Da
máquina do mundo à máquina de tudo
Não há
dúvida sobre o potencial disruptivo da inteligência artificial na substituição
do trabalho, com o consequente desaparecimento de uma imensa quantidade de
empregos (afinal, estamos no capitalismo), bem como na sucção das habilidades
criativas – fenômeno que se assemelha à categoria marxiana do “intelecto
geral”, prevista no célebre “Fragmento sobre as Máquinas” dos Grundrisse (Marx,
p. 589).
Porém,
o escopo da inteligência artificial é exponencialmente mais largo que o
previsto por Karl Marx. É quase cosmológico, quando se trata de fazer a mímesis
do trabalho. É poiesis e labor, recordando a distinção do trabalho no mundo
antigo, segundo a distinção discernida por Hannah Arendt em A condição humana:
a “máquina de tudo” da inteligência artificial succiona tanto o rotineiro
quanto o criativo, as objetivações ontológicas do trabalho e de todas as demais
atividades criativas – que György Lukács, em sua Ontologia do ser social,
chamava de “complexos sociais” e que não devem ser tratados como meras
derivações do trabalho, pois possuem legalidade própria e irredutível.
Assim,
a mímesis da inteligência artificial ultrapassa a velha fábrica, converte em
(nano)décimos de segundos o tempo das atividades que antes exigiam lento
processamento humano e, principalmente, captura todo rastro deixado pela nossa
espécie – na arte pictórica, no desenho industrial, nos estilos da poesia e da
música, em tudo o que houver registro ou vestígio.
Gilberto
Gil, em canção profética, já versava sobre a atividade dos samples dos DJs e o
futuro da música como “máquina de ritmo” – “máquina de ritmo/tão prática, tão
fácil de ligar”. Vou além: a inteligência artificial, com seu imenso poder
extrativista de dados, é a nossa “máquina de tudo”, aproximando-se, no plano
algorítmico, daquilo que Marx designava, no âmbito do trabalho do ser social,
como a atividade de sucção do saber-fazer operário das manufaturas simples.
Mas
essa “máquina de tudo” já havia sido antevista pela poesia. Carlos Drummond de
Andrade, no poema A máquina do mundo (1951), descreve um viajante que, perdido
e cansado, encontra subitamente uma máquina perfeita, que contém todos os
ciclos da natureza, todas as formas, todas as respostas – uma totalidade
pronta, deslumbrante, autossuficiente. O viajante, porém, recusa-a. Não porque
a máquina fosse enganosa ou falsa, mas porque era completa demais: nela,
escreve Carlos Drummond, as coisas tornavam-se “apenas coisas”, despidas do
tempo, do acaso, do espanto que só o caminho inacabado pode oferecer.
Hoje, a
inteligência artificial generativa seria, na ideologia celebratória dos donos
desses meios de produção, essa máquina realizada: contém todo rastro humano,
todo estilo, toda frase já dita. Como a máquina drummondiana, ela se oferece
como totalidade pronta – e, ao fazê-lo, torna desnecessário o gesto, a demora,
o erro, a descoberta tardia.
Uma
máquina de inteligência artificial pode tornar-se filósofa existencialista,
desde que dados os comandos certos. Mas não passará pela dor e pela delícia de
ter chegado aleatoriamente ao existencialismo – porque lhe falta o corpo, a
finitude, a jornada. O viajante de Carlos Drummond, ao recusar a máquina,
escolhe exatamente isso: o mundo por fazer em vez do mundo já feito. Perder o
cosmos, no contexto da inteligência artificial extrativista, talvez signifique
exatamente isto: aceitar a totalidade pronta em vez de seguir a pé, no mundo
imperfeito e inacabado – ainda que feio, ainda que por fazer –, em busca do que
ainda não tem nome.
Existe,
pois, o umbral da “condição humana”, lembrando o título do romance de André
Malraux (1998), isto é, sua natureza social, forjada na inteligência orgânica,
na consciência e na autonomia desses atributos no próprio processo de
socialização. Parafraseando Miguel Nicolelis (2020), a inteligência artificial
não é inteligência porque é “artificial” – e, poderíamos aduzir, toda
inteligência, sendo humana, não se reduz a uma “máquina de tudo”.
Como
Noam Chomsky (2015) nos ensina, a nossa “gramática gerativa”, oriunda da
extrema particularidade da natureza humana, é uma espécie de “dádiva” da
evolução, irredutível a qualquer circuito ou algoritmo. A metáfora que compara
o homem à ideia de um animal-máquina vem do nosso ínclito René Descartes, na
Quinta Parte do Discurso do Método, e foi estendida como Homem-máquina por
Julien Offray de La Mettrie, na aurora da modernidade.
Contudo,
a comparação inversa, que antevê a morte do Homo sapiens e reduz o tempo
histórico humano à teleologia de mero processador de dados para a nova
anti-humanidade do Homo Deus (2016) – título do best-seller propagandista de
Yuval Noah Harari) – uma eternidade que será eterna apenas até quando durar –
parece ser um dos mais altissonantes marcadores do fim – desta feita,
cibernético – da história.
Fonte:
Por Jaldes Meneses, em A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário