sábado, 11 de julho de 2026

Robert Reich: A cúpula da OTAN expôs a verdadeira fonte do poder de Trump

Logo após o término da cúpula da OTAN, Trump atacou outros membros da organização, dizendo estar "muito decepcionado com a OTAN" e perguntando: "Por que estamos gastando centenas de bilhões de dólares e eles não estão lá para nós?". Ele reiterou seu desejo de anexar a Groenlândia, criticou duramente as políticas europeias de energia e imigração, insultou a Espanha e preocupou os aliados ao declarar que os conflitos entre Kiev e Moscou "não nos afetam".

No entanto, ao longo de todo o processo, Trump foi tratado pelas outras potências da OTAN com tanta cortesia e respeito quanto qualquer outro presidente americano já recebeu da OTAN – talvez até mais. "Foi uma ótima reunião, havia muito amor naquela sala, muita união", disse Trump ao término do encontro.

O que aconteceu? É importante entender a origem do poder de Trump.

Seu poder não vem do fato de ser presidente da nação mais poderosa do mundo. Na verdade, suas tarifas arbitrárias, a guerra absurda no Irã e o sequestro descarado de Nicolás Maduro diminuíram a influência dos EUA em grande parte do mundo.

Seu poder também não vem de sua base MAGA, que agora está repensando o apoio a alguém que envolveu os EUA em mais uma guerra no Oriente Médio, causou o aumento dos preços e cuja administração ainda se recusa a divulgar os arquivos completos de Epstein.

Seu poder também não deriva de qualquer tipo de brilhantismo estratégico ou astúcia.

O poder de Trump vem de sua disposição em violar todas as normas, regras e leis sobre como os presidentes dos EUA devem agir – em fazer qualquer coisa que o ajude a acumular mais riqueza, poder e glória, e a se vingar de qualquer um que tenha tentado atrapalhar seus planos.

Os presidentes e primeiros-ministros da OTAN trataram Trump com extraordinária deferência porque temem o que ele possa fazer se não conseguir o que quer.

Seja a OTAN, o Irã, a Copa do Mundo, as eleições de 2020, os bilhões que ele lucrou com a presidência – ou qualquer outra coisa – ele não se deixa restringir por normas, regras, tratados ou leis.

Quando a comunidade global de fãs da Copa do Mundo se opôs à sua intervenção no último fim de semana em favor dos EUA, ele respondeu: “Se [a Bélgica] nos vencer, então eles podem se orgulhar muito. Por outro lado, se eles nos vencerem, diremos que foi – eu diria – que foi fraudado, assim como a eleição foi fraudada em 2020.”

Observe como ele se corrigiu – de " vamos dizer" para "eu diria". A ética tem tudo a ver com "nós" – nosso julgamento coletivo sobre o que é certo ou errado. Trump não dá a mínima para o julgamento do mundo ou da nação sobre o que é certo ou errado. Ele não pensa em certo ou errado.

Estamos perdendo a oportunidade ao caracterizar Trump como alguém que viola padrões éticos. A ética pressupõe algum tipo de padrão acordado, segundo o qual uma violação possa ser definida e mensurada. Mas Trump não tem padrão algum. Toda a sua abordagem à vida, aos negócios e agora à presidência não tem absolutamente nada a ver com padrões. Trata-se de vencer a qualquer custo. Custe o que custar.

Trump não é antiético. Ele é não ético . Ele não é imoral. Ele é amoral.

Para a maioria de nós, é difícil conceber a vida num mundo trumpiano sem padrões, normas, regras ou leis – um mundo composto apenas de transações e cálculos em que o único critério é o que eu ganho com isso e a que custo.

E essa dificuldade que a maioria de nós tem em imaginar um mundo assim é, em si, a chave do poder de Trump.

Seja você presidente dos Estados Unidos ou qualquer outra pessoa, é sempre possível obter benefícios pessoais sendo o primeiro a quebrar uma norma amplamente aceita.

Imagine uma cidade pequena onde as pessoas não trancam suas portas ou janelas devido à regra não escrita de que ninguém rouba. Nessas circunstâncias, o primeiro ladrão a cometer um roubo tem uma enorme vantagem. Ele pode entrar na casa de qualquer pessoa sem esforço algum.

Essa vantagem de ser o pioneiro desaparece assim que as pessoas percebem e começam a trancar suas portas e janelas. Mas o ladrão não arca com os custos das fechaduras nem com o incômodo de trancar todas as portas e janelas. Ele explora a confiança da comunidade. Então, uma vez que essa confiança é destruída, ele deixa para a comunidade a responsabilidade de se proteger contra futuras violações.

Essa assimetria — um custo pequeno para quem viola a confiança, mas um custo alto para todos que precisam se proteger depois — é a própria essência do modus operandi de Trump. Ele ganha riqueza, poder e glória para si mesmo destruindo normas, e depois todos os outros têm que lidar com as consequências.

Como presidente, ele tem normas muito maiores para quebrar do que um ladrão de cidade pequena, e com um benefício muito maior para si próprio.

Como presidente, sua brutalidade deu resultado, pelo menos para ele próprio. Mas também prejudicou todos os tipos de instituições nas quais os EUA e o mundo confiavam – da OTAN à FIFA, passando pelo Departamento de Justiça dos EUA – instituições baseadas na crença de que nenhum presidente americano jamais faria o que ele fez.

Ele será lembrado como o presidente mais poderoso que os EUA já tiveram, mas também o pior.

Quando ele se for, todos nós vamos pagar para limpar a bagunça. Teremos que comprar uma infinidade de fechaduras para uma infinidade de portas e janelas, e gastar uma enorme quantidade de tempo instalando-as e depois mantendo-as trancadas.

¨      Por que a extinção da Otan é necessária. Por José Reinaldo de Carvalho

A Cúpula de Ancara da Otan, realizada na terça e quarta-feira (8), marcou mais um avanço da militarização internacional sob liderança do bloco atlântico. Ao aprovar novas metas de gasto militar, ampliar o apoio financeiro e bélico à Ucrânia, lançar iniciativas tecnológicas voltadas ao combate com drones e endurecer sua posição contra Rússia e Irã, a Organização do Tratado do Atlântico Norte deu um novo passo na preparação de guerras e na consolidação de uma lógica permanente de confronto.

A reunião, apresentada oficialmente como um esforço de defesa coletiva, expôs na prática o papel da Otan como instrumento de pressão geopolítica, expansão militar e sustentação do complexo industrial-armamentista. A Declaração Final de Ancara, somada aos anúncios feitos durante a cúpula, reforça uma arquitetura de segurança baseada não na distensão, na diplomacia ou na cooperação entre os povos, mas no aumento acelerado dos arsenais, na contenção de adversários estratégicos e na subordinação dos orçamentos públicos aos interesses da indústria bélica.

O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, anunciou uma nova rodada de contratos de defesa de grande escala e cobrou dos países europeus, associando-se a Trump, maior rapidez na execução dos planos nacionais para alcançar metas robustas de gastos militares. A mensagem central foi inequívoca: os governos do continente devem ampliar investimentos em armas, sistemas antimísseis, drones, infraestrutura militar e capacidade operacional, mesmo em meio à pressão social provocada pelo encarecimento da vida, pela crise dos serviços públicos e pelo desgaste dos sistemas de proteção social.

Essa orientação revela uma contradição profunda. Enquanto as populações europeias enfrentam dificuldades com custo de vida, moradia, energia, alimentação e serviços essenciais, bilhões de euros são deslocados para alimentar uma máquina de guerra que se expande em ritmo acelerado. O dinheiro público que poderia fortalecer saúde, educação, previdência e políticas sociais passa a financiar contratos militares, encomendas de armamentos e programas tecnológicos voltados ao conflito.

A presença do presidente norte-americano Donald Trump na cúpula reforçou a dimensão hegemônica desse processo. Ao pressionar aliados europeus a elevarem seus gastos militares e comprarem mais equipamentos dos Estados Unidos, Washington reafirmou sua posição de comando sobre a aliança, em meio a indisfarçáveis discrepâncias com alguns líderes presentes. A militarização do continente europeu, nesse contexto, não atende apenas a uma suposta necessidade defensiva: ela também fortalece a indústria bélica norte-americana.  

Um dos principais pontos da cúpula foi o compromisso de entregar 70 bilhões de euros, aproximadamente 80 bilhões de dólares, em ajuda militar à Ucrânia em 2026. O documento também estabelece a manutenção de “níveis pelo menos equivalentes” de suporte financeiro em 2027, com parte significativa dos recursos articulada por meio de fundos e empréstimos vinculados à União Europeia. A decisão amplia a participação estrutural da Otan no conflito e reduz ainda mais o espaço para uma solução negociada.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, participou do encontro como convidado e buscou avançar em negociações para obter novas baterias dos sistemas antimísseis Patriot, além da transferência de licenças de fabricação desses equipamentos. A presença de Zelensky em Ancara simbolizou a centralidade da guerra na Ucrânia para a estratégia atual do bloco, que mantém o conflito como eixo de sua expansão política, militar e orçamentária.

A Declaração Final também reafirmou o compromisso dos 32 países-membros com o Artigo 5º da Carta da Otan, segundo o qual um ataque contra um integrante da aliança é considerado um ataque contra todos. Ao mesmo tempo, o texto classificou formalmente a Rússia como “ameaça de longo prazo para a segurança e estabilidade euro-atlântica”. Trata-se de uma formulação que institucionaliza a lógica de confronto prolongado e dificulta qualquer reconstrução de canais diplomáticos sólidos entre o Ocidente e Moscou.

O endurecimento contra a Rússia se combina a uma postura igualmente agressiva em relação ao Irã. A declaração afirma explicitamente que “o Irã jamais poderá possuir uma arma nuclear” e inclui um trecho sobre a necessidade de garantir a liberdade de navegação comercial e o tráfego seguro no Estreito de Ormuz. A menção ocorre em um contexto de escalada de agressões dos  Estados Unidos contra o Irã e após o colapso do Memorando de Entendimento anunciado por Donald Trump diretamente na cúpula.

Ao incorporar o Estreito de Ormuz à agenda estratégica do encontro, a Otan desloca seu raio de ação para uma das regiões mais sensíveis do planeta. A defesa da segurança marítima, apresentada como preocupação com o comércio internacional, aparece associada à ampliação de frentes de pressão militar e política no Oriente Médio. 

Para os países do Sul Global, historicamente atingidos por sanções, intervenções e bloqueios, esse movimento reforça a percepção de que a aliança atlântica atua como instrumento de imposição da ordem geopolítica liderada pelas potências imperialistas ocidentais.

Outro anúncio de grande impacto foi a oficialização da iniciativa Drone Edge, programa comercial e militar voltado ao desenvolvimento de tecnologias de contra-ataque e defesa contra drones. A Otan aprovou investimento conjunto superior a US$ 40 bilhões nos próximos cinco anos para essa área e estabeleceu a meta de multiplicar por cinco o número de operadores de drones treinados até o fim de 2027.

A iniciativa confirma que a guerra contemporânea se tornou um campo de aceleração tecnológica permanente. Drones, sistemas de interceptação, inteligência artificial aplicada ao combate, vigilância e defesa aérea passam a ocupar o centro da doutrina militar do bloco. Sob o argumento da adaptação às novas ameaças, a Otan aprofunda uma corrida armamentista que tende a produzir mais instabilidade, mais gastos militares e mais riscos de confrontos diretos ou por procuração.

Criada em 1949, com 12 países fundadores, a Otan buscou justificar sua existência durante décadas pelo contexto da Guerra Fria. Com o fim da União Soviética e o encerramento daquele ciclo histórico, a aliança deveria ter sido dissolvida. Ocorreu o contrário: o bloco se expandiu, incorporou novos membros, avançou para o Leste Europeu e passou a atuar em diferentes frentes globais.

Hoje, com 32 integrantes, a Otan deixou de ser apenas uma estrutura militar regional e se transformou em plataforma de projeção estratégica das potências ocidentais. Seu fortalecimento é uma tentativa de bloquear a construção de uma ordem multipolar e uma nova governança global equilibrada e estável.  

A Cúpula de Ancara deixou claro que a aliança atlântica não caminha para a paz, mas para a perpetuação do conflito como método de organização da política internacional. Ao ampliar a ajuda militar à Ucrânia, classificar a Rússia como ameaça estrutural, endurecer a posição contra o Irã, intervir no debate sobre a segurança do Estreito de Ormuz e lançar um programa bilionário voltado à guerra de drones, a Otan reafirma sua natureza belicista.

Para a América Latina, a África e a Ásia, regiões marcadas por experiências de colonialismo, intervenção estrangeira e dependência econômica, a expansão da Otan representa uma ameaça à soberania dos povos. A defesa de uma nova governança mundial, baseada no respeito ao direito internacional, na autodeterminação nacional e na cooperação entre Estados, exige a superação de estruturas militares, como a Otan, que preservam privilégios geopolíticos e alimentam conflitos permanentes.

A extinção da Otan, nesse sentido, não é uma palavra de ordem abstrata, mas uma exigência histórica para a construção de uma paz verdadeira. Enquanto existir como braço armado de uma ordem internacional desigual, a aliança continuará convertendo crises políticas em oportunidades de militarização, orçamentos públicos em contratos bélicos e tensões regionais em novos riscos de guerra global.

 

Fonte:  The Guardian/Brasil 247

 

Nenhum comentário: