Carta
a uma velha (e revolucionária) raposa
Caro
Ralph Fox:
Então,
meu velho, como tens passado? Como é o Além para onde te esgueiraste tão
apressadamente? Tratam-te bem por aí, no mundo dos justos e dos injustiçados da
vida?
Espero
que te sirvam comida mais digna do que aquela a que te habituaram em Londres.
Só de pensar nisso, dá-me vontade de vomitar.
Sabes,
recentemente, caiu-me nas mãos um livro teu: Portugal Now, lembras-te? É
verdade, foi publicado. Tenho pena de que não tenhas podido colher os frutos do
teu trabalho árduo. Tiveste azar, muito azar. A escolha era entre ti e Orwell,
e a História escolheu Orwell. Quem sabe, se estivesses em Barcelona, talvez
tivesses sobrevivido.
Seja
como for, serve a presente carta para te dar os meus parabéns. O livro não é
propriamente uma joia literária, mas é honesto e divertido.
Muito
mudou desde que te foste embora. Salazar morreu. Tombou de uma cadeira,
imagina… que triste figura. Quanto ao regime bafiento e bexigoso que o
suportava, também caiu. É caso para dizer que o país andou aos trambolhões.
A
Revolução que depôs pacificamente o tirano deu-se no mais belo dia de
Primavera. Lisboa viu, finalmente, despir o véu negro que a cobria. “Era a
semente da esperança / festa de força e vontade / Era ainda uma criança / mas
já era a liberdade”, disse Ary dos Santos, nosso camarada. Da capital irradiava
uma luz tão pungente, tão apaixonada, que fez nascer um cravo cor de sangue. E
desse cravo brotou um Portugal muito distinto daquele que tão bem retrataste.
Quem se lhe opôs fugiu para Espanha, onde, certamente, terá sido acolhido pelos
teus malfeitores ou pelos seus descendentes. Hoje, passados oitenta anos desde
a tua última visita, um bando de tartufos, com os seus cabelos gelatinosos e
panças salientes, procura furtar, mansamente, delicadamente, a alegria que
adveio de sermos livres.
É sobre
essa Lisboa, feita de bons e de maus, de ricos e de pobres, que te venho falar
hoje.
Saio do
comboio. Um mar de gente disforme acorre, desesperadamente, às escadas rolantes
que desembocam na Praça do Rossio. Todos diferentes, mas todos iguais. Eles e
elas vestem-se e comportam-se da mesmíssima maneira. Seja como for, ainda é
possível — como o era no teu tempo — distinguir os estrangeiros ricos dos
nativos pobres: basta olhar em redor, para as esplanadas à parisiense, para
perceber que os únicos clientes são forasteiros.
Garçons,
comerciantes e afins permanecem hirtos durante horas, à espreita de um cabelo
loiro ou de uma pele mais queimada pelo sol abrasador. Eu próprio, por ter
olhos claros, sou abordado mais vezes do que gostaria. “Hello Sir, we have the best pataniscas in Lisbon. I can assure you. Cheap, cheap”, diz-me
o indostânico suado, há horas na mesma posição, a repetir incessantemente as
mesmas frases feitas num inglês de bradar aos céus.
Por
falar na tua língua materna, sou dos poucos que acredita que não progredimos
muito. Continuamos teimosamente trapalhões. Pelo menos ao nível político e
institucional. Deixa-me que te conte um episódio caricato, do qual o país
inteiro foi testemunha: não há muito tempo, numa viagem à Alemanha — hoje
democrática —, o atual primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, trocou
“Future” por “Führer”. Quanto ao resto do discurso, estou certo de que não terá
feito muito pela relação entre os dois países.
Estou
em Lisboa há quase duas horas e ainda não ouvi a minha própria língua. Parece
inacreditável. Os únicos portugueses que vejo são idosos e empresários janotas
que, por mais calor que faça, não dispensam o fato e a gravata. As vestes
demasiado apertadas, em corpos ensopados de transpiração latina, denunciam-nos
de imediato. O português comum deixou cair o bigode farfalhudo, a patilha até
ao queixo, o chapéu, o sapatinho de couro ratado, o barrete e a saxola. É hoje
mais sofisticado, mais dandy. Ou, pelo menos, tenta parecê-lo. A maioria
recusa-se a admitir que faz parte da classe trabalhadora. Acha-se demasiado
chique.
Não
importa que uma simples ida ao supermercado lhe sorva o ordenado mensal, nem
que o preço das rendas seja insuportável; não importa que já não saiba o que é
uma folga ou mesmo o que é feito daquele sonho de outrora, que entretanto
perdeu porque lhe foi roubado. Quando se vê numa posição de poder — ou ilusão
de poder —, adota os mesmos tiques autoritários, a mesma presunção na fala.
Por
tudo isto, é triste voltar a Lisboa. Já nem o sol esplendoroso ofusca a pobreza
— que é visível — e a feiura que assola a capital. Do rio emana um cheiro
tóxico a dejetos que só os locais conseguem detetar. Os restantes, leia-se os
imigrantes ricos e os turistas, são imunes ao fedor.
Há cada
vez mais pessoas a dormir na rua. Chegou o verão e as noites tropicais chamam
todo o tipo de rastejantes, desde baratas a ratazanas. Os pobres coitados, à
deriva, não sabem para onde se virar. A última vez que troquei um palmo de
conversa com um sem-abrigo mostrou-me as pernas cheias de feridas: “São os
ratos. Vão ser a minha morte. Todas as noites vêm aqui petiscar”. Isto foi há
alguns anos, em Santa Apolónia. Os relatórios oficiais e as aborrecidas
conferências de imprensa dizem que é tudo mentira; que Portugal é um mar de
rosas; que devíamos agradecer por ter nascido aqui e não na Bulgária. E dizem
Bulgária porque, se comparassem as condições de vida dos portugueses com as de
outros povos europeus, não ficariam tão bem na fotografia.
Quando
penso em abrir os cordões à bolsa e deleitar-me com os infinitos prazeres que
esta cidade tem para oferecer; quando penso que a minha companheira merece um
miminho, uma tristeza e uma raiva submergem-me inconsolável. É que, neste
Paraíso que é Lisboa, só entra quem tiver uma carteira recheada. Pois bem, a
minha é tão pobre como a dos meus estimados conterrâneos.
De
olhos postos na Avenida da Liberdade; no velho Hotel Vitória — hoje sede
regional do Partido Comunista Português —, penso no longo e tortuoso caminho
que ainda falta percorrer. Como é possível que a tua eloquência descritiva se
mantenha tão fiel à realidade, tantos anos depois?
Volto a
Sintra destroçado, com o coração nas mãos, por saber que tencionam fazer do meu
refúgio bucólico, da minha pacata aldeia, um resort, uma extensão da boémia
lisboeta.
Perdoa-me
o tom melancólico da minha despedida. Canto-te o país que sei e conheço; um
país assustadoramente semelhante àquele que tiveste a oportunidade de
testemunhar.
Atenciosamente,
Rafael
Nota:
Ralph Fox, escritor, jornalista e espião, morreu com 36 anos em Espanha, na
Batalha de Lopera, ao serviço da liberdade e contra a avalanche franquista que
atormentava o país.
Fonte:
Por Por Rafael Baptista, em Outras Palavras

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