sábado, 11 de julho de 2026

Carta a uma velha (e revolucionária) raposa

Caro Ralph Fox:

Então, meu velho, como tens passado? Como é o Além para onde te esgueiraste tão apressadamente? Tratam-te bem por aí, no mundo dos justos e dos injustiçados da vida?

Espero que te sirvam comida mais digna do que aquela a que te habituaram em Londres. Só de pensar nisso, dá-me vontade de vomitar.

Sabes, recentemente, caiu-me nas mãos um livro teu: Portugal Now, lembras-te? É verdade, foi publicado. Tenho pena de que não tenhas podido colher os frutos do teu trabalho árduo. Tiveste azar, muito azar. A escolha era entre ti e Orwell, e a História escolheu Orwell. Quem sabe, se estivesses em Barcelona, talvez tivesses sobrevivido.

Seja como for, serve a presente carta para te dar os meus parabéns. O livro não é propriamente uma joia literária, mas é honesto e divertido.

Muito mudou desde que te foste embora. Salazar morreu. Tombou de uma cadeira, imagina… que triste figura. Quanto ao regime bafiento e bexigoso que o suportava, também caiu. É caso para dizer que o país andou aos trambolhões.

A Revolução que depôs pacificamente o tirano deu-se no mais belo dia de Primavera. Lisboa viu, finalmente, despir o véu negro que a cobria. “Era a semente da esperança / festa de força e vontade / Era ainda uma criança / mas já era a liberdade”, disse Ary dos Santos, nosso camarada. Da capital irradiava uma luz tão pungente, tão apaixonada, que fez nascer um cravo cor de sangue. E desse cravo brotou um Portugal muito distinto daquele que tão bem retrataste. Quem se lhe opôs fugiu para Espanha, onde, certamente, terá sido acolhido pelos teus malfeitores ou pelos seus descendentes. Hoje, passados oitenta anos desde a tua última visita, um bando de tartufos, com os seus cabelos gelatinosos e panças salientes, procura furtar, mansamente, delicadamente, a alegria que adveio de sermos livres.

É sobre essa Lisboa, feita de bons e de maus, de ricos e de pobres, que te venho falar hoje.

Saio do comboio. Um mar de gente disforme acorre, desesperadamente, às escadas rolantes que desembocam na Praça do Rossio. Todos diferentes, mas todos iguais. Eles e elas vestem-se e comportam-se da mesmíssima maneira. Seja como for, ainda é possível — como o era no teu tempo — distinguir os estrangeiros ricos dos nativos pobres: basta olhar em redor, para as esplanadas à parisiense, para perceber que os únicos clientes são forasteiros.

Garçons, comerciantes e afins permanecem hirtos durante horas, à espreita de um cabelo loiro ou de uma pele mais queimada pelo sol abrasador. Eu próprio, por ter olhos claros, sou abordado mais vezes do que gostaria. “Hello Sir, we have the best pataniscas in Lisbon. I can assure you. Cheap, cheap”, diz-me o indostânico suado, há horas na mesma posição, a repetir incessantemente as mesmas frases feitas num inglês de bradar aos céus.

Por falar na tua língua materna, sou dos poucos que acredita que não progredimos muito. Continuamos teimosamente trapalhões. Pelo menos ao nível político e institucional. Deixa-me que te conte um episódio caricato, do qual o país inteiro foi testemunha: não há muito tempo, numa viagem à Alemanha — hoje democrática —, o atual primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro, trocou “Future” por “Führer”. Quanto ao resto do discurso, estou certo de que não terá feito muito pela relação entre os dois países.

Estou em Lisboa há quase duas horas e ainda não ouvi a minha própria língua. Parece inacreditável. Os únicos portugueses que vejo são idosos e empresários janotas que, por mais calor que faça, não dispensam o fato e a gravata. As vestes demasiado apertadas, em corpos ensopados de transpiração latina, denunciam-nos de imediato. O português comum deixou cair o bigode farfalhudo, a patilha até ao queixo, o chapéu, o sapatinho de couro ratado, o barrete e a saxola. É hoje mais sofisticado, mais dandy. Ou, pelo menos, tenta parecê-lo. A maioria recusa-se a admitir que faz parte da classe trabalhadora. Acha-se demasiado chique.

Não importa que uma simples ida ao supermercado lhe sorva o ordenado mensal, nem que o preço das rendas seja insuportável; não importa que já não saiba o que é uma folga ou mesmo o que é feito daquele sonho de outrora, que entretanto perdeu porque lhe foi roubado. Quando se vê numa posição de poder — ou ilusão de poder —, adota os mesmos tiques autoritários, a mesma presunção na fala.

Por tudo isto, é triste voltar a Lisboa. Já nem o sol esplendoroso ofusca a pobreza — que é visível — e a feiura que assola a capital. Do rio emana um cheiro tóxico a dejetos que só os locais conseguem detetar. Os restantes, leia-se os imigrantes ricos e os turistas, são imunes ao fedor.

Há cada vez mais pessoas a dormir na rua. Chegou o verão e as noites tropicais chamam todo o tipo de rastejantes, desde baratas a ratazanas. Os pobres coitados, à deriva, não sabem para onde se virar. A última vez que troquei um palmo de conversa com um sem-abrigo mostrou-me as pernas cheias de feridas: “São os ratos. Vão ser a minha morte. Todas as noites vêm aqui petiscar”. Isto foi há alguns anos, em Santa Apolónia. Os relatórios oficiais e as aborrecidas conferências de imprensa dizem que é tudo mentira; que Portugal é um mar de rosas; que devíamos agradecer por ter nascido aqui e não na Bulgária. E dizem Bulgária porque, se comparassem as condições de vida dos portugueses com as de outros povos europeus, não ficariam tão bem na fotografia.

Quando penso em abrir os cordões à bolsa e deleitar-me com os infinitos prazeres que esta cidade tem para oferecer; quando penso que a minha companheira merece um miminho, uma tristeza e uma raiva submergem-me inconsolável. É que, neste Paraíso que é Lisboa, só entra quem tiver uma carteira recheada. Pois bem, a minha é tão pobre como a dos meus estimados conterrâneos.

De olhos postos na Avenida da Liberdade; no velho Hotel Vitória — hoje sede regional do Partido Comunista Português —, penso no longo e tortuoso caminho que ainda falta percorrer. Como é possível que a tua eloquência descritiva se mantenha tão fiel à realidade, tantos anos depois?

Volto a Sintra destroçado, com o coração nas mãos, por saber que tencionam fazer do meu refúgio bucólico, da minha pacata aldeia, um resort, uma extensão da boémia lisboeta.

Perdoa-me o tom melancólico da minha despedida. Canto-te o país que sei e conheço; um país assustadoramente semelhante àquele que tiveste a oportunidade de testemunhar.

Atenciosamente,

Rafael

Nota: Ralph Fox, escritor, jornalista e espião, morreu com 36 anos em Espanha, na Batalha de Lopera, ao serviço da liberdade e contra a avalanche franquista que atormentava o país.

 

Fonte: Por Por Rafael Baptista, em Outras Palavras

 

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