanto qualquer outro presidente americano já recebeu da
OTAN – talvez até mais. "Foi uma ótima reunião, havia muito amor naquela
sala, muita união", disse Trump ao término do encontro.
O que
aconteceu? É importante entender a origem do poder de Trump.
Seu
poder não vem do fato de ser presidente da nação mais poderosa do mundo. Na
verdade, suas tarifas arbitrárias, a guerra absurda no Irã e o sequestro
descarado de Nicolás Maduro diminuíram a influência dos EUA em grande parte do
mundo.
Seu
poder também não vem de sua base MAGA, que agora está repensando o apoio a
alguém que envolveu os EUA em mais uma guerra no Oriente Médio, causou o
aumento dos preços e cuja administração ainda se recusa a divulgar os arquivos
completos de Epstein.
Seu
poder também não deriva de qualquer tipo de brilhantismo estratégico ou
astúcia.
O poder
de Trump vem de sua disposição em violar todas as normas, regras e leis sobre
como os presidentes dos EUA devem agir – em fazer qualquer coisa que
o ajude a acumular mais riqueza, poder e glória, e a se vingar de qualquer um
que tenha tentado atrapalhar seus planos.
Os
presidentes e primeiros-ministros da OTAN trataram Trump com extraordinária
deferência porque temem o que ele possa fazer se não conseguir o que quer.
Seja a
OTAN, o Irã, a Copa do Mundo, as eleições de 2020, os bilhões que ele lucrou
com a presidência – ou qualquer outra coisa – ele não se deixa restringir por
normas, regras, tratados ou leis.
Quando
a comunidade global de fãs da Copa do Mundo se opôs à sua intervenção no último
fim de semana em favor dos EUA, ele respondeu: “Se [a Bélgica] nos vencer,
então eles podem se orgulhar muito. Por outro lado, se eles nos vencerem,
diremos que foi – eu diria – que foi fraudado, assim como a eleição foi
fraudada em 2020.”
Observe
como ele se corrigiu – de " vamos dizer" para "eu diria".
A ética tem tudo a ver com "nós" – nosso julgamento coletivo sobre o
que é certo ou errado. Trump não dá a mínima para o julgamento do mundo ou da
nação sobre o que é certo ou errado. Ele não pensa em certo ou errado.
Estamos
perdendo a oportunidade ao caracterizar Trump como alguém que viola padrões
éticos. A ética pressupõe algum tipo de padrão acordado, segundo o qual uma
violação possa ser definida e mensurada. Mas Trump não tem padrão algum. Toda a
sua abordagem à vida, aos negócios e agora à presidência não tem absolutamente
nada a ver com padrões. Trata-se de vencer a qualquer custo. Custe o que
custar.
Trump
não é antiético. Ele é não ético . Ele não é imoral. Ele
é amoral.
Para a
maioria de nós, é difícil conceber a vida num mundo trumpiano sem padrões,
normas, regras ou leis – um mundo composto apenas de transações e cálculos em
que o único critério é o que eu ganho com isso e a que custo.
E essa
dificuldade que a maioria de nós tem em imaginar um mundo assim é, em si, a
chave do poder de Trump.
Seja
você presidente dos Estados Unidos ou qualquer outra pessoa, é sempre possível
obter benefícios pessoais sendo o primeiro a quebrar uma norma amplamente
aceita.
Imagine
uma cidade pequena onde as pessoas não trancam suas portas ou janelas devido à
regra não escrita de que ninguém rouba. Nessas circunstâncias, o primeiro
ladrão a cometer um roubo tem uma enorme vantagem. Ele pode entrar na casa de
qualquer pessoa sem esforço algum.
Essa
vantagem de ser o pioneiro desaparece assim que as pessoas percebem e começam a
trancar suas portas e janelas. Mas o ladrão não arca com os custos das
fechaduras nem com o incômodo de trancar todas as portas e janelas. Ele explora
a confiança da comunidade. Então, uma vez que essa confiança é destruída, ele
deixa para a comunidade a responsabilidade de se proteger contra futuras
violações.
Essa
assimetria — um custo pequeno para quem viola a confiança, mas um custo alto
para todos que precisam se proteger depois — é a própria essência do modus
operandi de Trump. Ele ganha riqueza, poder e glória para si mesmo destruindo
normas, e depois todos os outros têm que lidar com as consequências.
Como
presidente, ele tem normas muito maiores para quebrar do que um ladrão de
cidade pequena, e com um benefício muito maior para si próprio.
Como
presidente, sua brutalidade deu resultado, pelo menos para ele próprio. Mas
também prejudicou todos os tipos de instituições nas quais os EUA e o mundo
confiavam – da OTAN à FIFA, passando pelo Departamento de Justiça dos EUA –
instituições baseadas na crença de que nenhum presidente americano jamais faria
o que ele fez.
Ele
será lembrado como o presidente mais poderoso que os EUA já tiveram, mas também
o pior.
Quando
ele se for, todos nós vamos pagar para limpar a bagunça. Teremos que comprar
uma infinidade de fechaduras para uma infinidade de portas e janelas, e gastar
uma enorme quantidade de tempo instalando-as e depois mantendo-as trancadas.
¨
Por que a extinção da Otan é necessária. Por José
Reinaldo de Carvalho
A
Cúpula de Ancara da Otan, realizada na terça e quarta-feira (8), marcou mais um
avanço da militarização internacional sob liderança do bloco atlântico. Ao
aprovar novas metas de gasto militar, ampliar o apoio financeiro e bélico à
Ucrânia, lançar iniciativas tecnológicas voltadas ao combate com drones e
endurecer sua posição contra Rússia e Irã, a Organização do Tratado do
Atlântico Norte deu um novo passo na preparação de guerras e na consolidação de
uma lógica permanente de confronto.
A
reunião, apresentada oficialmente como um esforço de defesa coletiva, expôs na
prática o papel da Otan como instrumento de pressão geopolítica, expansão
militar e sustentação do complexo industrial-armamentista. A Declaração Final
de Ancara, somada aos anúncios feitos durante a cúpula, reforça uma arquitetura
de segurança baseada não na distensão, na diplomacia ou na cooperação entre os
povos, mas no aumento acelerado dos arsenais, na contenção de adversários
estratégicos e na subordinação dos orçamentos públicos aos interesses da
indústria bélica.
O
secretário-geral da Otan, Mark Rutte, anunciou uma nova rodada de contratos de
defesa de grande escala e cobrou dos países europeus, associando-se a Trump,
maior rapidez na execução dos planos nacionais para alcançar metas robustas de
gastos militares. A mensagem central foi inequívoca: os governos do continente
devem ampliar investimentos em armas, sistemas antimísseis, drones,
infraestrutura militar e capacidade operacional, mesmo em meio à pressão social
provocada pelo encarecimento da vida, pela crise dos serviços públicos e pelo
desgaste dos sistemas de proteção social.
Essa
orientação revela uma contradição profunda. Enquanto as populações europeias
enfrentam dificuldades com custo de vida, moradia, energia, alimentação e
serviços essenciais, bilhões de euros são deslocados para alimentar uma máquina
de guerra que se expande em ritmo acelerado. O dinheiro público que poderia
fortalecer saúde, educação, previdência e políticas sociais passa a financiar
contratos militares, encomendas de armamentos e programas tecnológicos voltados
ao conflito.
A
presença do presidente norte-americano Donald Trump na cúpula reforçou a
dimensão hegemônica desse processo. Ao pressionar aliados europeus a elevarem
seus gastos militares e comprarem mais equipamentos dos Estados Unidos,
Washington reafirmou sua posição de comando sobre a aliança, em meio a
indisfarçáveis discrepâncias com alguns líderes presentes. A militarização do
continente europeu, nesse contexto, não atende apenas a uma suposta necessidade
defensiva: ela também fortalece a indústria bélica norte-americana.
Um dos
principais pontos da cúpula foi o compromisso de entregar 70 bilhões de euros,
aproximadamente 80 bilhões de dólares, em ajuda militar à Ucrânia em 2026. O
documento também estabelece a manutenção de “níveis pelo menos equivalentes” de
suporte financeiro em 2027, com parte significativa dos recursos articulada por
meio de fundos e empréstimos vinculados à União Europeia. A decisão amplia a
participação estrutural da Otan no conflito e reduz ainda mais o espaço para
uma solução negociada.
O
presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, participou do encontro como convidado
e buscou avançar em negociações para obter novas baterias dos sistemas
antimísseis Patriot, além da transferência de licenças de fabricação desses
equipamentos. A presença de Zelensky em Ancara simbolizou a centralidade da
guerra na Ucrânia para a estratégia atual do bloco, que mantém o conflito como
eixo de sua expansão política, militar e orçamentária.
A
Declaração Final também reafirmou o compromisso dos 32 países-membros com o
Artigo 5º da Carta da Otan, segundo o qual um ataque contra um integrante da
aliança é considerado um ataque contra todos. Ao mesmo tempo, o texto
classificou formalmente a Rússia como “ameaça de longo prazo para a segurança e
estabilidade euro-atlântica”. Trata-se de uma formulação que institucionaliza a
lógica de confronto prolongado e dificulta qualquer reconstrução de canais
diplomáticos sólidos entre o Ocidente e Moscou.
O
endurecimento contra a Rússia se combina a uma postura igualmente agressiva em
relação ao Irã. A declaração afirma explicitamente que “o Irã jamais poderá
possuir uma arma nuclear” e inclui um trecho sobre a necessidade de garantir a
liberdade de navegação comercial e o tráfego seguro no Estreito de Ormuz. A
menção ocorre em um contexto de escalada de agressões dos Estados Unidos
contra o Irã e após o colapso do Memorando de Entendimento anunciado por Donald
Trump diretamente na cúpula.
Ao
incorporar o Estreito de Ormuz à agenda estratégica do encontro, a Otan desloca
seu raio de ação para uma das regiões mais sensíveis do planeta. A defesa da
segurança marítima, apresentada como preocupação com o comércio internacional,
aparece associada à ampliação de frentes de pressão militar e política no
Oriente Médio.
Para os
países do Sul Global, historicamente atingidos por sanções, intervenções e
bloqueios, esse movimento reforça a percepção de que a aliança atlântica atua
como instrumento de imposição da ordem geopolítica liderada pelas potências
imperialistas ocidentais.
Outro
anúncio de grande impacto foi a oficialização da iniciativa Drone Edge,
programa comercial e militar voltado ao desenvolvimento de tecnologias de
contra-ataque e defesa contra drones. A Otan aprovou investimento conjunto
superior a US$ 40 bilhões nos próximos cinco anos para essa área e estabeleceu
a meta de multiplicar por cinco o número de operadores de drones treinados até
o fim de 2027.
A
iniciativa confirma que a guerra contemporânea se tornou um campo de aceleração
tecnológica permanente. Drones, sistemas de interceptação, inteligência
artificial aplicada ao combate, vigilância e defesa aérea passam a ocupar o
centro da doutrina militar do bloco. Sob o argumento da adaptação às novas
ameaças, a Otan aprofunda uma corrida armamentista que tende a produzir mais
instabilidade, mais gastos militares e mais riscos de confrontos diretos ou por
procuração.
Criada
em 1949, com 12 países fundadores, a Otan buscou justificar sua existência
durante décadas pelo contexto da Guerra Fria. Com o fim da União Soviética e o
encerramento daquele ciclo histórico, a aliança deveria ter sido dissolvida.
Ocorreu o contrário: o bloco se expandiu, incorporou novos membros, avançou
para o Leste Europeu e passou a atuar em diferentes frentes globais.
Hoje,
com 32 integrantes, a Otan deixou de ser apenas uma estrutura militar regional
e se transformou em plataforma de projeção estratégica das potências
ocidentais. Seu fortalecimento é uma tentativa de bloquear a construção de uma
ordem multipolar e uma nova governança global equilibrada e
estável.
A
Cúpula de Ancara deixou claro que a aliança atlântica não caminha para a paz,
mas para a perpetuação do conflito como método de organização da política
internacional. Ao ampliar a ajuda militar à Ucrânia, classificar a Rússia como
ameaça estrutural, endurecer a posição contra o Irã, intervir no debate sobre a
segurança do Estreito de Ormuz e lançar um programa bilionário voltado à guerra
de drones, a Otan reafirma sua natureza belicista.
Para a
América Latina, a África e a Ásia, regiões marcadas por experiências de
colonialismo, intervenção estrangeira e dependência econômica, a expansão da
Otan representa uma ameaça à soberania dos povos. A defesa de uma nova
governança mundial, baseada no respeito ao direito internacional, na
autodeterminação nacional e na cooperação entre Estados, exige a superação de
estruturas militares, como a Otan, que preservam privilégios geopolíticos e
alimentam conflitos permanentes.
A
extinção da Otan, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata, mas uma
exigência histórica para a construção de uma paz verdadeira. Enquanto existir
como braço armado de uma ordem internacional desigual, a aliança continuará
convertendo crises políticas em oportunidades de militarização, orçamentos
públicos em contratos bélicos e tensões regionais em novos riscos de guerra
global.
Fonte: The Guardian/Brasil 247

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